segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O mal por si se destrói

O ar estava abafado, sufocante. Havia dejetos e vômito espalhados naquele ponto da galeria sob o Eixão, na altura da Quadra 109 Sul. Ele estava imóvel na parte mais escura, logo abaixo da escada, na entrada do Eixinho Oeste. O fedor parecia não incomodá-lo. Estava todo de preto e usava capuz.

“Se for um homem, o matarei com um só golpe na garganta. Se for uma mulher, a estuprarei, e a matarei ou não, dependendo do meu estado de espírito quando terminar. Se for um casal, matarei o homem e estuprarei a mulher” – ele pensava, com seu português impecável.

Era iniciado em kenjutsu, mas fora expulso da academia que frequentava pelo seu ex-mestre. “O mal por si se destrói” - seu ex-mestre vivia lhe dizendo. “Você é apenas um bandido.” Seu ex-mestre tinha razão. “Nada pode deter-me” – ele pensou. Na verdade, uma abelha poderia matá-lo, pois seu organismo não apresentava a menor defesa a veneno.

Eram 23 horas de um sábado e o Eixão estava deserto, exceto pela jovem que caminhava sozinha, bela como uma rara flor da noite. Ela vinha pela calçada com a intenção de entrar na passarela da 109 Sul, embora não houvesse movimento de carros no Eixão, que é uma via expressa, e ela pudesse atravessar o Eixão por cima.

Lá embaixo o homem-sombra sentiu sua aproximação. Ele estava concentrado quando sentiu a ferroada. O escorpião saíra de um buraco na parede e o ferroou na garganta. A espada caiu e fez um som metálico sobre a boca-de-lobo e ele caiu com as narinas sobre um  grande dejeto, que o sufocou.

Lá em cima, um automóvel parou ao lado da moça. Ela ouviu que a chamavam e entrou no carro.

- Você vai para onde? – o rapaz lhe perguntou.

- Ia entrar na galeria para ir para casa. Moro na 209 Sul – ela respondeu.

- Você é louca? Entrar numa galeria dessas depois das 21 horas é suicídio. Você quer ser estuprada? – ele perguntou.

- Que horror, Marquinho! – ela disse.

- Que horror, não! Você vem de onde?

- De uma festinha na casa da Cris.

- Não faça mais isso, Alessandra. Não ande mais tarde da noite e em pontos ermos. Orai e vigiai!

- Está bom, não farei mais isso.

- Saí por acaso, para comer uma pizza. Estava em casa vendo televisão e de repente me deu vontade de sair para comer pizza. Chegamos!

- Obrigada!

- Amanhã haverá um culto aos antepassados – ele disse.

- Eu irei – ela disse, decidida, depois de pensar um pouco.

Uma brisa balançou as folhagens das árvores próximas.

- Acho que vai chover – ela disse.

- De hoje não passa – ele disse.

Mais tarde, a tempestade alagou vários pontos da cidade. Aconchegada ao travesseiro Alessandra sonhou com seu pai, que havia morrido certo um ano antes.


Brasília, 25 de outubro de 2010

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