quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Fim de reportagem

O rio arremetia e rugia contra o muro de arrimo, salpicando água longe. O trapiche lembrava o dorso negro de uma sucuri imensa. Podíamos ver o rio se contorcendo como o mar em fúria nas manhãs de ressaca em Copacabana. 

- Não parece um rio – disse-me Mara. Estávamos em um quarto do Macapá Hotel, observando o rio Amazonas. Mara deixou a janela e foi para a cama. Fui me sentar na cadeira. Nos dias muito quentes, seus olhos eram azuis. À medida que a tarde navegava, iam-se tornando verdes e quando os flocos da noite se acamavam nas nossas almas, eram duas esmeraldas. Ela tinha sabor de Mateus Rosé e qualquer coisa espanhola. Estava nua. Sua nudez flutuava naquele momento entre a tarde e a noite, momento com sabor de tacacá, na banca do Colégio Nazaré, em Belém. – O que vamos jantar? – Mara me perguntou. Almoçáramos no Café Aimorezinho, pirarucu ao molho de castanha-do-pará.

- Cerpinha – respondi-lhe, absorto no abstracionismo das nuvens, o fogo a se extinguir, mas ainda lembrando uma tela de Olivar Cunha. – Vamos jantar no quarto? Podemos pedir cogumelos e ostras e comê-los com vinho. – E antes que ela replicasse que talvez não houvesse ostra, disse-lhe que poderíamos pedir filhote ao tucupi.

- Tu achas que o Bigode vai se safar dessa? – ela perguntou, com aquele seu sotaque belenense delicioso.

- O Bigode ainda continuará dando as cartas, mas agora todo mundo já sabe que ele é o maior mafioso do país, e que seu lugar verdadeiro é o esgoto – eu disse. – Quanto a Nove Dedos, continuará enganando a massa ignara. Ocorre que o Estado não é apenas o governo. É muito mais complexo. Não vês o caso do ladrão bolivariano? Logo, logo até os cachorros venezuelanos vão perceber que o patife está apenas assaltando o país.

- Puxa, se eu soubesse que tu ficas tão indignado com o que está acontecendo eu nem teria falado no Bigode – ela disse.

Concluíramos uma senhora investigação sobre as atividades do Bigode, que integraria extensa reportagem sobre a folha corrida do chefão da máfia, e Mara era minha fotógrafa predileta. Aquela seria a última noite que passaríamos na cidade. No dia seguinte, voltaríamos a Belém. A noite de Macapá é sempre inesquecível, como os gemidos de Mara, notas de um concerto de Debussy que voam alguns segundos e se desfazem no ar. Pensei: se eu fosse poeta, como Isnard Lima Filho, ofertaria rosas para a madrugada. Mara cochilava na cama. Sua nudez maravilhosa flutuava na penumbra. Levantei-me da cadeira, fui ao banheiro e me vesti. Desci e procurei o quiosque onde estivéramos mais cedo, pedi uma Cerpinha e comecei a compor, mentalmente, a abertura do meu texto.


Brasília, 12 de agosto de 2009

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