domingo, 2 de janeiro de 2011

Esplanada

O canto das cigarras lembrava uma grande orquestra de jazz, em longo solo de metal. A algazarra era tremenda sob o sol que crestava a relva do cerrado na imobilidade da tarde, que ia ao meio. Ouvia-se barulho de trator à distância. Estafados pelo calor, os dois homens arriaram os bornais com o lanche e sentaram-se sobre o tronco de uma árvore tombada, à sombra de outras árvores de maior porte. O guia, Toninho das Veredas, abriu seu alforje e tirou dele uma lata com tutu, um pedaço de queijo, doce de leite e uma garrafa de água. O outro homem tirou do seu bornal um sanduíche de salame e três laranjas já descascadas.

- É verdade que Brasília vai ter o formato de uma cruz, doutor? – o guia perguntou.

- É verdade – o outro respondeu. “Está mais para curvas sinuosas, femininas” – imaginou. “Simples apenas no cruzamento de duas avenidas, dois caminhos pontilhados de luzes cortando o breu noturno do cerrado. O coração do Brasil pulsando no Planalto Central; uma cidade fraterna.” – Aqui, onde estamos, será construída uma esplanada – disse, e antes que o guia lhe perguntasse o que é uma esplanada, explicou: - Uma esplanada é um terreno plano, um enorme terreno plano, gramado, a perder-se de vista. – Fez uma pausa. – Tenho algumas idéias, já fiz alguns esboços, mas as coisas estão ainda se definindo.

- O senhor vai mandar tirar toda esta mata, doutor? – Toninho perguntou, entre uma e outra mastigada.

O outro olhou para as árvores tortas que se enfileiravam na imensidão da savana.

- O presidente da república despachará de dentro de uma obra de arte, assim como os políticos e os ministros da corte suprema, e o povo morará em edifícios coletivos sobre pilotis – disse, num tom quase brincalhão. – O que sei é que Brasília será mais do que uma cidade; será o símbolo da união – disse, sem responder à pergunta do guia.

Um tatu entrou no campo de visão dos dois homens, estacou e arrancou de novo. O guia levantou-se depressa, pegou a espingarda, mas o tatu entrara num buraco adiante.

– Sente-se, homem, deixe o tatu em paz no seu buraco. A propósito, meu trabalho será construído em três níveis – prosseguiu o outro. – No horizonte, debaixo do solo e no ar. No horizonte, haverá gramados, concreto, muito concreto, e asfalto; haverá uma cidade subterrânea; e, no ar, torres – disse, quase de si para si.

Os dois homens se encontravam onde hoje se ergue o Congresso Nacional, um labirinto sinistro, subterrâneo sob duas bacias - uma de boca para cima e outra emborcada – e as torres gêmeas.

- O senhor não quer um pedaço de “quejim”? – o guia perguntou. O outro fez que não. O guia comia, com gosto, queijo e doce de leite. Lambeu um dedo e perguntou: - Mas se o senhor vai colocar, aqui, concreto e asfalto, como é que os bichos vão viver, doutor?

- Bom, eles deverão ter o seu lugar, quem sabe um zoológico, ou mesmo uma reserva só para eles? – disse o outro. - Todos terão o seu canto. Seremos um país realmente socialista. O presidente da república terá o palácio mais bonito - e pensou na Grécia Clássica. - Os congressistas, como são muitos, preciso projetar para eles um labirinto de gabinetes, auditórios, salas, salões, clínicas, restaurantes, corredores, passagens subterrâneas, para que eles possam se locomover à vontade no labirinto, se reunir, se sentir à vontade, como em casa, e permanecer no Congresso o maior tempo possível – disse.

- Mas esse negócio de buraco é bom pra tatu e pra bandoleiro se esconder, doutor! - disse o guia.

O outro riu.

– Isso pode ser resolvido com muita vidraça. Os subterrâneos serão para as pessoas caminharem. Arquitetura não constitui uma simples questão de engenharia, mas uma manifestação do espírito, da imaginação e da poesia. O Palácio do Congresso, por exemplo, posso formular sua composição em função das conveniências da arquitetura e do urbanismo, dos volumes, dos espaços livres, da oportunidade visual e das perspectivas, e, especialmente, da intenção de lhe dar o caráter de monumentalidade, com a simplificação de seus elementos e a adoção de formas puras e geométricas. Estou pensando... as avenidas que o ladearão deverão formar uma monumental esplanada, sobre a qual poderei fixar as cúpulas que o caracterizarão. E também posso projetá-lo em profundidade. A forma arquitetônica, mesmo contrariando princípios estruturais, é funcional quando cria beleza e se faz diferente e inovadora. E na outra extremidade da esplanada poderemos construir uma pirâmide – disse, pensando em Keopes e como Picasso a desenharia.

- O senhor acha que vai dar certo, gente de toda parte se mudar pra cá? Vai caber todo mundo? – disse o guia.

- Sim. Aqui, todos serão iguais – o outro respondeu. – Todos serão tratados com igualdade – disse ainda, como a confirmar seu próprio pensamento.

O sol despejava labaredas na mancha imóvel do cerrado. Os dois homens caminhavam devagar entre as árvores, até o jipe, estacionado no fim da picada. O outro sentou-se no banco do carona, ajeitou sua prancheta e pôs-se a fazer esboços, enquanto o jipe sacolejava entre as árvores tortas.


Valparaíso de Goiás, 2007


Explanada é um dos 17 contos que integram o livro O casulo exposto (LGE Editora, Brasília), à venda nas livrarias Saraiva, Cultura e Leitura. Todas ambientadas em Brasília, as 17 histórias curtas se movem numa região de fronteira e as personagens que transitam nessa zona de sombra e luz são, geralmente, exilados, quase sempre de si mesmos.

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