quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Ecos

A praça de alimentação do Conjunto Nacional é um dos locais mais aprazíveis e alegres de Brasília, cidade que reúne o maior número de gangsters de colarinho branco por metro quadrado no país. No começo da noite é um entra e sai de mulheres bonitas. Há sempre ladrões bem-vestidos por lá, vistosos, nos seus ternos bem cortados. Parecem gente honesta, mas não se engane, são bandidos, mesmo, ratazanas capazes de roubar merenda escolar no sertão maranhense. Numa das mesas um grupo de velhos jornalistas, militares saudosistas e velhotes misteriosos conversavam.

- A organização funciona da seguinte maneira: desde o golpe de 64, ele começou a montar sua teia de influência, puxando o saco dos militares. Quando viu que a ditadura havia realmente acabado, caiu de boca no MDB, hoje, PTMDB, e se deu bem, montou a maior máfia, como nunca antes neste país, e virou conselheiro do Cara, juntamente com o apedeuta bolivariano e o dinossauro assassino de Cuba – disse o tipo de bigodinho, que vivia ninguém sabe de que.

- Por que você fala por metáforas e não dá nomes aos bois? – perguntou um jornalista, que parecia ser o mais jovem do grupo.

- Nessa história não há bois, só murídeos – replicou o de bigodinho. Todos riram.

A praça, conhecida como do Pau Mole, estava cheia de saudosistas da ditadura militar, prostitutas, garotos de programa, mulheres bonitas e mulheres deslumbrantes, e famílias.

- Escuta, você conhece alguma moça casadoira que goste de moleza? – disse um dos velhotes.

- Como assim, Gilberto? – alguém perguntou.

- Se você souber de alguma, manda para mim...

Todos riram.

- Só aparece vaca podre para cima de mim - suspirou o capitão Astrogildo.

- Também, você está que nem o rio Eufrates - disse o coronel Braga, talvez o mais velho à mesa.

- O bolão da queda do Bigode já está em mil reais - lembrou Gerson, jornalista que apodreceu na assessoria de imprensa de uma federação.

- Eu não entro nessa porque o Nove Dedos não vai deixar... – disse o coronel Braga.

- O Apedeuta já era, não apita mais. Rei morto, rei posto – disse Sargento, ex-paraquedista. - Rapaz, depois de cair com a grana do BNDES na bolsa do mafioso do Hugo Chávez, de doar um pedaço da Petrobras pro Cocaleiro, de bancar a família do Bigode, e de financiar o bispo fornicador de Itaipu, o Nove deixou este país que nem uma vaca podre, toda mamada e estropiada. Ele já era.

- Pois é, já há centenas de milhares de novas ventosas no cabide, caindo com dez por cento para a confraria dos petralhas – disse um antigo assessor dos ex-governadores Joaquim Roriz e José Roberto Arruda.

- Tchê!, tu "vê" aquela prenda, ali, vê as ancas dela, empinadas como de eguinha - espantou-se Gregório, gaúcho miúdo, mas de gestos largos e vozeirão; desmentindo seu nanismo exibia no pijama uma das mais altas patentes daquela reunião no passado.

- Ulalá! Essa seria capaz de reanimar até o Eufrates – alguém disse.

- Essa deve cobrar bem uns R$ 100.

- Quê? Cem? Cem só pra usar a pontinha da língua.

- Essa é mais experiente do que o mafioso.

- Qual mafioso?

A fachada do Conjunto Nacional brilhava na noite brasiliense. Do outro lado da rua, a pirâmide do Teatro Nacional navegava na noite como um transatlântico no planalto. Na outra extremidade da Esplanada dos Ministérios, a casa dos horrores dormia, com suas bacias, uma de boca para cima e outra emborcada. Tênues sons subiam até seus salões, saídos dos subterrâneos.

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