quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Romance ambienta Golpe de 64 na Amazônia

Na primeira foto, capa do romance A Casa Amarela, assinada pelo artista plástico André Cerino. Na segunda imagem, a quarta capa do livro, com bico de pena da minha filha, Iasmim Moreira Cunha, então com 14 anos. Na terceira foto, minha ex-mulher, Maria Célia Ferreira chagas, e eu, autografando A Casa Amarela no estande da Editora Cejup, na VIII Feira Pan-Amazônica do Livro, em Belém, no início da noite de 24 de setembro de 2004. Na quarta foto, minha enteada, Celina Leila, e eu, na mesma noite.


EM 2004, A EDITORA CEJUP, DE BELÉM DO PARÁ, voltava a publicar um romance meu, A Casa Amarela (158 páginas), ambientado em Macapá, nos anos iniciais do Golpe Militar de 1964. Como ocorreu com os livros publicados anteriormente pela editora belenense – A Caça e O Lugar Errado -, A Casa Amarela vende a conta-gotas, pois a distribuição da editora e a divulgação do seu catálogo se restringem a Belém. Em Brasília, o livro foi divulgado em matéria de 23 de novembro de 2004 e artigo do escritor e jornalista Luiz Adolfo Pinheiro no site ABC Politiko, e em resenha do jornalista José Luiz Oliveira publicada no Jornal de Brasília.

A matéria do ABC Politiko

“O novo romance de Ray Cunha é tão oportuno quanto perturbador” - garante o jornalista e escritor Luiz Adolfo Pinheiro, em resenha para o http://www.abcpolitiko.com.br/. “Trata-se de um romance fascinante e trágico” - diz, em outra resenha, o jornalista José Luiz Oliveira. Pela primeira vez na literatura brasileira um escritor ambienta o Golpe de 1964 na Amazônia.

O jornalista e escritor amapaense, baseado em Brasília, autografará seu novo livro, A Casa Amarela (Editora Cejup, Belém, 2004, romance, 158 páginas, R$ 28), na Livraria Esquina da Palavra (406 Norte, Bloco D, Loja 4), nesta quarta-feira, 24, a partir das 19 horas. A Casa Amarela é distribuído nacionalmente pela Editora Cejup/Distribel, de Belém do Pará.

A ação do romance começa com o Golpe Civil-Militar de 1964, que impôs ao país uma ditadura de 21 anos. O cenário é a Amazônia caribenha, a capital do antigo Território Federal do Amapá, a remota São José de Macapá, cidadela sitiada pela selva, pelo maior rio do mundo, pelo sol equatorial e pelas trevas do Golpe.

A família Picanço Cardoso vivia feliz naquela casa amarela, cercada de flores, na orla da Mata do Rocha. Mas 1964 reservava uma tragédia à família, e ao país. Porém o Golpe atingiu os Picanço Cardoso com particular virulência.

Macapá é a cidade natal do autor, que atua na mídia da Amazônia desde 1975 e na imprensa brasiliense, desde 1987. Ray Cunha, que escreve a coluna Enfoque Amazônico (a coluna não existe mais), neste site, vive, com sua esposa e filha, em Valparaíso de Goiás, nos arredores de Brasília.

A seguir, leia as resenhas Amazônia impressionista, do escritor e jornalista Luiz Adolfo Pinheiro, e Amazônia ensanguentada, do jornalista José Luiz Oliveira. 

Amazônia impressionista

LUIZ ADOLFO PINHEIRO

Ray Cunha é um bom contador de histórias sobre a gente da Amazônia, porque ele também é gente da Amazônia. E os anos de distância da terra natal em nada comprometeram suas lembranças e sua vivência do povo e da paisagem amazônicos. Ele já provou isso em outras obras como Trópico Úmido, a minha preferida, e só para citar uma única.

Por isso, é sempre um prazer renovado mergulhar em nova obra do Ray, como este romance A Casa Amarela, tão oportuno quanto perturbador. Pois o autor não busca a linguagem expressionista, aquela que tanto seduz novelistas deslumbrados com o significado das palavras em si mesmas. Ele pratica a linguagem impressionista, aquela que vai diretamente à medula do osso e conta, sem rodeios, o que pretende contar.

Em A Casa Amarela, Ray Cunha desloca sua narrativa da Belém cenário do conto Inferno Verde, do livro Trópico Úmido, para a sua Macapá natal. No universo amazônico, as duas cidades se distinguem pelo tamanho, população e importância política e econômica, mas no cotidiano são o mesmo mundo de água, sol, paixão e esperanças - algumas vividas, outras perdidas. A saga é da família Picanço Cardoso, que, como as demais do Brasil, foi de alguma forma afetada direta ou indiretamente pelo Golpe Civil-Militar de 1964.
Que não se espere da leitura, entretanto, um tratado político-ideológico a respeito do significado de 1964 para a história recente do país. O autor não escreveu um ensaio, mas um romance - cheio de vida, de amor, de misérias, de namoros e de estupros, de torturas e de mentiras. E, de permeio, o inconfundível mundo amazônico, a natureza bela e áspera, como descreve o próprio Ray: “Ouvia-se, nitidamente, em meio aos sons da selva, o silêncio da tocaia. Aquele silêncio entremeado de sons remotos e crepitar de insetos. O céu era azul-escuro e, ao mesmo tempo, azul-claro, até ficar translúcido”.

E, em outro trecho, a riqueza do rio e da mata, que alimenta o homem e o prende ainda mais à telúrica mãe amazônica: “Nenhuma comida do mundo era melhor do que a de mamãe. Seu feijão era algo de outro mundo. Bastava misturá-lo ao arroz, farinha e um bife ao molho. Às vezes, papai comprava fígado ou bucho. Às vezes, havia bicho de casco, tatu, paca, cotia, capivara ou camarão, piracuí ou peixe. Gostava também de açaí, melancia, graviola, taperabá, ata, tucumã, mucajá, pupunha com café. Às vezes, quando o mar estava para peixe, o desjejum era feito com tapioquinha amanteigada ou bolo de macaxeira. Outras vezes, abundavam banana chorona e mangas”.

O Amapá emerge vigoroso com sua gente destemida, seus aventureiros, seus sonhos de grandeza - ora de virar um Estado da Federação, como de fato ocorreu, ora até como um Estado independente deste Brasil tão longe, tão distante, tão distinto. E, no meio do cenário, a saga de Mel Picanço Cardoso, a jovem de dezessete anos, “pele rosada, longos cabelos em cascatas, arruivados, grandes olhos cor de mel, lábios polpudos como frutos maduros e longos dedos, em mãos prenhes de meiguice”, a princesa da Casa Amarela, sua residência, que um dia, como tudo na vida, seria demolida - como demolidos foram tantos sonhos e esperanças, dela própria e de outros.

Ao se comentar resumidamente um romance cheio de vida, como A Casa Amarela, sem revelar ao leitor os meandros da história, conforta-nos a certeza de que a ditadura cultural e econômica exercida no país pelo eixo Rio-São Paulo não faz calar a voz dos que, em todos os rincões da pátria comum, principalmente como Ray Cunha na vasta e misteriosa Amazônia, permanecem fiéis aos valores e ao sentimento de profundo amor à sua gente e à sua terra natal.

Amazônia ensanguentada

JOSÉ LUIZ OLIVEIRA

Autor conhecido na região amazônica - já publicou seis livros, incluindo contos e poesia -, mas pouco lido por aqui, Ray Cunha nos brinda agora com o segundo romance. A Casa Amarela conta a história, fascinante e trágica, da família Picanço Cardoso durante o Golpe de 1964, em Macapá, capital do Amapá e berço do autor. Fascinante porque nos leva aos tempos de criança, irresponsavelmente desbravando matas atrás de pássaros, garimpando frutos nas grimpas de árvores frondosas, mergulhando escondidos dos pais em rios para fugir do calor; fascinante porque nos remete à adolescência, aos primeiros beijos, à primeira experiência sexual. E trágico porque nos aviva, com o assassinato do adolescente Alexandre Picanço Filho, na masmorra do regime militar, o período de trevas por que o país passou, com sua carga de sangue a escorrer dos porões.

Alexandre era apenas um jovem inteligente, um líder estudantil que queria ver a Amazônia desenvolvida por meio de sua riqueza natural e integrada ao Caribe. Acabou preso como comunista. Saiu morto da prisão, nos braços do pai. A mãe e a irmã prepararam o corpo para descer à sepultura, em um ritual que deixa o leitor com um nó na garganta.

A Casa Amarela é uma obra carregada de emoções fortes, entremeada de passagens cômicas, como as sacanagens do Velho Rocha, que não perde oportunidade de deixar um amigo em situação constrangedora. Não perdoa nem as crianças que invadem a sua mata, a Mata do Rocha.

Com o olhar do bom jornalista que é, Ray Cunha vai fundo nas emoções e pinta, por meio dos personagens, uma Macapá deslumbrante.

Dá vontade de sair correndo e cair nos braços dela.

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