sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Sob o céu nas nuvens


Noite horrível

Noite que não mais termina
Nesta estação aeroviária
Noite que apenas começou
E que não mais termina
Para um aventureiro enveredado na solidão
Inconfortado e sozinho
Revelando sua gana de escrever suas amarguras
Noite miserável rastejando devagar como lesma
Esta noite que não mais termina
Assustará nas noites de recordação
Fazendo estremecer com seu mais leve cheiro
Noite cheirando a prisão desconhecida
Que paralisa os nervos dos forasteiros ao desabrigo
Ar que fulmina
Com seu bafo gelado
Na solidão de uma chegada
Frio que não deixa sossegar.
Eis porque estou cansado e quero o aconchego de um lar
O amor de uma mulher
Ou uma poesia qualquer
Não mais essas noites.
Acho que a incerteza achei numa noite estranha
Agora sou cético
Acredito num prato de sopa
Feito por minha mãe
Não nessas sopas regadas de favores
Aprendi a ser feliz onde moram os que me dizem respeito
Aprendi, mas aprendi por aí
Onde o mar é salgado
O frio gelado
E a solidão mais forte
Quando se é fraco
Aprendi a ser feliz dando uma volta em meu quarto
Meu quarto é minha casa
Meu quarto é um desejo sem conter-se...

Buenos Aires, 4 de outubro de 1974


Este poema é do meu primeiro livro-solo, Sob o céu nas nuvens, publicado em 1980, em Belém, com prefácio do poeta amazonense Jorge Tufic, quarta capa do escritor amazonense Antísthenes Pinto e orelhas assinadas pelo escritor amapaense Fernando Canto. Com base na foto da capa do livro, feita pelo Stúdio Um, de Belém, Olivar Cunha pintou o quadro acima, em 1981, em Belém.

O que escreveu Jorge Tufic

Ray Cunha é o poeta da informalidade. Seu verso é livre como o ar da cidade em que todos sofremos. Um ar saturado de palavras antigas e gemidos novos, onde os significados inerentes à existência dos homens travam batalha de morte com suas próprias raízes semânticas.

A interferência descontraída do poeta nos acontecimentos de rotina, nos círculos concêntricos da urbe, dá-se aqui de maneira frontal, de dentro para fora, à maneira extraordinária de um soco que se recebe da imagem nossa, refletida no espelho. O poeta se desnuda, participa, esculhamba e, continuando insatisfeito, remove os escombros da luta e volta a ocupar o mesmo espaço físico para novos confrontos com o Dinossauro.

Assim é a poesia deste jovem que se oferta aos leitores dispensando a clássica maturidade da rima e da métrica. Ele prefere antes o atrito gostoso das palavras espontâneas, que a perversão da matéria-vida converte numa sequência de catarses prometidas ao esgoto metafíssil dos outros. Atrevendo-se a velejar sob ventos contrários ao bonitinho das frases bem arranjadas, o vate deixa escorrer seu líquido de fogo modelando estrofes necessárias ao seu grito de libertação. “Se não te importas eu escrever verdades/Então pronto, serei esplêndido!

A juventude poética deste livro jamais acarretará futuros arrependimentos para seu autor. Isto porque eu nunca soube de alguém que fosse autêntico e se arrependesse por isso. Em recente papo com meu amigo Guimarães de Paula, hoje a braços com as artes visuais no seu ateliê do Jardim Haidéya, segredou-me ele, um tanto quanto frustrado, que gostaria de pintar suas telas exatamente como se expressa na roda de seus companheiros do Clube da Madrugada. Pois bem: este nível de igualdade entre o coloquial e o artístico já fora atingido por Ray Cunha. Senão vejamos:

Ah se tu fosses minha!
Partiríamos para o sistema das fadas
Sentados no colo das flores
Tomaríamos néctares divinos.
Depois, cavalgando besouros furta-cores
Navegaríamos num mar transparente
Beijando-nos sem fim.

Por estes caprichos do mundo, por estas coisas inefáveis que se lançam ao papel, isentas do bolor cancerígeno dos gabinetes fechados, é que antevejo para Ray Cunha o sucesso cabível pela sua recolha de poemas. Eles estarão muito bem melhor quando forem lidos e admirados por quantos, jovens como o autor, sobrestam ainda a respiração  para gritar ou cantar, como gritam e cantam as estrofes de Whitman, os poemas de Neruda e O Guardador de Rebanhos, de Fernando Pessoa.

O que escreveu Antísthenes Pinto

Os poemas de Ray cunha me maltrataram profundamente. Decorridos vários dias retornei à leitura adredemente preparado para que eles, os poemas, não mais me entortassem com sua força de maldição...

O poeta é um dos mais espantosamente loucos que tenho conhecido. O livro Sob o céu nas nuvens há de ferir muitas suscetibilidades, mas além da temática e da linguagem audaciosas, há aquela preocupação rigorosamente estética.

O que escreveu Fernando Canto

Nascido na Amazônia em 7 de agosto de 1954, Ray Cunha, estudante que foi rebelde e inquieto, sobrepujou-se  lutando e vencendo seu leão interior. Prosador dos melhores e poeta desmascarador, consegue mostrar-nos a necessidade angustiante do homem de pensar no cosmos e pisar no chão.

Sempre buscou nas mulheres uma forma de opção real, detendo-se no belo que dá forma à sua criatividade. Começou a amar as madrugadas ainda adolescente e aos 17 anos publicou Xarda Misturada, uma coletânea de poemas com mais dois jovens do Amapá. Já se manifestava aí o cheiro das palavras bem cozidas que hoje transcende teluricamente no seu Sob o céu nas nuvens.

Mais um poema do livro Sob o céu nas nuvens

SENSAÇÃO ESTRANHA

Que sensação estranha
Na hora de ser enforcado
Ser salvo e dormir com a princesa

Rio de Janeiro, 1974

Um comentário:

  1. Uma bela serie de Textos(Contos e Poemas)da manifestação criativa de um excelente escritor Amapaense.O que muito me orgulha e alegra.
    Luiz Jorge

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