sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Negra em vestido de seda

Degustava um Illy no café da Livraria Siciliano do Pátio Brasil quando a vi. Seu perfume se misturou ao sortilégio do expresso, o aroma dos melhores arábicas do mundo. À sua passagem, infinitas possibilidades se iluminaram, de repente, velhos prazeres esquecidos, projetos de viagens adiados, sensações adormecidas, acordaram à sua passagem.

Entendo que seda é o melhor tecido para sugerir as curvas de uma mulher, para desenhar, na nossa imaginação, seus encantos inacessíveis, para exalar a química do prazer que captamos com as antenas dos sentidos, e ela trajava um vestido de seda amarelo, estampado com rosas colombianas vermelhas.

Seu andar - andar, não, trote – tinha a cadência das potras nascidas em cavalariça de ouro, trotar de bailarina clássica, o caminhar de mulheres sobre saltos tão altos que as fazem andar na ponta dos pés. E o vestido de seda lhe desenhava as formas no seu passeio pelo shopping.

Tudo foi num instante, mas na dimensão em que a vi pude examiná-la minuciosamente. A primeira impressão que causava era sua pele de jambo maduro, sedosa como o tecido do seu vestido. Tinha nariz português, boca de negra e olhos verdes. E dentro do instante intenso, me encontrei na Estação das Docas, em Belém, e em Macapá, onde a Linha Imaginária do Equador faz esquina com o maior rio do mundo, e o rio Amazonas me conduziu ao Caribe de Gabriel García Márquez.

A negra misteriosa passou rente a mim e me ofertou seu perfume, que identifiquei imediatamente: Chanel 5, o que mais gosto de aspirar na pele feminina. Ela passou tão rente a mim que tive a sensação de que a seda do seu vestido roçou na minha mão, e entrou na livraria. Quis segui-la, mas o compromisso na embaixada de Portugal estava em cima da hora. Dali a pouco estaria bebericando vinho do Porto no Instituto Camões.

Um comentário:

  1. As Negras da AmaZônia são tão amazônicas quanto africanas.

    Tive a honra de connhecer uma moça de bragança,
    afilhada de São Benedito.

    Peço a São Benedito que nos abençõe!

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