sábado, 22 de janeiro de 2011

1808, o nascimento de uma nação

Até após a Ditadura dos Generais (1964-1985), entrando nos anos noventa, a história do Brasil era contada, no sistema de ensino do Ministério da Educação (MEC), sob o ângulo dos portugueses - os colonizadores por mais de 300 anos -, muito embora historiadores, sociólogos e intelectuais brasileiros já viessem recontando essa história à luz de exaustiva pesquisa de campo e análise, e, sobretudo, sem preconceito. Contudo, a partir dos anos noventa, o mercado se encheu de títulos que passam a limpo uma história mal contada, que, geralmente, começa com a “descoberta” do Brasil por Pedro Álvares Cabral. Embora o MEC não tenha mudado uma vírgula do seu anacrônico sistema de ensino, os próprios professores - professores, mesmo, e não burocratas - já perceberam que a história é outra.

E nessa enxurrada de livros preciosos, que lançam luzes sobre nosso passado e explicam por que o Brasil é o que é, se destaca 1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil (Planeta, São Paulo, 2007, 367 páginas), do jornalista Laurentino Gomes, ex-editor de Veja, a mais importante revista semanal de língua portuguesa do planeta. 1808 já vendeu mais de meio milhão de exemplares, inclusive em Portugal, e ganhou, em 2008, o Jabuti, o mais tradicional prêmio literário do Brasil, em duas categorias: de melhor livro-reportagem e de Livro do Ano de não ficção, além do prêmio de Melhor Ensaio, Crítica ou História Literária de 2008 da Academia Brasileira de Letras. Laurentino Gomes passou uma década pesquisando, investigando e analisando a fuga de João VI de Portugal para o Brasil, na manhã de 29 de novembro de 1807, acossado por Napoleão Bonaparte. O resultado é um painel impressionante, que ajuda a entender o Brasil de hoje.
O perfil de João VI que sai das páginas de 1808 é o de um homem medroso, pusilânime, apagado, sem foz ativa, mal-informado, que sofria de apatia, vertigens e hemorroidas, comilão, baixo, gordo, flácido, feio e, como não poderia deixar de ser para um monarca absoluto, governava com a crueldade de um Fernandinho Beira-Mar. Poderia ter derrotado as tropas maltrapilhas que Napoleão enviou para Portugal, mas preferiu fugir, deixando o povo português à deriva e praticamente entregando Portugal à Inglaterra, o que depois se refletiria na economia brasileira.
João VI chegou ao Rio de Janeiro em 7 de março de 1808. Era uma corte falida, esfarrapada, chegando à capital da colônia, uma cidade pestilenta de tão imunda, e principal entreposto de um comércio que enoda para sempre Portugal e o Brasil: o de escravos. O Brasil recebeu pelo menos 3,6 milhões de africanos. Cerca de 10 milhões de africanos foram vendidos nas Américas – apenas 45% do total de negros capturados; 65% morreram supliciados. Foi nessa época que a corrupção generalizada tomou conta do Estado brasileiro, até hoje. Qualquer comerciante de escravos, qualquer ladrão rico, podia receber de João VI título de nobreza em troca de dinheiro. O título de nobreza significava salvo conduto para mais safadezas.
No Brasil-colônia, livros e jornais eram proibidos. As províncias portuguesas eram aparelhadas para o saque, de tudo o que se pudesse levar para Portugal e Inglaterra, especialmente ouro e diamante, e o combustível para mover isso eram os negros, tratados como se fossem pior do que animais de carga, pois os castigos impostos a eles chegavam a uma crueldade a que nem a Inquisição chegou. Depois que João VI desembarcou no Brasil, foi forçado, para sua própria sobrevivência, a duas atitudes, com consequências importantíssimas para a nação que estava nascendo: a abertura dos portos para as nações amigas, diga-se, a Inglaterra, com quem já havia combinado isso antes da fuga; e a abertura intelectual, com o advento da imprensa nacional e a vinda da biblioteca real de Lisboa para o Rio de Janeiro. Estava lançada a centelha da independência e, a seguir, da república.
Durante muitos anos investiguei as razões que determinaram a unidade política do Brasil, no porquê de não termos virado uma América do Sul hispânica, fragmentada em republicas de banana. 1808, pelo jeito, resolveu a questão para mim. Além de lançar a semente da libertação do Brasil das garras implacáveis e famintas de Portugal, talvez a maior importância para os brasileiros, do pavor que Napoleão infundiu em João VI, tenha sido o que faz do Brasil, hoje, sério candidato a potência mundial – ao que só não chegamos talvez por falta de reforma política. A propósito, com mais um “Hugo Chávez” na direção do país e estaremos, como se diz vulgarmente, no sal. Pois bem, ao chegar ao Rio de Janeiro disposto a sediar o império português a partir do Brasil, João VI combateu ferozmente qualquer iniciativa de independência de Portugal, em todo o continente colonial.
“Esse Brasil dividido em pedaços autônomos nem de longe teria o poder e a influência que o país exerce hoje sobre a América Latina. Na ausência de um Brasil grande e integrado, o papel provavelmente caberia à Argentina, que seria, então, o maior país do continente” – observa Laurentino Gomes. “As diferenças regionais teriam se acentuado. É possível que, a esta altura, as regiões mais ricas desse mosaico geográfico estariam discutindo medidas de controle da imigração dos vizinhos mais pobres, como fazem hoje os americanos em relação aos mexicanos. Nordestinos seriam impedidos de migrar para São Paulo. Em contrapartida, ao viajar de férias para as paradisíacas praia da Bahia ou do Ceará, os paulistas teriam de providenciar passaportes e, eventualmente, pedir visto de entrada.”
Será?

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