terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Reverberações da lusofonia no trópico

Uma das diferenças entre ficcionistas classe A e os de segunda categoria é que o texto dos criadores de primeira grandeza é cheio de sinapses, que funcionam como conectores entre a obra de arte e as amígdalas cerebrais do leitor. Personagens literárias povoam o senso comum como se fossem pessoas de carne e osso. O fato é que os escritores de primeira categoria criam um mundo que acaba se confundindo com a realidade da dimensão humana.

Por exemplo: a aguardente bebida pelas personagens de Graciliano Ramos sabe-me a Pitú. Benedicto Monteiro é, para mim, o grande escritor amazônida, porque lendo seus romances me sinto numa atmosfera de 33 graus centígrados e de quase 100% de umidade relativa do ar.

José Eduardo Agualusa reverbera a lusofonia, esse mundo oriundo de uma Europa morta, que só encontra eco nas cinzas de suas incursões colonizadoras no trópico. Desse mundo escravizado só restam gemidos; inclusive em Portugal. Agualusa nasceu na cidade de Huambo, em Angola, em 1960. Estudou agronomia e silvicultura em Lisboa. Viveu também em Luanda, Rio de Janeiro e Berlim. É jornalista, e um dos autores que melhor recriam a lusofonia.

Ouvimos, nos seus livros, o português lusitano, de país frio, falando com a boca semifechada; e os gemidos do seu país, Angola, de onde os portugueses arrastaram para o Brasil gerações de africanos, nossos antepassados. Ouve-se, também, nas suas histórias, a língua luso-brasileira, falada de boca escancarada, em sons abertos, com as cores fovistas do trópico e das praias mais estonteantes do mundo, com as cores do Carnaval e da Amazônia.

A biblioteca do Instituto Camões de Brasília dispõe de dois livros de Agualusa, ambos de histórias curtas; pouco para um escritor tão representativo da lusofonia. São eles: Catálogo de Sombras (Editora Dom Quixote, Lisboa, Portugal, 151 páginas, 2003) e D. Nicolau Água-Rosada e outras histórias verdadeiras e inverossímeis (Editora Vega, Lisboa, Portugal, 142 páginas).

Ambos emanam odores de arquivo público, musgo, casarões decrépitos, acontecimentos que os europeus chamam de realismo fantástico, e que são comuns para nós; recende a um mundo nostálgico, que lembra as ruínas da Grécia Clássica nos altos das escarpas dos pedregulhos gregos; gemidos antigos.

O que se convencionou chamar de realismo fantástico nada mais é do que um dos ingredientes essenciais dos escritores dos trópicos, e só é realismo fantástico, na verdade, para europeus e norte-americanos, porque o mundo maravilhoso do trópico é a nossa realidade. E as duas línguas que melhor revelam esse mundo são o português e o espanhol, irmãs, inclusive.

Assim, a língua brasileira enriqueceu-se no português lusitano (isso mesmo), colonizador, bebendo no nheengatu, nas doces línguas de mamãe África, no Brasil mestiço, tropical, amazônico. Por isso, é a melhor ferramenta para reverberar o trópico.


Brasília, 19 de agosto de 2008

Nenhum comentário:

Postar um comentário