domingo, 5 de dezembro de 2010

Adeus, Hemingway

Um dos tipos mais mentirosos de reportagem é a biografia, seja quando o biografado é o autor, ou apenas objeto jornalístico. Nas biografias, ora o herói é superestimado, ora é subestimado, mas a tendência, geralmente, é a de romantizá-lo. Esvai-se, aí, o homem; fica o mito. Além do mais, a distância no tempo constrói outras realidades, de modo a recriar-se também outra personagem, sem que se dê o resgate do objeto inicial da biografia. Nesse aspecto é que a ficção, a invenção, a mentira literária, é, quando de primeira categoria, mais verdadeira do que o jornalismo, se as personagens criadas forem de carne, osso e alma. Mas, da mesma forma que a ficção, as biografias são um gênero literário que nos proporcionam grande prazer, pois recriam os heróis nos momentos mais emocionantes de suas vidas.

Peso pesado, viril e belo, o ficcionista Ernest Hemingway foi pugilista, matou búfalos, rinocerontes, elefantes e leões, capturou tubarões e espadartes, esteve no front de três guerras e obteve favores sexuais das mais belas e famosas fêmeas de sua época, entre as quais a atriz Ava Gardner, o então mais belo animal do mundo. Acima de tudo, revolucionou a prosa com O Sol Também se Levanta, em 1926, quando tinha apenas 27 anos de idade. Na juventude, já escrevia coisas como Lá em Michigan. Adeus às Armas o fez milionário aos 30 anos. Aos 40, ao publicar Por Quem os Sinos Dobram, era já uma celebridade mundial, que agitava a mídia à sua passagem, como, hoje, Gabriel García Márques. Em 1952, publicou O Velho e o Mar, poesia em prosa da mais alta categoria. Em 1954, recebeu o Nobel. Por tudo isso, Hemingway foi uma das celebridades do século vinte sobre quem mais se escreveu, produção que continuou incólume depois que o gênio americano se matou aos 62 anos, em 22 de julho de 1961.

É sempre um prazer ler Hemingway e sobre Hemingway, porque, além de viver intensamente, ele é daqueles escritores que fazem a gente sentir o cheiro da bebida que seus personagens bebem, personagens tão vivos que até dá vontade de a gente telefonar para eles. Já pensou, então, Hemingway envolvido numa trama policial? Pois é isso que faz o escritor cubano Leonardo Padura Fuentes. Convidado a participar da série Literatura ou Morte, da Companhia das Letras, Fuentes nos presenteou, a todos nós, hemingwayanos, com Adeus, Hemingway (R$ 21, 173 páginas).

Fuentes era criança e estava com o avô quando viu Hemingway uma única vez. O escritor viveu metade de sua vida em Cuba. Morava numa bela chácara, chamada Vigia, nos arredores de Havana. A visão do escritor, já velho e alquebrado, após dois recentes desastres aéreos e barris de álcool, nunca saiu da memória de Fuentes, que depois se tornaria um dos escritores cubanos de sucesso no exterior. Além de ler tudo sobre o autor de A curta e feliz vida de Francis Macomber, Fuentes é natural do país que o criador de Um lugar quente e bem iluminado escolheu para morar por três décadas, e conheceu alguns dos amigos e personagens do inventor de Os assassinos.

Uma caveira com dois furos de bala é encontrada na chácara Vigia e Fuentes põe seu personagem, o detetive Mario Conde, para investigar o assassinato. Quem matou aquele homem? Hemingway? Hemingway tinha um arsenal em casa e durante algum tempo se viu perseguido por agentes do FBI, sob a acusação de ser comuna. Aí, duas coisas acontecem: além de nos deliciarmos com o enredo policial, Fuentes constrói o dia-a-dia do grande homem - momentos mais para a miséria da velhice do que da glória da juventude.

O gigante americano surge, então, vivo, e podemos compartilhar com ele de uma garrafa de vinho italiano, andar a esmo pela mansão da finca Vigia e ver Ava Gardner tirar o soutien e a calcinha para depois atirar-se na piscina, onde já se encontrava o criador de As neves do Kilimanjaro.

No meio das muitas biografias de Hemingway, as mais pungentes foram escritas com as vísceras, e só por quem o conheceu nos seus momentos de grandeza e de miséria. Por quem o viu rir e chorar. Por quem o amou. Papa, de Gregory Hemingway, filho do escritor, é uma dessas reportagens escritas com o coração. Assim também é Adeus, Hemingway, que, embora ficção, foi também criado com a verdade imprescindível a todo bom livro de invenção.

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