quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

As cidades e as mulheres

Trapiche defronte à cidade de Macapá, na maré seca, em foto de Juvenal Canto. Macapá é a capital do estado do Amapá, cidade da Amazônia Caribenha, localizada na desembocadura do maior rio do mundo, o Amazonas, na confluência da Linha Imaginária do Equador.


As cidades têm alma como as mulheres. De manhã se doiram ao sol como as rosas da primavera, desembocando no rio azul da tarde, e, à noite, se perdem nas luzes e na embriaguês. Como as mulheres, têm seus segredos, que só revelam aos que sabem mergulhar no abismo das rosas, e retornam. Amo várias cidades, que se entregam a mim sem reservas. Belém é a que mais me seduz, com feitiço de rosas colombianas, maresia, Chanel número 5, gim e cheiro de mulher absorta ao toucador. Manaus também, onde o cheiro de mulher é tão intenso que causa vertigem, e sentimos, lento, os movimentos da Terra no espaço, como música de Mozart. O Rio de Janeiro tem o poder de me fazer voar, cavalgando besouros furta-cores num mar transparente sem fim. Há, ainda, outras cidades a quem eu seduzo como o garanhão faz a corte à sua próxima vítima, com paciência, concentração total e, sobretudo, fé. Mas, diferentemente do garanhão, percorro as cidades com amor. Assim é com Macapá.

A melhor maneira de descobrir Macapá é atravessando de barco o estuário do rio Amazonas. Quem sai do arquipélago do Marajó e mergulha no maior rio do mundo, em direção à Linha Imaginária do Equador, avista, de repente a cidade, que emerge como cunhantã se banhando no rio, o vestido molhado, colando-se ao corpo equino, os cabelos espargindo água e nos olhos o mistério. É assim que gosto de pensar em Macapá, crepitando ao cheiro tórrido de jasmim nas noites mornas.

Sou teu, Macapá, porque tu me pariste às 5 horas do dia 7 de agosto de 1954, na maternidade do Hospital Geral, e de lá fui para a Casa Amarela, ao lado do Colégio Amapaense, na Avenida Iracema Carvão Nunes com a Rua Eliezer Levy, ao lado da Mata do Rocha, e lá passei 11 anos da minha infância. Restou a seringueira, que meu pai plantou, e que foi salva de ser decepada - porque se recusou a sair do caminho do muro do Colégio Amapaense - pelo agrônomo Luiz Façanha, que se abraçou ao seu tronco num gesto de fé. Meu pai, João Raimundo Cunha, semeou a seringueira em 1952, ano do nascimento do meu irmão, o pintor genial Olivar Cunha. Macapá, para mim, é isso, e é tanta coisa...

Passei o Natal em Macapá, na companhia dos meus familiares, dos familiares da minha esposa, Josiane Souza Moreira Cunha, e de amigos. Estou inundado de alegria, pois todos eles, todos mesmo, estão bem, vivendo a aventura de suas vidas. As novas gerações semeiam no mundo juventude, beleza, esperanças, risos, com a mesma imortalidade das rosas. Observanda-os, temos certeza de que a felicidade é viver o agora e o agora, o momento mesmo da vida.

Aos que amo, oferto as pedras preciosas que coleciono no relicário do meu coração.

As cidades, como as mulheres, são tijolos da nossa vida. Quanto mais as amamos, mais belas ficam, e mais misteriosas. E como as mulheres, as cidades nunca são nossas. São delas mesmas, e de todos os que as amam. Não podemos jamais ser donos de uma cidade, da mesma forma que é impossível nos apossarmos de uma mulher, porque as mulheres, mesmo mortas, serão sempre livres e misteriosas. E como as mulheres, as cidades estão sempre diferentes. A cada manhã há algo novo nas suas vidas, há um novo mistério no seu sorriso.

A cada partida, fica, implícito, um encontro marcado, e as chegadas são regadas de risos, de esperanças, de luz, e perdão.


Brasília, 30 de dezembro de 2010

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