sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Rio parecendo mar

Ray Cunha

As ilhas que se viam no outro lado do rio pareciam compridos filetes verde escuro. Na Praça Zaguri, a tarde caminhava para aquele momento em que não sentimos nenhuma maldade no mundo, porque tudo o que nos chegam são rumores de risos e tênue perfume das rosas. O casal estava sentado à mesa ao lado da barraca, à sombra das árvores. Fazia um calor danado.

- O que é que poderíamos beber? Está quente demais – disse o homem.

- Quero água de coco – disse sua sobrinha. Era uma das mulheres mais bonitas que conhecia, e amorosa. Há muito tempo quisera namorar com ela, após a briga definitiva que tivera com sua ex-mulher. Mas fora tudo equivoco puro. Aquilo deixara sua sobrinha bastante ofendida, e com razão, pois eram como irmãos. Ela deixara de falar com ele desde então. Agora, numa das idas dele a Macapá ela lhe dera a chance de se explicar.

- Vou tomar uma cerveja – ele disse. – Gosto de Bohemia, mas beberei qualquer uma.

A mulher que os atendiam levou-lhes a água de coco, uma garrafa de cerveja e um copo. Colocou tudo sobre a mesa e olhou para o homem e a moça. Esta olhava para o rio.

- Parece o mar – sugeriu ao homem.

- Sim – respondeu ele ao tomar um gole de cerveja. – Quero que tudo volte a ser como antes – disse, de repente.

Ela examinou distraidamente as coisas que havia sobre a mesa.

- Tu achas que tudo será como antes? – disse a ele.

- Sim, certamente que será! Voltaremos a ser como irmãos, querida – ele disse.

A sombra de uma nuvem passou sobre a praça.

- Sim, poderia ser tudo como antes – falou ela. – Mas nossa infância e nossa juventude já passaram.

- Estás enganada. O tempo não existe.

- Existe. E nada se recupera - ela disse, examinando o horizonte, limitado pelo rio e as ilhas distantes. O homem olhava ora para ela, ora para a mesa.

- Só há um meio de recuperarmos as coisas – ele disse, com voz esperançosa.

- O que, Alexandre?

- O perdão. Só perdoando recuperamos tudo o que é precioso, o mundo volta a ser um jardim prenhe de zínias multicoloridas, trepadeiras de flores vermelhas e rosas. E nas sendas do jardim há pedras preciosas espalhadas por ali, diamantes, rubis, esmeraldas grandes como teus olhos, querida – ele disse, e lágrimas molharam seus óculos, que tirou para limpá-los com seu belo lenço de seda branca.

- Oh! Alexandre! Oh! Querido! Todos esses anos de silêncio poderiam ter sido tão ricos! – ela disse. Levantara-se e o abraçara. Atrás do balcão do quiosque a moça os olhava, pensando que fossem um casal de namorados.

- Seremos novamente irmãos, querida, e nada mais vai arrancar as flores dos nossos corações!

- Não, nada!

- Vamos para casa – ele disse, gentilmente, após pagar a despesa.

- Sim, vamos. Estão todos nos esperando. Este será o réveillon mais feliz da minha vida – ela disse.

- Todos agora serão – ele disse.

Caminharam abraçados para a caminhoneta negra Chevrolet. Uma brisa soprou e os cabelos de ouro da mulher afagaram a cabeça do homem. Ela assumiu a direção. O rio Amazonas deslizava para o Atlântico com a majestade de um oceano, sob a névoa de ouro do anoitecer. No ponto onde as águas dos dois gigantes se encontram e se separam, o azul era rasgado como se rasga um pano. Um perfume inundou a cidade, como se chovesse pétalas de jasmim.

Brasília, 31 de dezembro de 2010

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

As cidades e as mulheres

Trapiche defronte à cidade de Macapá, na maré seca, em foto de Juvenal Canto. Macapá é a capital do estado do Amapá, cidade da Amazônia Caribenha, localizada na desembocadura do maior rio do mundo, o Amazonas, na confluência da Linha Imaginária do Equador.


As cidades têm alma como as mulheres. De manhã se doiram ao sol como as rosas da primavera, desembocando no rio azul da tarde, e, à noite, se perdem nas luzes e na embriaguês. Como as mulheres, têm seus segredos, que só revelam aos que sabem mergulhar no abismo das rosas, e retornam. Amo várias cidades, que se entregam a mim sem reservas. Belém é a que mais me seduz, com feitiço de rosas colombianas, maresia, Chanel número 5, gim e cheiro de mulher absorta ao toucador. Manaus também, onde o cheiro de mulher é tão intenso que causa vertigem, e sentimos, lento, os movimentos da Terra no espaço, como música de Mozart. O Rio de Janeiro tem o poder de me fazer voar, cavalgando besouros furta-cores num mar transparente sem fim. Há, ainda, outras cidades a quem eu seduzo como o garanhão faz a corte à sua próxima vítima, com paciência, concentração total e, sobretudo, fé. Mas, diferentemente do garanhão, percorro as cidades com amor. Assim é com Macapá.

A melhor maneira de descobrir Macapá é atravessando de barco o estuário do rio Amazonas. Quem sai do arquipélago do Marajó e mergulha no maior rio do mundo, em direção à Linha Imaginária do Equador, avista, de repente a cidade, que emerge como cunhantã se banhando no rio, o vestido molhado, colando-se ao corpo equino, os cabelos espargindo água e nos olhos o mistério. É assim que gosto de pensar em Macapá, crepitando ao cheiro tórrido de jasmim nas noites mornas.

Sou teu, Macapá, porque tu me pariste às 5 horas do dia 7 de agosto de 1954, na maternidade do Hospital Geral, e de lá fui para a Casa Amarela, ao lado do Colégio Amapaense, na Avenida Iracema Carvão Nunes com a Rua Eliezer Levy, ao lado da Mata do Rocha, e lá passei 11 anos da minha infância. Restou a seringueira, que meu pai plantou, e que foi salva de ser decepada - porque se recusou a sair do caminho do muro do Colégio Amapaense - pelo agrônomo Luiz Façanha, que se abraçou ao seu tronco num gesto de fé. Meu pai, João Raimundo Cunha, semeou a seringueira em 1952, ano do nascimento do meu irmão, o pintor genial Olivar Cunha. Macapá, para mim, é isso, e é tanta coisa...

Passei o Natal em Macapá, na companhia dos meus familiares, dos familiares da minha esposa, Josiane Souza Moreira Cunha, e de amigos. Estou inundado de alegria, pois todos eles, todos mesmo, estão bem, vivendo a aventura de suas vidas. As novas gerações semeiam no mundo juventude, beleza, esperanças, risos, com a mesma imortalidade das rosas. Observanda-os, temos certeza de que a felicidade é viver o agora e o agora, o momento mesmo da vida.

Aos que amo, oferto as pedras preciosas que coleciono no relicário do meu coração.

As cidades, como as mulheres, são tijolos da nossa vida. Quanto mais as amamos, mais belas ficam, e mais misteriosas. E como as mulheres, as cidades nunca são nossas. São delas mesmas, e de todos os que as amam. Não podemos jamais ser donos de uma cidade, da mesma forma que é impossível nos apossarmos de uma mulher, porque as mulheres, mesmo mortas, serão sempre livres e misteriosas. E como as mulheres, as cidades estão sempre diferentes. A cada manhã há algo novo nas suas vidas, há um novo mistério no seu sorriso.

A cada partida, fica, implícito, um encontro marcado, e as chegadas são regadas de risos, de esperanças, de luz, e perdão.


Brasília, 30 de dezembro de 2010

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Nada como alcatra com tutu e coalhada, sintonizado na TV Globo

Àquela hora da noite era bom para beber uma ou duas garrafas de cerveja, mas só quando havia carona, pois no ônibus dava vontade de urinar. Por isso recusou um gole. Carlão, que lhe dava carona na velha Brasília, não fora trabalhar. Alfredo estava cansado também. Editara o jornaleco de dezesseis páginas daquele sindicato de picaretas. Nem sequer se lembrou do encontro com a secretária do advogado da sala no outro lado do corredor, uma mineirinha loirinha, toda cheinha, na mira dos lobos da vizinhança. Eram sete horas. O movimento crescia nos bares do Conic. No calçadão, topou um conhecido. Alfredo lhe ofereceu cigarro. O tipo tinha pressa também.

O primeiro piso da Rodoviária estava um inferno. Meteu-se na fila do Taguatinga Sul. Não daria para ir sentado, mas não aguardaria outro. Já na Octogonal o ônibus ficou igual lata de sardinha. Mudara-se de Belém há dezesseis anos. Casara-se com uma mineira e ali estava, naquela lata de sardinha, avançando lentamente no engarrafamento da Estrada Parque Taguatinga. Tivera um dinheirinho na poupança, mas a ministra da Fazenda do presidente Fernando Collor de Mello, Zélia Cardoso de Mello, havia confiscado a poupança de todo mundo. A devolução do dinheiro fora uma fraude. Zélia casou-se, depois, com o maior humorista do país. Era uma piada mesmo aquela mulher.

Deu sono. Alfredo repousou a cabeça no braço, seguro na barra do teto. A estrada estirava-se como uma cobra, por vinte e um quilômetros. Uma cobra toda iluminada, arrastando-se, lentamente, entre bosques de eucaliptos. Alessandra e Aline, àquela hora, estariam prontinhas para a cama. Alessandra tinha três anos e Aline, um. O ônibus estacara. Fazia calor.

- Já era tempo de alargarem esta estrada - disse uma mulher.

- Ou de concluírem o metrô - disse um sujeito.

- Foram votar nesse comunista do Cristovam Buarque e vejam no que deu: ele paralisou as obras do metrô do Roriz - redarguiu a mulher.

- Mas o Roriz disse que ia inaugurar o metrô e não inaugurou - interveio uma segunda mulher.

- Mas ele vai inaugurar o metrô - disse a primeira mulher, dando ênfase ao vai.

- Como? Ele não se elege mais aqui - disse a segunda mulher.

- O Cristovam é que não se elege mais, nem para síndico - respondeu a primeira mulher.

- Eu não entendo de política, mas acho que safadeza mesmo é deixar o que já foi feito do metrô virar sucata - disse o homem.

- Ouvi dizer que nem de metrô Brasília precisa - disse um segundo homem, metendo-se também na conversa.

- O Cristovam não vai deixar de investir em obras sociais para construir metrô. Ele está empregando as verbas do metrô na educação - interveio um tipo de barbicha e óculos de lentes grossas, que estava sentado.

- Deve ser comunista também - disse, num tom baixo, a primeira mulher.

- Esse metrô vai levar é muito assaltante de Samambaia para o Plano Piloto - observou um sujeito um pouco afastado do grupo.

- Besteira da grossa... - respondeu a primeira mulher.

- Anda, se não eu te empurro, tchê! - alguém gritou. Quase todo mundo riu. Como que por encanto o ônibus pôs-se a andar, embora lentamente.

Adiante, o motorista acelerou a marcha, para depois reduzi-la novamente. Na altura do Guará, deram com a causa do engarrafamento: havia um ônibus jogado na margem direita da pista, entre os eucaliptos. A parte dianteira transformara-se num ferro velho. Do outro lado da pista jazia o bagaço de um fusca. Havia muito vidro e sangue por ali. Logo correu o rumor no ônibus de que sete pessoas haviam morrido e que um homem fora degolado, com a cabeça atirada a vários metros de distância dele. “Como é que conseguiram essa informação?” - Alfredo pensou. Agora o ônibus ia numa boa velocidade.

Muita gente ficou no primeiro ponto da Avenida Comercial Sul, próximo ao Alameda Shopping. Alfredo pegou uma rua transversal, passou defronte ao bar da esquina, deu uma olhada para dentro, mas continuou caminhando. Estava mesmo cansado. O apartamento ficava no sétimo andar. Tomou o elevador pensando em Alessandra e Aline. Entrou. Silêncio. Foi ao quarto de Alessandra. A menina dormia a sono solto. Beijou-a na testa e ficou ali, algum tempo, a olhá-la. Tinha o rosto da mãe, oval, os lábios polpudos, o nariz afilado, os cílios longos, os cabelos claros e encaracolados, a pele branca como alabastro.

No outro quarto, Rosana dormia também. Só o bebê, Aline, estava acordado. Olhou para Alfredo, com seus olhos enormes, e sorriu. Estava molhada. Alfredo beijou-a na testa. Foi lavar as mãos e voltou para trocar a frauda do bebê. Rosana acordou.

- Você chegou? - disse.

- Acho que ela quer mamar - disse Alfredo, pegando Aline e entregando-a à mãe, que havia se sentado na cama.

- O bebê da mamãe quer mamar? - disse a mulher, sacando para o bebê um lindo seio, alvo e de grande mamilo rosado.

Alfredo foi ver o que havia para jantar. Destampou o prato sobre o fogão. Continha um bifão de alcatra com tutu. Abriu a geladeira e serviu-se de um copázio de coalhada. Adoçou-a. “Melhor do que isto só açaí com camarão” - disse para si mesmo, enquanto ligava a televisão, já sintonizada na TV Globo.


Valparaíso de Goiás, 1998


Nada como alcatra com tutu e coalhada, sintonizado na TV Globo foi publicado no livro O casulo exposto, à venda nas livrarias Saraiva, Cultura e Leitura.

Pedidos para o editor
LGE Editora: www.lgeeditora.com.br
Editor: Antonio Carlos Navarro
lgeeditora@lgeeditora.com.br
(55-61) 3362-0008

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Altar em chamas

Há momentos de tanta intensidade em nossa vida que se transformam para sempre em poesia. Ocorre, por exemplo, quando estamos apaixonados. Os hormônios jorram no corpo todo e as células chegam ao pico do seu metabolismo, transpiramos perfume e voamos. Criar são asas em movimento. Lembro-me de quando era adolescente e mergulhava noite adentro escrevendo poemas, crônicas, contos, ou lendo, bêbedo de felicidade. Ainda hoje, cercado pelos compromissos da sobrevivência da família, embebedo-me de poesia.

A primeira vez que essa dama azul chegou ao pico, em mim, foi em dezembro de 1971, na noite de lançamento de Xarda Misturada, um livrinho de poemas que revelou o talento de Joy Edson (José Edson dos Santos) e teve a participação do querido amigo José Montoril e minha. Naquela noite, na sede da Associação Comercial de Macapá, eu era um fio elétrico ligado e desencapado, e ela, a mulher por quem eu me apaixonara, estava lá, linda como sempre, esguia igual bailarina. Fora minha professora de biologia e tudo o que me ensinou, no seu sincero empenho pedagógico, foi desejá-la.

No dia em que me declarei eu era um garoto e ela, minha professora. Olhou-me séria e me informou que estava prestes a se casar. De certa forma era aquilo que eu esperava, um fora, pois se ela tivesse me aceitado não teria sabido o que fazer. Ela era linda demais e eu, apenas um menino. A juventude, como todos sabem, é imortal, e eu superei logo meu drama amoroso.

Sinto, contudo, que minha professora de biologia sempre soube da sua importância na minha vida, tanto que levou a sério minha declaração de amor a ela. Sabia que tudo o que importava era isso, a seriedade, quase um lamento, com que me informou do seu noivado. Assim, a poesia daquele instante jamais se quebrou, e inundou minhas veias do líquido azul para sempre, de maneiras que a cada vez que observo um Boeing aterrissando a sensação de velha intimidade comigo mesmo, a intensidade vertiginosa do agora e o agora, o momento mesmo da vida, pulsa como um altar em chamas.


P.S.: Altar em chamas é o título de um livro do poeta João de Jesus Paes Loureiro

domingo, 19 de dezembro de 2010

Negócios no reservado do restaurante

A barriga do deputado era de égua prenha. Ele devorava uma terrina de calderada de frutos do mar com pirão e arroz. Era uma terrina enorme e havia comida para quatro pessoas. O empresário que conversava com o deputado não estava interessado em comer. Era baixinho e um sorriso quase imperceptível não lhe saía da boca. Trajava calças justas de brim, o que realçava suas pernas tortas para dentro.

- O caso é o seguinte: você vai receber R$ 5 milhões; 40% é dele; 30% é para dividir com o pessoal; e 30% é seu – disse o deputado, entre uma bocada e outra, castigando o idioma.

O sorriso do empresário ficou mais ameaçador.

 - Só R$ 1,5 milhão? – assustou-se. – É muito pouco!

- Não preocupa; em maio, daqui a um mês e meio, vamos firmar outro contrato de mais R$ 5 milhões, e aí você perfaz R$ 3 milhões, e daqui pro final do ano vamos circular mais de R$ 100 milhões – disse o deputado, num tom apaziguador, naquele linguajar em que pronome pessoal do caso oblíquo não entra.

O reservado era fresco, arejado por um corredor de vento entre as frondes das árvores, principalmente na parte de trás do restaurante, numa das ruas comerciais da Asa Sul. O dono era um sargento, torturador na ditadura militar e que trabalhara durante anos nos arquivos do antigo SNI (Serviço Nacional de Informações).

- Você trouxe os R$ 30 mil? – disse o empresário.

- Está aqui – disse o deputado, aspirando a segunda sobremesa Romeu e Julieta e apontando com os olhos para sua maleta preta. – Ué!, você não trouxe maleta, onde vai carregar esse dinheiro? Na cueca?

“Tarado” – pensou o empresário. Ele sabia que o deputado costumava colocar duas assessoras no seu carro e saía em comboio, com seguranças à frente e atrás em outros veículos. Uma das assessoras dirigia o automóvel do deputado enquanto ele papava a outra no banco traseiro. Depois, a que fora papada dirigia enquanto a outra era trabalhada. Ele fazia isso à noite, mas ainda cedo. Ficava excitadíssimo.

- Há notas de R$ 100, mas também há notas de R$ 50 – disse o deputado, engolindo o quarto Romeu e Julieta. – Está bem, vou te dar essa maleta – disse, ignorante do paralelismo do pronome pessoal do caso reto.

- Depois te devolvo – disse o empresário, que também só pensava em dinheiro.

- Não, não quero. Pode ficar com ela. Tudo bem! – retrucou o deputado, arrotando e acomodando a barriga de égua prenha.

Na parede oposta havia um óleo sobre tela de três metros de largura por dois de altura. Ele retratava um câmera filmando. Era um desses trabalhos que os críticos chamam de hiper-realismo. O olho da câmera se moveu.

O deputado detestava aquele quadro.


Brasília, 16 de março de 2010

sábado, 18 de dezembro de 2010

A região dos grandes escritores

Em matéria - Os novos regionalistas - publicada ano passado na prestigiosa revista Veja, o jornalista Jerônimo Teixeira aborda um velho e atualíssimo tema do Brasil literário. “Os escritores não gostam de ser qualificados de regionalistas, mas a própria resistência ao termo prova que ele ainda tem algum sentido” – disse o redator de Veja.

Afinal, o que é regionalismo literário? Além da qualidade do produto, o mercado parece ser o grande responsável pelo sucesso ou fracasso dos escritores, venham de onde vierem. Assim, Lisboa e Paris já foram centros definidores do mercado literário brasileiro. Hoje, Rio de Janeiro e São Paulo monopolizam as vendas e definem que livros deverão ser lidos pelo pequeno, e suscetível, mercado consumidor tupiniquim.

O que se escreve ou se publica fora do eixo Rio-São Paulo, nas províncias do subcontinente brasileiro, é considerado regionalismo. Por esse ponto de vista, regionalismo é tão-somente um lugar fora do eixo Rio-São Paulo e das grandes cidades do Clube dos Sete, e não aquilo que se escreve, ou a ambientação daquilo que se escreve, num ponto qualquer do planeta.

Nesse viés, peguemos o amazonense Milton Hatoum, autor do romance Dois Irmãos e do livro de contos A Cidade Ilhada, ambos ambientados na Amazônia. Além de viver em São Paulo, os livros de Hatoum são comercializados e divulgados via São Paulo, logo ele não é mais considerado regionalista pelo mercado.

A rigor, Fiódor Dostoiévisk e Gabriel García Márquez são tão regionalistas como o paraense Dalcídio Jurandir e Machado de Assis; afinal, Machado ambientou seu trabalho em algum lugar, que, por acaso, é o Rio de Janeiro. Rubens Fonseca, carioca de Juiz de Fora, Minas Gerais, criou parte da sua ficção ambientada na Cidade Maravilhosa.

Parece que não ser aceito pela mídia paulistano-carioca, e a idéia de que só é bom o que é divulgado pela mídia do Rio de Janeiro e de São Paulo, é efeito de colonialismo. Mas quando olhamos para dentro e valorizamos nossas raízes, nossa cultura, nós nos tornamos o centro do mundo.

Embora o mercado imposto a fórceps pelo marketing peso pesado de São Paulo e Rio de Janeiro se faça presente em todas as grandes esquinas urbanas do subcontinente, é interessante como a intelligentsia amazônica se volta para sua literatura, sua música, sua culinária, sua pintura, seu folclore. Mas essa arte só é comercializada em escala quando profissionais de São Paulo e Rio de Janeiro entram na parada. O mesmo ocorre em Porto Alegre, no Recife, em Belo Horizonte etc.

No caso dos livros mais vendidos, a maioria dos consumidores desse produto sofisticado é fortemente influenciada por seções como a dos mais vendidos de Veja e dos jornais com tiragens diárias em torno de 500 mil exemplares. Jornais do interior procuram copiar a grande imprensa. Quando fui editor da seção de livros do Correio Braziliense, encontrei isso. Procurando dar ao leitor do jornal, de alcance apenas local, o que os jornais de São Paulo e Rio de Janeiro não lhes dava, cansei de publicar resenhas e entrevistas com escritores de Brasília.

Há outra questão, inclusive abordada por Jerônimo Teixeira: quase ninguém quer ser rotulado de regionalista e nega quando o é. “O curioso é que a classificação que hoje parece pejorativa responde pelas melhores obras da ficção brasileira do século XX – clássicos como Vidas Secas e São Bernardo, de Graciliano Ramos, e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa” – observa o redator de Veja.

Gabriel García Márquez fala com amor do povoado onde nasceu, Aracataca, na Colômbia, pois o criador de Cem anos de solidão sabe que não há mercado, não há metrópole que dê vida a personagens senão o talento, essa coisa tão sutil, tão fluida, gene imaterial, misterioso, que só a alguns aquinhoa, como Franz Kafka, por exemplo, que não conheceu a popularidade em vida, mas que deixou obra ambientada na região da raça humana.

Machado de Assis, Rubens Fonseca, João Ubaldo Ribeiro, Dalcídio Jurandir, Benedicto Monteiro, todos, são tão regionalistas quanto Fiódor Dostoiévisk, Gabriel García Márquez, Franz Kafka, pois a região dos grandes escritores é só uma: a alma.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Pode dar o cano quem quiser porque não vou mais correr atrás de ninguém

Não havia sido um dia de sono restaurador para Amarildo Teixeira. A periodontite o torturava, de modo que passou o dia em claro. Foi trabalhar azedo. Era garçom no Chorão da Asa Norte.

Lá pelas seis horas da tarde apareceu uma cliente, uma senhora elegante, trajada com sapatos altos de couro preto, meias e vestido também pretos. Bonita, de belos cabelos negros, quase longos, era patente que estivesse de luto, pois acumulava duas alianças no dedo anular esquerdo. Pediu o cardápio e passado um momento perguntou se a caldeirada de frutos do mar dava para duas pessoas.

- Dá para quatro, senhora - informou o garçom Amarildo.

- Traga, então.

- E para beber?

- Nada. Fico sempre muito cheia quando bebo alguma coisa durante o jantar.

Naquela hora não havia quase ninguém no Chorão. Estava tudo silencioso e agradável. Tudo bem arrumadinho, à espera da turba que não demoraria a chegar noite afora. Depois que o garçom Amarildo serviu a caldeirada de frutos do mar, pôs-se a observar a mulher. Estava desconfiado de alguma coisa. Não sabia bem de quê. Ela pediu bastante pão francês e Amarildo serviu-lhe quatro pães. Um, ela comeu num relâmpago. O impressionante é que a caldeirada dava mesmo para quatro pessoas normais e ainda sobrava. Era uma terrina enorme, cheia de um caldo cheiroso e saboroso, com grandes pedaços de peixe, moluscos e toda sorte de crustáceos. Amarildo Teixeira não acreditou no que viu quando ela o chamou para pedir a sobremesa. A terrina estava seca, o arroz e o pirão foram devorados e os pães sumiram.

- Queijo com goiabada! - ela disse.

O garçom Amarildo ficou confuso. Foi buscar a sobremesa. Quando voltou, a bela viúva sumira. Amarildo correu para a rua e ainda pôde ver o vulto na esquina, iluminado pelas primeiras luzes da noite. Não pensou duas vezes. Saiu no seu encalço. Ao alcançar a esquina, a mulher estava à sua espera e atirou-lhe uma pedra na cabeça. O garçom escorregou e caiu. Levantou-se. Ela desaparecera. Amarildo Teixeira voltou para o restaurante. A pedra fez-lhe um galo. “Ainda bem que não foi na testa” - pensou, apalpando o calombo no lado da cabeça. “Não vou nem contar essa. Ninguém vai acreditar. É melhor não contar. O pior é que eu vou ter que pagar a conta daquele animal; me deu o cano e quase quebra minha cabeça. Como é que pode?”

De volta ao Chorão, Amarildo Teixeira foi ao banheiro. Muita gente havia chegado e o gerente estivera atrás do garçom. Quando Amarildo saiu do banheiro havia um sujeito numa das mesas de sua responsabilidade. Um sujeito grandalhão, um verdadeiro mastodonte, olhando atentamente o cardápio. Aproximou-se cautelosamente.

- Escute aqui, meu jovem, esta caldeirada de frutos do mar dá para duas pessoas? - perguntou.

- Dá para quatro - disse Amarildo Teixeira.

- Quero uma. Traga logo uns pãezinhos até chegar a caldeirada.

“Não é possível que esse cara saia correndo também. Não acredito! Até porque não agüentaria correr com esse corpanzil” - pensou Amarildo, levando quatro pães franceses para o freguês.

- Putz, ô meu, só isto? Traga uns dez - pediu-lhe o homem, passando manteiga num deles e comendo-o em duas bocadas.

Amarildo Teixeira serviu a terrina de caldeirada olhando fascinado para o homem. “É um animal de bruta raça” - pensou.

O freguês era bom de boca. Em pouco tempo não restava mais nada na mesa que pudesse ser comido.

- Ô, meu, queijo com goiabada! - disse o homenzarrão.

O garçom Amarildo foi buscar o que o sujeito pedira. Serviu a sobremesa; o tipo devorou-a em segundos e pediu outra. Após comer quatro porções de queijo com goiabada o gajo não deu tempo para nada. Ergueu-se subitamente da mesa e partiu para a porta, ganhou a rua, e correu em direção à Avenida W3 Norte, com Amarildo Teixeira atrás. Mas o freguês tinha fôlego de peso pesado. Alcançou facilmente o calçadão da W3 Norte, onde estacou abruptamente. Amarildo aproximou-se dele e recebeu um cascudo na cabeça que o fez cambalear e cair. Levantou-se e retrocedeu. O brutamontes partiu para cima dele. Alcançou-o e lhe deu uma rasteira, fazendo o garçom se acabar na calçada. Levantou-se às pressas e correu o quanto pôde para o Chorão. Quando se sentiu em segurança olhou para trás e viu o mastodonte atravessando lentamente a W3 Norte. Olhou para si e viu que ficara bastante estragado.

- Aquele desgraçado quebrou a minha cabeça só com um cascudo. Acho que tinha um pedaço de ferro na mão. Agora vou ter que pagar duas caldeiradas de frutos do mar e mais quatro sobremesas - choramingou. - A melhor coisa que eu faço é ir embora para casa.

Mas Amarildo não pôde ir embora, pois faltaram três colegas seus e na sua ala havia dois esgalamidos querendo caldeirada de frutos do mar.

“Droga, droga, droga” - disse de si para si, e foi buscar a primeira terrina, decidido a não correr mais atrás de ninguém, nem que tivesse que pagar a conta com sua poupança na Caixa Econômica Federal.


Belém do Pará, 1996



O casulo exposto
Este conto foi publicado no meu último livro, O casulo exposto (LGE Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 28), que enfeixa 17 histórias curtas ambientadas no submundo, inclusive político, de Brasília. O livro pode ser encontrado nas redes de livrarias: Leitura, Saraiva e Cultura.

Pedidos para o editor
Livreiros interessados em fazer pedido do livro ou em noite de autógrafos devem se dirigir à:
LGE Editora: www.lgeeditora.com.br
Editor: Antonio Carlos Navarro
lgeeditora@lgeeditora.com.br
(55-61) 3362-0008

Contato com o autor

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Fim de reportagem

O rio arremetia e rugia contra o muro de arrimo, salpicando água longe. O trapiche lembrava o dorso negro de uma sucuri imensa. Podíamos ver o rio se contorcendo como o mar em fúria nas manhãs de ressaca em Copacabana. 

- Não parece um rio – disse-me Mara. Estávamos em um quarto do Macapá Hotel, observando o rio Amazonas. Mara deixou a janela e foi para a cama. Fui me sentar na cadeira. Nos dias muito quentes, seus olhos eram azuis. À medida que a tarde navegava, iam-se tornando verdes e quando os flocos da noite se acamavam nas nossas almas, eram duas esmeraldas. Ela tinha sabor de Mateus Rosé e qualquer coisa espanhola. Estava nua. Sua nudez flutuava naquele momento entre a tarde e a noite, momento com sabor de tacacá, na banca do Colégio Nazaré, em Belém. – O que vamos jantar? – Mara me perguntou. Almoçáramos no Café Aimorezinho, pirarucu ao molho de castanha-do-pará.

- Cerpinha – respondi-lhe, absorto no abstracionismo das nuvens, o fogo a se extinguir, mas ainda lembrando uma tela de Olivar Cunha. – Vamos jantar no quarto? Podemos pedir cogumelos e ostras e comê-los com vinho. – E antes que ela replicasse que talvez não houvesse ostra, disse-lhe que poderíamos pedir filhote ao tucupi.

- Tu achas que o Bigode vai se safar dessa? – ela perguntou, com aquele seu sotaque belenense delicioso.

- O Bigode ainda continuará dando as cartas, mas agora todo mundo já sabe que ele é o maior mafioso do país, e que seu lugar verdadeiro é o esgoto – eu disse. – Quanto a Nove Dedos, continuará enganando a massa ignara. Ocorre que o Estado não é apenas o governo. É muito mais complexo. Não vês o caso do ladrão bolivariano? Logo, logo até os cachorros venezuelanos vão perceber que o patife está apenas assaltando o país.

- Puxa, se eu soubesse que tu ficas tão indignado com o que está acontecendo eu nem teria falado no Bigode – ela disse.

Concluíramos uma senhora investigação sobre as atividades do Bigode, que integraria extensa reportagem sobre a folha corrida do chefão da máfia, e Mara era minha fotógrafa predileta. Aquela seria a última noite que passaríamos na cidade. No dia seguinte, voltaríamos a Belém. A noite de Macapá é sempre inesquecível, como os gemidos de Mara, notas de um concerto de Debussy que voam alguns segundos e se desfazem no ar. Pensei: se eu fosse poeta, como Isnard Lima Filho, ofertaria rosas para a madrugada. Mara cochilava na cama. Sua nudez maravilhosa flutuava na penumbra. Levantei-me da cadeira, fui ao banheiro e me vesti. Desci e procurei o quiosque onde estivéramos mais cedo, pedi uma Cerpinha e comecei a compor, mentalmente, a abertura do meu texto.


Brasília, 12 de agosto de 2009

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Viagem sentimental a Belém e a Manaus

Belém, capital da Amazônia Oriental, e Manaus, capital da Amazônia Ocidental, são as cidades mais cosmopolitas da Hileia, as metrópoles do Trópico Úmido, as mais feéricas e requintadas da mais bela e fantástica província da Terra.

Santa Maria de Belém do Grão-Pará, Cidade das Mangueiras, Cidade Morena, Portal da Amazônia, foi fundada em 12 de janeiro de 1616, pelo capitão-mor Francisco Caldeira Castelo Branco, incumbido pela coroa portuguesa de conquistar e colonizar o mundo das águas, que tem como maiores tributários, ao norte, o rio Amazonas, Mar Doce, que despeja pelo menos um quinto da água doce do planeta, até 600 mil metros cúbicos de água por segundo, na Amazônia Azul, e, ao sul, a baía do Marajó, alimentada principalmente pelo rio Tocantins. No meio do Mar Doce emerge o arquipélago flúvio-marítimo do Marajó, divina obra da natureza.

O militar português acampou numa península habitada pelos índios tupinambás, à margem direita da foz do rio Guamá, que deságua na baía do Guajará, alimentada, por sua vez, pelos rios Tocantins e Pará. Naquele sítio, Francisco Caldeira Castelo Branco ergueu o Forte do Presépio, marco inicial da cidade, uma jóia arquitetônica colonial. Do forte, caminhando para leste sobre os paralelepípedos da primeira rua da cidade, chega-se ao Ver-O-Peso, a maior feira da Amazônia, um mundo de peixes, frutas, cheiros, sensações, debruçado para o rio e o horizonte que se abre para o Caribe, no Atlântico norte. Belém é uma cidade portuária e portuguesa, a mais portuguesa da Amazônia, e também caribenha. Cidade peninsular, península que avança no mundo das águas, Belém é o porto de chegada e de partida para dentro da Amazônia, e da Amazônia para todos os lugares do mundo.

Além dos portos, a bela e sensual cidade cabana conta, também, com o Aeroporto Internacional de Val-de-Cães, bem como a BR-010, que a liga com Brasília, a capital da República, a Ilha da Fantasia, distante 2.120 quilômetros. Ao entardecer, se estamos na Estação das Docas, navegando no rio da tarde, mergulhamos na mornidão até emergir no azul escuro do anoitecer, no lento nascer das estrelas. Sentimos o perfume de uma mulher que transita por ali, no seu vestido de seda estampada e seus segredos de mulher bonita. No fim da tarde podemos também tomar tacacá na banca do Colégio Nossa Senhora de Nazaré, observando as mulheres que trotam no calçadão, e que são as mais belas do mundo, por razões as quais somente quem entende Belém poderá compreender.

Belém pode ser contida numa cuia de tacacá, numa tigela de açaí, num suco de taperebá, num sorvete de tapioca, na palavra mano, que é o mesmo que dizer querido, sussurrada por uma belenense. Belém está contida numa rede, numa noite prenhe de jasmim, no Círio de Nossa Senhora de Nazaré, numa prece.

Dentre os povos que habitavam o rio Negro, à margem do qual Manaus emergiu da selva, três se destacaram porque fizeram frente à espada do português conquistador: os manáos, os barés e os tarumãs. Os manáos bateram-se contra os portugueses valentemente, mas os conquistadores vieram para ficar, e ficaram. Em 1639, Pedro Teixeira tomou posse do rio Amazonas, o Mar Doce, em toda a extensão do gigante. Em 24 de outubro de 1669, foi construída a Fortaleza de São José do Rio Negro, para assegurar aqueles domínios à Coroa Portuguesa. Ao redor do forte, surgiu o povoado de São José da Barra do Rio Negro, hoje, Manaus.

No século XVII, os portugueses mataram cerca de 2 milhões de índios, somente na região do rio Negro. Os manáos, liderados por Ajuricaba, resistiram o quanto puderam. Por fim, segundo a lenda, Ajuricaba se suicidou se jogando, acorrentado, no rio Negro. Não queria cair, vivo, nas mãos dos guerreiros brancos. 

Em 1848, a Vila da Barra é elevada à categoria de cidade, ainda com o nome de Nossa Senhora da Conceição da Barra do Rio Negro, e, em 1850, torna-se a capital da nova Província do Amazonas. Em 1874, chega a Manaus o navio Mallard, iniciando o ciclo de navegação entre Manaus e portos da Europa. A borracha começa a tornar Belém e Manaus as cidades mais ricas do país. Em 1856, Nossa Senhora da Conceição da Barra do Rio Negro adota o nome de Manáos.

Em 15 de novembro de 1889, no Rio de Janeiro, morre o Império e é proclamada a República Federativa do Brasil. A Província do Amazonas passa a ser Estado do Amazonas. A borracha é cada vez mais exportada e Manaus recebe levas de nordestinos e brasileiros de outras regiões, portugueses, franceses, ingleses, italianos, espanhóis, gregos e judeus.

Entre 1890 e 1910, fase áurea da borracha, Manaus conta com bondes elétricos, telefonia, eletricidade, água encanada e porto flutuante, que recebe navios dos mais variados calados e diversas bandeiras. Em 1900, com 20 mil habitantes, as vias de Manaus eram urbanizadas, e contava com praças, jardins, fontes, monumentos, o belo Teatro Amazonas, cassinos, hotéis, bancos e palácios. Em 1910 começa o declínio do mercado da borracha amazônica e a lenta agonia econômica de Manaus e de Belém.

Na segunda metade do século XX, a cidade se recuperou, abrigando uma zona franca e parque industrial. Hoje, além do porto, que recebe grandes navios, a cidade conta com o moderno Aeroporto Internacional Eduardo Gomes e com a BR-174, a Manaus-Boa Vista, que a liga à América Central.

Bela, feérica, rica, Manaus é como Belém, um relicário de pedras preciosas, que se guarda no coração. O frufru de seda numa noite de gala no Teatro Amazonas, os segredos que as cunhantãs guardam na sua beleza estonteante, o anoitecer em Manaus, tudo isso contém a cidade, e só então podemos captá-la plenamente além dos sentidos.

Chove copiosamente, dias a fio, aguaceiros que desabam como dilúvios, tempestades que escurecem o céu, de dezembro a maio. Em junho, começa a estiagem, que dura até novembro, quando as chuvas voltam com abundância. De madrugada, a temperatura é amena, em torno de 25 graus centígrados, mas no início da tarde chega aos 40 graus, facilmente, à sombra, e a umidade relativa do ar é quase de 100%.

Cada cidade tem seus segredos, e cada cidadão tem seus segredos com a cidade. Se a ama, sabe quando e como procurá-la, sente sua respiração, ausculta seu coração, extrai dela os sabores mais preciosos. Nos shoppings, essas catedrais pós-modernas, tudo o que a urbe pode oferecer está ali, no conforto refrigerado das praças de alimentação, nos cafés, nas livrarias, nos corredores, nos bancos dos átrios.

Nas avenidas, a vida das duas grandes cidades da Hiléia pulsa e se impõe a cada um dos seus habitantes e aos visitantes, muitos dos quais imersos na fantasia do exotismo. E nesse santuário em chamas, as rosas colombianas, as amazônidas, perfumam a vida para sempre.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Dança do Sabre

A Feira do Guará estava fervilhando naquela manhã de sábado. Ele foi à peixaria e comprou um tucunaré de três quilos, capturado no lago de Tucuruí, e cinco quilos de pirarucu fresco. Depois comprou duas barras de açaí grosso, recém-chegado de Belém, farinha de tapioca, farinha d'água, tapioca molhada e castanha-do-pará. Parou na banca próxima à da dona Zenaide.

Encarapitado no banquinho, o canudo entre os lábios e os olhos grudados na descascadora de coco, sugava a água deliciosa da Bahia. Ela devia medir 1,70 metro e pesar 75 quilos. Sua pele mulata era clara e sedosa, e seus olhos, grandes e doces. Os seios fartos, as nádegas volumosas, a cintura de saúva, as pernas bem torneadas, eram, na verdade, parte do espetáculo.

A mulata tinha as mãos de pianista e suas unhas eram pintadas de rosa. No dedo anelar esquerdo exibia grossa coleira de ouro. Segurava o coco com a mão esquerda e com a direita manejava um facão afiado como navalha. Lembrava Uma Thurman em Kill Bill. Em segundos o coco ficava no ponto para ser sugado. A descascadora de coco manejava o facão como uma prestidigitadora.

Ela dançava a Dança do Sabre, de Aram Khachaturian, quando ele viu o facão muito perto do seu rosto. Piscou os olhos e a viu a um palmo de distância. Fora apanhar um coco, os seios quase encostados do rosto dele. Ela se virou e se abaixou novamente, para arrumar alguma coisa, e ele percorreu seus quadris, numa viagem vertiginosa. Ela voltou à Dança de Aram Khachaturian.

O amistoso esfregar de mão feminina nas costas o acordou.

- Vamos! – disse sua mulher, que estivera comprando roupa.

- Sim, vamos! – ele disse, e a seguiu. Sua mulher era ainda mais bonita do que a jovem senhora da Dança do Sabre. “Vou ouvir Khathaturian quando chegar em casa, antes de tomar açaí” – pensou.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Terno de linho

Meus últimos ternos foram comprados no fim do século passado; são de linho, fechados atrás, sem aba nos bolsos do paletó, e as calças são largas nos quadris. Encontrei-os, e também algumas lindas gravatas, numa loja do Park Shopping, o mais elegante de Brasília. Acabara de receber uma dinheirama e precisava mesmo de novos ternos, pois apesar do calor na maior parte do ano, em alguns meios de Brasília traja-se como na Ordem dos Advogados.

Genuíno homem tropical, amazônida nascido sob a Linha Imaginária do Equador, resisto o quanto posso ao uso de terno; quando muito, trajo paletó sem gravata. Mas há recintos no Congresso Nacional, onde prestei assessoria durante anos, em que não podemos entrar senão de terno, e são redutos aonde precisava ir de vez em quando. Assim, há algum tempo, não tive escolha e parti para comprar mais um terno. Bati perna à procura de terno de linho. Para encurtar a conversa, fui atendido por um vendedor jovem, no mesmo Park Shopping, que me olhou com espanto.

- Terno de linho? O que é isso? Nunca vi um! - disse o garoto. Eu estava com minha esposa e rimos à beça.

Outro vendedor me explicou que ternos de linho não se fabricam mais; só recorrendo ao alfaiate. Procurei um alfaiate e ele me disse que se eu comprasse o linho faria o terno por R$ 1 mil. Mas alfaiataria exige aquelas idas e vindas necessárias para que não nos decepcionemos com o resultado. Então, usei de sabedoria. Fui ao Conjunto Nacional, onde há várias lojas de terno, para uma peregrinação final.

Descobri que todos os ternos prêt-à-porter são de lã fria e quase todos abertos como paraquedas e com abas nos bolsos. As calças são de cós curto e as gravatas, largas como lenço. É a moda, essa dama enganadora. Assim, comprei um de lã fria mesmo, que exigiu apenas pequenos reparos. Diz o ditado: quem não tem cão caça com gato. Mas o terno é lindo.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Um caso de Apolo Brito

O frio, naquele ano, era mais intenso do que em anos anteriores. As pessoas passavam apressadas, nos seus agasalhos, pelo campo visual de Esmeralda. Na sala, pairava o silêncio e um cheiro bom de café recém-coado. De repente, a mulher que esperava por Apolo Brito levantou-se e pôs-se a andar de um lado para outro. Lembrava uma potranca. Esmeralda acostumara-se a ver entrar, ali, todo tipo de beldade, mas não tão bonitas quanto aquela. Tinha os cabelos longos e abundantes, louros, e olhos verdes escuros.

- A senhora quer um cigarro? - ofereceu-lhe. Ela interrompeu o vai-vem e apanhou o cigarro.

- Obrigada! - disse, apanhando o Charm que Esmeralda lhe estendeu.

- O sr. Apolo não passa das dez - tranquilizou-a.

Com efeito, o detetive chegou às dez em ponto. Cumprimentou as duas mulheres, cruzou a sala e entrou no seu gabinete. Esmeralda deixou passar um pouco e entrou também no gabinete, demorando-se lá uns três minutos. Ao sair, disse à senhora para entrar.

Apolo Brito aguardava-a sentado quase de costas para a porta olhando através de uma fresta na persiana a rua no Setor Comercial Sul. Voltou-se e a convidou a sentar-se. Tinha as mãos grandes e peludas - elas tremiam ligeiramente.

- Vamos tomar café? - disse Apolo. Sua voz era firme e seus olhos negros, ternos.

- Vamos - disse a mulher, dominada por ele.

Esmeralda entrou com uma bandeja de prata, um bule também de prata e um açucareiro e xícaras de porcelana, com as respectivas colherinhas de prata.

Tomaram café em silêncio.

- Fique à vontade e me conte tudo - disse Apolo Brito. - Nós somos como os psicanalistas. Temos de saber tudo. Às vezes, uma coisa que parece não ter importância é o que nos leva a descobrir o que nos interessa. - Fez uma pausa. - Não se preocupe quanto ao sigilo - disse.

- O problema é com a minha filha.

Frênia tinha quatorze anos, um metro e sessenta e cinco, cinquenta quilos, os olhos verdes da mãe, e era ruiva. “É de fazer Vladimir Nabocov se babar” – pensou Apolo Brito.

- De uns tempos para cá, ela anda tão estranha, calada, nervosa, quase histérica. Quis mandá-la para a França, Lyon, para passar uma temporada com a tia, mas o padrasto se opôs. Já tentei conversar com ela de todas as maneiras, inutilmente – disse a mulher, apresentando uma foto ao detetive.

Frênia estava entre a mãe e o padrasto, um tipo muito elegante - seus cabelos começavam a ficar grisalhos nas têmporas, mas não lhe tiravam a impressão de atleta em plena forma. Tratava-se de um trio cinematográfico, mas Frênia, ainda assim, se destacava entre os três. Nela, a sensualidade se continha à beira da explosão. É claro que pessoas como aquela não podiam andar normalmente na rua. Frênia era levada de automóvel para a escola, uma escola de freiras, discreta, e trazida de volta no mesmo automóvel. Frequentava um clube fechado. Ia, com frequência, a São Paulo e Rio de Janeiro. Desde que começou a agir estranhamente, no entanto, só saía de casa para incursões misteriosas, sempre de táxi.

No dia seguinte, Apolo estacionou próximo ao portão da casa de Frênia e esperou. Uma hora e meia depois, ela deixou a casa, de táxi, com destino ao ParkShopping. Andou à toa, parando aqui e ali, diante das vitrines, até sair do prédio e tomar outro táxi, desta vez rumando para o Núcleo Bandeirante. Entrou no Village. Apolo estacionou próximo ao motel e ficou imaginando com quem Frênia iria se encontrar. Cerca de meia hora depois viu-o chegar. “Diabo!” - disse, e ficou esperando o que ia acontecer.

Já anoitecia quando viu um táxi entrar e sair com a menina. Ligou o carro para segui-la, pensou um pouco e resolveu aguardar mais. Momentos depois, viu-o deixar o motel e seguiu-o até o Florentino, um restaurante frequentado por políticos e funcionários graduados do governo. Não se demorou lá, voltando, a seguir, para casa, dirigindo o que Apolo Brito supôs ser seu próprio automóvel.

- Sua filha não se encontra com ninguém - disse Apolo Brito à mãe da ninfeta. - Mas estou certo de que ela precisa fazer aquela viagem a Lyon, embora seu marido se oponha. Mesmo assim ela deve ir. Tire sua filha desta cidade; mande-a para bem longe daqui, de preferência para Lyon. Já estive lá. É uma boa cidade.

- Não compreendo... - disse a mulher.

Apolo Brito se levantou, foi até a janela. O Setor Comercial Sul morria na tarde de sábado. Ao voltar para sua poltrona, seus olhos estavam úmidos e bondosos.

- Tire sua filha desta cidade - disse, em um tom de voz terno, mas também duro.

- Por quê?

- A cidade não lhe faz bem - disse, evasivamente.

- O senhor descobriu alguma coisa muito grave e não quer me dizer. É seu dever me dizer o que é; estou pagando...

Apolo Brito pensou um pouco.

- Ainda não tenho certeza. Só acho que a senhora está perdendo tempo deixando-a aqui. - Fez uma pausa e disse, em tom de apelo: - Leve-a para Lyon, amanhã! Quanto ao dinheiro, não tem importância...

Naquela noite, Apolo resolveu dar uma espiada na casa de Frênia, na Península dos Ministros, bairro chique de Brasília. Chegou a tempo de ver sair um táxi com a ninfeta, que, minutos depois, descia numa casa em um ponto pouco povoado do Lago Sul. O morador mais perto dali ficava a uns quinhentos metros de distância. Apolo Brito estacionou o carro próximo à entrada da casa e ficou aguardando. Passado algum tempo, chegou outro táxi, dessa vez com a mãe da ninfeta, que entrou apressada na casa. Pouco depois, Apolo Brito ouviu um estampido. Arrancou em direção a casa, freou e entrou voando portão adentro. Ventava como o diabo.

A porta cedeu ao pisão. Entrou, olhou para cima e subiu as escadas de três em três degraus. No alto, viu um corredor e luz saindo da porta de um dos quartos. Correu para lá e parou na porta, com a Luger na mão. Lá dentro, sobre o tapete, jazia um homem. Seus cabelos grisalhos nas têmporas estavam manchados de sangue. Parecia que ele tinha ficado de lado de propósito para que a loura o acertasse do modo como acertou. A bala entrou pela têmpora direita e saiu pela têmpora esquerda. Na cama, abraçadas, mãe e filha choravam. A ninfeta estava nua, coberta apenas pelos cabelos de cobre, que lhe caíam nos ombros como uma cascata de metal fundido. Apolo pegou as roupas da menina e as estendeu a ela.

- Vou levá-las para local seguro - disse-lhes. - Temos que ir logo!

As luzes piscavam na imensidão do cerrado. As árvores curvavam-se ao vento. O Alfa Romeu cortava a noite velozmente. As duas mulheres continuavam abraçadas no banco de trás, misturando seus cabelos de ouro e cobre. Apolo Brito acionou o toca-fitas. Ouviram Debussy.

- É verão em Lyon - disse ele, com o pensamento longe.


Guará-DF, 17 de dezembro de 1989



O casulo exposto
Este conto foi publicado no meu último livro, O casulo exposto (LGE Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 28), que enfeixa 17 histórias curtas ambientadas no submundo, inclusive político, de Brasília. O livro pode ser encontrado nas redes de livrarias: Leitura, Saraiva e Cultura.

Pedidos para o editor
Livreiros interessados em fazer pedido do livro ou em noite de autógrafos devem se dirigir à:
LGE Editora: www.lgeeditora.com.br
Editor: Antonio Carlos Navarro
lgeeditora@lgeeditora.com.br
(55-61) 3362-0008

Contato com o autor

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Belém

Estou sentado na Estação das Docas, em Belém do Pará. A tarde começa a morrer. Ouço murmúrios - risos distantes, preces, Mozart. Uma mulher passa trotando ao meu lado e deixa um rastro de Chanel número 5 e maresia. Os cheiros disparam o mecanismo da memória e abrem a porta do coração, onde há jardins, grandes hotéis, romance, poesia, eternidade, as mulheres que amamos. Outra mulher vem em minha direção. Lembra um arbusto, porque é jovem e seus olhos têm clorofila, pois são duas esmeraldas. Traja-se com um vestido de seda estampada, continuidade de sua pele de ébano. Terá vindo da Guiana Francesa?, ou das Antilhas Holandesas? Veio da República Dominicana? Ouço merengue.

República Dominicana! Lembrei-me do Walmir Botelho, que me recomendou A Festa do Bode, de Mario Vargas Llosa, romance ambientado na ditadura do general Rafael Leónidas Trujillo.

A tarde morre docemente. Pedi à Virgem de Nazaré que proteja as crianças e as flores, para o mundo continuar ouvindo risos e a sentir perfume; pedi, ainda que dê a cada um dos que eu amo diamantes e rubis; e, para mim, uma rosa.

A tarde morre inexoravelmente; escorre, como um rio de luzes que se afogam no mar da noite, para ressurgir no ventre da cidade, que se abre como uma boca à minha frente. Continuo sentado à mesa, na companhia da minha memória e de meus fantasmas. Belém, à noite, é como o mistério feminino.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Blog

Às vezes fico pensando: será que Hemingway manteria um blog? Seria um blog da putada, pois o Velhão sempre teve o que dizer. Eis aí, talvez, a questão básica de se manter um blog: ter o que dizer. O blog nasceu como diário, e diário só é interessante para o autor, a menos que se trate de uma celebridade ou, pelo menos, de alguém que tenha informações interessantes. Contudo, é fundamental que o blogueiro tenha disciplina para alimentar seu blog, que, hoje, já não é mais mero diário. Veja-se o caso de jornalistas e intelectuais: aqueles, publicam nos seus blogs os excedentes das suas reportagens e do dia-a-dia nas redações e nas ruas; estes, fazem uma análise bastante útil do momento político do país. Voltemos aos escritores, que, aliás, utilizam blogs para divulgar seu trabalho, pois blog é uma mídia sob medida para isso.

Mas escritores terão tempo para cuidar de blog? Escritores chefes de família e endividados não encontram paz para escrever, exceto se são compulsivos, como Honoré de Balzac, por exemplo, que, mesmo fugindo dos cobradores, escrevia compulsivamente e ainda encontrava tempo para fornicar diariamente, às vezes várias vezes por dia, com várias mulheres. Mas o drama central é o da traição a si mesmo. Se um escritor não encontra paz para dormir como a encontrará para criar?

Ernest Hemingway devia ter 21 anos quando começou a trabalhar como correspondente na Europa, para um jornal do Canadá. Recém-casado, os dólares que ganhava davam para sustentar suas despesas em Paris, onde se baseou. Mas Hemingway queria ser escritor. Então, largou o jornal e passou a viver dos parcos rendimentos provenientes dos investimentos da sua esposa no mercado financeiro americano. Quantas vezes o autor de Paris é uma festa matou pombos com estilingue para saciar a fome! Mas, aos 26 anos de idade, ele escreveu algo revolucionário: O sol também se levanta. Então começou sua ascensão literária, até O velho e o mar e o Nobel.

De certa forma, até um blog pode atrapalhar a criação de um romance. Os romancistas sabem que uma história de longo fôlego requer tanta concentração quanto fornicar ao longo de 12 horas. Assim, um romance é como uma mulher que recebe atenção integral ao longo de toda uma noite. E escrever um romance pode durar anos.

Muitos escritores, pensando que trairão menos o artista que reside neles, ingressam no jornalismo, o que não é de todo mal, pois mantêm a rotina de lidar com as palavras todos os dias, além de aprenderem, como ocorreu a Hemingway, a se expressar de modo claro, direto, enxuto. Mas a utilidade do jornalismo para o escritor termina aí. Depois que ele aprende alguns truques que lhe serão úteis ao encarar um trabalho de criação é hora de cair fora das redações. É que, passando o dia a escrever notícias, o escritor acaba descarregando a bateria da criação. Grandes escritores sabem disso desde garotos.

Contudo, há escritores tão prolixos, tão compulsivos, tão torrenciais, como o era Norman Mailer, que se não escreverem o tempo todo, seja lá o que for, enlouquecerão. Há uma outra categoria de escritor: aqueles que mesmo sufocados pelo jornalismo são literalmente perseguidos pela literatura. São vítimas daquilo que Hemingway identificou como armadilha. Como não atinam para a hora de cair fora das redações, acabam se enredando e não sabem mais como sair sem perder o padrão de vida que proporcionam a suas famílias, ou mesmo não sabem como sobreviver de outra coisa, senão de jornalismo. Mesmo assim, não podem deixar de criar, pois personagens os perseguem em sonhos, em gritos que só eles ouvem, em visões que apenas eles veem. Só resta, então, dar o expediente no jornal, e sempre que a solidão permitir, se encontrar com Cara de Catarro, Galicíssimo, Agostinho Castro e Castro, os Picanço Cardoso, Boca de Sacola, Frênia, Lola, mulheres de olhos bicolores e sabor de Mateus Rosé...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Latitude Zero


Um dos livros mais vendidos da LGE Editora é Todas as Gerações – O conto brasiliense contemporâneo (Brasília, 2006), um calhamaço de 516 páginas organizado pelo contista mineiro Ronaldo Cagiano. O livro é uma tentativa de reunir escritores representativos de Brasília, brasilienses da gema ou de outras regiões do Brasil, que vivem e produzem em Brasília, embora muitas vezes ambientem seus trabalhos nas suas regiões natais. Mesmo com Ronaldo Cagiano tendo feito concessões, Todas as Gerações acabou sendo mesmo um livro representativo de Brasília.

A concessão mais gritante é José Sarney, que participa do livro com o conto Brejal dos Guajás. A única coisa que o imortal tem em comum com Brasília é o mandato eterno de senador que os amapaenses lhe presentearam. Grato, Sarney se empenha por verba para a também eterna reconstrução do aeroporto local. Mas, sejamos justos, Sarney faz certo tipo de brasiliense, ilustre, como seus colegas Fernando Collor de Mello e Lula, que, finalmente, logo será também ex-presidente.

Porém o livro tem mais méritos do que deméritos. Por exemplo, a presença do escritor e crítico literário pernambucano Maurício Melo Júnior, que aparece com o conto Um longo sonho do futuro. Outro grande contista presente é o amapaense José Edson dos Santos, com Noite fraca, um dos contos mais violentos que já li, e que é a cara do submundo de Brasília.

Fui convidado para participar de Todas as Gerações por acaso. Fora ao lançamento de um livro do amazonense Adrino Aragão, na antiga livraria do Walter Silva, que se mandou para São Paulo, e lá encontrei o Ronaldo Cagiano, que me convidou. Mandei para ele uma das três histórias curtas publicadas no meu livro Trópico Úmido, o conto Latitude Zero, único totalmente ambientado na minha cidade natal, Macapá, que recriei no romance A Casa amarela.

Latitude Zero “fala de um grupo de jovens em descobertas sexuais em Macapá. Pode ser visto como um conto de formação, embora carregado do escancaro de Charles Bukowisk, o que é até compreensível em quem sobreviveu às teorias de Freud e à revolução sexual dos anos sessenta” – escreveu Maurício Melo Júnior. Com efeito, muito da matéria-prima utilizada na invenção do conto foi retirada do mundo que gravitava em volta da minha adolescência, a Macapá dos anos 60, até a primeira metade de 1972, quando caí fora da cidade, aos 17 anos, para voltar sempre, desesperado de paixão.

Dos 14 aos 17 anos (1968-1971), muita coisa aconteceu na minha vida, e a mais importante delas foi a casa do poeta Isnard Lima Filho, na Rua Mário Cruz. A casa do poeta, onde morava com sua mãe, a pianista Walkíria Ferreira Netto de Lima, era uma porta aberta para a grande arte. Lá, eu encontrava artistas de todo o mundo. Conversávamos o tempo todo, mergulhados no oxigênio do realismo fantástico, e Isnard Lima Filho nos ensinava a ofertar rosas para a madrugada. Foi nesse tempo que minhas antenas de artista foram desencapadas.

Latitude Zero é meu conto mais violento e pornográfico, que, por isso, não deve ser lido senão por adultos. Segue-se esta história curta.


O depósito de madeira estava adormecido como tudo o mais na madrugada, exceto a luz do poste debatendo-se para escapar da névoa. A claridade lutava para libertar-se da neblina pegajosa, e como carnicão rompendo a película do tumor, vazava, arrastando-se até o depósito de madeira, infiltrava-se por uma fresta e incidia sobre o cenho franzido de um rapaz. Ele parecia morto, pois respirava imperceptivelmente.

A luz do poste, agora, agonizava na claridade dúbia do amanhecer. Uma chuva pôs-se a cair, adensando o ar saturado de umidade. O rapaz mexeu-se, num gesto instintivo de quem tem frio. Encolheu-se mais, agasalhando as mãos entre as coxas. As tábuas sobre as quais deitara machucavam-no. Isto o despertou. Abriu os olhos como uma boneca: só as pestanas mexeram-se. O resto todo ficou imóvel. Depois procurou alguém com o olhar. Viu-o um pouco abaixo. Moacir Canto dormia ainda. O rapaz levantou-se, estremunhado, e ficou olhando para Moacir Canto. Apalpou o bolso traseiro à procura da carteira porta-cédula e não a encontrou. Meteu o polegar e o indicador no bolsinho da calça e puxou uma nota de cinquenta cruzeiros. Neste momento Moacir Canto despertou.

- Perdi a bolsa - disse o rapaz, que se chamava Alexandre. - Mas tinha guardado cinquenta cruzeiros no bolsinho da calça.

- Porra... - disse o outro.

Olharam-se e depois cada qual olhou para si próprio. Haviam começado a farra no GEN, o bar do ex-policial, que ficava na Rua Tiradentes. Alexandre havia ganhado as obras completas dos irmãos Grimm em um concurso de contos e vendeu-as para a tia de Moacir Canto por duzentos cruzeiros. Separou uma nota de cinquenta, pô-la no bolsinho da calça e foram para o GEN. Tavares, o ex-tira, estava lá no lugar de sempre, diligente, servindo bebida a dois caras. Alexandre pediu meiota de Pitú. Tavares serviu-os com tira-gosto de jenipapo.

Limitavam-se a beber. Moacir Canto incrustara-se no silêncio. Livrava-se do rancor que levava consigo cagando em cima dos outros. Certa vez, trepado numa árvore da Praça Veiga Cabral, deu uma cagada tão surpreendente na cabeça de um homem que o derrubou no chão. Quando o tipo recobrou-se, Moacir Canto já tinha se limpado, levantado as calças e se jogado de um galho mais baixo. Pôs-se ao fresco quase caindo de tanto rir. Certa noite, pediu a Alexandre para segui-lo de bicicleta. Moacir Canto ia na garupa de outra bicicleta, pilotada por Grosseiro. Ficaram andando um pouco pela Praça Nossa Senhora da Conceição, até que passaram por uma moça e uma menina. Grosseiro fez a volta, pedalando sem pressa, e tirou o fino da menina. Moacir Canto se ajeitou e deu tal soco nas costas dela que o barulho ecoou na praça inteira. Mas engraçado foi quando uma noite Moacir Canto achou uma folha de coqueiro e saiu à procura de vítimas com Grosseiro. Alexandre foi atrás para ver. Iam a certa altura da Rua Leopoldo Machado quando viram seis estudantes, uma ao lado da outra, ocupando a largura do passeio público e parte da pista. O tronco da folha de coqueiro ia pegar no pescoço dela. Era a mais alta; uma moça rosada e vigorosa. Ela se abaixou na hora e a folha de coqueiro passou voando por cima da sua cabeça. Moacir canto perdeu o equilíbrio e caiu. A moça pegou a folha de coqueiro e desferiu um golpe no queixo de Moacir Canto, que ia se levantando do asfalto. Grosseiro havia estacionado adiante e morria de rir. Alexandre passou por perto de Moacir Canto e salvou-o de seis mulheres furiosas. Para se vingar, Moacir Canto foi à sua casa, pegou um fio elétrico e saiu atrás das moças. Como não as encontrou, atacou uma velha, dando-lhe tal lambada no pescoço que a velha caiu com um grito horripilante.

Ele era um cara assim mesmo. Seu ódio provinha da condição em que o pai deixara a família, na miséria, para enrabichar-se por uma menina de quinze anos, mas que o manobrava como uma puta experiente. No Dia dos Pais, Moacir Canto entrou lá e deu uma paulada na venta do velho, arrancando-lhe pelo menos um dente. O pai de Moacir Canto era policial. Telefonou para a polícia a fim de que pegassem o rapazinho, que devia estar drogado para fazer um negócio daqueles. Ficou por isso mesmo. A sorte de Moacir Canto era sua beleza. Tinha um belo queixo quadrado, o rosto oval, sobrancelhas bem feitas e cabeleira leonina. Seus olhos, entretanto, despertavam medo, sobretudo quando estava estupidificado de maconha. Certa vez, Alexandre, Moacir Canto, Grosseiro e Galego Demônio amanheceram na Praia do Barbosa. Alexandre e Grosseiro dormiam ainda. Moacir Canto e Galego Demônio já haviam acordado há algum tempo quando avistaram a menina. Correram em cima dela, agarraram-na e arrastaram-na para detrás de um aturiá. Alexandre e Grosseiro acordaram com os gritos, correram para lá e viram Moacir Canto tentando penetrar a menina por trás, enquanto Galego Demônio segurava-a pelos cabelos, pelejando para a menina chupar o pênis grande, mole e purulento que lhe empurrava no rosto. De todos eles, Alexandre era o único que tinha um pouco de sensatez, e Grosseiro o atendia como a um cão. E assim livraram dos répteis a menina.

- Está na hora da gente se escafeder - disse Moacir Canto, no GEN.

Pegaram a Rua Cândido Mendes e seguiram em direção ao Igarapé das Mulheres. Todas as noites Alexandre ia à casa de Angélica, Sílvia e Graciette. Angélica estava no portão da varanda. Era pequena e fofa. Usava os cabelos, de cor indefinido, bem curtos. Tinha os olhos da cor dos cabelos e era estrábica, e tudo chamava a atenção no seu rosto: o nariz arrebitado e os lábios vermelhos e entreabertos, como rosa despedaçada e sumarenta. Via-se-lhes os dentes através deles. Isto, e os olhos, davam-lhe um ar de avidez ninfomaníaca. Sílvia parecia uma fada morena. Tinha a pele cor de leite, os cabelos negríssimos e longos, e os olhos azuis, da cor dos olhos do pai. Vivia sorrindo, com seus lábios rosados. Tinha os dedos longos, ágeis ao piano. Era bem mais alta do que Graciette. Os olhos de Graciette ficavam entre castanho e verde. Usava unhas longas, que pintava de vermelho, e punha uma língua tão comprida na boca dos rapazes que os sufocava. Era ruiva. Puxava a mãe, uma potra ainda jovem que tinha o mesmo olhar canibalesco de Angélica.

As duas outras garotas estavam na sala ouvindo os Beatles. Nem bem os dois chegaram, Sílvia foi logo convidando Alexandre para dançar. Ele ficou excitado. Sabia o jogo. Ela se encostava nele, os longos cabelos negros caindo pelo rosto e pelos ombros de Alexandre. Ela não usava soutien; os seios duros espetavam-no, e ele, de vez em quando, via os bicos rosados dos peitos através da blusa meio desabotoada. Alexandre ia ficando cada vez mais descontrolado. Ela batia com o púbis sobre o pênis de Alexandre, rijo como um osso, e ele aparava as batidas prestes a gozar.

- Vamos para o quarto? - disse Alexandre.
Ela não falou nada. Puxou-o pela mão em direção ao quarto amplo e bem arrumado. Sílvia era tão delicada! Desafivelou-lhe o cinto, abaixou o fecho éclair - ele não usava cueca -, pôs o pênis duro para fora. Ela, com seus olhos azuis, olhava maravilhada para o pênis.

- Caralinho lindo! - disse, e desceu, suavemente, seus lábios rosa sobre a glande vermelho-escura, que estava para estourar. Ele não aguentou muito tempo. Logo se desintegrou em um gozo suculento, inundando aquela boca de fada, respingando de esperma os lábios sedentos.

Três pares de olhos acompanhavam tudo, sem  perder nada. Ao ver o suco espermático escorrendo da boca da irmã, Angélica se despiu num piscar de olhos. Tinha a bundinha mais linda do mundo. Estava gozando só de ver. Possuía o dom dos gozos múltiplos. Pegou os cabelos de Alexandre e puxou-o para seu púbis. Cheirava a Mateus Rosé, e o líquido que escorria pela sua coxa tinha sabor de acme. Ao ver o traseiro de Angélica, Moacir Canto enfiou-se ali. Graciette masturbava-se com seus dedos de garras e chorava.

Era meia-noite. Os cinco estavam banhados, na sala, bebendo vodka e ouvindo os Beatles, quando a mãe das meninas chegou. O pai delas, como sempre, fora a Belém. Dona Frênia deu um alô para os garotos, a caminho do seu quarto.

- A velha está bêbeda - Moacir Canto cochichou para Alexandre.

Foi neste momento que a garrafa de Wyborowa do pai das meninas, que Alexandre bebeu, subiu de uma vez para a cabeça dele.

- Vou fodê-la - disse, ensaiando ir para o quarto da dona Frênia.

Moacir Canto estava em melhor estado. Atirou-se de cabeça nele. As meninas jogaram-se também em cima dele. Acabou tudo numa risada geral.

Quando Alexandre voltou a si estava deitado no meio da Rua Cândido Mendes, de braços estendidos como Jesus Cristo na cruz, gritando: fodam-se seus filhos da puta. Então começou a chover. O chofer do táxi não estava vendo as coisas muito bem e pegou um susto ao vislumbrar aquele vulto erguer-se do asfalto quase em cima do carro. Parou para averiguar do que se tratava. Alexandre entrou no táxi. Moacir Canto veio correndo da calçada, onde estivera vomitando, e entrou no carro.

- Bar Caboclo - Alexandre disse ao motorista.

A chuva engrossara. Da mesa onde estavam podiam ver a chuva estalar na calçada. Bebiam em silêncio a meiota, em pequenos goles de apreciadores de bebida.

- Vamos voltar à casa das meninas? - Alexandre sugeriu. Moacir Canto levantou-se incontinenti.

- Desta vez quem vai comer a velha sou eu - disse.

- Está bem - Alexandre concordou, chamando o garção e pagando a meiota.

Saíram do bar na chuva, que estava mais fina agora. Atravessaram a Rua Cândido Mendes na altura do antigo Igarapé da Fortaleza. Escorregaram numa poça d’água no outro lado da rua. Chapinharam lá dentro, até que Moacir Canto conseguiu levantar-se e arrastar Alexandre para fora da poça. Andaram em direção ao rio Amazonas, mas pararam logo adiante, ao verem que alguém passava a chuva debaixo de uma marquise. Aproximaram-se. Era uma moça. Moacir Canto disse alguma coisa para a moça. Ela tentou falar, mas era muda. Moacir Canto pegou-a e começou a se esfregar nela. A moça tentava afastá-lo. Moacir Canto subiu a saia dela e depois desceu a calcinha. A muda começou a rir e depois procurou beijar Moacir Canto. Ele se desviava dos seus beijos e aquilo fazia Alexandre se torcer de rir. Quando parou de rir não viu mais a muda. Moacir Canto estava com uma calcinha na mão. De quem diabo era aquilo? Subiram por uma escada lá mesmo naquele prédio.

- Conheço um cara que mora em um apartamento lá em cima - disse Moacir Canto. - É da polícia e é veado.

Bateram lá e logo um sujeito branquela meteu a cara na porta entreaberta.

- Oh! você! - disse para Moacir Canto, olhando também para Alexandre. - Entrem! Entrem! Vou preparar um drink para vocês. Por que vocês não tomam banho?

Serviu duas doses generosas de whisky e foi ver o frango que pusera no fogo. O cheiro da canja empestava o ambiente, mas para os bêbedos nada importava. Sentaram-se, com o whisky ao lado, e puseram-se a bater papo.

- Tenho roupas secas... - interrompeu o escrivão, tentando atrair a atenção deles.

- Basta o teu whisky - disse Moacir Canto.

- Isto aqui é um buraco - dizia Alexandre, deixando o escrivão desconfiado. - Uma merda! Senão vejamos: que escritor temos aqui? Nenhum! Há o R. Lima, mas o R. Lima não escreveu mais do que um livro de poemas, que teve uma tiragem ridícula de quinhentos exemplares. E por quê? Porque não temos editora, porque não temos público, porque não temos aplauso.

O escrivão ficou menos preocupado ao perceber que não falavam do seu apartamento.

- É uma sepultura... - disse Moacir Canto.

- Uma sepultura e uma fábrica de poetastros - disse Alexandre. - Vês o caso do Galego Demônio, que lança um livro mimeografado por semana...

- Não sei como aquele traficante que banca as baboseiras dele ainda não percebeu que se trata de um psicopata mitomaníaco e megalomaníaco.

- No seu livro mais recente ele resgata os últimos estupros que cometeu - disse Alexandre.

- Nem a irmã dele escapou - disse Moacir Canto. - E com aquela gonorréia crônica...

- Quis comer o diretor do Colégio Amapaense, o professor Olhudo.

No dia em que isso aconteceu, Alexandre estava estudando em casa para fazer quatro provas logo mais à noite quando Galego Demônio chegou com seu livro Eu Imortal debaixo do braço.

- Vamos já para Serra do Navio - disse a Alexandre.

- Tenho quatro provas hoje à noite.

- O estudo formal embota os neurônios. Já está tudo certo: vagão-leito especial no trem, suíte no hotel e duas professoras mineiras para uma bacanal.

Alexandre ficou calado.

- Partamos já para a aventura! A rotina é um veneno lento. O bar nos espera. Serra do Navio é um apelo irresistível com suas fêmeas mineiras.

- Resolvi ir, mas não porque Galego Demônio tivesse me convencido a ir, com aquele papo dele. Estava entediado só de pensar nas quatro provas.

Moacir Canto serviu novas doses de whisky e Alexandre pôs-se a contar o resto do caso. Já anoitecia quando ele e Galego Demônio saíram da casa de Alexandre, entraram no bar da esquina e pediram uma meiota. Não demoraram lá e foram a seguir para o Picolé Amigo, um bar onde R. Lima bebia de vez em quando. Com efeito, encontraram-no lá.

- Lembro-me que no Picolé Amigo houve uma discussão entre R. Lima e Galego Demônio. Galego Demônio estava botando muita banca e R. Lima disse que seu livro deveria se chamar Eu Idiota, porque ao ler os originais de Eu Imortal encontrara jacaré com g.
- Do ponto de vista da linguística é possível - Galego Demônio se defendeu. - Sobretudo para um niilista igual a mim.

- E foi com o niilismo dele que eu tomei no rabo - disse Alexandre para Moacir Canto. Acabara resolvendo, no Picolé Amigo, que deveria fazer as quatro provas, e não teve quem o dissuadisse da idéia. Galego Demônio foi com Alexandre para matar algumas questões. Ao chegarem ao Colégio Amapaense um inspetor disse-lhes que não podiam entrar senão uniformizados. Alexandre pediu para falar com o diretor. Impressionado, ou melhor, narcotizado com o bafo de bebida, o inspetor não opôs objeção em anunciá-los ao diretor, que estava ali perto fiscalizando ele próprio se os seus meninos encontravam-se devidamente uniformizados. Quando Alexandre e Galego Demônio se aproximaram do diretor ele estava atendendo um recruta do Exército que saíra do quartel diretamente para o Colégio Amapaense, de modo que não pudera vestir o uniforme de estudante. Levado pelo hábito, o rapaz se perfilou.

- Ô idiota! Esse gajo não passa de um professor de História! - observou Alexandre para o recruta.

- O quê?! - gaguejou o diretor.

- Seu merda, foste tu que levaste A Galinha para o governador, aquele ditador do caralho - disse Alexandre, referindo-se ao jornalzinho que lhe rendera dez dias de suspensão.

- Vou chamar a polícia - disse o diretor, com seus olhos que eram esbugalhados de nascença.

Galego Demônio tinha visto umas fêmeas gostosas e tentou pegar no rabo de uma delas. A moça deu um grito que chamou a atenção do diretor; ele passou uma reprimenda em Galego Demônio. A reprimenda foi mesmo que nada. Galego Demônio já estava com o pau para fora e tentou metê-lo no diretor.

- Foi uma cena muito engraçada aquele veado de um figa correndo com o Galego Demônio atrás, com aquele pau mole dele, pingando gonorréia. Descemos correndo a escada, pois a polícia já fora chamada, e voltamos ao bar onde deixáramos R. Lima. Pedimos mais uma garrafa de Pitú. Iríamos cedo para Santana e de lá embarcaríamos para Serra do Navio. Mais ou menos à meia-noite R.Lima foi embora e ficamos só nós dois no bar. Tomamos mais duas e zarpamos. Daí não me lembro mais de quase nada.

Alexandre cochilou. Acordou com uns respingos quentes no braço. Moacir Canto tinha se levantado, aberto a panela de canja e levou-a para a sala, quando a panela virou, espalhando canja pelo chão. O escrivão cantava alegremente no banheiro. Moacir Canto pegou o que ainda restava da canja na panela, foi até a porta do banheiro e jogou a canja lá para dentro. O escrivão deu um berro. Ao ouvir o grito, Alexandre levantou-se rapidamente pronto para correr. Antes de ir embora Moacir Canto olhou em volta e depois, como se lembrasse de algo, pegou a chave da porta. Nestas alturas o escrivão saiu do banheiro chorando e todo melado de canja. Moacir Canto saiu e fechou a porta por fora. Lá embaixo, jogou a chave no esgoto que cortava a rua longitudinalmente.

- Vamos pegar um ar lá na amurada? - disse Alexandre.

- Vamos pegar um rato podre no pescoço? - disse Moacir Canto, atirando nas costas de Alexandre uma ratazana morta, que encontrara na calçada, correndo depois para a amurada que dava para o rio, ao lado da Fortaleza São José de Macapá.

Alexandre abaixou-se numa poça de água e lavou o pescoço. Depois andou em direção a um depósito de madeira. Moacir Canto veio também e entrou no depósito. Alexandre adormeceu recordando de A Galinha, o jornalzinho que não passou do primeiro número. Havia, em sala de aula, um ricaço. O pai era dono de boa parte da cidade. Ele se ofereceu para financiar o jornal. Foram, então, uma noite, para a casa do ricaço. O filho dele os levou para o gabinete de trabalho do velho. Lá pelas tantas Alexandre tirou o telefone do gancho e discou um número qualquer. Nestas alturas, o velho estava tomando soro no quarto dele e apanhou a extensão para saber do que se tratava àquela hora da noite, quase onze horas.

- Alô! - disse uma voz de mulher, sonolenta.

- Quem é?

- Solange - disse a voz.

- Oh! Solange! Minha doce cadelinha, vaquinha linda, minha bocetinha fedendo a merda, vou já aí para empurrar meu caralho na doçura do teu jardim de trás...

O ricaço arrancou a agulha da veia, pegou um cinto e irrompeu no escritório. O velho entrou dando lambada no filho dele. Havia, além de Alexandre, outro redator, um garotão de cabeça raspada, que montou na sua bicicleta e se evaporou.

O primeiro número do jornal, e único, saiu com uma matéria sobre o governador, o general ditador do Amapá, Ivanhoé Gonçalves Martins. Dizia que ele passava o dia de binóculos por trás das persianas da sua sala, no Palácio do Setentrião, tentando ver, do outro lado da Praça da Bandeira, as calcinhas das estudantes que se sentavam sobre o muro do Colégio Amapaense. Sobre o diretor do educandário dizia que tinha um acordo tácito com algumas de suas alunas, de modo que lhes dava nota dez se elas se arreganhassem e o deixassem ver suas calcinhas nas aulas de História. Na mesma edição foram escolhidos os dez mais punheteiros. O diretor enviou um exemplar do jornal ao secretário de Educação, que o enviou ao governador. Mas nesse trâmite o exemplar desapareceu. Houve um inquérito e os responsáveis por A Galinha, que na expectativa dos rapazes deveria pôr ovos de ouro, acabou rendendo-lhes dez dias de suspensão.

Quanto a Galego Demônio, naquele mesmo dia tropical úmido em que Alexandre ganhou as obras completas dos irmãos Grimm, o poeta entrou no Gato Azul e pediu uma dose de rum Montilla. Fazia aquilo ordinariamente e bebia até o anoitecer. Então voltava para casa, jantava e saía. Naquele dia bebera além do normal. Ao retornar a casa não encontrou ninguém. Estava sozinho. O pai fora comprar açaí no arquipélago do Marajó; a mãe estava em Belém; a irmã, sabe Deus. Foi ao fogão. Comeu nas próprias panelas. Sentia-se pesado. Foi ao quarto. Deitou-se. Dormiu. Canguru Sem Freio, a irmã, estivera escondida, espreitando-o. A claridade da luminária do poste vencia o piche da noite sem estrelas e entrava no quarto, banhando os móveis com um manto irreal. Galego Demônio dormia de peito para cima. Assim, dormindo, era belo como qualquer jovem da sua idade. A primeira machadada pegou no lado do pescoço. Galego Demônio acordou como se estivesse impulsionado por molas. Tentou agarrar-se em alguma coisa e começou a gorgolejar como porco sangrando. Canguru Sem Freio ligou a lâmpada e olhou para Galego Demônio. Ergueu de novo o machado. Galego Demônio fitou-o aterrado e começou a arrastar-se para um dos lados da cama, já empapada de sangue. Canguru Sem Freio depôs o machado no chão, com o cabo encostado na cama, desafivelou o cinto de Galego Demônio e arriou sua calça, juntamente com a cueca. O pênis de Galego Demônio estava com os curativos purulentos como sempre. A machadada deixou-o apenas pendurado pela pele do escroto. A próxima machadada seccionou-o. Depois, Canguru Sem Freio aprumou bem o machado, como se fosse dar o golpe final em um tronco que estivera tentando partir ao meio, e desceu-o. A cabeça de Galego Demônio pulou e foi bater na parede. Canguru Sem Freio arrastou o corpo mutilado, desceu as escadas, caminhou até o monturo e atirou-o sobre o monte de caroços de açaí. Chovia como o diabo. Canguru Sem Freio voltou ao quarto de Galego Demônio, levando seu pistom, e pôs-se a tocar O Silêncio.