segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ninguém é profeta em sua terra


Comecei a ouvir falar em Bonfim Salgado por volta de 1967. Tinha 13 anos e Bonfim já era um jovem intelectual de Macapá. No ano seguinte, quando comecei a frequentar a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho, na Rua Mário Cruz, ouvi com mais frequência o nome do Bonfim e, às vezes, o via passar. Anos depois, o conheci no Rio de Janeiro. Depois disso, trocamos e-mails aqui e ali. Em 18 de fevereiro de 1998, Bonfim Salgado publicou na capa do caderno Nota 10, do jornal Diário do Amapá, o artigo Ninguém é profeta em sua terra. Segue-se o artigo.

Ninguém é profeta em sua terra

BONFIM SALGADO
bonfa.wordpress.com
Editor de Cultura do Diário do Amapá

Macapá, 18 de fevereiro de 1998 – O rapaz, a princípio, parece tímido. Ele não é alto, nem espadaúdo, como essa rapaziada frequentadora das praias e das academias de malhação da vida. O fato é que, outro dia, ele andava pelas ruas de Macapá, envergando aquela imagem comum aos nossos poetas e escritores: um calhamaço de papéis debaixo do braço, uma caneta Bic no bolso e uma porção de ideias na cabeça. Assim como aconteceu com Isnard Lima, nunca lhe deram o valor devido – e merecido.

Hoje, na capital do Pará (Belém), jornais e revistas publicam obras suas. Ele continua escrevendo e, vez por outra, referindo-se sobre o Amapá. As saudades, no entanto, não o impedem de fixar-se, cada vez mais, às raízes da Amazônia, à seiva bruta, generosa e forte que faz dos nossos caboclos autênticos gigantes da vida.

Ray Cunha, no conto Nunca receba restos, publicado no final do ano passado no jornal A Província do Pará, ensaia seus personagens e indica os caminhos do que poderá ser, em futuro próximo – se  é que ainda sei prever essas coisas -, o arcabouço do seu primeiro grande romance.

Graça e a “Gorda”, no conto retrocitado, compõem a galeria daquelas figurinhas noturnas que empestam a atmosfera peculiar do cais e feira livre do Ver-O-Peso, em Belém, cidade de cheiros, dengos e mistérios.

Aliás, apesar do pseudônimo de Reinaldo Castro, personagem principal do conto, é quase palpável um autodidatismo e uma identidade de Ray Cunha no desenrolar da narrativa.

“- Rainaldo Castro! – a gorda cacarejou, abaixando-se e beijando-me. A outra serpenteou e pousou no meu ombro a mão enegrecida pelo sol de alguma praia.

“- Olá, como vai? Como vai a faculdade?

“Bebi um bom gole. A negra dizia que a cerveja estava devidamente gelada, resignava-me e bebia com gosto mesmo assim, posto que era Antarctica.

“- A universidade? Tenho usado muita creolina...

“A crioula ficou atenta por causa do tom com que disse isso. A gorda pedira uma posta de peixe, não sem antes comer um naco do meu peixe.

“- E o Bebê? – Graça perguntou.

“Antes de casarmos, ela trepava com ele.

“- Casou-se – respondi.

“- Casou-se?! – as duas espantaram-se.

“A gorda, com um segundo naco do meu peixe.

“- Hoje é dia internacional... – disse, mudando o rumo da conversa. Estava bem-humorado.

“- De quê? – a gorda perguntou.

“- Das galinhas... – a crioula pegara alguma coisa e estava atenta – e das cadelas também.

Ray Cunha promete.”


O conto Nunca receba restos, do qual Bonfim Salgado publicou um trecho, foi publicado no livro A grande farra (27 contos, 153 páginas), que editei em 1992, em Brasília, com capa de Olivar Cunha.

domingo, 28 de novembro de 2010

O perfume das virgens ruivas

Naquela época eu trabalhava no jornal Diário do Pará e na revista Enfoque Amazônico, hoje, Amazon View. À noite, ia estava quase sempre ao café de um amigo meu, na Avenida Nazaré, próximo à Basílica, onde ele era barman e sócio. Conheci-o no Cosa Nostra, um dos melhores cafés de Belém. Na primeira vez que estive no Cosa Nostra fui atendido por esse barman e pedi um daiquiri, descrevendo-o do modo como Ernest Hemingway gostava de bebê-lo. Ele preparou a bebida tal qual pedi e, naturalmente, entabulamos conversa. Essa conversa se alongou até 1987, quando eu resolvi morar de novo no Rio de Janeiro, onde vivi de 1972 a 1974. Acabei ficando em Brasília, trabalhando com meu grande mestre no jornalismo, Walmir Botelho.

Passei a frequentar o Cosa Nostra. Inclusive estive lá com o Fernando Canto. Acabei entrevistando meu amigo barman para o Enfoque Amazônico. Lembro-me que o título principal da matéria foi “Tim-tim”. Um dia, ele foi convidado a fundar um novo café, em sociedade com mais uma ou duas pessoas, não me lembro bem, e se mudou para a Avenida Nazaré.

O café vivia cheio. Suas portas eram de vidro fumê e o salão refrigerado. A fauna que transitava ali era variada. Jornalistas, homens de negócios, artistas, contrabandistas, vigaristas, prostitutas, todos bem à vontade, conversavam, telefonavam, bebiam, riam, atentos uns aos outros, disfarçando a verdadeira missão de cada qual no enfumaçado ambiente.

Eu não pagava nada no café e não raro saía dali ziguezagueando, completamente bêbedo. Naquela noite, resolvi me embebedar com dry martini. Meu amigo reservou uma garrafa de gin inglês e outra de vermute italiano para meus drinks. Eu havia chegado cedo e no início da madrugada começara a escorregar para aquele mundo vertiginoso dos bêbedos quando ela entrou.

Era uma das mulheres mais sensuais que já vi. Entrou e se dirigiu diretamente para mim, como se tivéssemos marcado um encontro. Veio e se aboletou no tamborete ao meu lado, sorriu para mim e entabulou conversar. Como quase não havia movimento, meu amigo barman veio se juntar a nós. Eu já havia parado de beber, mas depois que ela chegou voltei a beber dry martini. Ela parecia fresca, mas estava chumbada também, e entornava um dray martini atrás do outro.

Não sei sobre o que conversamos, só me lembro de que entramos num táxi e fomos para um dos melhores moteis da cidade. Quando chegamos, ela estava tão bêbeda que tirou toda sua roupa e se deitou de bruços na enorme cama. Eu fiquei parado, no meio do quarto, vendo-a se despir e se deitar. Ela era demais linda! Peguei uma cadeira, pu-la no meio do quarto, me sentei e fiquei um tempão observando a garota. Lembrava uma modelo renascentista, dourada pelo sol da Amazônia. Suas ancas pareciam ter sido cinzeladas. Penso que ela não teria mais que 17 anos.

Fiquei ali, sentado, lambendo com os olhos o corpo maravilhoso da jovem adormecida. Ela sonhava. Certamente sonhava com rosas colombianas, vermelhas.

No dia seguinte, um domingo, eu teria que chegar o mais tardar às 7 horas no jornal, pois era julho, auge do verão amazônico, e fora pautado para fazer uma matéria em Salinas, na costa paraense. Assim, acordei antes das 6 horas e despertei minha bela adormecida. Incrível como ela me olhou fresca e sorridente, me beijou, foi ao banheiro, se vestiu, com a desenvoltura de uma esposa já bastante familiarizada com o marido, e saímos. Deixei-a na casa dela, no subúrbio, e fui para o jornal.

Naquela manhã, fiz o desjejum em Salinas, meia dúzia de ostras cruas, com sal e limão, e Antarctica enevoada. Salinas é uma das mais belas praias do planeta, escancarada para o Atlântico. O que a torna especial é que lá podemos comer os mais saborosos peixes do mundo, tomar tacacá e ouvir o sotaque das belenenses que fervilham nas praias quilométricas.

Eu era setorista no palácio do governo. Dias depois, estava lá, no batente, quando recebi um telefonema. Era ela. Ligara para o jornal, obtivera o número do telefone da sala de imprensa do palácio e ligou para mim. Sua voz era límpida, voz de mulher linda. Ela me disse que iria à sua cidade natal, no interior do estado - não me lembro mais qual era a cidade –, e que precisaria de uma certa quantia. A soma era pelo menos quatro vezes o que eu ganhava por mês nos dois trabalhos. Ela pronunciou o valor como se fosse uma ninharia. E de certa forma era isso mesmo, se falarmos em termos relativos. Respondi a única coisa que me ocorreu, que era a verdade: eu não tinha sequer um centavo. Ela riu e disse que na volta telefonaria para mim novamente.

Ela não voltou a telefonar para mim e nem a vi mais. Muito tempo depois compreendi que sua missão fora a de ajustar minhas antenas, para que eu descobrisse a poesia, única, que é cada mulher. E sei que não foi um sonho, porque seu perfume perdura para sempre na minha memória, como o perfume das virgens ruivas.


Brasília, 11 de novembro de 2009

sábado, 27 de novembro de 2010

O homem que mais entende de Amazônia em todo o planeta

Qualquer estudioso que pretenda entender o Brasil não pode se furtar a compreender também a Amazônia, a mais rica província biológica e mineral do planeta, e de uma beleza arrebatadora para quem aprende a vê-la além do coração das trevas. E o cânone para entender a Amazônia lista cinco escritores paraenses: os romancistas Dalcídio Jurandir e Benedicto Monteiro, ambos mortos; e o poeta e ensaísta João de Jesus Paes Loureiro, o ensaísta Vicente Salles e o ensaísta e jornalista Lúcio Flávio Pinto. É de Lúcio Flávio Pinto que vou falar.

Ele é um dos mais importantes jornalistas brasileiros e o intelectual que mergulhou mais profundamente nos tecidos da Amazônia, até conhecê-la tão intimamente, e transmitir isso com tanta propriedade, que seu Jornal Pessoal e seus livros se tornaram consulta obrigatória de estudiosos e do stablishment, principalmente o stablishment do estado do Pará, especialmente os que têm pavor da sua caneta.

Lúcio Flávio Pinto nasceu em Santarém, em 23 de setembro de 1949. Jornalista profissional desde 1966, trabalhou em algumas das principais publicações da imprensa brasileira. Em 1988, deixou a grande imprensa para se dedicar ao Jornal Pessoal, newsletter quinzenal que escreve sozinho desde a primeira quinzena de setembro de 1987, em Belém, tornando-se a publicação alternativa de existência mais duradoura do país.

Lúcio Flávio Pinto recusa publicidade no Jornal Pessoal, que sobrevive da venda avulsa, sobretudo em bancas de revista e livrarias de Belém, a mais importante cidade da Amazônia, com 1,5 milhão de habitantes. O Jornal Pessoal, em formato ofício, tem 12 páginas e não tem fotos.

Certas informações e abordagens sobre a Amazônia só aparecem no Jornal Pessoal, razão pela qual Lúcio Flávio Pinto é vítima de implacável perseguição dos donos do poder. Já sofreu mais de 30 processos na Justiça do Pará e foi condenado quatro vezes pelo crime de escrever a verdade, vivendo em um Estado mergulhado na Idade Média, região bárbara de um país violento. Lúcio Flávio Pinto já foi surrado em público e só continua vivo porque se tornou maior do que o Pará.

Sociólogo, formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo (1973), foi professor visitante (1983/1984) no Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade da Flórida, em Gainesville, Estados Unidos, e foi professor visitante no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea) e no Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Recebeu quatro prêmios Esso e dois Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), que, em 1988, considerou o Jornal Pessoal a melhor publicação do Norte e Nordeste do país. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005, recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection, de Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos.

Tem 12 livros publicados, todos sobre a Amazônia, os últimos dos quais são: Hidrelétricas na Amazônia, Internacionalização da Amazônia, CVRD: A sigla do enclave na Amazônia, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder.

O site www.lucioflaviopinto.com.br contém as edições do Jornal Pessoal, “disponíveis para consultas por todos aqueles que se interessam pela Amazônia e pelo jornalismo independente”. Todo acervo da publicação vem sendo, aos poucos, disponibilizado no site.

O Jornal Pessoal sobrevive também de colaborações. Se você quiser contribuir, deve depositar sua colaboração na seguinte conta bancária:

Unibanco (banco 409)
Conta: 201.512-0
Agência: 0208
CPF: 610.646.618-15

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Potra em vestido de seda

Não estava pensando em coisa alguma. Deixava-me caminhar aos raios de sol nas frestas das árvores, embalado pelo canto dos pássaros e flutuando na sensação do não pensamento quando ela surgiu, de repente, no meu raio de visão. Eu caminhava pela alameda que ladeia ao norte a superquadra 311 Sul. Era uma ensolarada manhã de domingo, ainda cedo. O canto contínuo de um sabiá se sobressaía ao dos outros pássaros, exceto quando casais de joão de barro cantavam subitamente. Ia comprar o Correio Braziliense na banca da 311/212.

Ela se materializou à minha frente. Poderia alcançá-la, se quisesse. Bastaria que apressasse o passo, pois ela caminhava lentamente. Parecia que acertara o passo comigo, distante talvez três metros adiante de mim. A primeira coisa que me chamou a atenção foi seu vestido de seda, longo e estampado de rosas vermelhas sob fundo azul. O vestido era quase justo e as ancas da mulher moviam-se esculpidas sob a seda. Seus tornozelos eram bem torneados e seus pezinhos flutuavam em sandálias Havaiana rosas. Subi com meu olhar o dorso da mulher inesperada e me concentrei nos seus cabelos, que jorravam em aneis negros sobre os estreitos ombros, contrastando, livres, no decote, com a estampa da seda. Sua pele tinha a cor de jambo maduro.

Qual seria seu nome? Onde moraria? Aonde ia? Era a síntese perfeita do Brasil, no seu traje, no seu caminhar, na sua pele, naquele mistério intrínseco à sensualidade. Uma ideia, que me pareceu absurda, me assaltou. Ia chamá-la. Diria a ela que queria apenas vê-la de mais perto. Ela não se furtaria a isso, de se deixar ver de pertinho, num gesto redentor. Não tive, porém, a ousadia de chamá-la. Apressei o passo, então. Estava quase a alcançando quando ela sumiu, assim como surgiu. Só então percebi que meu subconsciente me enganara. Ela existe, sim, mas era uma personagem de ficção.

Entrei na banca, olhei as capas das revistas semanais, folheei a National Geographic de setembro, que traz uma matéria interessante, sobre a calha norte do baixo Amazonas. Comprei o Correio Braziliense e voltei para casa.


Brasília, 15 de setembro de 2009

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Site Brasil CPLP publica matéria sobre o Grupo Pilão

O portal Brasil CPLP publica matéria sobre o Grupo Pilão, a mais importante banda do estado do Amapá, na Amazônia Caribenha. O grupo é liderado pelo escritor e compositor Fernando Canto. Leia a matéria vinculando-a ao endereço:

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Romance ambienta Golpe de 64 na Amazônia

Na primeira foto, capa do romance A Casa Amarela, assinada pelo artista plástico André Cerino. Na segunda imagem, a quarta capa do livro, com bico de pena da minha filha, Iasmim Moreira Cunha, então com 14 anos. Na terceira foto, minha ex-mulher, Maria Célia Ferreira chagas, e eu, autografando A Casa Amarela no estande da Editora Cejup, na VIII Feira Pan-Amazônica do Livro, em Belém, no início da noite de 24 de setembro de 2004. Na quarta foto, minha enteada, Celina Leila, e eu, na mesma noite.


EM 2004, A EDITORA CEJUP, DE BELÉM DO PARÁ, voltava a publicar um romance meu, A Casa Amarela (158 páginas), ambientado em Macapá, nos anos iniciais do Golpe Militar de 1964. Como ocorreu com os livros publicados anteriormente pela editora belenense – A Caça e O Lugar Errado -, A Casa Amarela vende a conta-gotas, pois a distribuição da editora e a divulgação do seu catálogo se restringem a Belém. Em Brasília, o livro foi divulgado em matéria de 23 de novembro de 2004 e artigo do escritor e jornalista Luiz Adolfo Pinheiro no site ABC Politiko, e em resenha do jornalista José Luiz Oliveira publicada no Jornal de Brasília.

A matéria do ABC Politiko

“O novo romance de Ray Cunha é tão oportuno quanto perturbador” - garante o jornalista e escritor Luiz Adolfo Pinheiro, em resenha para o http://www.abcpolitiko.com.br/. “Trata-se de um romance fascinante e trágico” - diz, em outra resenha, o jornalista José Luiz Oliveira. Pela primeira vez na literatura brasileira um escritor ambienta o Golpe de 1964 na Amazônia.

O jornalista e escritor amapaense, baseado em Brasília, autografará seu novo livro, A Casa Amarela (Editora Cejup, Belém, 2004, romance, 158 páginas, R$ 28), na Livraria Esquina da Palavra (406 Norte, Bloco D, Loja 4), nesta quarta-feira, 24, a partir das 19 horas. A Casa Amarela é distribuído nacionalmente pela Editora Cejup/Distribel, de Belém do Pará.

A ação do romance começa com o Golpe Civil-Militar de 1964, que impôs ao país uma ditadura de 21 anos. O cenário é a Amazônia caribenha, a capital do antigo Território Federal do Amapá, a remota São José de Macapá, cidadela sitiada pela selva, pelo maior rio do mundo, pelo sol equatorial e pelas trevas do Golpe.

A família Picanço Cardoso vivia feliz naquela casa amarela, cercada de flores, na orla da Mata do Rocha. Mas 1964 reservava uma tragédia à família, e ao país. Porém o Golpe atingiu os Picanço Cardoso com particular virulência.

Macapá é a cidade natal do autor, que atua na mídia da Amazônia desde 1975 e na imprensa brasiliense, desde 1987. Ray Cunha, que escreve a coluna Enfoque Amazônico (a coluna não existe mais), neste site, vive, com sua esposa e filha, em Valparaíso de Goiás, nos arredores de Brasília.

A seguir, leia as resenhas Amazônia impressionista, do escritor e jornalista Luiz Adolfo Pinheiro, e Amazônia ensanguentada, do jornalista José Luiz Oliveira. 

Amazônia impressionista

LUIZ ADOLFO PINHEIRO

Ray Cunha é um bom contador de histórias sobre a gente da Amazônia, porque ele também é gente da Amazônia. E os anos de distância da terra natal em nada comprometeram suas lembranças e sua vivência do povo e da paisagem amazônicos. Ele já provou isso em outras obras como Trópico Úmido, a minha preferida, e só para citar uma única.

Por isso, é sempre um prazer renovado mergulhar em nova obra do Ray, como este romance A Casa Amarela, tão oportuno quanto perturbador. Pois o autor não busca a linguagem expressionista, aquela que tanto seduz novelistas deslumbrados com o significado das palavras em si mesmas. Ele pratica a linguagem impressionista, aquela que vai diretamente à medula do osso e conta, sem rodeios, o que pretende contar.

Em A Casa Amarela, Ray Cunha desloca sua narrativa da Belém cenário do conto Inferno Verde, do livro Trópico Úmido, para a sua Macapá natal. No universo amazônico, as duas cidades se distinguem pelo tamanho, população e importância política e econômica, mas no cotidiano são o mesmo mundo de água, sol, paixão e esperanças - algumas vividas, outras perdidas. A saga é da família Picanço Cardoso, que, como as demais do Brasil, foi de alguma forma afetada direta ou indiretamente pelo Golpe Civil-Militar de 1964.
Que não se espere da leitura, entretanto, um tratado político-ideológico a respeito do significado de 1964 para a história recente do país. O autor não escreveu um ensaio, mas um romance - cheio de vida, de amor, de misérias, de namoros e de estupros, de torturas e de mentiras. E, de permeio, o inconfundível mundo amazônico, a natureza bela e áspera, como descreve o próprio Ray: “Ouvia-se, nitidamente, em meio aos sons da selva, o silêncio da tocaia. Aquele silêncio entremeado de sons remotos e crepitar de insetos. O céu era azul-escuro e, ao mesmo tempo, azul-claro, até ficar translúcido”.

E, em outro trecho, a riqueza do rio e da mata, que alimenta o homem e o prende ainda mais à telúrica mãe amazônica: “Nenhuma comida do mundo era melhor do que a de mamãe. Seu feijão era algo de outro mundo. Bastava misturá-lo ao arroz, farinha e um bife ao molho. Às vezes, papai comprava fígado ou bucho. Às vezes, havia bicho de casco, tatu, paca, cotia, capivara ou camarão, piracuí ou peixe. Gostava também de açaí, melancia, graviola, taperabá, ata, tucumã, mucajá, pupunha com café. Às vezes, quando o mar estava para peixe, o desjejum era feito com tapioquinha amanteigada ou bolo de macaxeira. Outras vezes, abundavam banana chorona e mangas”.

O Amapá emerge vigoroso com sua gente destemida, seus aventureiros, seus sonhos de grandeza - ora de virar um Estado da Federação, como de fato ocorreu, ora até como um Estado independente deste Brasil tão longe, tão distante, tão distinto. E, no meio do cenário, a saga de Mel Picanço Cardoso, a jovem de dezessete anos, “pele rosada, longos cabelos em cascatas, arruivados, grandes olhos cor de mel, lábios polpudos como frutos maduros e longos dedos, em mãos prenhes de meiguice”, a princesa da Casa Amarela, sua residência, que um dia, como tudo na vida, seria demolida - como demolidos foram tantos sonhos e esperanças, dela própria e de outros.

Ao se comentar resumidamente um romance cheio de vida, como A Casa Amarela, sem revelar ao leitor os meandros da história, conforta-nos a certeza de que a ditadura cultural e econômica exercida no país pelo eixo Rio-São Paulo não faz calar a voz dos que, em todos os rincões da pátria comum, principalmente como Ray Cunha na vasta e misteriosa Amazônia, permanecem fiéis aos valores e ao sentimento de profundo amor à sua gente e à sua terra natal.

Amazônia ensanguentada

JOSÉ LUIZ OLIVEIRA

Autor conhecido na região amazônica - já publicou seis livros, incluindo contos e poesia -, mas pouco lido por aqui, Ray Cunha nos brinda agora com o segundo romance. A Casa Amarela conta a história, fascinante e trágica, da família Picanço Cardoso durante o Golpe de 1964, em Macapá, capital do Amapá e berço do autor. Fascinante porque nos leva aos tempos de criança, irresponsavelmente desbravando matas atrás de pássaros, garimpando frutos nas grimpas de árvores frondosas, mergulhando escondidos dos pais em rios para fugir do calor; fascinante porque nos remete à adolescência, aos primeiros beijos, à primeira experiência sexual. E trágico porque nos aviva, com o assassinato do adolescente Alexandre Picanço Filho, na masmorra do regime militar, o período de trevas por que o país passou, com sua carga de sangue a escorrer dos porões.

Alexandre era apenas um jovem inteligente, um líder estudantil que queria ver a Amazônia desenvolvida por meio de sua riqueza natural e integrada ao Caribe. Acabou preso como comunista. Saiu morto da prisão, nos braços do pai. A mãe e a irmã prepararam o corpo para descer à sepultura, em um ritual que deixa o leitor com um nó na garganta.

A Casa Amarela é uma obra carregada de emoções fortes, entremeada de passagens cômicas, como as sacanagens do Velho Rocha, que não perde oportunidade de deixar um amigo em situação constrangedora. Não perdoa nem as crianças que invadem a sua mata, a Mata do Rocha.

Com o olhar do bom jornalista que é, Ray Cunha vai fundo nas emoções e pinta, por meio dos personagens, uma Macapá deslumbrante.

Dá vontade de sair correndo e cair nos braços dela.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O coração das trevas

A Amazônia é um paradoxo. O mais belo realismo fantástico da Terra, a mais rica província mineral do mundo, a maior diversidade biológica do planeta, é também O coração das trevas, obra-prima de Joseph Conrad, uma zona imprecisa da alma. Esse pequeno romance de pouco mais de 150 páginas é um golpe de navalha seccionando tecido humano, obsceno como o ataque de hienas. É o mais intenso de todos os relatos que a imaginação humana jamais concebeu, disse o labiríntico Jorge Luís Borges. Assim é a face obscura da Amazônia. O Inferno Verde não é a selva profunda, mas o latejar da escuridão, espasmos da alma amazônida, a loucura e o malogro da civilização colonialista.

A Amazônia é saqueada desde o século XVI. Potências européias, americanos, brasileiros de todos os recantos do país, inclusive os governos, um após outro, todos têm repasto garantido na Amazônia. Nos dias de hoje, leva-se, da Amazônia, a floresta, energia hidrelétrica, minérios, pedras preciosas, animais, mulheres e crianças, e é um dos locais onde mais se escraviza no mundo. Até agora, o desenvolvimento imposto à Amazônia é para dizimar os amazônidas - índios, ribeirinhos, caboclos, quilombolas - e para encher os cofres de políticos que transformam o erário em lavanderia.

Esqueçamos os generais que pisotearam a Amazônia durante 21 anos e nos transportemos aos últimos 16 anos da vida pública brasileira, oito dos quais comandados pelo “paulistano” Fernando Henrique Cardoso e oito pelo arigó-paulistano Lula. Ambos governaram de costas para a Amazônia. Lula, que, finalmente, está de saída, trata a Amazônia da mesma forma que todos os demais presidentes deste país a trataram: como uma colônia, e colônias servem para serem saqueadas. Mas com uma diferença: Lula governa o país com a mesma astúcia com que criou e programou o PT - o propósito que movia Stalin e seus mensaleiros.

Um caso que aconteceu em novembro de 2007, em Abaetetuba, cidade do quintal de Belém, constitui-se uma metáfora da Amazônia. Delegados da Polícia Civil do Pará, com a conivência de gente do Judiciário, atiraram uma menina, uma criança, a dezenas de criminosos na cadeia da cidade. Essa criança foi currada dia após dia, durante um mês. Assassinos, estupradores, espancadores de mulheres e crianças, ladrões, arrombadores, batedores de bolsa de velhinhas, psicopatas, drogados, caíram em cima dessa menina, como hienas, e os policiais, ali perto, ouvindo e vendo tudo. Masturbavam-se? Os berros de terror eram ouvidos pelos delegados e pelos moradores da cidade, e ninguém moveu uma palha por ela.

Quando esse caso estourou na mídia, uma delegada envolvida, em depoimento no Congresso Nacional, disse que a menina provocava os presos e se oferecia a eles. O então secretário de Segurança Pública do Pará afirmou que a menina se fez passar por maior de idade e achava que ela era retardada. A governadora, a petista Ana Júlia Carepa, que não conseguiu se reeleger, tratou o caso com a habitual alienação, e tudo mergulhou no esquecimento. Aliás, crianças são emblemáticas na tragédia da Amazônia.

Em 27 de junho de 2006, publiquei na minha antiga coluna Enfoque Amazônico, no site brasiliense ABC Politiko, o mapa da escravidão sexual infantil na Amazônia. Relendo o texto, vejo que essa realidade continua como um nervo exposto. O tráfico de crianças para escravidão sexual é um dos crimes mais repudiados pela sociedade, por sua feição abjeta, mas é corriqueiro na Amazônia. Em 1979, fiz, para o antigo mensário Varadouro, em Rio Branco, uma reportagem sobre o tráfico de meninas pela BR-364, espinha dorsal do Acre, que liga o estado ao resto do país. Frequentei boates e bares, pontos de encontro de caminhoneiros, entrevistei prostitutas e rodoviários, e bisbilhotei registros policiais, concluindo que parte dessas meninas que sumiam em Rio Branco era atirada em prostíbulos de Porto Velho, Manaus e Goiânia. Outras, simplesmente fugiam da miséria. Trinta e um anos depois a situação piorou, e muito. O drama, que afeta toda a Amazônia, foi ampliado em escala assustadora.

Foram identificadas 76 rotas de tráfico de mulheres, crianças e adolescentes na Amazônia, segundo a Pesquisa sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para Fins Sexuais, coordenada pelo Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes (Cecria) e pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Exploração Sexual, do Congresso Nacional, há cinco anos atrás. A Interpol francesa calcula que a rede internacional de tráfico de pessoas movimenta cerca de US$ 9 bilhões por ano.

Nesse comércio negro, assim como ocorre com políticos corruptos, a imunidade, digo, impunidade, é garantida. O holandês Kunathi, um dos maiores traficantes de pessoas em atividade na Amazônia, já foi preso em flagrante no Pará, mas a Justiça o soltou para responder ao processo em liberdade. Não deu outra, Kunathi fugiu para o Suriname, antiga Guiana Holandesa, onde é dono de boate na qual só trabalham brasileiras, muitas delas do Pará e do Amapá.

Em 2006, adolescentes de Altamira, no Pará, que caíram nas garras de uma quadrilha de exploração sexual e a denunciaram, foram ameaçadas de morte se falassem na Justiça. A polícia paraense, despreparada, não pôde dar segurança às vítimas e só conseguiu provas contra 3 dos 15 acusados. A ação da quadrilha envolvia inclusive um político e empresários. “É uma rede complexa de exploração sexual, com várias vítimas e vários adultos envolvidos. É preciso que haja vontade política para que se chegue aos outros envolvidos” – disse, à época, Ana Lins, advogada da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH).

Em março daquele ano, a polícia de Altamira localizou várias adolescentes, algumas dadas como desaparecidas por suas famílias, em uma chácara, onde eram embebedadas e servidas em banquetes sexuais fotografados. As fotos eram divulgadas na internet. As orgias ocorriam também em motéis da cidade e em imóveis de um dos acusados, além de chácaras e balneários no município, onde as bacanais duravam dias.

Ameaçadas de morte, vítimas e suas famílias, e testemunhas, desdisseram nos depoimentos à Justiça as declarações prestadas no inquérito policial. Uma das vítimas contou que foi ameaçada na porta da escola onde estuda. Sua família recebeu até bilhetes com ameaças de morte. A jornalista Iolanda Lopes, que denunciou a quadrilha em várias reportagens, disse que recebeu três telefonemas ameaçadores.

As adolescentes foram, ainda, humilhadas na Câmara de Altamira, onde tiveram seus nomes divulgados durante sessão plenária. “A vergonha, a humilhação, o sentimento de desesperança e a depressão são alguns sintomas encontrados em várias das vítimas desse tipo de crime” - comentou a advogada Ana Lins. “A revitimização é o calvário de ter que reviver os momentos do crime ao ter que relatá-los várias vezes. Esse calvário vai desde não ser atendida dignamente na delegacia, às vezes esperando horas e horas, até conseguir registrar a ocorrência policial, a realização de exames periciais sem a devida humanização do servidor responsável, até ver os algozes soltos livremente e voltando a delinquir em alguns casos.”

Em janeiro de 2005, o Jornal Nacional, da TV Globo, publicou uma série de reportagens intitulada Povos das Águas, na qual focalizou o trânsito de balsas em Breves, na ilha do Marajó. Nessas balsas, na cabine de carros, crianças marajoaras serviam de repasto sexual durante o cruzamento do rio. De um modo geral, os municípios marajoaras são miseráveis, apesar da natureza pujante da maior ilha flúvio-marítima do mundo. O Marajó, uma das mais belas regiões do planeta, é do tamanho da Suíça. A ilha é banhada pelos rios Amazonas e Pará, e pelo Oceano Atlântico.

“Foi constatado no início da década de noventa pelo jornalista da Folha de São Paulo, Gilberto Dimenstein, que no Vale do Jari haveria prostituição infantil em larga escala” – comentou, em 2007, o governador eleito do Amapá, deputado estadual Camilo Capiberibe. O rio Jari divide o Amapá do Pará desde a Serra do Tumucumaque, na fronteira com o Suriname, até desaguar no rio Amazonas, no sul do Amapá. O Beiradão, no município amapaense de Laranjal do Jari, é apenas uma das zonas de “fronteira” na Amazônia, nas quais a escravidão sexual infantil é crime banalizado e recorrente.

O comércio de crianças amapaenses e paraenses é intenso na Guiana Francesa e no Suriname, ao norte do Amapá, principalmente em cidades como Kourou, onde fica a base francesa de lançamento de satélites; o balneário de Montjoly e Saint Laurent. Meninas e meninos amapaenses e paraenses são bastante apreciados para bacanais, corrompidos por promessas de casamento com franceses ou pela possibilidade de ir para a Europa, onde imaginam que possam ganhar até 100 euros, cerca de R$ 400, por programa, escapando, assim, da miséria.

Dos 200 mil habitantes da Guiana Francesa, 50 mil são brasileiros ilegais, amapaenses em sua maioria, que fogem do Amapá, estado assolado pela miséria social, roubalheira de colarinho branco, nepotismo e corrupção endêmica. A capital, Macapá, é reflexo do desleixo administrativo. Cidade sem esgoto, cheia de ruas esburacadas, com fornecimento precário de energia elétrica e água encanada, apesar de se fica na margem do maior rio do mundo, o Amazonas, a cada dia fica mais inchada e violenta.

Próximo de Caiena, a capital da França na Amazônia, localiza-se a cidade amapaense de Oiapoque. A maior economia do município é, aparentemente, sexo, pois a cidade é a porta de entrada para a prostituição internacional na Amazônia Caribenha. Antes de as meninas seguirem para as três Guianas, passam, geralmente, por um estágio em Oiapoque. Boates locais são o internato que prepara meninas e meninos para o abate.

Assim, guianenses que atravessam o rio Oiapoque atraídos por sexo são recebidos na cidade de braços abertos - inúmeros bares nos quais o lenocínio prospera, de manhã à noite, açougues onde se pode comprar crianças de, em média, 13 anos. No Amapá, cidades como Laranjal do Jari, Tartarugalzinho, Calçoene e Santana, esta, na zona metropolitana de Macapá, são, como Oiapoque, vitrines de carne infantil. O jornal O Liberal, de Belém, e o mais influente da Amazônia, contém, no seu banco de dados, ene reportagens que confirmam o que eu estou dizendo, com nomes, lugares e datas.

Em Brasília, o plenário da Câmara Legislativa do Distrito Federal fechou os olhos e arquivou processo contra o deputado Benício Tavares (PMDB), que respondia na Justiça por turismo sexual no estado do Amazonas. Benício foi liberado por 14 votos favoráveis e 10 abstenções. Em 2007, o então governador de Brasília, José Roberto Arruda (ex-DEM), deu a Benício Tavares a Administração Regional de Ceilândia, o maior colégio eleitoral da cidade-estado. O povo se revoltou, pois, além da acusação de corruptor de menor, Benício Tavares é acusado de desvio de dinheiro. Arruda teve de tirá-lo do cargo. Este ano, o próprio Arruda foi preso, acusado de comandar um esquema de corrupção de dar inveja aos maiores ladrões do país.

Madrugada de 16 de setembro de 2004, marina da Ponta Negra, Manaus, Amazonas. A bordo do iate Amazonian, de 25 metros de comprimento, 15 políticos e empresários de Brasília e de São Paulo aguardam um carregamento para zarpar rio Negro acima, aparentemente para uma pescaria em Barcelos, a 450 quilômetros da capital amazonense, em passeio organizado pelo dentista paulista Flávio Talmelli. Era o terceiro ano que o alegre grupo de políticos e empresários candangos-paulistas se reunia.

Finalmente o carregamento chega. São peixes servidos antes mesmo da pescaria: 17 meninas, a maioria delas menor, aliciadas em casas noturnas de Manaus. O programa, de dois dias e duas noites renderia R$ 400 a cada uma, fora gorjetas. As garotas foram conduzidas ao iate pela cafetina Dilcilane de Albuquerque Amorim, conhecida como Dil, 33 anos, que ganharia R$ 100 por garota.

Domingo 19. As meninas se dividiram em dois grupos para o retorno a Manaus. O Amazonian, com os políticos e empresários, seguiu rio Negro acima, com destino a um hotel na selva. Doze meninas retornaram a Manaus. No fim do dia, as cinco meninas restantes retornaram também, no barco Princesa Laura. O barco naufragou naquele mesmo domingo, entre Manaus e Barcelos, com 100 passageiros. Morreram 13 pessoas, entre as quais as cinco garotas que participaram da orgia: Amanda Ferreira Silva, 20 anos; Marlene Cristina dos Santos Reis, 19; Suzie Nogueira Araújo, 18; Taiane Barros, 17; Hingridy Florêncio Viana, 16.

Dois dias antes do acidente, alguns pais queixaram-se à polícia sobre o desaparecimento de suas filhas. Agentes da Delegacia Especializada de Assistência e Proteção à Criança e ao Adolescente de Manaus (Deapca) descobriram que as meninas mortas haviam participado de uma bacanal e eram as mesmas que estavam sendo procuradas pelos pais. Depois, localizaram algumas meninas que retornaram a Manaus, do Amazonian. Descobriu-se, então, que três homens que estavam no Amazonian deixaram a embarcação em Barcelos e, dia 23 de setembro, retornaram a Manaus, em avião da Apuí Táxi Aéreo.

Foi aí que identificaram o então presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, deputado distrital Benício Tavares da Cunha Melo, do PMDB, que adotou o nome Benício Mello (prenome e último sobrenome); Randal Mendes (Sérgio Randal), cunhado de Benício Tavares e, então, chefe de gabinete da presidência da Câmara Legislativa do DF; e o advogado brasiliense Marco Antônio Attié.

Uma das menores ouvidas pela polícia disse que Benício Tavares manteve relações sexuais com pelo menos duas menores, uma das quais Taiane Barros, 17 anos, mãe de um bebê de sete meses, e que morreu afogada no Princesa Laura. Outra garota afirmou, em depoimento à polícia, que manteve relações sexuais com Benício, que teria pago R$ 500 a ela. Uma menor disse que Benício lhe ofereceu R$ 500 para manterem relações sexuais, mas ela recusou. Seis das moças que estiveram a bordo do Amazonian garantem que Benício chegou a pagar valores entre R$ 200 e R$ 1 mil para manterem relações sexuais com ele, inclusive com as menores de idade.

Das 17 meninas contratadas para a bacanal, seis afirmaram, em depoimento à delegada Maria das Graças Silva, titular da Delegacia Especializada de Assistência e Proteção à Criança e ao Adolescente, que Benício Tavares esteve no iate nos dias 17, 18 e 19 de setembro, e que manteve relações sexuais com várias garotas, entre as quais pelo menos duas menores. A delegada garante que coletou elementos suficientes para provar a participação de Benício Tavares em turismo sexual. Maria das Graças Silva mostrou, dia 27 de setembro, fotografias de Benício Tavares a três meninas que participaram da orgia. Elas identificaram imediatamente o parlamentar, que é paraplégico.

Três meninas ouvidas pela polícia garantem que no iate Amazonian havia bebida alcoólica e drogas, e que foram realizados desfiles de garotas nuas e sorteio de brindes aos participantes. Em depoimento à polícia, a cafetina Dil declarou que a bacanal foi contratada pelo dentista paulista Flávio Talmelli. “Ele disse que o passeio seria muito divertido e que todas as despesas, desde hospedagem a alimentação, seriam pagas por seus amigos. Somente convidei algumas amigas” - defendeu-se Dil. As garotas disseram à polícia que foram enganadas por Dil. O combinado é que receberiam R$ 400, mais gorjetas, mas, a bordo, receberam somente R$ 200.

Em nota oficial, divulgada no dia 27 de setembro de 2004, Benício Tavares confirmou a viagem a Manaus, de 16 a 22 de setembro, para pescar no rio Negro, hobby até então insuspeito. Confirmou também o vôo Barcelos-Manaus. Negou relacionamentos sexuais com garotas menores de idade. Para fazer a viagem turística, Benício se licenciou da Câmara, da qual era presidente, por 10 dias, embora a casa estivesse votando uma pilha de matérias e sua presença fosse importante. Foi confirmada também a presença, no iate, do chefe de gabinete da presidência da Câmara, Randal Mendes, cunhado de Benício Tavares, e do advogado brasiliense Marco Antônio Attié.

O Conselho Especial do TJDF instaurou processo penal contra Benício, em ação movida pelo Ministério Público. Deu em nada, e Benício foi reeleito deputado distrital, este ano.


Brasília, 23 de novembro de 2010

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O maior rio do planeta

O rio Amazonas, que nasce no rio Apurimac, na parte ocidental da cordilheira dos Andes, no sul do Peru, na América do Sul, e deságua no oceano Atlântico, é o maior rio do mundo, 140 quilômetros mais longo do que o africano Nilo - que nasce no rio Kagera, próximo à fronteira entre o Burundi e Ruanda, na África, e deságua no mar Mediterrâneo -, tido como o mais comprido do planeta durante muito tempo. A comprovação foi feita por uma das mais sérias instituições científicas do Brasil, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que utilizou dados obtidos em expedição à nascente do Amazonas e imagens de satélite. Segundo o Atlas Geográfico Mundial, a extensão do Nilo é de 6.695 quilômetros e a do Amazonas, de 6.515 quilômetros. Os livros de geografia precisam ser reeditados. Agora, o rio Amazonas mede 6.992,06 quilômetros e o Nilo, 6.852,15 quilômetros.

A equipe que chegou a essa conclusão, divulgada em julho de 2008, foi chefiada pelo geólogo Paulo Roberto Martini, 60 anos, da Divisão de Sensoriamento Remoto do Inpe. Ele comentou que as medições anteriores foram feitas sem o uso de metodologias científicas: “Esse resultado mostra que, às vezes, as verdades mais bem estabelecidas têm de ser revistas porque podem simplesmente não ser verdade. Pelo menos desta vez não temos acho. Temos metodologia científica e, por essa leitura, por essa interpretação, você pode colocar nos livros que o Amazonas é maior do que o Nilo”.

Em junho de 2007, uma expedição, que incluía representantes do Inpe, do Instituto Geográfico Militar do Peru, da Agência Nacional de Águas (ANA) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já havia determinado a nascente do rio Amazonas. Desde o início dos anos 1990, cientistas do Inpe se debruçam sobre o gigante, por meio de sensoriamento remoto e geoprocessamento, tecnologias utilizadas no Programa Espacial Brasileiro. Foram usadas imagens dos satélites norte-americanos Landsat, distribuídas pela Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos. Os pesquisadores marcaram o traçado dos dois rios e com ajuda de um programa de computador calcularam a extensão deles da nascente à foz.

Em maio de 2008, o vice-presidente da Sociedade Geográfica de Lima, professor Zaniel Novoa, após 12 anos de investigação, confirmava a versão do explorador polonês Jacek Palkiewicz, que, em 1996, localizou a nascente do Amazonas e afirmou que o rio sul-americano era mesmo o maior do mundo. Até a segunda metade do século XX, os geógrafos apontavam o Nilo como o maior. Desde que o Amazonas foi batizado, em 1500, foram identificadas nascentes em vários pontos do Peru, contudo a nascente verdadeira se encontra a 5.179 metros de altitude, próximo do monte nevado Quehuisha, na região sul de Arequipa, no Peru.

O Amazonas foi chamado pelo navegador espanhol Vicente Yañez Pizón, em 1500, de Mar Doce; o também espanhol Francisco Orellana mudou-o para Amazonas, em 1542. O colosso marrom, que no estado do Amazonas recebe o nome de Solimões e nos estados do Pará e Amapá, de Amazonas, é a espinha dorsal da maior bacia hidrográfica do mundo, formada por 7 mil afluentes, abrangendo uma área, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), de 6,110 milhões de quilômetros quadrados, no norte da América do Sul, banhando Peru (17%), Equador (2,2%), Bolívia (11%), Brasil (63%), Colômbia (5,8%), Venezuela (0,7%) e Guiana (0,2%). Só a bacia do rio Negro, afluente da margem esquerda do Amazonas, contém mais água doce do que a Europa.

Da nascente até 1.900 quilômetros, o Amazonas desce 5.440 metros; desse ponto até o Atlântico, a queda é de apenas 60 metros. Suas águas correm a uma velocidade média de 2,5 quilômetros por hora, chegando a 8 quilômetros, em Óbidos, cidade paraense a mil quilômetros do mar e ponto da garganta mais estreita do Amazonas, com 1,8 quilômetro de largura e 50 metros de profundidade.

Fora do estuário, a parte mais larga situa-se próxima à boca do rio Xingu, à margem direita, no Pará, com 20 quilômetros de largura, mas nas grandes cheias chega a mais de 50 quilômetros de largo, quando as águas sobem ao nível de até 16 metros. O Amazonas é navegável por navios de alto-mar da embocadura à cidade de Iquitos, no Peru, ao longo de 3.700 quilômetros. Seu talvegue, nesse curso, é sempre superior a 20 metros, e chega a meio quilômetro de profundidade próximo à foz. A bacia amazônica conta com 25 mil quilômetros de rios navegáveis.

A vazão média do rio-mar é de pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo, o suficiente para encher 8,6 baías da Guanabara em um dia. No Atlântico, despeja, em média, 400 mil metros cúbicos de água por segundo; chega, portanto, a despejar 600 mil metros cúbicos de água por segundo no mar. Num único dia, o Amazonas deságua no Atlântico mais do que a vazão de um ano do rio Tamisa, na Inglaterra. O colosso contém mais água do que os rios Nilo, na África; Mississipi, nos Estados Unidos; e Yangtzé, na China, juntos.

O Amazonas despeja também no mar 3 milhões de toneladas de sedimento por dia, 1,095 bilhão de toneladas por ano. O resultado disso é que a costa do Amapá está crescendo. A boca do rio, se escancarando do arquipélago do Marajó, no Pará, até a costa do Amapá, mede 240 quilômetros, e sua água túrgida de húmus penetra 320 quilômetros no mar, atingindo o Caribe nas cheias e fertilizando o Atlântico com 20% da água doce do planeta. O húmus despejado pelo gigante no Atlântico torna a costa do Amapá uma explosão de vida marinha, o ponto mais rico da Amazônia Azul, no Brasil mais mal-guardado pela Marinha de Guerra e menos estudado pela academia.

“O que me intriga, não apenas no conteúdo da educação fundamental brasileira, mas também na base de informações científicas e acadêmicas no Brasil, é a pobreza de informações ambientais e biológicas sobre essa região, batizada de Mar Dulce pelo navegador espanhol Vicente Yañez Pinzón, em 1500, mesmo ano em que Cabral achava o Brasil” – comenta o oceanógrafo Frederico Brandini.

Ele lembra que, no Amapá, as autoridades estão pouco preocupadas com o estudo da Amazônia Atlântica, e as costas do Amapá e do Pará são um inacreditável banco de vidas marinhas, coalhado de piratas, que vão lá pegar, de arrastão, pescados, lagostas, camarão e outros frutos do mar. Tenho notícia de que pescadores paraenses já capturaram na altura da Vila de Sucuriju, no município de Amapá, um marlim azul de meia tonelada. Nem Ernest Hemingway conseguia espadarte desse porte no Gulf Strean.

domingo, 21 de novembro de 2010

Núbia Santana, Anthony Quinn, Wolfgang Amadeus Mozart

Fora entrevistar a atriz e cineasta Núbia Santana no apartamento dela, mas o porteiro me disse que Núbia saíra no dia anterior e não retornara. Estaria na França, para o XI Festival de Cinema Brasileiro de Paris? Seu documentário em longa metragem Pra ficar de boa retrata o cotidiano de violência e abandono de crianças e adolescentes que vivem nas ruas de Brasília e de internos do Centro de Atendimento Juvenil Especializado (Caje). “Esses jovens têm em comum uma vida marcada por abusos dentro e fora de casa, drogas, crimes, guerras e morte. Entretanto essa cruel realidade não impede que eles sonhem com um futuro melhor” – diz a sinopse do filme.

Era um dia azul como devem ser os sábados. Azul escuro, com a intensidade do rio das tardes de julho, na Amazônia. Eram 18 horas, se esvaindo no silêncio da grande cidade, nas luzes que sucedem o sol agonizando, nas pessoas que passam caminhando dentro da noite.

Núbia, que foi Miss, é dona de uma beleza ainda mais impressionante, a de uma leoa que enfrentou a falta de perspectiva do agreste pernambucano, com a missão de transformar o mundo em tardes azuis. Este ano, pela sexta vez, ela fez o papel de Maria na representação da Via Sacra de Taguatinga. “Ela tem tanta coisa a fazer que certamente não pôde me aguardar. Quem sabe me dará a entrevista na volta de Paris?” – disse para mim mesmo.

Do prédio de Núbia fui caminhando até o restaurante Raízes da Amazônia. O bairro do Sudoeste é um dos metros quadrados mais caros de Brasília. É agradável caminhar, ao anoitecer, num bairro urbanizado, ouvindo os murmúrios da noite se sobrepondo aos derradeiros sons da tarde que desaparece sob as luzes noturnas. O Raízes da Amazônia é especializado na cozinha paraense, a mais saborosa do mundo. Pedi tacacá. “O tucupi é novo, chegou hoje” – informaram-me. Degustei o tacacá e pedi uma unha de caranguejo. Ia também tomar sorvete de tapioca, da Cairu, mas me senti cheio. Paguei e fui apanhar o ônibus. A principal rua comercial do Sudoeste é um dos locais de Brasília onde a noite cintila, prenhe de luzes, cheiros e mulheres bonitas. Aos poucos, o Sudoeste foi ficando para trás.

Desci no Setor Hoteleiro Sul. Gosto de grandes hotéis e me agrada até mesmo passar diante deles e vislumbrar a vida que pulsa nos seus átrios e cafés, a alegria de viajores, o requinte dos serviços, a beleza e o mistério das mulheres que só encontramos nos grandes aeroportos. Saí diante do Venâncio 2000, atravessei a frente do shopping e entrei no Pátio Brasil, um shopping vizinho, e me dirigi à livraria Leitura. Comprei Zorba, o grego, de Michael Cacoyannis, com Anthony Quinn, a belíssima Irene Papas e Lila Kedrova, Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo papel da doce Bubulina. Comprei também Amadeus, de Milus Forman.

Em casa, encontrei duas das mulheres mais importantes da minha vida - minha esposa, Josiane, e minha filha, Iasmim. Escolhemos Zorba. Anthony Quinn dançando a música de Mikos Theodorakis é antológico, e o romance de Nikos Kazantzakis é desses livros que se movem para sempre. Quanto a Amadeus, é outra crônica.


Brasília, 22 de abril de 2009

sábado, 20 de novembro de 2010

O que é ficção e o que é jornalismo? Qual o ponto em comum entre as duas tarefas?

Além da palavra - a ferramenta de que escritores e jornalistas lançam mão na construção de seus edifícios -, ficção e jornalismo nada apresentam, aparentemente, em comum. Como água e óleo, não se misturam. Mas Os sertões, de Euclides da Cunha; Kaput, de Curzio Malaparte; A Sangue Frio, de Truman Capote; Verdade ao Amanhecer, de Ernest Hemingway, são alguns exemplos de reportagens com valor literário. Como, pois, ambas as formas de escrita, ficção e jornalismo, podem ocupar a mesma prateleira, lado a lado, se ficção é criação, invenção, mentira, enquanto jornalismo atua como um sopro de luz sobre a verdade?

Em determinado momento, ficção e jornalismo se amalgamam e se confundem, a ponto de não mais sabermos o que é mentira e o que é verdade. Se a missão do repórter é se aproximar, o mais perto possível, da verdade, mesmo se movendo em terreno pantanoso, “a tarefa do escritor é dizer a verdade” - observou o ficcionista e jornalista americano Ernest Hemingway. A verdade, por conseguinte, é o nervo que liga ficção e jornalismo.

Móvel, fluida, enganadora, habitante de uma zona morta, a verdade simplesmente não pode ser resgatada. Entrevistando vários oficiais na Guerra da Criméia (1854), o correspondente do The Times de Londres, William Howard Russel, descobriu que “os relatos de testemunhas são, frequentemente, contraditórios”. Como, então, o escritor e o repórter poderão se aproximar de algo que se dilui e desaparece?

O artista e o jornalista perseguem o mesmo fim. Nisso, suas tarefas são semelhantes. A diferença consiste tão-somente em que enquanto o repórter, caminhando sobre areias movediças, procura chegar o mais perto possível da verdade, o escritor simplesmente inventa a verdade. Enquanto a atividade do jornalista se corporifica por meio da investigação e da coleta de provas, a do artista se incorpora pela criação. E se o jornalista e o escritor, conforme exige o trabalho de cada qual, resgatam como as coisas eram, de forma tal que o relatório do jornalista, ou a criação do artista, se mova para sempre, ambos terão alcançado a verdade.

O crítico literário americano Carlos Baker identifica três instrumentos estéticos que servem para o registro de como as coisas eram: “o sentido do local, o sentido do fato e o sentido da cena”. Hemingway disse que “se não tivermos geografia, um cenário de fundo, nada temos”. A fusão, pois, de local e fato, por meio da ação, gera a cena, móvel como a própria vida.

O escritor e jornalista italiano Curzio Malaparte, em despacho da Rússia, em 1942, escreveu para o Corriere de la Sera: “Sob meus pés, impressa no gelo como em cristal transparente, estava uma fileira de belos rostos humanos, uma fileira de máscaras de vidro, como num ícone bizantino. Estavam olhando para mim, fitando-me. Os lábios eram estreitos e gastos, o cabelo comprido, os narizes afilados, os olhos grandes e muito claros. Eram as imagens dos soldados soviéticos que haviam caído na tentativa de cruzar o lago. Seus pobres corpos, aprisionados durante todo o inverno pelo gelo, foram arrastados pelas primeiras correntes da primavera. Mas seus rostos permanecem impressos no límpido cristal verde-azulado. Observam-me serenamente e até pareciam tentar acompanhar-me com os olhos”. Fato: Segundo Guerra Mundial. Local: lago na Rússia. Cena: mortos que fitam um viajante. Aqui, o verbo fitar fez da notícia um registro vívido do fato. Deu-lhe ação. Vida.

Ao erguer o edifício da reportagem de longe fôlego, o repórter deve considerar alguns pequenos truques, comuns no arsenal do ficcionista. Estará, assim, despertando, no leitor, interesse permanente, o mesmo interesse que somente a ficção de primeira categoria pode proporcionar.

Assim como o escritor, o jornalista classe A evita a falácia patética, que se trata de excesso de emoção. O excesso de emoção dificulta a descrição da realidade, ao passo que, ao controlar a emoção, o repórter verá o que realmente está acontecendo e descrever isso. Ora, sendo a falácia patética um erro de percepção, será, também, um erro de expressão, “já que o que foi visto erradamente não pode ser descrito veridicamente” - observa Carlos Baker. O domínio da emoção resulta, segundo Baker, em “vermos aquilo que vemos, em vez daquilo que pensamos ver; aquilo que sentimos, em vez daquilo que somos supostos a sentir; e em dizer diretamente o que vemos realmente, em vez de apresentarmos uma versão falsa do que vemos”.

A falácia apática é outro inimigo da verdade, porque “a razão é tão fria e tensa que a emoção é inteiramente esmagada” - diz Baker. Enquanto a falácia patética deturpa a realidade, a falácia apática a imobiliza, e a intensidade, que é vida, dá lugar à tensão, que é morte.

Baker enumera ainda a falácia cinematográfica: “O mesmo que apontar um espelho e um microfone para a vida e registrar, com precisão absoluta, embora seletiva, todos os reflexos e sons”. O fato jornalístico registrado por meio de um espelho e um microfone é limitar a realidade a movimento, diferentemente do efeito produzido pelo sentido da cena, que é ação e, portanto, vida.

Ernest Hemingway desenvolveu um princípio estético a que chamou de “disciplina da percepção dupla”, que é a descrição do fato e da reação emocional sobre quem o vê. O jornalista americano Januarius Aloysius Mac-Gahan foi o pivô da guerra russo-turca (que teve início em 29 de abril de 1877) e pela independência da Bulgária. A gota d’água foi o que ele escreveu, que se constitui num exemplo de dupla percepção. O horror descrito pelo repórter foi perpetrado pelos curdos e bashibazouks turcos para esmagar a revolta búlgara de 1876. Mais de 12 mil homens, mulheres e crianças tinham sido mortos.

“Acho que cheguei com uma disposição de espírito justa e imparcial e, certamente, deixei de lado a frieza. Há coisas demasiado horríveis para permitir algo assemelhado a uma investigação tranquila; coisas cuja vileza o olho se nega a examinar e a mente se recusa a considerar. Deparamos com um objeto que nos encheu de piedade e horror. Era o esqueleto de uma mocinha que não tinha mais de quinze anos. Ainda estava vestida numa camisa de mulher, mas os pezinhos, dos quais os sapatos tinham sido retirados, estavam nus e, devido ao fato de a carne secar, em vez de se decompor, encontravam-se quase perfeitos. O procedimento parece ter sido o seguinte: eles agarravam uma mulher, despiam-na cuidadosamente, deixando-a de camisa e pondo à parte quaisquer enfeites ou jóias que por acaso tivesse sobre si. Então, tantos quantos assim o desejassem, violentavam-na, e o último homem a matava ou não, segundo a disposição com a qual se encontrasse.

“Fomos informados de que havia três mil pessoas jazendo neste cemitério apenas. Era uma visão horrenda - uma visão para apavorar a pessoa pelo resto da vida. Havia cabecinhas cheias de cachos ali, naquela massa apodrecida, esmagadas por pedras pesadas; pequenos pés que não chegavam ao comprimento de um dedo, nos quais a carne ressecara-se; mãozinhas de bebês projetavam-se para fora, como se pedissem ajuda - criancinhas que morreram espantadas com o reluzir dos sabres e as mãos vermelhas dos homens de olhos ferozes a manejá-los; filhos mortos encolhidos de susto e terror; mães que morreram tentando proteger seus rebentos, com seus próprios corpos fracos, todos jazendo juntos ali, apodrecendo numa única massa horrenda.”

Um truque final: ao pintar-se o painel da reportagem de longo fôlego, o ato de seleção verbal é de vital importância - o que quer dizer eliminar todas as palavras falsas. “Somente através de um cuidado constante, nunca desencorajado, na formação e ritmo das frases, é que a luz da sugestividade mágica pode ser elevada a atuar por um instante evanescente sobre a superfície do lugar das palavras - das velhas, velhas palavras, já desgastadas, tornadas muito tênues por eras de uso descuidado” - disse Joseph Conrad, o autor de O Coração das Trevas.

A posição da palavra na frase, o ritmo que ela imprime, tudo isso deve ser considerado. Em Os Sertões, os mandacarus assumem vida humana, “despidos e tristes, como espectros de árvores”, e o ritmo pode ser localizado em frases como “Longos dias amargos dos vaqueiros” - um decassílabo com cesura na sexta sílaba. Versos como esses são incontáveis em Os Sertões, abrindo a porta do texto jornalístico para a poesia.

Ao resgatar o fato jornalístico na reportagem de longo fôlego, mantendo os personagens vivos, como fez Norman Mailer, em A Luta, o repórter terá alcançado o ponto culminante da estética jornalística, e o escritor, o ponto culminante da estética artística: a verdade.


Belém, agosto de 1987