sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Rio parecendo mar

Ray Cunha

As ilhas que se viam no outro lado do rio pareciam compridos filetes verde escuro. Na Praça Zaguri, a tarde caminhava para aquele momento em que não sentimos nenhuma maldade no mundo, porque tudo o que nos chegam são rumores de risos e tênue perfume das rosas. O casal estava sentado à mesa ao lado da barraca, à sombra das árvores. Fazia um calor danado.

- O que é que poderíamos beber? Está quente demais – disse o homem.

- Quero água de coco – disse sua sobrinha. Era uma das mulheres mais bonitas que conhecia, e amorosa. Há muito tempo quisera namorar com ela, após a briga definitiva que tivera com sua ex-mulher. Mas fora tudo equivoco puro. Aquilo deixara sua sobrinha bastante ofendida, e com razão, pois eram como irmãos. Ela deixara de falar com ele desde então. Agora, numa das idas dele a Macapá ela lhe dera a chance de se explicar.

- Vou tomar uma cerveja – ele disse. – Gosto de Bohemia, mas beberei qualquer uma.

A mulher que os atendiam levou-lhes a água de coco, uma garrafa de cerveja e um copo. Colocou tudo sobre a mesa e olhou para o homem e a moça. Esta olhava para o rio.

- Parece o mar – sugeriu ao homem.

- Sim – respondeu ele ao tomar um gole de cerveja. – Quero que tudo volte a ser como antes – disse, de repente.

Ela examinou distraidamente as coisas que havia sobre a mesa.

- Tu achas que tudo será como antes? – disse a ele.

- Sim, certamente que será! Voltaremos a ser como irmãos, querida – ele disse.

A sombra de uma nuvem passou sobre a praça.

- Sim, poderia ser tudo como antes – falou ela. – Mas nossa infância e nossa juventude já passaram.

- Estás enganada. O tempo não existe.

- Existe. E nada se recupera - ela disse, examinando o horizonte, limitado pelo rio e as ilhas distantes. O homem olhava ora para ela, ora para a mesa.

- Só há um meio de recuperarmos as coisas – ele disse, com voz esperançosa.

- O que, Alexandre?

- O perdão. Só perdoando recuperamos tudo o que é precioso, o mundo volta a ser um jardim prenhe de zínias multicoloridas, trepadeiras de flores vermelhas e rosas. E nas sendas do jardim há pedras preciosas espalhadas por ali, diamantes, rubis, esmeraldas grandes como teus olhos, querida – ele disse, e lágrimas molharam seus óculos, que tirou para limpá-los com seu belo lenço de seda branca.

- Oh! Alexandre! Oh! Querido! Todos esses anos de silêncio poderiam ter sido tão ricos! – ela disse. Levantara-se e o abraçara. Atrás do balcão do quiosque a moça os olhava, pensando que fossem um casal de namorados.

- Seremos novamente irmãos, querida, e nada mais vai arrancar as flores dos nossos corações!

- Não, nada!

- Vamos para casa – ele disse, gentilmente, após pagar a despesa.

- Sim, vamos. Estão todos nos esperando. Este será o réveillon mais feliz da minha vida – ela disse.

- Todos agora serão – ele disse.

Caminharam abraçados para a caminhoneta negra Chevrolet. Uma brisa soprou e os cabelos de ouro da mulher afagaram a cabeça do homem. Ela assumiu a direção. O rio Amazonas deslizava para o Atlântico com a majestade de um oceano, sob a névoa de ouro do anoitecer. No ponto onde as águas dos dois gigantes se encontram e se separam, o azul era rasgado como se rasga um pano. Um perfume inundou a cidade, como se chovesse pétalas de jasmim.

Brasília, 31 de dezembro de 2010

Nenhum comentário:

Postar um comentário