quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Jornada Brasília adentro

De manhã, em torno das 8 horas, cruzo o Setor Comercial Sul mergulhado no perfume de mulheres tão lindas que parecem nuas. Algumas andam como modelos no voo pelo tapete vermelho, como Gisele Bündchen. Falar em Gisele, comecei a ler pesos pesados como Ernest Hemingway lá por 1968, aos 14 anos, nas minhas incursões diárias à biblioteca do meu irmão mais velho, Paulo Cunha, o primeiro grande leitor que conheci. A biblioteca dele foi meu primeiro laboratório, depois de iniciado pela sua também volumosa coleção de gibis. Um dia, creio que em 1971, indo a Belém (foi a primeira vez que saí de Macapá; Belém me hipnotizou até hoje), fui, com o pintor genial Olivar Cunha, visitar o Paulo no hotel onde morava; na época, ele era gerente na Brasilit. Entrar no seu quarto e ver as estantes e pilhas de livros que pareciam tomar conta de todo o espaço causou em mim o mesmo maravilhamento que a caverna dos 40 ladrões (não os do Mensalão) deve ter causado em Ali Babá. A terceira etapa do meu aprendizado foi com Isnard Brandão Lima Filho, e também foi tão fantástica como os espelhos de Jorge Luis Borges. Voltando à Gisele, essa loira que fascina também meu amigo Carlos Honorato, evoca-me Giselle Montfort, a espiã nua que abalou Paris, membro da resistência francesa na Segunda Grande Guerra, sob o codinome ZZ7. Era linda e tudo o que me convinha naquela época. Giselle Monftorf foi criada pelo jornalista David Nasser, em 1948, e a novela foi publicada em 56 capítulos no Diário da Noite, e depois em quatro volumes, em 1952. Dos anos 1960 aos 1990, o escritor espanhol Antônio Vera Ramirez, sob o pseudônimo de Lou Carrigan, deu prosseguimento à ideia original de David Nasser criando Brigitte Montfort, filha de Giselle; a Editora Monterrey, do Rio de Janeiro, publicou 500 histórias de Brigitte. Lembro-me que lia um Giselle, ou Brigitte, inteiro, em poucas horas. Foi assim que, aos 14 anos, numa cidade ribeirinha perdida na Amazônia, andei pela Paris ocupada, a mesma que Ernest Hemingway libertou, sobretudo porque a amava. Mas, como ia dizendo, cruzar o Setor Comercial Sul numa quarta-feira de inverno tropical dá a mesma sensação de participarmos, como espectador, de um desfile de moda.

Sempre que posso, almoço no Sabor Brasília, na praça de alimentação do Conjunto Nacional, um shopping no coração da cidade, ao lado da rodoviária do Plano Piloto, por onde passa meio milhão de pessoas por dia. Trata-se de um labirinto prenhe de mulheres nuas, de tão lindas, num passa-passa infinito. A comida no Sabor Brasília é saborosa, e lá é um dos raros locais da cidade onde como peixe, pois sou do Mundo das Águas, a região mais piscosa do planeta. Cheguei a tal requinte na degustação de peixe que o menor pitiú (do tupi, cheiro forte de maresia) me faz desistir de comê-lo. Descrevo no conto Inferno Verde o preparo de um caldo de filhote. Quem o ensinou a mim foi o radialista macapaense, que vive em Belém, desde sempre, José Maria Trindade, querido amigo meu. Ele me convidou para tomar caldo de filhote no Remada, seu restaurante. Filhote é um dos mais saborosos peixes da Hileia. Segundo A Fauna da Amazônia (Cejup, Belém, 1992, 217 páginas), de Roberto M. Rodrigues, filhote é a piraíba pequena. Piraíba é o maior peixe de couro do Brasil, atingindo 3 metros de comprimento por 1,40 de diâmetro e pesando 150 quilos. Trindade comprou filhote fresquinho, limpou-o, lavou-o com escovinha e o pôs algum tempo de molho no limão. Depois é só pôr água para ferver, acrescentar os temperos de praxe e depositar o peixe na panela. O caldo é mais saboroso do que qualquer prato francês. Da mesma forma que tamuatá no tucupi e jambu, com farinha d'água, é capaz de fazer qualquer chefe francês se ajoelhar.
Às 13 horas, a praça de alimentação do Conjunto Nacional, como em qualquer grande shopping numa grande cidade deste continente tropical, regurgita de mulheres, lindas como um grande jato comercial pousando. Uma das coisas que mais gosto de fazer é ver e conversar com mulheres. Perscruto suas almas e percebo nelas uma luz como se Deus ainda continuasse junto a elas, como o pintor junto à tela, aperfeiçoando-a, como o pai carinhoso que vela pela criança. Assim era minha mãe, e assim foram todas as mulheres que me amaram, embora, às vezes, as magoassem imperdoavelmente. Busco, nas mulheres, luz, e elas nunca se recusam a dá-la. Sei, hoje, que as mulheres, que, nos dando à luz, e nos iluminando, nos transformam em poetas, porque, então, compreendemos a rosa.
Há dois lugares estratégicos na praça de alimentação: defronte para as escadas, de onde jorram beldades, e defronte ao Torre de Pisa, restaurante e cafeteria, de onde também podemos descortinar, numa posição discreta, o harém. De lá, costumo tomar um espresso na Kopenhagen, defronte à Saraiva. Degusto um blend curto, confortavelmente sentado numa cadeira de palinha (que é como chamamos em Macapá para móveis de vime, ou cipó), e depois bato perna nas três livrarias do shopping. Creio que foi em 2006 que meu querido amigo, mestre, padrinho, o jornalista Walmir Botelho, um dos leitores mais vorazes que conheço, sugeriu a mim, numa visita que fiz a ele, em Belém, que lesse A Festa do Bode, de Mario Vargas Llosa. O livro esteve fora do mercado até Vargas Llosa ganhar o Nobel, este ano. Dia 24 de dezembro estava eu cumprindo o presente ritual quando me deparei, na Saraiva, com um monte de A Festa do Bode. Só mesmo Vargas Llosa para escrever um romance desses. Ele romanceou a história do general Rafael Leonidas Trujillo Molina, o Bode, que, durante 31 anos, governou a República Dominicana com a crueldade demente de todo e qualquer ditador, praticando as maldades mais impossíveis, aquelas que só vicejam, na sua morte, nos pântanos do poder desesperado, a podridão exalada por hienas como Fidel Castro, Hugo Chávez, e sequazes, para só ficarmos na Ibero-América. Feras como essas jamais deterão o poder absoluto, por uma razão simples: a mentira, a corrupção, não detém qualquer poder. É, como o mundo físico, apenas ilusão.
Vargas Llosa construiu uma catedral gótica seguindo os passos do Bode. Merecia, há tempo, o Nobel. O primeiro livro que sugeri à minha esposa, Josiane, pouco depois que a conheci, cafuza de 19 anos, linda que só ela mesma, principalmente quando ficou grávida da Iasmim, foi Tia Júlia e o Escrevinhador, de Llosa. Ele é do tamanho de Gabriel García Márquez e de Ernest Hemingway, e de William Faulkner, é claro.
Às vezes, tenho a sorte de conhecer novos amigos. Foi assim que estive na mais recente exposição de Ralfe Braga, artista plástico macapaense, cosmopolita e que também vive, muito antes que eu, em Brasília. Ontem, encontramo-nos num bar na 107 Norte, tão cheio de mulheres monumentais que nem dava para acreditar. É bom permanecer num lugar cheio de mulheres lindas; é como estar num jardim vermelho de rosas. Ralfe Braga me apresentou ao poeta Marcelo Benini, num desses papos impagáveis, e inesgotáveis, como os que mantinha com Walmir Botelho.
O Natal, este ano, transcorreu, como sempre, em paz. Mas neste ano ele foi como um dia qualquer; eu o senti apenas na alma, como um nascer de novo, um renovar-se, a alegria de ouvir o riso das crianças e sentir o perfume do jardim que cultivamos nas nossas mais luminosas lembranças, as únicas que devemos guardar no relicário da memória. Meu Pai é poderoso e sempre concretiza meus pedidos, porque são verdadeiros. A Ele pedi que arrume 2012, Pessoalmente, para todos os meus familiares e meus amigos e amigas, com os tesouros mais preciosos do mundo, que se encontram numa urna de luz, no meu coração.


Brasília, 29 de dezembro de 2011

É fácil morrer à noite

Belém em dezembro, paradoxalmente desmoronando, sólida, sob
o chumbo aquoso do mundo das águas. Foto de Luiz Braga

De onde estava, podia ver os luminosos e os faróis dos carros sob a chuva torrencial. Bebeu um gole, grande, e voltou a olhar para a rua. O bar tinha portas largas e um toldo sobre o passeio público, onde Reinaldo se sentara, de modo que recebia o vento embebido de água. Era uma chuva de fim do inverno amazônico, que não demorou. Nem bem a chuva passou as pessoas que estiveram abrigadas voltaram para a calçada. Mas foi uma trégua curta, pois a chuva voltou mais forte.

Pediu outro gim-tônica, que Muhammad Ali preparava bem forte para ele, e voltou a prestar atenção para a rua. Gostava de ir ao Castelo de Ouro e ficar apreciando o movimento e ficar apreciando o movimento da rua; isso o entretinha, e hoje havia aquela chuva, com luzes sob ela como pinceladas impressionistas, e as pessoas que corriam, lembrando soldados que pretendessem tomar uma trincheira. Pensou nas chuvas que duram três dias. As grandes chuvas começam chuviscando, mas sempre são anunciadas por trovoadas e duram três dias. As manhãs são desoladas e crepusculares. À tarde, começa a rescender a cheiro de água, e as crianças se divertem na chuva até ficarem roxas. A cor de barro do céu metamorfoseia-se de negro, se desfaz lentamente e encobre a cidade. A noite é fria, e o frio, um túnel negro e pastoso. A porta de um bar fosforesce na noite, como a boca do inferno. Lá dentro é quente e úmido, e fumacento e ácido. Bêbedos ordinários estão atentos como lobos. Entrou no bar e pediu uma Antarctica. Alguns bêbedos o assediaram. Pagou uma dose de cachaça para cada um e foi se refugir no outro lado do balcão. Os bêbedos ficaram olhando-o, matutando um meio de se aproximar dele, com suas caras de vira-lata sob o efeito de uma cadela no cio. Pediu para si uma dose de Pitú. A aguardente desceu-lhe garganta adentro, aquecendo-o, enxugando-o e molhando seus nervos. Havia um papa-defunto perto da porta. Viu quando o garçom se dirigiu para a mesa do papa-defunto e limpou-a. O garçom assentiu com a cabeça e foi, manquejando, preparar uma bebida. O papa-defunto ergueu os olhos para Reinaldo. Era um olhar desconfortável. Reinaldo tomou outro gole, mas dessa vez a bebida quis voltar. O papa-defunto levou a mão ao bolso interno do casaco. Havia ali um volume. Era um maço de cigarros. Pediu mais um gim-tônica. Tomou um gole e a bebida refrescou seus nervos e o livrou mometaneamente dos bares infernais da paranoia.

Parara de chover. Consultou o relógio: onze horas. Sentiu fome. Saiu a caminhar. Não queria ir para casa. Sua mulher, que estava grávida, haveria de se enroscar nele, lamurienta.

- Eu ia ter o neném sozinha – diria. Ouviria os passos da governanta no corredor e o som dos nós dos dedos dela na porta. Quereria saber se madame estava bem. O médico estaria pronto para uma emergência. Tudo preparado como uma Luger.

Apanhou um táxi.

- Hotel Ver-O-Peso – disse. O motorista era jovem e queria ser agradável, portanto aumentou o volume do alto-falante atrás da nuca de Reinaldo. Um berro em inglês se fez ouvir. – Desligue o rádio, por favor! – pediu.

- Não é rádio – disse o jovem. – Mas vou desligar...

Lá em cima, no restaurante do hotel, havia aquela atmosfera suburbana de hotel três estrelas. Pediu, sem consultar o cardápio, filé com fritas e uma Antarctica. O garçom andava apressado e parecia onipresente em todas as mesas, mas, na verdade, demorava-se muito para atender efetivamente os fregueses. Reinaldo queria ir embora quando ele apareceu com o filé e batata frita.

- O senhor quer arroz também?

- Sim! – disse Reinaldo, e pôs-se a comer. Estava faminto. Se quisessem acertá-lo que fosse de barriga cheia. Não o pegariam como daquela vez no calçadão da Avenida Braz de Aguiar. Era o fim da tarde e a noite insinuava-se como doce música. Sentiu alguém tocá-lo no ombro e encostar-lhe algo nos rins. Um tapa de vento fez a rua desaparecer e caiu no vazio, exceto pelo medo concreto, de gelo, que o paralisou.  

- Arria tudo.

Então o pistoleiro era ladrão também? Voltou-se e viu um louco e o grande pente verde que ele, agora, afrouxava das suas costas.

- Filho da puta! – disse, sentindo aquela paralisia evaporar-se. Aspirou gulosamente o ar, confiante, e foi embora, deixando o louco a olhá-lo, desolado.

O Ver-O-Peso cochilava. Atravessou o Boulevard Castilhos França e caminhou devagar, na esperança de encontrar um vendedor de amendoim. Duas mulheres cruzaram com ele e o olharam cobiçosas. Pensou em Celina. Pegou um táxi e foi para casa.

Naquela hora, a casa dormia, como toda a rua. Apenas as mangueiras estavam acordadas, ainda molhadas, como mulher que sai do banho. Sentiu que poderia ser morto ali e se revoltou contra a facilidade com que se pode ser assassinado. Talvez, desde cedo, o matador estivesse ali, a esperá-lo. Abriu o cadeado do portão e entrou. O robusto fila veio lamber-lhe a mão. Reinaldo afagou-lhe a cabeça e se agachou para beijá-lo. “Talvez o tiro venho agora” – pensou. “Ou talvez ele tenha se cansado e ido embora” – disse em voz alta. “Mas um pistoleiro nunca abandona seu esconderijo à espera da presa.” O cão o ouvia atentamente e mordeu levemente a mão de Reinaldo.

Celina dormia a sono solto, nua. Reinaldo se despiu, foi ao banheiro e limpou os dentes com fio dental, nas não estava disposto a escová-los. Lavou o rosto e foi deitar-se. Nem bem se acomodou e ela se voltou para ele, sem acordar, e o abraçou e murmurou alguma coisa. Era cheirosa e seus cabelos, curtos, permaneciam bem escovados. Reinaldo encostou seus lábios na boca de Celina, depois beijou seu nariz arrebitado. Ela abriu os olhos. Eram grandes e castanhos, quase verdes. Ele lhe disse algo no ouvido.

- Não! – ela disse, num longo miado. Mas se virou de costas para ele. A gravidez selara-lhe mais as costas, e vista assim, à luz do abajur, era roliça e macia, as coxas grossas e brancas, e os seios volumosos e delicados. Reinaldo gostava de pegá-los por trás dela, de mergulhar a mão no seu púbis e ouvir seu ronronar. Não era decente, agora que teria seu primeiro bebê, que o matassem. Queria comprar as bonecas mais graciosas para o bebê, se fosse menina, ou então, se fosse menino, pensava que seriam grandes amigos, e quando ele crescesse sairiam juntos para bater papo e beber, empoleirados no balcão do Café Cosa Nostra. Manteriam grandes papos, ele, tomando gin fizz, ou daiquiri, ou qualquer outra bebida preparada pelo Filgueiras, e seu grande amigo tomando um grande sorvete. “Haveria sorvete no Cosa Nostra?” Era algo sobre o que não tinha pensado ainda. Fora um dia puxado no jornal. Precisava se afastar da Editoria de Polícia. Haveria de sair da cidade logo que o bebê nascesse. Firmemente  seguro ao corpo redondo de Celina todos os bandidos da cidade se puseram em debandada e uma lassidão adveio ao jorro com que inundou a mulher, que se virou para ele e se pôs a lamber-lhe o rosto, ronronando, mais gemendo, agora, que ronronando.

A manhã veio vermelha para a janela, e um sabiá cantou durante muito tempo, até Reinaldo sonhar com as manhãs encobertas de neblina em Pedra de Guaratiba.


Do livro A Grande Farra, edição do autor, Brasília, 1992, 153 páginas, esgotado

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A carta

Não me lembrava mais do conto A carta, que devo ter escrito nos anos 1970, em Belém do Pará, e nem tinha cópia dele. Lendo-o, agora, no blog do Fernando Canto, recordo-o inteiramente. Fiquei feliz com a garimpagem e lembrança do caro querido Fernando Canto. Assim, publico A carta com alguns arremates, que qualquer autor faria num original que passou décadas esquecido, como uma pedra preciosa à espera de ser engastada em um anel, ou num colar. Trata-se de uma história ambientada em Manaus, e talvez a personagem feminina central tenha sido criada a partir de uma das mulheres esplêndidas com quem tive a oportunidade de conviver naquela cidade maravilhosa. Acho que quando escrevi esta pequena história, pensei na ambientação psicológica típica de Katherine Mansfield, que dá a seus contos tanta intensidade e, ao mesmo tempo, leveza, só comparável ao anoitecer em Macapá, em agosto, um azul prenhe do que sentimos quando estamos amando uma mulher fugaz como as rosas.


Chegara sua vez. O absurdo estalava-lhe nas têmporas. Estava cabisbaixo. O outro permaneceu calado, até que Alexandre o olhou.
- Tu deverias primeiramente conversar com ela. O que não deves é tomar uma atitude precipitada.
Alexandre estava preso ao torpor da frustração. Sobre a mesa, a carta. Dizia num trecho: "Tu és sobretudo másculo. Tens os músculos nos lugares certos, para me mobilizar com força. Adoro aconchegar-me no teu regaço viril e uterino; sinto-me mais mulher no teu regaço voluptuoso. Quando o vi pela primeira vez meu coração pulsou descontroladamente. Isto é amor. Amor à primeira vista. Mais do que amor: é paixão".
Era a letra miúda e minuciosa de Carla. Sua letra, num crescendo, desnudava-a, entregava-a a seu amante, àquele homem ali descrito, detalhadamente, até os nervos. Era um homem invejável. Um cavalheiro; um homem de ação; jovem e velho ao mesmo tempo.
A princípio, Alexandre supôs tratar-se de um original de Carla. Mas, não. Sua mulher criava sempre em papel-xerox. Saíra, naquela manhã, às pressas. "Um encontro com o amante."
- Alexandre Acapu, trinta anos, nadador profissional e depois oceanógrafo, muito tempo passado no mar e pouco em casa, marido da escritora Carla Menescal de Adrianópolis, grande sucesso de vendas com o romance As Amarras, agora desatadas, é... – interrompeu-se ao ler a recriminação nos olhos do seu amigo, a quem chamava de Velho. - É passado para trás - disse, num desabafo.
- Não será um conto, uma crônica, um capítulo de romance? - Velho perguntou.
- Ou memórias?
- Perguntas-lhe o que é. Não ficas te lastimando e nem te deixas enganar pela paranoia. Vais para tua casa e falas com ela sem fazer escândalo. Se for mesmo um amante, urge saber se ela gosta do outro. Então só restará a separação. Este manuscrito sem destinatário não quer dizer nada. Por que ela o deixaria tão visível?
- Nunca entro na biblioteca, que é onde Carla escreve. Tenho meus livros e apetrechos num quarto no quintal.
- Uma mulher, quando trai um homem, age com muita cautela – disse Velho, triste com a desolação do amigo. - Já passei por isso. Sou marinheiro e também casado com uma escritora... - disse, confuso com a prostração de Alexandre.
- É, meu velho. Só que no teu caso ela te procurou e disse tudo. Tu aceitaste o jogo.
- Aceitei. A vida é um jogo, meu caro. A derrota é sabida, mas a vitória acontece durante o jogo...
O Sapo continuava bom como sempre. Louis Armstrong inundava o quarto, por onde flutuavam também cheiros de Carla. Carla, 1,67 metro, 48 quilos, um milhão de livro vendidos em três idiomas, 36 anos. Terás encontrado um homem de 21 anos de idade, que é quando eu tinha quando te conheci? Eu conquistara então o primeiro lugar na travessia do rio Negro, e tu, minha pequena Carla, publicaras teu primeiro livro de contos, É Meia-Noite e Eu em Torno de Ti na Cama. Causou sensação no Rio e em São Paulo. Agora, estou chamuscado pelas águas dos mares. Sim, água do mar pode chamuscar nossa alma. Acho que já não te levo como antigamente à loucura. Será por isso, minha Carla, que terás encontrado outro homem? Voltarei ao mar e lá ficarei.
Ouviu Carla chegando, e depois a viu entrando no quarto. Era linda. Tinha boca de cupido, carnuda, e olhos grandes e verdes, e cabelos negros e esvoaçantes, e sorria facilmente. Sorria com os lábios e com os olhos.
Fazia calor. Carla chegou ao meio do quarto e se desnudou de um só golpe. O vestido de seda branca, que tombou a seus pés, contrastava com a cor de canela da sua pele. Riu. Seu riso era mais um trinado. Avançou para ele, que estava sobre a cama empunhando o manuscrito.
-Ah! - exclamou, afastando a mão que empunhava o manuscrito. - É um conto que estou escrevendo. – E o beijou. - Está faltando papel-xerox. Vim da gravação da entrevista para a televisão. Estava atrasada. - Ia dizendo as coisas de uma vez e o beijava, imergindo naquele delírio de tarde calorenta.
O ar que o comprimia por dentro saiu de um jato, como o demônio que deixa a pessoa possuída, produzindo o alívio que advém ao perigo finalmente esmagado.

Belém do Pará, possivelmente nos anos 1970

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O Pará não dorme mais em berço esplêndido

Brasília, 20 de dezembro de 2011 – O plebiscito da divisão do Pará em três (mais Tapajós e Carajás), dia 11, aprovou o não, mas mostrou que os paraenses querem manter o estado com 1.247.689,515 quilômetros quadrados, do tamanho da Colômbia, e 7,6 milhões de habitantes, apenas por bairrismo; e os políticos pró-Pará, para não terem suas tetas reduzidas. Dos 4,8 milhões de eleitores, 67,93% rejeitaram a criação de Carajás, contra 32,07% que apoiaram o nascimento do novo estado; 67,36% rejeitaram a criação de Tapajós e 32,64% apoiaram a divisão. A abstenção chegou a 25,45%.

Um erro do Supremo Tribunal Federal (STF) foi ter incluído os moradores do Pará remanescente, a maioria da população, no plebiscito. Foi o mesmo que consultar Portugal sobre a independência do Brasil. Cerca de 98% dos moradores do Tapajós, por exemplo, querem se separar do Pará. Também, caso o plebiscito fosse pelo sim, creio que o Congresso Nacional barraria a divisão, ou Dilma Rousseff (PTMDB), pois seria uma sangria nas tetas da Esplanada dos Ministérios.

Carajás, se fosse criado, deteria a maior província mineral do planeta, atualmente explorada pela gigantesca Vale. Como exportação de commodities extraídas do sub-solo não rende praticamente nada para os estados, mas apenas para o império, isto é, para a União, restaria aos carajaenses a industrialização metalúrgica, embora houvesse implícito na criação de Carajás grande interesse de fazendeiros, principalmente do Sul e do Centro-Oeste.

Quanto a Tapajós, culturalmente um estado autônomo, detém Belo Monte, que será a terceira maior hidrelétrica do mundo e que tem sido palco de tanto besteirol.

O Pará, mesmo, ficaria reduzido a 218 mil quilômetros quadrados, 17% do seu território.

Logo depois da apuração do plebiscito, o governador do Pará, o tucano Simão Jatene, botou a culpa do atraso do estado no pacto federativo. Em outras palavras, ele se reconheceu incompetente como gestor. Será que Simão está investindo direito em educação, em pesquisa, em industrialização? Ou está enchendo os bolsos da mídia e inchando o governo com cabide de emprego e em nepotismo?, como fez no seu governo anterior e que foi levado ao paroxismo com a deslumbrada e inacreditavelmente incompetente Ana Júlia Carepa, do PTMDB, e que está prestes a botar a boca numa tetinha no governo Dilma Rousseff?

"Existe uma distância e ausência, mas não é do governo do estado, mas do estado brasileiro. É genuíno o sentimento das pessoas, mas acho que o caminho foi equivocado. A sociedade paraense sai mais madura, mas precisamos de um pacto que nos reposicione” - disse Jatene, com o jeitão sociológico dos tucanos.

Governadores da Amazônia dormem em berço esplêndido. Têm a cultura do colonizado e não sabem entrar na mídia nacional por meio do que é bom nos seus estados. Quando se avistam com Dilma Rousseff parecem vassalos diante de uma imperatriz. Já suas bancadas no Congresso Nacional geralmente tratam dos seus próprios negócios. O povão é empurrado com cesta básica, política de “estado” que Lula alçou à estratosfera.

Novos lances nos movimentos de emancipação vão surgir, mas agora a insatisfação começou a focar a posição da capital, Belém, para onde vai boa parte da grana dos paraenses, uma fatia dela para apaniguados do governador. Já há um movimento querendo tirar de Belém a sede dos três poderes e jogá-la para perto da Terra do Meio, como foi feito com o Rio de Janeiro e Brasília.

Para um país continental como o Brasil, a vocação é a divisão política. O Pará era do tamanho da Amazônia e foi dividido aos poucos. A última porção que perdeu, em 1943, foi o atual estado do Amapá. Se o Amapá ainda fosse paraense, é provável que sua capital, Macapá, seria semelhante à cidade de Afuá, no arquipélago de Marajó, região paraense paradisíaca, mas onde crianças morrem de fome, comidas por vermes, ameba, giárdia, malária e estupradas.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O banquete dos que eu amo

O tarde é feita de mulheres que passam batom na boca
De crianças que riem
De sabiás que amam
De rosas nuas,
De silêncios.
A tarde é prenhe da solidão da madrugada
E, ao mesmo tempo, de um grande aeroporto numa sexta-feira à noite.
A tarde é o agora e o agora, numa temperatura de 21 graus centígrados,
Sombra tropical, cadeira de palinha e café espresso arábica.
A tarde é prenúncio de estrelas e do rastro de mulheres tão lindas
Que vivem nuas.
A tarde é uma mulher grávida de amor,
E que tem sabor de vinho europeu.
A tarde evoca sons de diamantes,
Excitante como beijo de língua
E sabor de ostra e Bohemia enevoada.
A tarde é o riso das virgens ruivas
E, da luz, o triunfo.
A tarde é tudo o que tenho para dar neste Natal,
E, no Ano Novo, darei minha alma, que é toda a minha luz.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Soneto para Josiane

Ela estava deitada de lado. Não se mexia. Ouvi sua respiração e a madrugada. Fiquei hipnotizado, pois sempre fico hipnotizado à visão da sua nudez. Sua pele cafuza é clara como cetim rosa. Observei-a do alto das costas e desci o olhar até a cintura, no encontro com as nádegas, e me perdi no labirinto de segredos que sumiam em curvas sinuosas. Os seios, repousados na lânguida posição, lhe davam a beleza de um grande jato no momento do pouso. Deitada assim, ela me lembra Marilyn Monroe no ensaio da primeira Playboy. Assim, deitada, mergulhada em sono profundo, ela é como uma grande rosa vermelha, tão linda que causa sofrimento, porque não podemos possuir as rosas, pois as rosas não são de ninguém, existem apenas para sabermos que existe Deus. Tirei a roupa e me deitei, e fiquei olhando a escultura ao meu lado, o mais perto possível. Sua epiderme é como o mar ao anoitecer. Assim, de perto, as ancas lembram os sonhos, que eu sempre tenho, voando sobre o roseiral e as zínias da minha infância. Cheirei-a, e senti perfume de maresia, Chanel Número 5, jasmineiros chorando em noites tórridas, leite da mulher amada e o sabor de lágrimas de virgens ruivas no acme. Cheirei seus cabelos. Ela tem os cabelos como a juba negra de um leão e a feminilidade de uma rosa ao sol em manhã de primavera. Moveu-se e disse: “Te amo, querido!”, e voltou às profundezas do seu sono de gata. Eu também te amo, como a eternidade. Ao se mover, ela se encostou em mim. Seu contato era como estrelas caindo em algum ponto da galáxia, numa festa inesquecível, numa idade em que ainda somos fisicamente imortais. Eu me sinto, então, como nervo exposto à descarga elétrica, mas sob absoluto domínio, intenso como são as rosas. Beijei suas costas, e senti sabor de Dom Pérignon, safra de 1954. No meu delírio, cavalgo-a, como dançarinos domam um tango de Astor Piazzolla, e arranco da sua boca vermelha música de Wolfgang Amadeus Mozart. Ela se moveu novamente, num giro de 180 graus, e buscou refúgio nos meus braços. Seu rosto é sereno, de mulher que se sente amada. Amanhã, eu lhe darei a grande rosa colombiana, vermelha, que depositei no vasinho do altar, no nosso quarto. Creio que não há oferta mais esplendorosa do que uma rosa, grande e vermelha, à mulher amada, pois as rosas são a própria poesia que emana do corpo de uma mulher nua.

Brasília, 10 de dezembro de 2011

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

No topo da montanha brilha o verão

Atormentado pela fome, às 5 horas estava de pé. Não conseguira dormir nada. Sentia-se tonto e com a náusea que a fome prolongada causa. A última vez que comera algo sólido fora há dois dias. Só pensava no café. A casa de estudante dividia-se em três prédios. O maior e mais novo, que era onde ele morava, tinha uma fileira de quartos, de onde se podia ver o Hilton Internacional Belém. Lavou o rosto e desceu. Passou pela frente da vila, entre os dois grandes prédios, e subiu para o restaurante, que ficava no prédio velho. Às 7, o servente serviu a refeição, que consistia em café com leite e pão com margarina. Sentiu as costas macias do gato nos seus tornozelos nus, e pensou na sua cidade natal. Foi um momento de felicidade curto, pois se lembrou da carta que recebera no dia anterior. “Estou com sífilis” – dizia a carta. “No segundo estágio. Não há mais cura. Devo enlouquecer em dez anos. E morrer em quinze. Uma geração de filha-da-puta, a minha.” Sim, uma geração de filha-da-puta. Um, sifilítico; outro, louco; outro, apodrecendo, com fraqueza pulmonar, num povoado aurífero na fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa; outro, dipsomaníaco; outro, decapitado e castrado pelo seu próprio irmão. “Se eu não tomar cuidado viro mendigo” – pensou.

Ainda faltava muito para acabar o inverno. Dois anos. Era quanto faltava para sair da universidade. Deprimia-se a pensar nisso e mudou de pensamento, enquanto caminhava para o campus universitário do Guamá. No começo, quase não suportou a falta de mulheres. Não fazia nenhum esforço para tê-las. Era a economia de guerra, como dizia. Também sentia grande desejo de beber, mas resolvera que tanto bebida quanto mulher só teria quando pudesse tê-las com qualidade, com dignidade, e não como vira-lata. Ademais, tinha Julieta. Conhecera-a na universidade. Linda. Viu-a pela primeira vez no semestre passado. Estava a ler um livro no corredor de um dos pavilhões do básico quando ela passou ladeada por dois rapazes. Devia ter 21 anos. Sua pele era maravilhosa. Lembrou-o a pele de sua mãe quando jovem: um branco quase leitoso, acetinado. As pernas eram roliças, firmes. As ancas, equinas, e os cabelos negros e sedosos. Tinha lábios sensuais, e um defeito na língua, de modo que falava de uma maneira especial, como uma criança. Ao cerrar os olhos, notava-se um quase imperceptível esforço, e isso, de algum modo, acentuava-lhe o ar de criança. No semestre seguinte João descobriu que eram colegas de curso e que tinham várias disciplinas juntos. Não sabe como foi, mas se tornaram amigos. Para ele era muito que tivesse Julieta. Sua presença de mulher bonita lhe fazia um bem profundo.

Sentou-se, as pernas a tremer, suado e fraco da fome e da caminhada. Sentia premente necessidade de morder algo sólido. Tentou prestar atenção na aula, mas não conseguia reter as informações do professor. E foi assim até meio-dia. Chegara àquele estágio em que não há mais fome, mas uma dormência no estômago, uma contagem regressiva para o desfalecimento. Ir a pé da Cidade Velha para a universidade, de manhã cedo, após o café, era até agradável, mas tinha de pedir carona para voltar. Era a parte humilhante do seu dia. No caminho ia pensando que seria bom encontrar uma carta, um recado, qualquer coisa, mas a carta mensal que recebia de casa ainda ia demorar uma quinzena. O suco gástrico agitou-se. Pelo menos havia a mangueira. Sempre encontrava duas, três mangas. E à noite iria até a padaria e pediria ao Ogro – que é como apelidava o padeiro – um pão, e o Ogro lhe daria um pão massa fina do dia anterior. Depois de comê-lo, beberia um copo d’água e iria deitar-se.

À noite, sentindo um pouco de náusea, não teve disposição para ir à padaria e se deitou. Estava tonto, e com aquele sono que é um desmaio, que vem e vai.

- Ei! – escutou que lhe diziam. Abriu os olhos. Julieta estava em pé, ao lado da cama, com um leque de dinheiro na mão. Pouco depois estavam no bar do Hilton. Mas João continuava sentindo um vazio na barriga, cada vez mais sentia o vazio, até que o vazio se tornou um entorpecimento. Julieta se deitou a seu lado e o aqueceu com seu corpo macio e branco, como a epiderme de sua mãe. E então aquela dança louca deu lugar a um zumbido vago, como um avião lento, muito alto no céu.


Do livro A Grande Farra, edição do autor, Brasília, 1992, contos, esgotado

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A devastação da Amazônia é uma indecência comemorada

Brasília, 6 de dezembro de 2011 - O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) informou, segunda-feira 5, a redução de 11% no desmatamento da Amazônia Legal, que é a Amazônia Clássica mais Tocantins e um naco do Maranhão (Nordeste) e de Mato Grosso (Centro-Oeste). Entre agosto de 2010 e julho de 2011, foram desmatados 6.238 quilômetros quadrados da Amazônia Legal, o menor índice desde que o monitoramento por satélite é registrado. "A razão fundamental dessa queda foi o combate implacável ao desmatamento comandado pelo governo brasileiro" - disse o ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante. Segundo ele, a presidente Dilma Rousseff, "no estilo dela", parabenizou a todos os envolvidos, mas pediu melhores resultados no futuro.

E o governo comemora! 6.238 quilômetros quadrados de floresta torados em um ano! É uma indecência. Só mesmo Dilma, “no estilo dela”, e Aloizio Mercadante (ministro de Ciência e Tecnologia!) para acreditarem em “combate implacável ao desmatamento”. O Pará, que passará por plebiscito dia 11 para decidir se continua continental ou se será dividido em três, é o campeão em desmatamento. Lá, no período mencionado, foram torados 2.870 quilômetros quadrados de floresta. O sudeste do Pará já é quase só cerrado e capoeira. Ninguém utiliza essas áreas imensas para a agricultura. Depois de desmatadas, geralmente para a produção de carvão, fica lá o monturo gigantesco.
Os políticos locais vivem batendo perna em aviões, Belém-Brasília-Belém; dão, às vezes, uma escapulida turística internacional, e vão levando a vidinha deles, alheios ao som das motosserras e da fumaça das caieiras. Agora, com o movimento de divisão do estado em três, o pessoal de Belém começou a se mexer; afinal, se o estado for mesmo dividido, vão perder muita grana.
Mato Grosso, o segundo maior desmatador nesta última medição, com 1.126 quilômetros quadrados, já quase não tem o que torar. Rondônia, terceiro lugar, com 869 quilômetros quadrados torados, registrou aumento de 100% no desmatamento em relação ao ano anterior.
Os colonos portugueses levaram uma quantidade incrível de toras de madeira nobre para a Europa durante séculos, mesmo assim até os anos da década de 1950, a Hileia estava quase intacta. A partir dos anos de 1960, grandes propriedades começaram a ser instaladas na região, com seus donos mantando pôr fogo na floresta para plantar. Logo depois, a área desmatada, além de perder rapidamente a fertilidade, virava capoeira de ervas daninhas, incontroláveis. Aí, desmatavam mais floresta. Hoje, as áreas desmatadas são visíveis a olho nu do espaço.
Entre 1991 e 2000, a área de floresta torada subiu de 415 mil para 587 mil quilômetros quadrados, a maioria disso transformada em pastagem para gado - 91% das terras desmatadas, desde 1970, são utilizados para pastagem de gado. Também a soja está avançando na Amazônia. Entre 2000 e 2005, o desmatamento médio da Hileia foi de  22.392 quilômetros quadrados por ano. Segundo o relatório Assessment of the Risk of Amazon Dieback, do Banco Mundial, cerca de 75% da floresta podem ser perdidos até 2025 e, em 2075, podem restar apenas 5% de florestas no leste da Amazônia.
A Amazônia tem vocação para produção industrial biotecnológica; produção de peixes, crustáceos e frutos do mar (Amazônia Azul); silvicultura, principalmente para a produção de biodiesel; extração mineral, inclusive minerais estratégicos, como nióbio; produção de frutas típicas da região, como açaí; agricultura de várzea; produção de pesquisa e tecnologia do Trópico Úmido.
Precisa de mais universidades, e que também funcionem, que não sejam como as universidades capengas que existem lá, e, de um modo geral, no Brasil do faz de conta; cursos de oceanografia, engenharia naval, da pesca e agronômica, e de medicina tropical; implementação de polos industriais biotecnológicos, além de investimento maciço e nunca descontinuado na educação e da contratação inicial, por concurso, de pelo menos mil guardas florestais, equipados com o que há de melhor para pegar bandido (é claro que muita gente boa, de colarinho branco, não iria querer uma coisa dessas).
Tudo está ficando cada vez mais descarado. O governo federal passou um tempão ouvindo a conversa mole do João Bafo de Onça, o Lupi do PDT, e o Zé Sarney gasta nossa grana à vontade, inclusive para ver como vai sua bela imagem pública, e incentivando os seguranças do Senado Federal que sonham em se tornarem uma Polícia Federal. Os ladrões de colarinho branco continuam soltos e sem devolver sequer um centavo do que roubaram.
Quanto à Amazônia, continuará sendo devastada aos milhares de quilômetros quadrados por ano, tudo medido pelo Inpe.

sábado, 3 de dezembro de 2011

No mundo pós-moderno não há mais condições para estados como o Pará

Brasília, 3 de dezembro de 2011 – Todo o poder político emana do povo. Assim, serão os paraenses que determinarão, dia 11, se o Pará será ou não dividido em três. Mas eu, que sou paraense de Macapá, tenho minha opinião sobre isso. Os colonos portugueses dividiram o Brasil em dois: o Brasil, abarcando as regiões Sudeste, Nordeste menos o Maranhão, Sul e Centro-Oeste; e Grão Pará, abrangendo a Amazônia Clássica e o Maranhão. O Grão Pará foi dividido em Pará, Amazonas e Maranhão e, posteriormente, em Pará e Território Federal do Amapá (hoje, estado). É sua vocação.

Na Terra pós-moderna (a era da tecnologia de ponta) não há mais condições para impérios, territórios continentais. Os estados são cada vez mais enxutos. Os governadores do Pará não dão conta nem do quintal deles, quanto mais de uma área de 1.247.689,515 quilômetros quadrados, maior do que Angola, dividido em 144 municípios, entre os quais Altamira, com 159.695,938 quilômetros quadrados, o maior município do Brasil e o segundo do mundo, menor apenas do que Qaasuitsup, município gronelandês (da ilha dinamarquesa da Groelândia, na América do Norte, criado em 1 de janeiro de 2009). Se Altamira fosse um país, seria o nonagésimo primeiro mais extenso do mundo, maior que a Grécia ou o Nepal. Se fosse um estado brasileiro, seria o décimo sexto, maior que o Acre ou o Ceará. Em Altamira, vive-se na Idade Média.
Os moradores do estado do Amapá, desmembrado em 1943 do Pará, seriam hoje tribos meio brasileiras, meio francesas, pois procurariam trabalho na colônia francesa da Guiana, e Macapá, a capital, seria provavelmente uma cidade ribeirinha como as do vizinho arquipélago do Marajó, uma das regiões mais atrasadas (e belas) do Pará, no quintal de Belém.
Talvez os paraenses do que sobrará do Pará, em caso de aprovação da divisão, manifestem apenas o apego à ideia de ter nascido num verdadeiro país em área territorial, e os governadores estejam de olho, desde sempre, nas matérias-primas e nos impostos, e não pensem na situação dos caboclos, dos ribeirinhos e dos índios. Creio que os governadores do Pará deveriam ser obrigados por lei a viver pelo menos um mês na região mais inóspita do estado, antes de tomar posse, assim como o governador do Distrito Federal deveria andar de ônibus em toda a cidade-estado durante o mesmo tempo, e o presidente da República a passar uma semana em cada uma das quatro regiões mais miseráveis (porque atrasadas) do país, entre as quais o interior do Pará, campeão em escravidão.
Argumenta-se, em contrário à divisão do Pará, que os dois novos estados consumiriam, na sua criação, dezenas de bilhões de reais. Sobre esse quesito, analiso a questão com o mesmo ponto de vista que tenho sobre a Copa do Mundo de 2014. Diz-se que o dinheiro a ser investido no Mundial poderia, por exemplo, pôr a saúde pública nos trilhos. Dinheiro não é problema, na verdade. O Brasil tem condições de fazer uma Copa do Mundo por ano. Quanto à saúde, posta nos trilhos, voltaria a descarrilar. Sem a criação de novos estados e sem Copa do Mundo o governo federal de plantão jamais investiria em infraestrutura e urbanização nesse nível, pois, normalmente, esse dinheiro vai para o bolso de figurões carimbados, gordos como porcos, e tão criminosos como estupradores de crianças.
E esse negócio de dizer que vai aumentar a quantidade de bandidos de colarinho branco é um argumento também suíno, com meu pedido de desculpa aos porcos mesmo.
Se a questão é consertar o Brasil, basta que se faça uma revolução branca: a reforma política. Não aquela comandada pelo notório maranhense Zé Sarney (PTMDB), o que afogou o Senado da República na lama, o maior patrimonialista brasileiro desde Dom João VI (este, legítimo). A propósito, a culpa por Zé Sarney continuar agindo não é dos maranhenses, mas dos tucujus, os índios de Macapá, de quem o autor de Marimbondos de Fogo recebeu o cargo vitalício de senador. Na época, os cupinchas de Zé Sarney colocaram na cabeça dos tucujus que ter um ex-presidente da República como senador seria o mesmo que Dom João VI fugir de Napoleão diretamente para Macapá e dirigir pessoalmente a construção da Fortaleza de São José. A indiarada ficou babando. Agora, os que não levam nada babam, mas de raiva.
Voltando ao Pará, se o plebiscito definir o não à divisão, de qualquer modo as coisas não ficarão por isso mesmo. O governador de plantão terá que prestar mais atenção. Incompetências inacreditáveis como Ana Júlia Carepa, se conseguirem se eleger, não conseguirão aguentar quatro anos, e “quadros magníficos do PSDB”, como o pescador Simão Jatene, terão que enxugar sua adiposa corte.

sábado, 19 de novembro de 2011

É preciso passar a limpo o Brasil, com urgência!

RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

Brasília, 19 de novembro de 2011 - Toda a cultura humana está registrada nos livros, ou na escrita, incluindo os parcos conhecimentos que temos do mundo espiritual, conhecimentos que nos foram passados por mestres como Jesus Cristo e registrados por seguidores. Jesus Cristo, por exemplo, falava em aramaico. Por meio da engenharia da tradução, suas palavras foram grafadas, na Idade Clássica, em grego e em latim, e ganhou o Ocidente por meio da língua inglesa, chegando a nós, brasileiros, pela língua portuguesa. A propósito, cabalistas e alguns evangélicos procuram viver de acordo com a Bíblia, no nosso tempo pós-moderno, isto é, tecnológico.

As nações mais desenvolvidas do planeta, como Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Japão, não mexem na etimologia do seu idioma. No nosso caso, viemos de um dos idiomas mais sofisticados da história da humanidade, que é o latim, que, em Portugal, sofreu misturas do gótico e do árabe, desembocando na língua brasileira, oriunda do português de Portugal, tupi-guarani, línguas africanas, palavras estrangeiras incorporadas ao nosso idioma, verbetes pós-modernos, neologismos e nossa maravilhosa cultura mestiça e tropical.

Recentemente, a república peteemedebista de Lula, embarcou em mais uma canoa furada (para o povo): o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, sustentado pelo discurso de que precisamos ter o texto igual ao de Portugal na Organização das Nações Unidas (ONU). Uma falácia! Se isso fosse preciso mesmo, bastaria adotar-se, naquele organismo internacional, a língua brasileira. Se Portugal já foi, com a Escola de Sagres, o que os Estados Unidos e a Nasa representam agora, é hoje um dos países menos avançados da Europa, enquanto que o Brasil é, e todos sabemos disso, a nação mais rica do planeta, embora ainda em estágio potencial. Creio que, assim que a esclerose política for varrida deste imenso Portugal, ombrearemos os Estados Unidos.

Se Portugal já foi o que hoje são os Estados Unidos, em tecnologia e império, os portugueses não agiram como os ingleses, que foram donos do maior império que já houve no nosso planeta. Portugal sugou, como um vampiro, ouro, diamantes e outras pedras preciosas, prata, estanho, madeira (a Mata Atlântica junto), a vida dos escravos, tudo o que representasse riqueza, para dourar sua aristocracia, inclusive pagando a Inglaterra para proteger o sangue azul português, que vivia em berço esplêndido. A Inglaterra inaugurou a era moderna com a industrialização, no século XVIII, e os portugueses ficaram a ver navio.

Agora, no pós-modernismo, a era da tecnologia de ponta, com robôs realizando cirurgias, Portugal, e sua língua esgotada, mergulha cada vez mais no passado, que, a rigor, não existe, enquanto que o Brasil, com sua maravilhosa riqueza étnica e cultural, emerge, cada vez mais, para o trópico, a que os europeus chamam de realismo-fantástico, pois a velha Europa nunca entendeu o trópico.
O Novo Acordo Ortográfico só serviu para os apaniguados do Ministério da Educação do PTMDB encherem mais ainda a burra, vendendo milhões de novos dicionários, gramáticas normativas e livros em geral ajustados nas novas regras, uma das quais extinguiu a palavra “acreano” e criou “acriano”. Os acreanos ficaram furiosos. Mas o que se há de fazer num momento de tanta mediocridade política e intelectual?

O Brasil não precisa de mudanças na língua. Nenhum povo precisa. O que potencializa a utilização de um idioma é o avanço do seu país, ou países. Fala-se inglês no mundo todo por causa do Império Inglês e, depois, por causa dos Estados Unidos. Aos 5 anos de idade, quando aprendi a ler, já lia Walter Disney, Edgar Rice Burroughs, Al Capp, e, a partir de 14 anos, Ernest Hemingway, Franz Scott Fitzgerald, John Steinbeck, Somerset Maugham, via John Ford, Francis Ford Coppola, ouvia os Beatles e, atualmente, utilizo-me da informática.

Pois bem, o Brasil não precisa de mudanças ortográficas. Precisa investir maciça e continuamente, de forma nunca desestimulada, em educação, pesquisa e tecnologia. O Brasil não precisa de mudanças tecnológicas, precisa reduzir o fosso social: de um lado, pessoas ganham anualmente bilhões de reais de lucro, enquanto outros morrem de fome, ou comidos por vermes, giárdia, ameba, protozoário, bactéria e vírus. Indiozinhos morrem de fome. Muito dirão: são apenas indiozinhos. Pois o Brasil só é rico porque tem, também, basicamente, riqueza cultural continental. E se não cultivarmos a luz da espiritualidade, qualquer riqueza será apenas pó.

Dinheiro tem valor mental. R$ 1 trilhão, por si só, não valem nada. Lembro-me de um caso emblemático. Uma senhora ganhou uma soma vultosa e deu, para um sobrinho, R$ 100 mil. Ele comprou um carro novo e remobiliou sua casa, endividando-se para isso, pois os R$ 100 mil não cobriam os gastos feitos. Bateu com seu carro novo em outro automóvel e quase mata seu condutor. Seu carro não prestou para mais nada, teve que pagar os custos médicos com o outro condutor, pois fora culpado no acidente, e também pagar o outro carro. Assim, R$ 100 mil representaram, na verdade, menos algumas centenas de milhares de reais, mais o desgaste imenso.

O Brasil não precisa gastar dinheiro com reforma ortográfica. O Brasil precisa tirar das ruas crianças que estão morrendo de fome, de estupro, de drogas, à faca e à bala, o tempo todo. Enquanto essas crianças vagarem nas ruas brasileiras, como pedrada na cara, falastrões como Lula, e os “grandes quadros oposicionistas” dos vistosos tucanos, serão apenas palhaços stalinistas, como Hugo Chávez e Fidel Castro.

O Acordo Ortográfico é mais uma peça de marketing do governo lulapeteemedebista, em um país de esmagadora maioria de alfabetizados funcionais - que leem mas não entendem o que leem -, com pelo menos 20 milhões de pessoas que vivem na Idade da Pedra – não sabem ler e, muitíssimos deles, não têm sequer certidão de nascimento; outros, são escravos mesmo, principalmente nos medievais estados da Amazônia.

No Brasil, nós não precisávamos de reforma ortográfica. Precisamos de reforma política, de reforma fiscal, de reforma educacional, de reforma do Judiciário, de reforma administrativa, de reforma previdenciária, de pacto federativo, e, sobretudo, de jogar os ladrões de colarinho branco na cadeia e fazê-los pagar tudo o que roubaram. É preciso acabar com a indecência da imunidade parlamentar. Faz-se necessário passar a limpo este Brasil corrupto.


A curta história da língua brasileira, que leva ao mundo, por meio da sua literatura, as cores do trópico

Originada em Portugal, a língua brasileira cada vez mais se impõe no planeta, levando para as regiões frias, que antes sediavam a metrópole, a riqueza cultural e a alegria dos trópicos, por meio da literatura, da tecnologia e do trabalho


RAY CUNHA
ray.cunha@uol.com.br
Para a revista Século 21


Brasília, 21 de julho de 2009 - Esta curta história da língua portuguesa é baseada em relatos de arqueólogos e historiadores. Tudo começou na região ocidental da Península Ibérica, há 300 anos Antes de Cristo, com soldados romanos e seu latim vulgar. Oitocentos anos depois, o Império Romano começou a desabar, mas deixava, firmes, várias línguas, variantes do latim. O português escrito começou a ser utilizado, em documentos, no século IX, e, no século XV, já se tornara língua literária. Desde os romanos, havia duas províncias na região em que se formou a língua portuguesa: Lusitânia, hoje Portugal, e Galécia, ou Galícia para nós, brasileiros, ao norte.

O Império Romano conquistara a região ocidental da Península Ibérica, criando as províncias da Lusitânia e da Galécia, equivalentes, hoje, ao centro-norte de Portugal e à província espanhola da Galícia, a noroeste da Espanha, nas quais se começou a falar latim vulgar, do qual nasceram as línguas neolatinas e 90% do léxico, ou dicionário, do português. Os únicos vestígios das línguas nativas dessa região dormem na toponímia da Galícia e de Portugal.

Entre 409 e 711, depois de Cristo, o Império Romano entrava em colapso e a Península Ibérica era novamente invadida, agora por povos de origem alemã – suevos e visigodos -, que os romanos chamavam de bárbaros. Entretanto, os novos invasores absorveram a língua romana da península. Como cada tribo bárbara falava latim à sua maneira, o resultado foi a formação do galaico-português ou português medieval, espanhol e catalão.

Os estudiosos acreditam que foram os suevos os responsáveis pela diferenciação linguística dos portugueses e galegos quando comparados aos castelhanos. Durante o reinado suevo, proibiu-se nominar os dias da semana em latim e as palavras guerreiras foram impostas em línguas germânicas, tal como “guerra”.

Em 711, depois de Cristo, a península foi invadida pelos mouros, de língua árabe, oriundos do norte da África. O árabe foi utilizado, nessa época, como língua administrativa nas regiões conquistadas, mas a população continuou a falar latim vulgar. Em 1249, os mouros foram expulsos, mas deixaram grande número de palavras árabes, especialmente relacionadas à culinária e à agricultura, sem equivalente nas demais línguas neolatinas, além de nomes de locais no sul de Portugal, como Algarve e Alcácer do Sal. Muitas palavras portuguesas que começam por “al” são de origem árabe.

O mais antigo documento latino-português de que se tem conhecimento é a Carta de Fundação e Dotação da Igreja de S. Miguel de Lardosa, datada de 882, depois de Cristo. O Testamento de Afonso II, de 1214, é o texto em escrita portuguesa considerado mais antigo. Esses documentos estão guardados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa.

O vernáculo escrito passou, gradualmente, para uso geral a partir do fim do século XIII. Portugal se tornou país independente em 1143, com o rei Dom Afonso I. Em 1290, o rei Dom Dinis criava a primeira universidade portuguesa em Lisboa - Estudo Geral - e decretou que o português, então chamado “linguagem”, substituísse o latim no contexto administrativo.

Em 1296, o português foi adotado pela Chancelaria Real. A partir daí, a língua galego-portuguesa passou a ser utilizada também na poesia. Já em meados do século XIV, o português alcançara tradição literária. Nessa época, os nativos da Galícia começaram a ser influenciados pelo castelhano, base do espanhol moderno. Entre os séculos XIV e XVI, com as grandes navegações, a língua portuguesa é difundida na Ásia, África e América.

Na Renascença, aumenta o número de palavras eruditas do latim clássico e do grego arcaico, ampliando a complexidade do português. O fim do português arcaico é marcado pela publicação do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, em 1516.

A língua portuguesa no mundo - Fala-se oficialmente português nos oito países que integram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP): Angola (África), Brasil (América do Sul), Cabo Verde (África), Guiné-Bissau (África), Moçambique (África), Portugal (Europa), São Tomé e Príncipe (África), e Timor- Leste (Ásia). Mas em cada uma das ex-colônias portuguesas falam-se, na verdade, variantes do português de Portugal.

Também falam-se variantes de português nas seguintes regiões: Galícia (província da Espanha, Europa); Goa, Diu e Damão (Índia, Ásia); Macau (China, Ásia), Málaca (Malásia, Ásia) e Zanzibar (Tanzânia, África).

A escrita da língua portuguesa é semelhante em todos os países da CPLP, com poucas variações gramaticais. O que muda, de forma mais evidente, além da grafia de um certo número de palavras, é o significado de outras tantas palavras, com conotações diferentes de região para região; o modo de se utilizar formas verbais; e o estilo erudito, isto é, o modo de se construir frases e contextos literários.

Quanto ao falar, um brasiliense só se entenderá com um lisboeta, por exemplo, se ambos conversarem vagarosamente e pronunciarem claramente as sílabas das palavras.

Contudo, trata-se da quinta língua mais falada no planeta, por cerca de 240 milhões de pessoas, em quatro continentes. Se Portugal é o portão de entrada da lusofonia no Velho Continente - a Europa -, o Brasil é o gigante do bloco. No Brasil, a língua portuguesa sofreu influências do tupi-guarani - tronco linguístico dos índios da América do Sul - e de várias línguas africanas.

Desde o início do século XX, Portugal e Brasil buscam a unificação da língua portuguesa escrita em ambos os países, para chegar, pelo menos, ao consenso de um texto burocrático, que possa reforçar o idioma na Organização das Nações Unidas (ONU). Mas a verdade não pode ser mudada. O português de Portugal se esgotou, enquanto o português do Brasil foi enriquecido pelo índio, pela África e pelo trópico, e é aberto.

A reforma ortográfica tudo muda para nada mudar, como diz uma personagem do romance O Leopardo, de Giuseppe Tomasi Di Lampedusa, referindo-se à monarquia italiana, então com as ventosas no erário, como ocorre hoje e sempre no Brasil chavista de Lula e patrimonialista de Sarney. A célebre frase literária se ajusta à nomenklatura lulapetista, embora o destino do Brasil, a província agrícola, florestal e mineral mais rica do planeta, é o de ser uma potência mundial, o que só poderá conquistar por meio da democracia. E a democracia dorme no idioma. Só então, a língua brasileira será respeitada, procurada e aprendida.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Tu és minha

A noite caíra mais cedo. Úmida. Chovera à tarde. A chuva prolongava-se interminável, fininha, quase como névoa, despencando em gotas frias das folhas das mangueiras. Era fim de novembro e o outono apoderara-se de Belém, dos carros, das ruas, que pulsavam nas luzes vermelhas dos letreiros e nas traseiras dos automóveis nas esquinas. A vida manifestava-se na noite, nos bares, nos copos de bebida.

- Mais um! – Jorge pediu ao garçom. Tinha sempre de ir ali, a cada noite, quando estava na cidade, para tomar um ou dois Johnnie Walker. Havia três moças bonitas. “Nenhuma é tão bonita quanto Cátia” – pensou. “Não, nenhuma.”
- E as caçadas, como vão? – perguntou-lhe o garçom, que se chamava Julinho.
- Nesta época, agora, é ruim – disse Jorge.
- Ruim mesmo. Só chuva...
- Muita chuva até o começo de junho.
- Cruz, credo! – disse Julinho, que era novato na região.
- Pois sim! Mas em julho volta o sol e as praias ficam lotadas.
- E há praias por aqui?
- Há Salinas.
- Um momento... – disse Julinho, indo atender o pessoal do extremo do balcão. Quando voltou, Jorge já estava se retirando.
A chuva parara de vez e só quando o vento agitava as mangueiras é que se sentia pingos da água retida nas folhas. Gostava de andar e de ver a cidade quando voltava da selva. As luzes, as pessoas, os automóveis significavam a volta à civilização. Passou pela frente de um restaurante, uma dessas churrascarias apropriadas para receber famílias inteiras, e sentiu o aroma gostoso de iguarias gaúchas. Deu-lhe vontade de tomar chimarrão. Tomaria na casa de Cátia. Olhou para o relógio. Era cedo ainda. Mas não via a hora de rever Cátia. Pegou um táxi.
- Braz de Aguiar, por favor – disse ao motorista.
Gostava da Braz de Aguiar. Lembrava-lhe Copacabana, e Copacabana era um dos lugares que amava. Saltou a poucos metros do prédio onde Cátia morava. Era um prédio muito chique e ele se sentia mal ao cruzar o vestíbulo. O porteiro lançou-lhe um olhar desconfiado ao anuncia-lo pelo interfone. Ela subiu.
Cátia estava de camisola, linda, linda. Era uma camisola de seda branca, que se confundia com a pele da mulher. Seus cabelos caíam negros numa revolução sobre os ombros, em espasmos infinitos. Tinha olhos verdes, nariz arrebitado, lábios cheios, quase indecentes, e longos dedos. Tocava-a e deixava-lhe, a cada toque rude, um vergão vermelho, que lentamente desaparecia na alva pele acetinada. Ela estava ali, em pé, à sua espera, com seus olhos quase estrábicos, tornando-se insuportável sua ameaçadora sensualidade.
Lá fora, os rumores da noite viviam em outra dimensão e apenas um som indistinto, como que vindo do mar, de muito longe, chegava até eles, e diluía-se antes de tocá-los.
Jorge herdara de seu pai, que também fora caçador profissional, um sexto sentido quase feminino, e sentia a aproximação do perigo pelas narinas. Sentia literalmente o cheiro do perigo. O perigo fedia a frio e à falta de ar. Já estava com sua arma em punho quando viu o outro fazendo pontaria na sua cabeça. O disparo explodiu a delicadeza e a languidez do amo, e a tragédia entrou como gritos na sala. Lá estava o marido de Cátia, olhando pateticamente para nada, como se o olhar tivesse feito um esforço para ver o buraco de bala na própria testa. Cátia estava sentava num sofá. Chorava. Seus ombros se sacudiam de vez em quando. “Logo isto estará um inferno” – Jorge pensou, correndo ao quarto e trazendo um sobretudo, que jogou sobre Cátia. Era um apartamento que ocupava todo um pavimento e eles desceram pelas escadas. “Felizmente fica no terceiro andar” – Jorge pensou. Saíram diretamente da garagem para a rua. Ela estava descalça e tropeçou na calçada. Passou um táxi. Eles o pegaram.
- Vá! – disse ele ao motorista.
- Para onde?
- Vá! Vá para qualquer lugar! Vá!
Pouco adiante, Jorge mandou o motorista parar. Pagou-o. Logo passou outro táxi. Pegaram-no e desta vez Jorge disse a direção. Saltaram no Porto do Sal, onde os bêbedos riram ao ver a mulher descalça e manquejando. “A maré está cheia” – disse Jorge, baixinho.
O barco era confortável e rápido. Em poucos minutos estariam do outro lado do rio Guamá. A noite úmida abraçava o barco e o empurrava, espremendo-o na sua umidade e negrura. As chamas de um palito de fósforo iluminaram por pouco tempo a si mesmas, deixando uma brasa tênue no piche da noite. Às vezes, os gemidos de Cátia venciam estranhamente o barulho do motor, numa orquestração que só o vento dominava. Depois o vento apagava tudo e novamente, como que de propósito, ordenava aos metais que se imobilizassem subitamente; então, num crescendo, as cordas avançavam e avançavam, até que novamente a orquestra toda, enlouquecida, castigasse os ouvidos. Depois, quando aportaram, o vento morreu. Dentro da casa, agora, a noite era um som pianíssimo, murmúrios de Cátia, seus gemidos.
Atento, na varanda, de modo que pudesse ver pela janela a mulher no quarto, Jorge fumava. “É bom que ela chore bastante. Foi melhor assim” – pensava. E pensava também na próxima temporada de caça, na exibição aos turistas e também no longo inverno que ainda teriam de atravessar. “Por mais que viajemos para um país do sul, Cátia ainda terá seu inverno” – pensou. Entrou na casa e ficou parado a poucos passos da mulher, fumando. Cátia era uma mancha leitosa, evanescente, na penumbra. Às vezes, ele ouvia um gemido mais forte, mas logo o silêncio de antes voltava mais cavo, até que tudo imergiu na noite.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O estupro

A luz amarela do sol esvaía-se. Isaías levantou-se e foi à janela; ficou observando, por algum tempo, o trânsito lá embaixo. Tinha dormido doze horas e sentia-se muito bem. Foi ao banheiro, sentou-se no vaso e lá ficou durante um bom tempo. “Posso ir à casa de Babí” – pensou. Levantou-se. Saiu do banheiro e foi até o telefone. Ligou para Babí. Ninguém atendia. Voltou ao banheiro. “Porra!” – disse. A água estava boa.

Pouco depois, no balcão do La Bodega, batia papo com Tio. Vestira-se de branco, exceto os sapatos e as meias. Pusera seu melhor sapato. As meias eram cor da pele. As calças, de linho, eram folgadas, tanto quando a camisa de seda.
A noite, através da vidraça, caía mais lenta. Era fim de maio, e lá fora o sol ainda agonizava, entrando, finalmente, nos espasmos do crepúsculo. Mas de dentro do bar era como se víssemos de óculos escuros a tarde. Estava agradável. Tanto lá fora a tarde, quando dentro, no bar. O ar refrigerado batia na pele recém-lavada e produzia uma sensação de prazer, que aumentava com o silêncio envolto a fragmentos de conversas das poucas pessoas que se encontravam, àquela hora, ali. O som da buzina de um automóvel atravessou a porta do bar e foi morrer na penumbra, ao som de Thender Is the Night. Isaías olhou para fora, através da vidraça, e viu que era noite. Automóveis cruzavam as ruas, na esquina, e de vez em quando estacionavam em frente ao bar, com suas luzes vermelhas pigmentando a noite.
O bar, às sextas, lotava sempre. Às oito, o burburinho aumentara. Havia muitas mulheres bonitas, mas nenhuma como Babí. Viu aquela moça promíscua, que estudava medicina e que bebia muito e fumava também. Ali estava o tipo que uma vez saíra sem pagar, mas voltar – certamente não podia passar sem ir ali. Do outro lado, havia um pai e uma rechonchuda garotinha, ocupada ora em espetar com um garfo o sanduíche que o pai cortara, num prato, ora a fazer-lhe perguntas, que o pai ia respondendo sem tirar os olhos do Jornal do Brasil. Havia também três moças tão lindas que causavam sofrimento em quem as visse e nada pudesse fazer, além disso. Havia ainda um negro e um mongoloide, que agora estavam saindo. Quando chegaram, o negro ofereceu cachaça ao garoto, e ele riu muito da piada. Serviram-lhe meio abacaxi recheado de sorvete e frutas. Ele olhou maravilhado para aquilo e pôs-se a comer como quem desmonta, cuidadosamente, uma casa. O negro, ao seu lado, bebia chopp, satisfeito com a felicidade do garoto. As mesas, nos fundos, também estavam ocupadas. Isaías reconheceu, numa delas, um radialista em companhia de uma ninfeta, avistou um plantador de urucu e notou as presenças de um político, de um editor de jornal e de um piloto de avião, que conhecera no Aeroclube de Belém.
“Bem que o João podia estar aqui” – pensou. Só havia um problema, que era a dipsomania do João. Mas poderiam falar de Curzio Malaparte, Fiódor Dostoiévski e Fraz Scott Fitizgerald.
- Quem sabe ela já não chegou? – disse Tio, servindo-o de mais um gim-tônica duplo. Tio já estava ao telefone ligando para Babí. Desta vez ela atendeu.
- É o Isaías!
- Meu Deus! – disse ela, sem crer.
- Vem para o La Bodega – convidou-a. Mas ela não queria acreditar que fosse ele mesmo.
- Meu Deus! – voltou a dizer.
- Cheguei ontem.
- Ontem? E por que você não me ligou ontem? Só agora é que você me ligou?
- Vem logo. Estou à tua espera.
- Vou tomar banho e em uma hora estarei aí.
- Está certo.
Pôs-se a beber, devagar, mergulhado em fantasias. Babí, com seus olhos verdes, que pareciam soltar estrelinhas, o rosto ovalado, lábios carnudos, cabelos crespos e longos, olhando-o nos olhos, sorrindo, beijando-o, gozando, beijando-o quase com violência, tirando, inutilmente, os cabelos que lhe caíam no rosto e entravam na boca, debruçada sobre ele, a comê-lo.
Uma chuva fina e passageira caiu e molhou o asfalto, a calçada em frente ao bar e a capota dos carros estacionados no meio-fio.
Sentia-se bêbedo. “Cadela” – disse para si. “Devemos deixar que as mulheres nos escolham; assim, serão nossas sem reservas” – pensou, lembrando-se do quanto insistiu cortejando Babí. Viu, pelo espelho, quando ela entrou no bar.
- Deus! – disse para Tio. Ela estava muito linda mesmo. As três beldades tiveram de olhar para ela. Babí atravessou o salão completamente indiferente, os olhos verdes em Isaías. Eram os olhos verdes mais bonitos que pudesse haver. Grandes, grandes. Sentou-se, no tamborete, ao lado de Isaías.
- Muito bem! – disse. – Aqui está nosso caçador. Para a caça – disse, voltando-se para Tio -, um dry Martini.
Isaías beijou-a.
- Assim não! – ela protestou. – Está violento demais. – E beijou-o. Babí beijava e a sensação que se tinha era de que ela se esvaía, evanescente, nos nossos lábios, mas sabia-se que ela estava ali, nas nossas mãos.
- Deste vez quantos troféus trouxe o meu caçador?
- Meu grande troféu és tu.
- Você porá minha cabeça na sala?
- Vivo em quartos sórdidos de pequenos hotéis.
- Então case-se comigo.
Ele ficou um pouco triste.
- Ora, tu não viverias naqueles buracos miseráveis, na selva.
- Eu o aguardaria sempre na cidade.
- Traindo-me... Eu te amo, Babí, mas o mato é minha vida. Não saberia ganhar dinheiro senão levando esses alemães ricos para matar jacaré. Às vezes, ganho um bom dinheiro quando me exibo, matando onças.
- Receio que o IBDF o flagre.
Ele riu.
- Isto aqui é Cuba antes de Fidel Castro.
Os olhos de Babí estavam da cor do dry Martini. Ele  olhou-a suplicante.
- Vamos! – pediu-lhe. Quase ordenou.
O motel estava imerso no recolhimento. Motéis despertavam um sentimento ambíguo nele, um sentimento de recolhimento, mas, ao mesmo tempo, de vulgaridade. A ssíte era silenciosa e limpa, mas a penumbra sempre o afetava. Se não estava na selva, gostava de muita claridade. Pegou o aparelho de TV e o tirou do quarto. Depois, foi à cama e experimentou-a. O desgosto aflorou no seu rosto. O colchão d’água parecia-lhe demasiadamente vulgar. De qualquer modo já estava infeliz mesmo. Relembrou o que houvera. Misturara profissão com prazer. E de um modo imperdoável. Se ao menos tivesse apenas tido um caso com a alemã, estaria quase bem. Mas apaixonara-se por ela. E ela, agora, uma condesinha, devia estar se divertindo por aí.
Despiu-se e foi para o banheiro. Babí estava lá, nua, linda, sob a ducha. Ele entrou e beijou-a.
- Não, aqui não – Babí protestou.
- Aqui – disse-lhe.
Ela olhou-o. Estranhara-lhe a voz.
- Não, Isaías, aqui não!
- Aqui sim, e já!
- Você está me machucando, Isaías!
- Vamos, vaquinha!
Ela estava perplexa e pôs-se a chorar enquanto ele a tinha. Quando ele saiu do banheiro, deixou-se sentar no chão, e seus olhos verdes choravam; eram tudo quanto se podia ver naquele quarto.
Ele se deitou e dormiu.

Do livro de contos A grande farra, edição do autor, Brasília, 1992, 153 páginas, edição esgotada

sábado, 5 de novembro de 2011

Zé Sarney versus João Capiberibe: duelo final



O amazônida João Capiberibe quando jovem caboclo

Brasília, 5 de novembro de 2011 – O maranhense Zé Sarney, eleito pelos tucujus (macapaenses) senador vitalício pelo PTMDB e atual presidente (pela quarta vez) do Senado Federal, cargo abaixo somente do da imperatriz Dilma Rousseff (PTMDB), nesta nossa república capenga, vai ter que engolir um sapo: o senador João Capiberipe, do PSB do Amapá. Se pudessem, um comeria o fígado do outro. Por unanimidade, o Supremo Tribunal Federal (STF) bateu o martelo, quinta-feira 3, determinando a imediata diplomação de João Capiberibe, um verdadeiro sapo a assombrar o assombrado fim de carreira de Zé Sarney. “Ufa! Finalmente! Pela terceira vez, o STF mantém meu registro de candidato e manda me diplomar senador, conforme decisão do povo do Amapá” - comentou Capi, como é conhecido, pelo Twitter.
Os irmãos Borges, que ganharam no tapetão e se revezam ocupando a vaga de Capi já pressentiam isso e, desde outubro, vêm juntando as tralhas para desocupar o espaçoso complexo de salas que de direito é de Capi, o segundo mais votado na eleição em 2010 para o Senado, com 131.411 votos. Enquadrado na Lei da Ficha da Limpa, perdeu a vaga para Gilvam Borges (PMDB), que ficou em terceiro lugar. Com a decisão do STF de que a Lei da Ficha Limpa só começará a vigorar em 2012, Capiberibe recorreu, vitoriosamente.
João Alberto Rodrigues Capiberibe nasceu no Afuá, cidade da ilha do Marajó, no Pará, em 6 de maio de 1945. Foi prefeito de Macapá, entre 1989 e 1992; e governador do Amapá, de 1995 a 2002. Seu mandato de senador vai até 2018. Capi participou da resistência à Ditadura dos Generais (1964-1985). Em 1966, foi preso e torturado pelos militares, mas conseguiu fugir e se exilou em vários países, passando por mil e uma peripécias para sobreviver com a família, a deputada Janete Capiberibe e três filhos, um dos quais, Camilo Capiberibe, é o atual governador do Amapá. Retornou ao Brasil em 1979. No Amapá, sofreu perseguições políticas e se mudou para Pernambuco, onde se ligou a Miguel Arraes. Em seguida foi para o Acre, organizando ali sociedades agrícolas no Vale do Juruá.
Em 2005, Capiberibe teve seu mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por denúncia de compra de dois votos feita pelo senador e sua esposa, no valor de R$ 26 cada voto. João Capiberibe e sua mulher, Janete, que era deputada federal, foram absolvidos pelo TRE do Amapá no processo movido contra eles pelo PMDB do senador Zé Sarney, mas acabaram tendo o mandato cassados pelo TSE. No lugar de Capi assumiu Gilvam Borges (PMDB). O que ficou claro é que tanto a denúncia quanto o processo foram fajutos. Em 2006, Capi concorreu ao governo do Amapá pelo PSB, mas perdeu em primeiro turno para o notório Waldez Góes, do PDT. Em 2010, candidato ao Senado, teve sua candidatura impugnada por força da Lei da Ficha Limpa, causada pela cassação em 2005.
Se por um lado os amapaenses ganham alguém à altura para peitar o imperador da Província do Maranhão e Amapá, Zé Sarney, que só aparecia em Macapá em época de eleições, é preciso que fiquem atentos, pois a família Capiberibe tem agora o poder de mandar e desmandar na população: o jovem governador Camilo Capiberipe tem no seu pai, João Capiberibe, seu conselheiro; Janete Capiberibe, mãe de Camilo, é deputada federal; e Capi, agora, é senador.
JECA SARNEY – Zé Sarney tinha ódio do saudoso jornalista Paulo Francis porque Francis o chamava de Jeca Sarney. Mas é com seu jeito jeca que Sarney vem se agarrando ao poder, seja ele qual for, há mais de meio século. Nas eleições de 2006, estive no Café do Senado entrevistando o senador Cristovam Buarque, então candidato a presidente da República pelo PDT, e fiquei pertinho de Sarney, que estava numa mesa próxima, na companhia de três senadoras. Foi a primeira e única vez que o vi. À primeira vista, é um velhinho macilento, mas quando o olhamos mais detidamente começamos a ver, ver não, sentir, como se ele fosse um grande artrópode de terno.
José Ribamar Ferreira Araújo da Costa Sarney nasceu em Pinheiro, em 24 de abril de 1930. Foi governador do Maranhão, de 1966 a 1971; presidente da República, por acaso, de 1985 a 1990; e presidente do Senado Federal, de 1995 a 1997; 2003 a 2005; e de 2009 até hoje. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Maranhão, em 1953, ingressou no mesmo ano na Academia Maranhense de Letras. Em 1954, começou sua carreira política, pelo Partido Social Democrático (PSD), eleito suplente de deputado federal. Não conformado com a liderança partidária de Vitorino Freire, migrou para a União Democrática Nacional (UDN), sendo eleito deputado federal em 1958 e 1962 e, com o apoio do general-presidente Castelo Branco, elegeu-se governador do Maranhão, em 1965.
Pela Arena, partido dos militares durante a Ditadura dos Generais, foi eleito senador em 1970 e 1978. Presidiu a Arena e sua sucessora, o Partido Democrático Social (PDS), durante o governo do general-presidente João Figueiredo. Na eleição presidencial de 1985, descontente com a candidatura do já notório Paulo Maluf à presidência, Sarney se retirou da presidência do PDS para criar o Partido da Frente Liberal (PFL; hoje, DEM) e, assim, construir a Aliança Democrática com o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e concorrer à vice-presidência, junto à chapa de Tancredo Neves.
Tancredo foi eleito com 72,40% dos votos e sua posse seria em 15 de março, porém o presidente-eleito morreu em 21 de abril, vindo Sarney a assumir a Presidência do Brasil. Seu mandato se caracterizou pela consolidação da democracia brasileira, mas também por grave crise econômica, que evoluiu para um quadro de hiperinflação e moratória. Uma de suas medidas de maior destaque foi a criação do Plano Cruzado, em 1986, um fiasco. Em 1990, Sarney viu que não conseguiria se eleger senador pelo Maranhão e saltou de paraquedas no recém-criado estado do Amapá, transferindo para lá seu domicílio eleitoral. Em Macapá, os tucujus lhe deram mandato vitalício no Senado.
Zé Sarney é também escritor. Millôr Fernandes afirmou sobre o livro Brejal dos Guajas que se tratava de “uma obra-prima sem similar na literatura de todos os tempos, pois só um gênio poderia fazer um livro errado da primeira à última frase”. Ainda: “Em qualquer país civilizado Brejal dos Guajas seria motivo para impeachment”. Se Zé Sarney não conseguiu se firmar como escritor (mas conseguiu entrar para a Academia Brasileira de Letras, ABL), será lembrado, certamente, como o grande patrimonialista e nepotista brasileiro; pelo atos secretos, que afundaram a credibilidade do Senado Federal na lama; e por ter sua beijada por O Cara, Lula, que, antes de chegar ao poder, quando era oposição, apontava sua metralhadora de incontinência verbal para Zé Sarney e cuspia marimbondos de fogo. (Com informações da Wikipédia)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Até quando o governador do DF, Agnelo Queiroz (PTMDB), conseguirá se agarrar ao Buriti?

Brasília, 1 de novembro de 2011 – Em junho de 2010, quando o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) intervenção em Brasília, era a oportunidade de se fazer uma limpeza no Distrito Federal. Houve uma grita, de políticos, instituições e pessoas, e o Supremo recusou a intervenção. No fim de 2009, o então governador José Roberto Arruda, do DEM, e considerado o segundo melhor governador do país, atrás somente de Aécio Neves, do PSDB de Minas Gerais, foi flagrado montado na burra do DF. A bacanal era tão feia que ele foi preso. Mas o STF achou que estava tudo bem.

Sete ministros votaram contra o pedido: Antonio Dias Toffoli, Cármen Lúcia, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes, Marco Aurélio Mello e Celso de Mello, acompanhando o relator, ministro Cezar Peluso. Apenas um foi favorável, o vice-presidente da Corte, ministro Carlos Ayres Britto. Palavras dele: "O Distrito Federal padece de leucemia ética, democrática e cívica, pelas suas cúpulas no âmbito do Legislativo e no âmbito do Executivo".
A leucemia ética, a que se referiu Carlos Ayres Britto, é consequência de uma vampiragem antiga, origem de muitas fortunas brasilienses. Agora, é a vez do governador peteemedebista Agnelo Queiroz, ex-ministro dos Esportes de Lula - o ex-presidente dono do PTMDB. O que as revistas semanais já publicaram sobre Agnelo daria para derrubar até um presidente norte-americano.
Aliás, Agnelo Queiroz é um pato manco desde as eleições, ano passado. Ele só conseguiu ganhar porque seu principal concorrente, o quatro vezes governador do DF, Joaquim Roriz (PSC), foi alvejado pela Lei da Ficha Limpa (alvejado de fato). Roriz, então, jogou às feras sua esposa, dona Weslian, para enfrentar Agnelo. O povão brasiliense, aquela massa que decide as eleições, engole muita coisa, mas daí a achar que o Distrito Federal pode ser governado da cozinha da casa de Roriz era demais.
Além do lamaçal onde Agnelo navega numa canoa furada, há o agravante da sua incompetência. Se não fosse a Copa do Mundo de 2014, e a construção do novo Mané Garrincha, Agnelo já teria sumido. Médico, assumiu o governo dizendo que a Saúde seria a menina dos seus olhos. A Saúde no DF está cada vez pior. Uma calamidade. Um matadouro.
Agnelo - Agnulo, como o chama o poeta e jornalista Heitor Andrade - é uma tragédia. Se aguentar no governo até 2014, Brasília afundará. Talvez afunde já neste verão.