sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A censura das biografias

Por iniciativa da deputada comunista Manoela D'Ávila, do Rio Grande do Sul, tramita novamente na Câmara dos Deputados projeto de lei que libera a divulgação da imagem e de informações em biografia de pessoas públicas e celebridades, como João Guimarães Rosa. Manoela D’Ávila reapresentou projeto de 2008, apresentado pelo então deputado Antonio Palocci (hoje, chefe da Casa Civil), que obtivera parecer favorável do relator, deputado Martins Cardozo (hoje, ministro da Justiça), e foi arquivado em 31 de janeiro de 2010. No Brasil, há uma enxurrada de ações judiciais contra editoras e autores de biografias, por parentes de biografados pedindo dinheiro por dano moral e a retirada do livro de circulação.

Por exemplo: em 2007, o cantor Roberto Carlos conseguiu que a Justiça mandasse retirar das livrarias um livro escrito por um admirador, que relatava a vida familiar do artista e sua trajetória. Em 2008, o jornalista Ruy Castro, ao lançar a biografia de Garrincha, foi processado duas vezes: pelas filhas de Garrincha e por uma ex-companheira do astro do futebol. Ruy ganhou um dos processos, mas foi condenado no outro pelo Superior Tribunal de Justiça, que estipulou indenização de 5% sobre o total de vendas do livro, com juros de 6% ao ano, contados a partir da citação das partes. Em 2009, depois que a imprensa divulgou que Ruy Castro estava escrevendo a biografia de Raul Seixas, o autor foi advertido por uma das cinco ex-mulheres do cantor baiano de que entraria na Justiça caso o livro fosse publicado. Em 2008, a Justiça mandou retirar do mercado a primeira biografia completa de João Guimarães Rosa.
Não temos legislação sobre o limite entre o direito à privacidade e o direito à informação sobre pessoas de notória projeção pública e celebridades, nem há jurisprudência sobre isso. Palocci foi procurado por escritores, intelectuais e jornalistas. "É fundamental a sociedade conhecer sua história. As biografias de pessoas de interesse público têm um papel muito importante nesse sentido. A soma de cada uma das histórias dessas personagens, inclusive com suas diferentes e quase sempre conflitantes visões de mundo e dos fatos narrados, é que escreve a história de um povo e de uma nação" - disse Palocci, na época.
Engavetado o projeto, escritores, intelectuais e jornalistas voltaram a se mexer e, a pedido de Palocci e de Cardozo, Manoela D’Ávila decidiu reapresentar o documento, como se fosse de sua autoria. Agora, o texto terá de passar novamente pelas mesmas comissões técnicas nas quais havia recebido pareceres favoráveis.
Grande Sertão: Veredas
Vilma Guimarães Rosa, filha de João Guimarães Rosa, autor de Grande Sertões: Veredas, entrou, em 10 de julho de 2008, com ação na Vigésima Quarta Vara Cívil do Foro do Rio de Janeiro, contra o romancista e ensaísta Alaor Barbosa, autor da primeira biografia de Guimarães Rosa publicada no Brasil, Sinfonia Minas Gerais: A vida e a literatura de João Guimarães Rosa (LGE Editora, 2007, Brasília, 388 páginas). Vilma alega que Alaor Barbosa utilizou citações do livro dela, Relembramentos: João Guimarães Rosa, Meu Pai, de 1983, que ela chama de biografia, mas que se trata de livro epistolar; e alega que Alaor Barbosa afirma que Guimarães Rosa era místico.
Em setembro de 2008, o juiz Marcelo Almeida de Moraes Marinho mandou a LGE, uma editora de Brasília, retirar das livrarias, em 24 horas, a primeira biografia sobre o gênio mineiro, acatando pedido da filha do escritor e da Editora Nova Fronteira, editora que publica Rosa.
A ação é absurda, e já causou sérios danos à LGE Editora, que teve de recolher o livro das livrarias em todo o território nacional. Recolher livros num país continental como o Brasil e nos tempos de hoje, com vendedores eletrônicos em cada esquina da internet, é outro absurdo. Além disso, o custo editorial é elevado e a retirada de um livro do mercado é brutal para uma editora pequena. 
Alaor Barbosa afirma na sua defesa que as autoras da ação querem garantir reserva de mercado para faturar em cima de Guimarães Rosa: "A Editora Nova Fronteira acaba de relançar obra de autoria de Vilma Guimarães Rosa, intitulada Relembramentos: João Guimarães Rosa, meu pai; livro publicado em 1983, com pouco sucesso comercial e que não se configura tecnicamente uma biografia, mas sim um livro que procura mostrar, em sua visão de filha de Guimarães Rosa, quem seria o seu pai, principalmente por meio da transcrição de cartas escritas e recebidas por Rosa ao longo de sua vida.
"Evidente que as autoras da ação se aproveitam do ano de centenário de morte de Guimarães Rosa para, absurdamente, tentarem obter vantagens econômicas; sendo certo que buscam o Poder Judiciário visando a uma espécie de exclusividade em relação à história de um dos maiores escritores brasileiros; história esta cuja importância em muito transcende os laços de parentesco.
"Trata-se, como restará demonstrado, de uma evidente pretensão de apropriação da figura, da vida e da obra de João Guimarães Rosa por parte de uma sociedade editorial de grande porte, que, repita-se, tenta se utilizar do Poder Judiciário para potencializar o seu já notável poderio econômico; buscando, absurdamente, vedar a concorrência".
Em pronunciamento no Plenário da Câmara, em novembro de 2008, o deputado Pedro Wilson (PT/GO) referiu-se à volta da velha ditadura, que, de vez em quando, assombra os brasileiros conscientes da democracia. A razão do pronunciamento do deputado Pedro Wilson é a censura imposta a Sinfonia Minas Gerais: A vida e a literatura de João Guimarães Rosa. “A ditadura parece estar de volta à Nação. Repito, senhoras e senhores: parece estar de volta a ditadura. Inacreditável, estarrecedoramente, a censura afia as suas garras. Esse monstro, que muito custamos domar, volta a dar sinais de vida. Afia as suas garras e escancara as fauces, em arreganho ameaçador, rosnando para todos os brasileiros. Espantoso, inacreditável, senhoras e senhores! Espantoso e inacreditável, mas verdadeiro.
“Venho fazer desta nobre tribuna da Câmara dos Deputados, neste momento, para o conhecimento de V. Exas. e, portanto, para o conhecimento do Congresso Nacional e da Nação aqui representada, uma denúncia de um acontecimento gravíssimo: a proibição de um livro no Brasil. Proibição de livro, pasmem os nobres colegas, determinada por ordem de um juiz de direito.
“Isso é de causar espanto, perplexidade e, naturalmente, revolta e indignação. Um fato que só se poderia imaginar possível em alguma ditadura remanescente ou em antigas sociedades totalitárias, acaba de acontecer há pouco mais de um mês em nosso país, o Brasil da Constituição de 1988, o Brasil da Constituição Cidadã, o Brasil redemocratizado há exatamente 20 anos, comemorados no último dia 5 de outubro (de 2008).
“Refiro-me, senhoras e senhores deputados, à proibição judicial do livro Sinfonia Minas Gerais: A vida e a literatura de João Guimarães Rosa, de autoria do escritor e advogado, consultor legislativo do Senado Federal aposentado, Alaor Barbosa. Essa proibição foi ordenada no despacho inicial da ação de indenização por danos morais proposta por uma das filhas do grande autor mineiro e pela editora que lhe edita os livros, contra a editora que publicou o livro, por sinal uma editora daqui da capital federal, a LGE Editora, bem conhecida em todo o Brasil pela elevada qualidade dos livros que tem editado, grande número dos quais destinados a leitores infantis.
“Existem dois aspectos principais nesse absurdo que ora denunciamos à consciência cívica da Nação. O primeiro, que preliminarmente agride a nossa consciência de brasileiros, é que a proibição de livro constitui uma insuportável, intolerável violação da Constituição, a qual, no seu Artigo 5, Inciso IX, assegura às pessoas o direito à liberdade de expressão do pensamento, de criação artística e intelectual, sem qualquer censura prévia. Esta é uma liberdade assegurada também por numerosas declarações de direitos internacionais, e há mais de dois séculos: desde a Declaração dos Direitos do Homem, proclamada ao mundo em 1789 pela Revolução Francesa — e cuja reiteração mais importante é, sem dúvida, a Declaração dos Direitos Humanos, promulgada pela Organização das Nações Unidas, em 1948.
“Faz, portanto, 60 anos. Harmoniza-se a referida norma constitucional com o texto constitucional que fixa a responsabilidade civil dos autores de obras literárias que contenham alguma espécie de dano moral a alguém. Responsabilidade essa que se verifica, evidentemente, de acordo com o sistema de direitos e deveres da ordem jurídica vigente, mediante processo regular, o que implica o direito da contradição (contestação) e a livre apuração de provas, num processo obviamente culminante em sentença (sentença que somente produzirá efeitos depois de transitada em julgado, quer dizer, depois de tornar-se não mais suscetível de recurso). Portanto, a proibição do livro, ordenada antes de exercido o direito do contraditório e antes de sentença irrecorrível, é simplesmente um atentado ao Direito e à Justiça!
“O segundo aspecto, que se verifica na legislação infraconstitucional, ou seja, no Código Civil, é que a proibição do referido livro constitui também uma fragrante violação da sadia interpretação do Artigo. 20 do Código Civil. Com efeito, eminentes senhores deputados, não existe, não ocorre, não se vislumbra no texto desse artigo nenhuma palavra autorizadora da interpretação de que nele se contenha a exigência de autorização prévia para publicação de biografias. Nem o Artigo 20 fala em biografias nem qualquer outro texto da legislação infraconstitucional. Portanto, essa errônea interpretação deve ser evitada já mesmo mediante uma interpretação literal do texto do Artigo 20 do Código Civil.
“Nele só se encontra a palavra “escritos”, a qual, evidentemente, não compreende, na sua significação, isto que se chama e classifica, entre os diversos gêneros literários, de biografia. E o livro de Alaor Barbosa, no seu primeiro tomo publicado, é precisamente uma biografia. Somente não o será o segundo tomo programado, o qual consistirá em estudos a respeito do conjunto dos livros que constituem a obra literária construída por João Guimarães Rosa.
“Portanto, é inteiramente arbitrária e contrária às mais elementares regras da hermenêutica jurídica a interpretação que algumas pessoas vêm tentando fazer e impor aos juízes e tribunais do Brasil, qual seja, a de que o Artigo 20 do novel Código Civil Brasileiro, entrado em vigor em janeiro do ano de 2003, contenha a exigência de autorização prévia (ou mesmo posterior) para publicação de biografias. Esta é uma verdade que precisa ser proclamada de forma muito clara.
“Tão verdade é que, na nossa opinião, o oportuno projeto de lei apresentado pelo ilustre deputado Antonio Palocci, que dá nova redação ao Artigo 20 do Código Civil, ora em curso na Comissão de Justiça desta Casa, justifica-se não por expressar uma nova realidade normativa, mas por explicitar, intencionalmente, aquilo que já se encontra implícito no texto atualmente vigente do citado Artigo 20 do Código Civil.
“O caso, entregue à apreciação do juiz da 24a. Vara Cível da comarca do Rio de Janeiro, transcende, pela sua importância, o âmbito do poder judiciário. Sendo uma questão de liberdade constitucional, constitui-se em tema de interesse de toda a Nação brasileira.
“Aproveitamos esta oportunidade para ler uma carta escrita pela filha do autor do livro proibido, Noemia Gonçalves Barbosa Boianovsky, advogada e assessora da Câmara Legislativa do Distrito Federal, em que expressa bem a significação maior deste caso. Vamos lê-la porque constitui um documento histórico de uma resistência moral e intelectual contra uma violência perpetrada contra a liberdade intelectual no Brasil, e a fim de que, inscrita nos Anais do Parlamento Brasileiro, venha a ser, de hoje em diante, um instrumento eficaz de luta, um documento de dignidade evocado sempre que se repita essa espécie de violência e erro em nosso País”.
E quem é esse Guimarães Rosa que não pode ter sua vida revelada por uma biografia, bem documentada, diga-se?
Quem foi João Guimarães Rosa? "Sou um sertanejo" - disse - durante uma das raríssimas entrevista que concedeu - a Günter W. Lorenz, em Gênova, em janeiro de 1965. Essa entrevista, um longo e esclarecedor papo, foi publicada em Arte em Revista, do Centro de Estudos de Arte contemporânea, em maio de 1979, sob a coordenação de Otilia Beatriz Fiori Arantes, Celso Fernando Favaretto e Matinas Suzuki Júnior. Um sertanejo mineiro.
Entre os monstros brasileiros da ficção, Guimarães Rosa foi um dos que mais fundo mergulhou na língua brasileira. "Nosso português-brasileiro é uma língua mais rica, inclusive metafisicamente, que o português falado na Europa. E, além de tudo, tem a vantagem de que seu desenvolvimento ainda não se deteve; ainda não está saturada. Ainda é uma língua jenseits Von Gut und Bose (Além do Bem e do Mal, título de um livro de Nietzsche), e, apesar disso, já é incalculável o enriquecimento do português no Brasil, por razões etnológicas e antropológicas" - disse Guimarães Rosa a Günter W. Lorenz. "Pelo processo de mistura com elementos indígenas e negroides com os quais se fundiu no Brasil..." - disse Lorenz, a que Guimarães Rosa replicou: "Exato, este foi um enriquecimento imenso e já pode ser notado no exterior pela quantidade de diferentes dicionários europeus e americanos do mesmo idioma. Naturalmente, tudo isso está à nossa disposição, mas não à disposição dos portugueses. Eu, como brasileiro, tenho uma escala de expressões mais vasta que os portugueses, obrigados a pensar utilizando uma língua já saturada".
Com efeito, como num iceberg, língua é a parte emersa e, cultura, os restantes seis sétimos sob a superfície da água. Guimarães Rosa, que compreendia mais de uma dezena de idiomas, foi um artífice único do mundo singular do sertanejo mineiro. Daí porque é um dos escritores brasileiros mais estudados e traduzidos na Europa, na tentativa, malograda, de os europeus compreenderem o trópico. Nesse mister, nem os lusitanos compreenderam o trópico; portanto, ficaram sem entender o Brasil.
Assim, compreender o mundo de Rosa é enxergar um ângulo da pedra angular da cultura brasileira. É isso que Alaor Barbosa faz, lança luzes sobre a vida e a obra do gênio mineiro. "Creio que minha biografia não é muito rica em acontecimentos. Uma vida complemente normal" - disse o monstro mineiro a Lorenz, em 1965, dois anos antes de morrer. É fato. Guimarães Rosa foi um sertanejo e funcionário público; um sujeito tão discreto que parecia se esconder, e isso Alaor Barbosa resgata.
A biografia escrita por Alaor é adiposa. Vilma se queixou, na Justiça, de que Alaor fez inúmeras citações do seu livro epistolar Relembramentos: João Guimarães Rosa, meu pai. Alaor pode extirpar todas essas citações que, ainda assim, a biografia do monstro sagrado continuará inchada como os pés de um pinguço. Alaor produziu um bom material: reconstruiu a geografia de Rosa, psicanalisou-o e resgatou o dia-a-dia do criador de Grande Sertão: Veredas, desde seus antepassado até o caixão.
Homoerotismo em Grande Sertão: Veredas
O centenário de nascimento do gênio mineiro Guimarães Rosa (1908-1967) foi comemorado com enfoque inusitado na crítica brasileira pelo Núcleo de Estudos sobre Homocultura (Nehom), da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), em Minas Gerais, em evento cultural O Segredo de Grande Sertão: Veredas, de 1 a 6. No encontro, analisou-se o que há de homoerótico e homofóbico em um dos maiores clássicos da literatura brasileira, a sutil relação de amor entre os personagens Riobaldo e Diadorim (Reinaldo). As discussões ocorrem na Biblioteca Central Professor Antônio Jorge, da Unimontes.
Foram analisados dois artigos. Em Confessando a carne em Grande Sertão: Veredas, Denise Carrascosa esclarece que “não há, na crítica literária brasileira - “autorizada” - sobre a obra de Guimarães Rosa, a não ser por alguns acenos, referência à relação de desejo carnal, homoerótica em alguns momentos, homofóbica em outros, que se pinta nas zonas de sombra na narrativa”. O outro texto é Riobaldo/Diadorim e o tema da homossexualidade, de Walnice Matos Vilalva.
O objetivo do estudo é constatar que a homossexualidade na obra de Rosa está implícita na ideia do próprio autor, de que “sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte que o poder do lugar”. Diz Riobaldo: “Nego que gosto de você, no mal. Gosto, mas só como amigo!... Assaz mesmo me disse. De por diante, acostumei a me dizer isso sempre vezes, quando perto de Diadorim eu estava. E eu mesmo acreditei. Ah, meu senhor! Como se o obedecer do amor não fosse sempre o contrário...” (Fonte: Mix Brasil)
Em Berlim, encontro internacional de 1 a 3 de dezembro de 2008 debateu a dificuldade de se traduzir João Guimarães Rosa, durante três dias. Ligia Chiappini, professora do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Livre de Berlim, disse que a principal motivação do simpósio foi perceber que João Guimarães Rosa não é reeditado na Alemanha e que há um desconhecimento cada vez maior da obra do gênio no país, onde seus livros acabam chegando somente ao gueto dos brasilianistas.  Durante o evento, foi apresentada uma nova edição de Meu tio o iauaretê. Após o simpósio, durante dois dias, foi realizado um encontro na embaixada brasileira em Berlim, com palestras, filmes e discussões. A filha do escritor, Vilma Guimarães Rosa, fez um depoimento sobre o seu pai.
Sinfonia Minas Gerais: a vida e a literatura de João Guimarães Rosa
Sinfonia Minas Gerais: a vida e a literatura de João Guimarães Rosa é a primeira biografia do extraordinário escritor brasileiro João Guimarães Rosa. Primeira, mas completa. Feita com competência e calma, nasce já clássica e portanto indispensável a quantos, no Brasil e fora do Brasil, queiram conhecer a vida do poderoso contista e romancista mineiro que já se tornou o mais estudado dos escritores brasileiros” – diz a quarta capa do livro.
E a orelha: “João Guimarães Rosa nasceu em 27 de junho de 1908 e morreu em 19 de novembro de 1967. Neste ano de 2007, comemoram-se, portanto, quarenta anos da sua morte e se está na véspera do ano do centenário do seu nascimento.
“Era preciso que alguém lhe escrevesse a necessária e indispensável biografia. Apesar de já ser talvez o escritor brasileiro sobre quem mais se tem escrito no Brasil, ainda faltava um livro que contasse a história da sua vida exemplar. Pois João Guimarães Rosa foi um raro exemplo de dedicação de um homem à sua arte literária. Essa lacuna foi felizmente preenchida, em boa hora, pela iniciativa, providência e admirável operosidade de um consagrado ficcionista brasileiro.
“Alaor Barbosa escreveu a biografia de João Guimarães Rosa movido pelo sentido e convicção de que cumpria um múltiplo dever: para com o biografado, a quem conheceu pessoalmente, de quem foi amigo e a quem tributa profunda admiração pessoal; para com a literatura brasileira, cujos criadores devem ser mostrados, difundidos, cultuados; para com a língua portuguesa, que necessita e merece ser defendida; e para com a nacionalidade brasileira, que deve ser preservada principalmente mediante a valorização da sua cultura.
“Observe-se que esta biografia constitui a primeira parte de um trabalho mais amplo, que inclui, em segundo volume, uma análise de toda a obra literária de João Guimarães Rosa.
“Um escritor autenticamente brasileiro, de origens radicadas no interior do nosso país, Alaor Barbosa descende de mineiros da região da Serra da Canastra (Espírito Santo da Forqueilha, hoje Delfinópolis) e de paulistas de Igarapava, nasceu bem no âmago do Brasil: em Morrinhos, Goiás; e vive em Brasília, no Planalto Central, há 23 anos.
“Escrevendo sobre ele em 1969, afirmou o contista e romancista José Edson Gomes: “Alaor Barbosa vem pacientemente desenvolvendo uma obra que terminará por explodir neste Brasil imenso e quase cego”.
O romancista e crítico Assis Brasil assim o classificou, em 1996: “Um dos mais desenvolvidos e seguros narradores da nova literatura brasileira”.
Em 2000, trinta e um anos depois da previsão de José Edson Gomes, o severo crítico Wilson Martins, ao escrever sobre o romance Memórias do nego-dado Bertolino d’Abadia, outorgou a Alaor Barbosa a definitiva consagração, colocando-o na família de Balzac, Thomas Hardy, Eça de Queiroz, Dostoievski, Graciliano Ramos e Giovanni Verga.”
O que os pais deixam aos filhos
Carta de Noemia Barbosa, filha de Alaor Barbosa, para Vilma Rosa, filha de Guimarães Rosa:
Vilma,
Nasci filha de escritor. Doei para o meu pai, desde o meu nascimento, longas horas da minha infância e da minha adolescência. Meus irmãos doaram outras tantas horas. Minha mãe dividiu o marido, durante décadas, com sua amante, a literatura. Mas meu ciúme de criança foi se atenuando, ao longo dos anos, e mais ainda com o chegar da maturidade. Passei a admirá-lo, respeitá-lo, reverenciá-lo. Principalmente, passei a compreendê-lo. Literatura, para o meu pai, o escritor Alaor Barbosa, é e sempre foi devoção. Triste do filho ou da filha que não respeita e nem compreende as devoções paternas.
Assim como você, também sou herdeira de uma obra literária. Grande, extensa, profunda, séria. Fruto de muito trabalho, pesquisa e esforço, feita com paixão e talento. Obra reconhecida e tantas vezes premiada. Falo de quase meio século de produção literária, tempo bem maior do que eu mesma tenho de vida. Meu pai, Vilma, já era escritor antes de eu nascer.
Tenho a sorte de ter meu pai comigo, avô carinhoso das minhas filhas, em almoços de domingo. Vivo, feliz e produtivo. Mas já estou de posse da herança que ele me legou. Foi uma partilha sem desavenças, entre a família e os amigos. Não a herança material, mensurável, quantitativa, que se deposita em conta bancária. Desta, basta-nos o óbolo de Caronte. O que recebi de meu pai foi um norte, um rumo, um equilíbrio, um eterno buscar da verdade. O amor e o respeito por tudo de bom que o ser humano já produziu.
Você, Vilma, também recebeu uma herança. Magnífica herança, portentosa, imensurável. A herança de um gigante. A herança de um gênio, primus inter pares. Temos, portanto, responsabilidades. Eu e você. A minha, talvez mais leve, é a de impedir que a herança de meu pai seja aviltada, desqualificada, vilipendiada. Isso, tenha certeza, não acontecerá. As inverdades, calúnias e difamações são muito fugazes e, uma vez reveladas, deixam despida aquela que as inventou. Aliás, é assim que eu vejo você: despida, nua, pelada. Porque mais marcado será sempre o caluniador do que o caluniado. Já a sua responsabilidade, Vilma, é a de não abastardar, não apequenar, não diminuir a sua herança, o seu legado. A obra do seu pai é universal. Não a amesquinhe, não reduza a herança à estatura da herdeira.
Num país como o nosso, Vilma, tão carente de cultura, tão necessitado de modelos, tão merecedor de exemplos, resta-me recordar as palavras de outro ídolo de meu pai, Monteiro Lobato, cuja biografia para crianças também saiu da máquina de escrever Olivetti que havia na biblioteca lá de casa. Lobato disse que um país se faz com homens e livros. Você, portanto, quando tenta impedir a existência de um livro, de uma obra literária, espanca a inteligência nacional, ofende a tantos que tombaram em nome da liberdade e do direito de expressão e do livre pensamento! Talvez, Vilma, seu tempo tenha passado. Imagino você mais feliz vivendo uma outra época - mais escura do que a de agora. Talvez sob o Estado Novo ou abrigada pelo AI-5. Imagino você, Vilma, com um carimbo de censura na mão — arma formidável! — detentora exclusiva da faculdade de permitir ou não que alguém leia, fale ou pense. Para nossa sorte e infelicidade sua, vivemos tempos mais claros. E você, faça o que fizer, diga o que disser, jamais impedirá meu pai de ler, escrever, falar ou pensar. Nem meu pai nem ninguém.
Portanto, Vilma Rosa, não acenda fogueiras com livros. O fumo do livro incinerado escurece uma nação.
Cada um de nós tem seus próprios ídolos. Sorte do meu pai, que fez boas escolhas. Os seus, parecem ser o Index Librorum Prohibitorum, o Santo Ofício, Savonarola e Torquemada. Talvez, até Herr Goebbels... Eu, que também tenho os meus, cito um deles: você vai amargar vendo o dia raiar sem lhe pedir licença...
Lembre-se, Vilma, você é apenas uma filha. Você é apenas uma herdeira que avilta a herança magnífica que recebeu. constatar que nem tudo que Guimarães Rosa nos deixou é tão bom quanto a sua obra literária.
Noemia Barbosa Boianovsky é bacharela em Relações Internacionais, jornalista, advogada, consultora da Câmara Legislativa do Distrito Federal e filha de Alaor Barbosa.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Os gorilas estão caindo

A Humanidade experimentou uma grande evolução no século 20, que, agora, se transformou numa revolução mundial, que se chama Web, ou www - World Wide Web, rede de alcance mundial, em português. Trata-se de um sistema de hipermídia interligadas, administradas pela internet, esta, um conglomerado de redes em escala mundial de milhões de computadores interligados e que permitem o acesso a informações, todo tipo de transferência de dados, comunicação instantânea e compartilhamento de arquivos.

Já no século 21, a Web chegou às ditaduras totalitárias e a países de sistema político religioso, que vivem na Idade Média. O resultado é que os gorilas estão caindo. A bola da vez é Muamar Kadafi, um ladrão capaz de matar a mãe dele a giletada por dinheiro, e que sodomiza o povo líbio a uma eternidade. Essa revolução francesa no mundo árabe tem efeito dominó, e não vai ficar somente entre árabes. Nessas alturas, a nomenclatura chinesa está em alerta máximo contra a Web.

Antigamente, povo como os gregos, os romanos e os portugueses escravizavam outros povos para mover economicamente seus países. Hoje, os ditadores, e seu estafe, escravizam seu próprio povo, como na China, que só se tornou a segunda maior economia do mundo porque tem mais de um bilhão de escravos. A China, apresentada ao mundo como economia “comunista de mercado”, é um regime tão sanguinário quanto foi o de Hitler e é o da Coreia do Norte, onde o povo foi literalmente escravizado para manter a casta de Kim Jong-il.

Na América do Sul, temos um gorila famoso: Fidel Castro. Há alguma tempo, li um ensaio impressionante sobre Cuba, baseado em informações de uma ONG espanhola que acode famílias cubanas. Estão colocando suas jovens na prostituição para não morrerem de fome. Isso é o fundo do poço. Há também o bandido bolivariano Hugo Chávez. Não dou muito tempo para os venezuelanos não aguentarem mais comer capim e lincharem o gorila falastrão.

No Brasil, Zé Sarney deu início a um rapapé no Senado, com aquela história requentada de reforma política. Só haverá reforma política neste imenso Portugal quando os brasileiros virarem egípcios.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Tatamirô Grupo de Poesia

Recebi homenagem do Tatamirô Grupo de Poesia, de Macapá, que publicou texto a respeito do evento no seu site. O grupo refere-se ao meu primeiro livro de poesia, Xarda Misturada, em parceria com Joy Edson (José Edson dos Santos) e José Montoril, publicado em dezembro de 1971, em Macapá. Vamos ao texto.

“O Tatamirô Grupo de Poesia é um grupo amapaense de declamação de textos poéticos, sejam eles escritos na forma de prosa ou verso em suas múltiplas manifestações verbovisuais. Criado em abril de 2009, o grupo nasceu do desejo de dizer poesia às pessoas. De colocar a voz a serviço da poesia. De falar as coisas do mundo de forma diferente.

Cantando, foi assim que abrimos nossa apresentação, saudando Iemanjá, senhora das águas, para dançar a xarda com desenvoltura.

A montagem do Tatamirô e do Pium Filmes, em sintonia com a programação do MIS-AP, manifestou nosso apreço pela cidade. Começamos com a projeção que os piuns Paulo e Renan prepararam especialmente para a ocasião: páginas do livro Xarda Misturada com a narração do poeta Herbert Emanuel rememorando a convivência com os poetas Ray, Joy e José. A poesia do Xarda, que iniciou no vídeo, prosseguiu com as declamações feitas por mim e Lorena, enquanto haikais com fotos antigas da cidade de Macapá alternavam-se na tela. A poetisa Mary Paz juntou-se a nós declamando o poema Cuidado! Sou louca!,  de sua autoria.

Esta postagem é a nossa homenagem aos 253 anos de Macapá. Nela, mostraremos nossas escolhas para a atuação no Sesc-Centro. Primeiro, o texto da narração do poeta Herbert Emanuel para o vídeo e o poema que dá título ao livro:

Um certo Zé que morava numa lata de sardinha

O livro Xarda Misturada faz parte da minha memória afetiva de Macapá. Na década de 70, seus autores, Ray Cunha, Joy Edson e José Montoril, eram amigos das minhas irmãs e frequentavam bastante a minha casa. Quem não gostava muito era o meu pai. Acho que ele desconfiava de alguma paquera, não via com bons olhos a amizade daqueles jovens poetas boêmios com suas filhas.

Eu tinha 9 ou 10 anos e me lembro de uma cena em que os três, numa noite chuvosa, rolavam pelo chão, enlameados e encharcados, declamavam poemas para minhas irmãs, que assistiam aquilo da janela do sobrado rindo muito. O comportamento irreverente daqueles poetas, que eram bem novos (tinham entre 16 a 17 anos), marcou a minha infância e foi decisivo na minha escolha pela poesia. Eu também queria ser poeta.

Dos três, Ray Cunha era quem eu mais admirava.  Ele inventava umas histórias pra mim de um certo Zé que morava numa lata de sardinha e vivia metido em confusões quixotescas. Ray era um excelente contador de histórias. Quando me encontrei com ele muitos anos depois, falou que tinha abandonado a poesia e se dedicava exclusivamente à prosa, ao contrário do seu parceiro de Xarda, Joy Edson, que é poeta e jornalista, e mora em Brasília. Do José Montoril não tenho notícias, se ainda é vivo, se é poeta ou enveredou por outros caminhos.

Relendo o livro Xarda Misturada, a gente percebe alguma imagem, algum verso interessante, alguns achados, mas o tom extremadamente lírico revela, ao mesmo tempo – e é isso que eu acho válido na poesia deles, como testemunha de uma época –, a imaturidade, a ingenuidade e a gana de querer transfigurar a vida em experiência poética.

No livro, há um poema que gosto particularmente: o poema-título, Xarda Misturada.  Xarda é nome de uma dança húngara, que possui uma parte melancólica e outra de caráter selvagem. Eu gosto do poema porque ele consegue um certo alcance da atmosfera vivida na época: a influência ainda dos Beatles, de um certo Oriente filtrado pela contracultura.

Xarda Misturada

Descobri o que é czarda,
minha poesia herda algo húngaro!
A inspiração é do achado de xarda.
Acho que herdaram-na;
Oeste e leste de Greenwich.
Beatles misturaram xarda
George Harrison a estuda no Oriente;
volvemos gueixas, samurais, jiu-jitsu
e arte musical,
apenas cítaras no tempo de “A Grande Muralha”
em Abbey Road (os dois no atual).
Filmes e exposições.
Alucinações de pensamentos desconexos
providos de tudo!
Inspiração? É o que tenho desabafar,
tópico é o que não há.
Achei! É o tema de um livro azul,
chama-se Malabar.
O mundo é profundo,
o homem, a vida.
Sinto inspirações sem temas,
adolescentes, imaturas, profundas.
Quero desabafar, aos poucos desabafo
e agora existe Xarda Misturada.
Czardas, dedos e teclas e cordas e outros
somem-se no gesto de bailarino,
apenas tímpanos esmaecem e depois
tomam outro tom, deve ser verde...
Há o nexo. O fim é:
Cosmo.
Havendo mais:
A vida é bela.
(Não para todos)
O amor é a substância vital da alma.
O mundo é um conjunto,
façamo-nos elementos do mesmo.
Quando Alexandre Dumas Jr....
minha máquina do tempo
volveu ao tempo,
fui e vi espadas normandas e mundo saxão.
Esse passatempo considero uma equação.

Ray Cunha


Aproveito a oportunidade que o Tatamirô Grupo de Poesia, especialmente meu querido amigo Herbert Emanuel (beijos para toda a tua família, Herbert!), para publicar o prefácio de Xarda Misturada, de Isnard Lima.

Palavras

Este prefácio estava em gestação no meu crânio há alguns meses. Numa tarde azul de verão eles chegaram com a bagagem de seus poemas e uma mensagem que me agradou. Eu sempre olho com respeito a Juventude, inclusive a de setenta anos. Olhei-os de repente e abri a mochila dos garotos. Eles estavam muito sérios e calados, esperando o julgamento de um irmão mais velho... Minhas mãos tocaram pérolas e lentejoulas, testaram rubis e palparam diamantes, e meu olhar cigano acendeu de alegria: eu não estava com certeza diante de embromadores, como conheço muitos pela aí, nesses roteiros amargos que DEUS, soberano POETA, às vezes oferta aos palhaços mais ricos do Mundo – os artistas! Fumei meu cigarro e olhei para o Alto e numa prece feliz agradeci ao Mestre. Nem sempre se encontra o milagre da Poesia, ainda verde, procurando a Porta Secreta do Triunfo. Surgiu no olhar deles o brilho esperado; prometi a mim mesmo não deixa-los sozinhos.

Lembro-me perfeitamente do meu primeiro poema publicado (nem sei se era) e da crítica severa e positiva de meu pai jogando longe um sonho de três dias, muito bem treinado pela métrica que Waldomiro Gomes me ensinara. O tempo passou, deixou sangue e lágrimas nos meus caminhos. Eu fui andando à procura da Poesia, até descobrir que deveria encontra-la dentro de mim... Um dia, doze anos depois, tomando um copo de vinho e prostituído pela vida, chamaram-me poeta... Eu começava a ser marcado de duas maneiras: pelo mundo e pelo pecado de ser artista.

Encontrei agora três meninos que prometem vender seu pão e doar seu sangue. XARDA MISTURADA é um livro de poemas e o batismo de fogo, a hora da verdade de Ray, Montoril e Edson iluminando os corredores da estrada dos iluminados. Haverá muito tropeço e pedras pelo caminho; amor e glória, angústia e dor são fatos positivos no futuro. Mas eles hão de olhar de cima os grandes edifícios e sorrir calados para os cadilacs de luxo. Nada se compara, senão Deus, ao milagre argênteo da Grande Corrente Astral, e na Quinta Azul só podem entrar aqueles que trouxeram, ao nascer, a clara marca dos pequenos deuses.

Macapá, 15 de dezembro de 1971

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A capital do trópico

- Brasília cresceu sob o equívoco de cidade mais moderna do mundo. Nunca foi moderna, pois até hoje suas instituições públicas não fazem justiça à modernidade, especialmente o transporte coletivo, e assim foi engessada como Patrimônio Cultural da Humanidade – criticava K. Ele falava tão escorreitamente quanto escreve. - Brasília foi construída no alto do Planalto Central, no Cerrado, savana que vem sendo substituída por imensas plantações. É seca, calorenta, suja, caótica e poluída como qualquer metrópole brasileira. A maior argumentação para a construção de Brasília é a de que viabilizou a integração da Amazônia ao Sudeste. Essa integração seria legítima se houvesse uma ferrovia do Chuí, no Rio Grande do Sul, até Rio Branco, Acre, e até Boa Vista, Roraima, e, quem sabe, de Roraima a Macapá, no Amapá. Ferrovias não promovem a devastação da Amazônia, não como as rodovias. Essa ferrovia passaria por São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goiânia e Belém, com ramal para o Nordeste – disse K, com sua indefectível pachorra adquirida em incontáveis idas e vindas mundo afora.

- Cara, e o traçado de Lúcio Costa, e a obra de Oscar Niemeyer? – Alfredinho perguntou. Tratava-se de um carioca cabeludo que foi assaltado no Rio de Janeiro e como não tivesse dinheiro apararam seus cabelos cuidadosamente e os levaram. A caminho da delegacia para dar parte foi novamente assaltado e como não tivesse nem cabelos levou uma pancada na cabeça que quase ficou doido. Veio para Brasília e virou candango de carteirinha, e voltou a ser cabeludo.

- O traçado de Lúcio Costa, uma cruz no Cerrado, serviu mais como tema para incontáveis cronistas do que para se projetar uma cidade. Uma cidade não deve ser crucificada, mas vivificada. Quanto a Oscar Niemeyer, é um projetor de monólitos de concreto e crê que esquerdistas são santos – K atacou, ferino.

- Cuidado para não sufocar com a língua – disse Alfredinho, tomando mais um gole pantagruélico. - E você, Ray, o que diz da obra de Niemeyer? – disse, dirigindo-se a mim.

- Niemeyer é intocável; é como Fidel Castro. Mas Oscar Niemeyer, além de esterilizar o chão com hectares de concreto, constrói monumentos no lugar de palácios. A Biblioteca Nacional de Brasília, aquele complexo cultural na Esplanada dos Ministérios, por exemplo, o meio ovo que ele projetou, cercado de concreto por todos os lados, sem nenhum arbusto para simbolizar uma sombrinha naquele deserto de concreto, aquilo é insano – eu disse.

- Insano! Gostei da palavra. A Esplanada dos Ministérios é insana, e o Congresso Nacional é paradoxalmente insano – disse K.

- Não diria o Congresso Nacional, mas o PTPMDB – observei.

- O que, PTPMDB, o que é isso? – Alfredinho perguntou.

- Um animal híbrido, de fome hienídea e paladar suíno – eu disse.

- Explique-se – K exigiu. K é um sujeito absolutamente lógico.

- Os petepeemedebistas são murídeos com cabeça de hiena – respondi.

- Égua! – disse Alfredinho, me parodiando. – Vocês dois deveriam ser expulsos de Brasília.

- Quando o Brasil saiu da ditadura, o então presidente José Sarney deu o governo de Brasília para Joaquim Roriz, que montou um formidável esquema de distribuição de lote por futuros votos, nepotismo, superfaturamento, invasões e negociatas, até ser pego, já com a coroa de senador. Aí, a “cidade mais moderna do mundo”, fria, setorizada, sem esquinas, povoada de comunidades estanques, explodiu, e se transformou no que é – deblaterou K. - Se não houvesse Brasília é provável que não teríamos 21 anos de ditadura, e todas as ditaduras, todas, inclusive a de Hugo Chávez, são, simplesmente, indefensáveis. Comparo ditaduras a uma quadrilha que faz de conta que segue uma ideologia. Ditadores não são mais do que bandidos bancando políticos, todos eles, incluindo Getúlio Vargas.

- Acho que Brasília foi a tacada de mestre de JK, embora tenha se tornado um perfeito esconderijo dos petralhas – observei.

As amigas de K nos salvaram daquele papo, que estava ficando amargo. À sua chegada a noite ficou mais intensa. Elas representavam, em si mesmas, o agora e o agora, o momento mesmo da vida. Então Brasília se transmudou na capital do trópico. Não do Trópico Úmido, que é Belém, mas do trópico apenas. Estávamos no café ao lado da Livraria Saraiva. Àquela hora, o ParkShopping lembrava um grande aeroporto internacional, onde pode-se ver as mulheres mais bonitas do mundo. O café regurgitava, imerso em perfume.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O suicídio político do Amapá


O Amapá integrou o Pará desde que os portugueses puseram as botinas na Amazônia, até 1943, e foi Território Federal até 1990. Em 1 de janeiro de 1991 tornou-se estado. Enquanto Território Federal, nada mais era do que um remoto protetorado da capital. A partir da sua independência federativa, começou o saque. Foram abertas três vagas para senador e Zé Sarney, desgastado no Maranhão como Hosni Mubarak no Egito, se mandou para o Amapá, que o eternizou na presidência do Senado, casa que ele enlameou, com o beneplácito do ex-presidente Lula.

Maior patrimonialista (que confunde a coisa pública com a privada) brasileiro, resistente como Fidel Castro, camaleônico, untuoso (quem já o viu de perto?), medíocre, Zé Sarney é um presente de grego que nossos valorosos irmãos maranhenses, sem querer, enviaram para o Amapá. Sarney continua pintando e bordando, sempre com apoio total do seu partido, o PMDB, do Partido dos Trabalhadores (vejam, só!) e, claro, de Lula, e agora de Dilma Rousseff.

Blog é pessoal, mas me arredo para dar lugar a dois pesos pesados do jornalismo brasileiro: Augusto Nunes e Roberto Pompeu de Toledo.

O apoio secreto a um assassino da esperança é uma forma silenciosa de suicídio político

AUGUSTO NUNES
Direto ao Ponto/Veja.com

11 de fevereiro de 2011 - Na última página da edição de Veja desta semana (9 de fevereiro), o excelente Roberto Pompeu de Toledo encerrou o texto inspirado em José Sarney com um parágrafo de antologia: “A sina do Maranhão, governado, nos últimos 45 anos, por Sarney, familiares ou prepostos, a não ser por curtos intervalos, continua sendo a da desonestidade, da corrução, da violência, da miséria, do analfabetismo e das altas taxas de mortalidade infantil. Mas Sarney, aos 80 anos, dois a menos que Mubarak, alcançou a plenitude da glória. Na primeira hora da madrugada do último dia 1º de janeiro, foi presença de honra na cerimônia de posse da filha, pela quarta vez, como governadora do Maranhão. Voou em seguida para Brasília, onde, como presidente do Congresso, deu posse à nova presidente da República. E, à noite, ainda viajou com o presidente Lula a São Bernardo, onde figurou como atração especial no comício/show montado para receber de volta o mais ilustre morador da cidade. Haja Sarney! Ele promete, como Mubarak, que este é seu último mandato. Nem precisaria de outros. Este é um país intoxicado de Sarney. Na academia, nos jornais e alhures, discute-se se estaríamos vivendo ainda uma era FHC, graças ao rescaldo de suas reformas, ou uma era Lula. Nada disso. O país vive, há mais de meio século, a era Sarney”.

Com a conivência da maioria dos oposicionistas, essa era abjeta eviscerada por Roberto Pompeu de Toledo foi prorrogada por mais dois anos de Sarney na presidência do Senado. Líderes do PSDB e do DEM alegam que apenas respeitaram o critério da proporcionalidade, que confere à bancada majoritária o direito de indicar o presidente da Mesa Diretora. Nenhum partido, seja qual for o tamanho da representação no Senado, tem o direito de impor uma escolha que agride o Brasil decente.

O critério da proporcionalidade não pode prevalecer sobre critérios morais, nem revogar o sentimento da vergonha. Nenhum oposicionista teria respeitado o critério da proporcionalidade se a votação fosse aberta. Nas conversas com repórteres do site de Veja, todos evitaram mencionar expressamente o nome de Sarney. Não ousariam decliná-lo em voz alta no plenário.

Quando estiverem cauterizadas as feridas morais abertas pela Era da Mediocridade, escrevi em junho de 2009, o Brasil contemplará com desconsolo e desconcerto a paisagem deste começo de século. Como foi possível suportar sem revides as bofetadas desferidas por um José Sarney ─ político sem luz, orador bisonho, poeta menor e escritor medíocre? Como explicar a mansidão da maioria dos insultados pelo coro dos cúmplices contentes?

A ausência no plenário do Senado de representantes do Brasil que presta talvez seja mais perturbadora do que a presença de Sarney no centro da Mesa Diretora. Encerrado o espetáculo do cinismo, ninguém falou em nome dos injuriados. Ninguém contestou a discurseira absurda. Ninguém lastimou a decomposição do Legislativo. Ninguém sentiu vergonha. Os senadores ficaram parecidos com Sarney, que é a cara do Senado destes tempos tristonhos. Mais cedo para uns que para outros, a morte política chegará para todos. Tomara que a instituição sobreviva.

Os dois parágrafos que encerraram o post com o título Sarney esqueceu que a morte política vive à espreita dos muito vivos podem ser aplicados sem retoques à sessão em que Sarney, neste começo de fevereiro, celebrou outro triunfo e enxergou na própria vida um monumento à ética. Foi a reedição do espetáculo do cinismo encenado há 18 meses, quando tentou dissociar-se do acervo de bandalheiras descoberto nas catacumbas da Casa do Espanto.

Em 2009, a oposição redimiu-se parcialmente com a contraofensiva que por pouco não despejou Sarney do Congresso. Logo se saberá se os partidos que se declaram adversários do governo entenderam que apoiar secretamente um assassino da esperança é só uma forma silenciosa de suicídio político.

Sarney esqueceu que a morte política vive à espreita dos muito vivos

AUGUSTO NUNES
Direto ao Ponto/Veja.com

17 de junho de 2009 - Porque era provido do sentimento da honra, por ser capaz de sentir vergonha, Getúlio Vargas preferiu morrer a sujeitar-se a vinganças ultrajantes. Depois da mais dramática renúncia, o estadista gaúcho sobreviveu politicamente à morte física. Porque acha que nada desonra, por ser incapaz de envergonhar-se, José Sarney preferiu permanecer na presidência do Senado a reconhecer que ofendeu o Brasil que pensa. Depois de confirmar a tese de Jânio Quadros segundo a qual aqui ninguém renuncia sequer ao cargo de síndico, o morubixaba maranhense vai conhecer em vida a morte política.

“Em política só existe a porta de entrada”, repete Sarney a cada entrevista mais extensa. Claro que existem portas de saída ─ só não as enxerga quem imagina que a carteirinha de sócio do clube dos pais da pátria não tem prazo de validade. Há a porta da frente e a dos fundos. Por aquela saiu Getúlio, sobraçando uma comovente carta-testamento. Pela porta dos fundos vai saindo o presidente do Senado, no cangote de um discurso inverossímil.

Foi penoso acompanhar pela TV a performance do artista em seu ocaso. Mãos trêmulas, olhar de medo, a voz indignada contrastando com os desmaios no meio da frase sem pé nem cabeça, o homem que chegou ao Congresso há 50 anos, governou o Maranhão e o Brasil e preside de novo o Senado parecia um coroinha do baixo clero. Enfileirou argumentos indigentes, evocou atos de bravura imaginários, reinventou o passado de governista congênito e caprichou na pose de herói da resistência.

Sempre perseguindo erraticamente pontos finais, Sarney engavetou pecados antigos, subestimou os recentes, informou que os atos secretos não foram secretos e, caprichando na pose de vítima, exigiu respeito. “A crise não é minha, a crise é do Senado”, inocentou-se.

É isso aí, concordaram os presentes, com falatórios na tribuna ou com os gritos do silêncio. Todos fizeram de conta que Sarney não embolsou malandramente o auxílio-moradia, não promoveu a diretor-geral o bandido de estimação Agaciel Maia, não pendurou no cabideiro de empregos do Congresso duas sobrinhas, um neto, o ex-presidente da Assembléia Legislativa do Amapá, 50 parentes pra cá e 50 amigos pra lá. Todos absolveram o patriarca que tentara encobrir com um desfile de negativas a procissão de delinquências comprovadas.

Quando estiverem cauterizadas as feridas morais abertas pela Era da Mediocridade, o Brasil contemplará com desconsolo e desconcerto a paisagem deste começo de século. Como foi possível suportar sem revides as bofetadas desferidas por um político sem luz, orador bisonho, poeta menor e escritor medíocre? Como explicar a mansidão da maioria dos insultados pelo coro dos cúmplices contentes?

A ausência no plenário de representantes do Brasil que presta talvez seja mais perturbadora do que a presença de Sarney no centro da mesa diretora. Encerrado o espetáculo do cinismo, ninguém falou em nome dos injuriados. Ninguém contestou a discurseira absurda. Ninguém lastimou a decomposição do Legislativo. Ninguém sentiu vergonha.

Na quarta-feira, os senadores ficaram parecidos com Sarney, que é a cara do Senado destes tempos tristonhos. Mais cedo para uns que para outros, a morte política chegará para todos. Tomara que a instituição sobreviva.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O apanhador no campo de centeio

Dei uma parada no café da livraria Cultura, no segundo piso do Pátio Brasil, e pedi um expresso curto. O blend soube-me bem. Gosto da Cultura do Pátio Brasil, uma livraria grande e com imenso acervo. Exceto pela gritaria da música-ambiente é agradável lá. Tenho preferência pelas prateleiras de literatura estrangeira, para onde sempre me dirijo. Ao dobrar uma esquina estaquei ao vê-la. O corredor estava inundado de sol, manhã, rosas, Chanel, murmúrios. Meu dia mudou completamente. Era o início de uma tarde calorenta e dali eu iria para uma reunião de trabalho com meu sócio no portal Brasil CPLP, Marcelo Larroyed. Fora impregnar-me de ficção antes de mergulhar na realidade dos fatos.

Fiquei por ali. Avancei até a prateleira com os livros de Mario Vargas Llosa, mas como o corredor inundado de sol perdera-se de vista, retrocedi logo e parei nas prateleiras de literatura em língua portuguesa, de onde não perderia o corredor ensolarado. Na minha frente vi alguns exemplares de O Casulo Exposto, meu último livro, o que me deixa sempre mais alegre. Não sei quanto tempo demorei, mergulhado na inesperada manhã vespertina; apenas permaneci por ali o mais que pude. Ela devia ter uns onze anos, trajava um vestidinho de musselina e sua pele negra era alva como seda. Estava sozinha com as rosas na manhã ao sol, enquanto esperava seus pais, que, certamente, estavam por perto. Passei duas vezes bem junto dela. Lia O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger.

“Fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto - quer dizer, ninguém grande - a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer” - diz Holden Caulfield.

Todas as vezes que vejo uma criança lendo numa livraria lembro minha princesinha, minha filha. As livrarias sempre exerceram um poder mágico sobre nós dois. Às vezes, fantasio, só de farra, entrar numa livraria com um carrinho de supermercado e enchê-lo de livros, de todos os autores que amo e dos livros por quem me apaixonei e nunca os tive. Toda essa emoção aquela garotinha me proporcionou na sua manhã particular.

Eu também gostaria de ser um apanhador no campo de centeio. Aliás, é o que procuro ser. Fico na minha, e toda vez que é preciso impeço que alguém caia no precipício, e quase sempre apenas com um sorriso.

Falar em J. D. Salinger, Jerome David Salinger, o nova-iorquino autor do clássico O apanhador no campo de centeio, morreu de causas naturais no dia 27 de janeiro de 2010, aos 91 anos. Vivia isolado em sua casa, em Cornish, New Hampshire, Estados Unidos. Sempre fugiu da fama. O apanhador no campo de centeio foi publicado em 1951. Conta um fim-de-semana na vida do adolescente Holden Caulfield, de 16 anos, de uma família abastada de Nova York. Expulso do colégio interno onde estudava, Holden decide se aventurar pela cidade antes de voltar para casa e enfrentar seus pais.

O livro é uma espécie de marco. Antes dele, a sociedade não dava importância à adolescência, vista então como uma passagem entre a juventude e a vida adulta. O culto ao livro sofreu um abalo quando Mark David Chapman estourou a cabeça do Beatle John Lennon e afirmou que se inspirara em O Apanhador no campo de centeio. “Esse extraordinário livro tem muitas respostas” – disse Chapman.

A primeira vez que li O apanhador no campo de centeio foi em 1982, no café de uma livraria, em Niterói, bebendo Bohemia. O livro se tornou de cabeceira. Tudo o que Holden Caulfield queria era livrar as crianças do abismo pessoal dele, a adolescência. Mas Holden não recebeu a orientação certa para isso. Só obtemos capacidade de amar se recebermos a força necessária, e essa força é o amor, sincero, dos pais. Então, estaremos aptos para servir como apanhador.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Pero Vaz de Caminha praticou nepotismo? E Camilo Capiberibe, do Amapá, que deu emprego público para a mãe?...

A ex-deputada Janete Maria Góes Capiberibe perdeu o cargo na Câmara Federal mas não ficou desempregada. Seu filho, Carlos Camilo Góes Capiberibe (PSB), governador do Amapá, colocou-a no comando da representação em Brasília, com status de secretária de estado. O pai de Camilo, João Capiberibe, quando foi governador indicou sua irmã, Raquel Capiberibe da Silva, conselheira do Tribunal de Contas do Amapá, um dos salários mais cobiçados no país. E daí? Daí que Camilo era a esperança de moralidade na terra que perpetuou Zé Sarney presidente do Senado. Nepotismo é uma maneira de homens e mulheres de colarinho branco meter a mão no dinheiro público para enriquecer a família. Nepotismo e patrimonialismo no Brasil só serão extintos com reforma do Estado brasileiro.
  
Em artigo - O nepotismo, o emprego e o Estadão - publicado em 31 de agosto de 2008 no jornal O Estado de S.Paulo, o então embaixador de Portugal no Brasil, Francisco Seixas da Costa (hoje, embaixador em Paris), protesta contra o uso brasileiro de citar Pero Vaz de Caminha pedindo emprego ao rei para um parente como o primeiro sintoma de nepotismo registrado no Brasil-colônia. O argumento do diplomata é correto e a indignação que suas palavras, embora cuidadosas, deixam entrever, é justa, pois na época do escriba Caminha o rei era dono de tudo, de modo que um escrivão do rei teria que pedir pelos seus ao rei, óbvio. Os tempos eram outros.

Se a evocação brasileira é injusta, embora simbólica - porque nossa cultura administrativa, incluindo o velho e vigoroso patrimonialismo, é herança portuguesa -, o nepotismo é uma das pragas que trava nosso desenvolvimento. O momento histórico contemporâneo é absolutamente diferente de 1500. Hoje, no Brasil, reis são folclóricos, mas presidentes e governadores procuram enriquecer suas famílias em quatro ou oito anos; não há mais barões, mas ministros e parlamentares metidos nas mais torpes e sofisticadas negociatas, com o objetivo de ampliar seu patrimônio; não há mais senhores feudais, mas prefeitos que chegam a planejar meticulosamente o saque da burra.

Há, inclusive, parlamentares que defendem o nepotismo como se sua eleição lhes desse o direito de se apossar do patrimônio público. Nessa marcha, esses aristocratas pós-modernos fazem de suas famílias verdadeiras quadrilhas, nas quais seus familiares assumem postos estratégicos para o bom andamento da negociata.

O nepotismo e o patrimonialismo no Brasil só serão extintos quando acontecer a utopia de o povo se levantar, por meio das instituições que o represente, e exigir a reforma política, a reforma tributária, a reforma agrária, a reforma do ensino público, a reforma do Estado brasileiro.

Segue-se, na íntegra, o desabafo do embaixador Francisco Seixas da Costa.   


O nepotismo, o emprego e o Estadão

FRANCISCO SEIXAS DA COSTA

Ao ler no editorial do Estado de S.Paulo, de sábado, 23 de agosto, que o nepotismo era o produto residual “arraigado” da herança colonial portuguesa, senti reproduzida, pela multi-enésima vez, a referência à expressão em que Pero Vaz de Caminha pede ao rei, na sua famosa Carta, emprego para um seu parente.

Talvez “porque hoje é sábado”, como diria Vinícius (o poeta Vinícius de Moraes), dia em que os jornais se leem com maior vagar, detive-me a refletir um pouco no verdadeiro conteúdo do que foi escrito pelo cronista do “achamento”. Ao formular a sua reverente petição ao rei, Caminha não estava a nomear ninguém para um cargo público, a colocar filho ou primo num gabinete ou numa sinecura paga pelo erário, na rentável administração de uma estatal, estava longe de pretender falsear um concurso público. Limitava-se a solicitar ao soberano, num tempo em que só a este cabia prover discricionariamente todos os lugares, no seu livre e indisputado arbítrio, um emprego para pessoa ligada à sua família. Assim acontecia em todo o mundo, de que Portugal não era exceção.

O pedido de Caminha, que se tornou num bordão referencial da ética pública brasileira, mesmo de quantos se não deram ao trabalho de ler o texto da Carta, passou a representar o exemplo tipificado de nepotismo, não obstante incontáveis contribuições posteriores terem ajudado a recortar, com bem maior sofisticação, essa histórica prática - e não apenas no Brasil, é claro. Para alguns, porém, a frase de Caminha permaneceu como um ferrete que terá marcado, por uma misteriosa eternidade, o DNA brasileiro, transformando-se numa herança ético-administrativa de raiz pecaminosa. Ela reemerge sempre como pernicioso ranço luso, nas horas em que a retórica de alguns oradores já esgotou os clássicos bebidos no Reader’s Digest. Não é este, como é óbvio, o caso do Estado de S.Paulo.

Neste reiterado uso do exemplo de Caminha subsiste, porém, um pequeno, embora quiçá despiciendo, pormenor: “nepotismo” não é nada disso. Trata-se de aproveitar a titularidade de lugares da administração pública para oferecer livre colocação a parentes (etimologicamente, a sobrinhos), passando a alimentá-los à mesa do orçamento. Nem mais, nem menos. E disso, convenhamos, Pero Vaz de Caminha está inocente, sem necessidade de liminares ou recursos.

Longe de mim, como atual embaixador de Portugal, arvorar-me numa espécie de advogado-geral do tempo colonial. Bem me tem bastado, ao longo desde ano, ajudar à gestão póstuma das obras e graças do senhor dom João VI. Mas enquanto usufrutuário comum da bela língua que nos une, sinto-me no dever de colocar os pontos nos is, enquanto um novo Acordo Ortográfico os não abolir. E relembrar que, no século 16, ser solicitado um emprego para alguém - familiar, amigo ou correligionário -, pedido formulado a quem tinha então o legítimo poder para o conceder, não configurava nada que se pudesse identificar com o conceito de nepotismo, nem sequer com a ideia de fisiologismo - impressiva expressão brasileira que passo os dias a tentar traduzir aos meus perplexos compatriotas, a quem a prática não é alheia, mas para a qual não dispunham de tão interessante instrumento qualificativo. Por isso, entendamo-nos de vez: Caminha não praticou nepotismo. Para confirmar isso, basta ler o vosso excelente Aurélio ou o nosso magnífico Moraes.

Mas por que razão, estarão a perguntar-se os leitores, terá o embaixador de Portugal tomado o Estadão como alvo deste seu preciosismo terminológico, quando o tema é recorrente em tanta outra imprensa? Por um motivo de oportunidade, que nada tem a ver com o nepotismo, mas que se prende com o emprego.

Sem que tal represente menor consideração pela restante imprensa brasileira, cuja qualidade é reconhecida internacionalmente, talvez neste país se desconheça que muitos de nós, portugueses, sempre olhamos para o Estado de S.Paulo de forma muito particular. Nos longos anos em que, em Portugal, a liberdade não passava de uma miragem que se mantinha no horizonte longínquo, o Brasil acolheu, com imensa generosidade, muitas figuras que a ditadura salazarista alienava da vida cívica portuguesa. Nesse tempo, o Estado de S.Paulo destacou-se como porto de abrigo para algumas dessas personalidades, as quais, frequentemente, eram menos bem acolhidas por alguns compatriotas, aqui residentes, que não partilhavam ou rejeitavam mesmo o progressismo das suas ideias, porque haviam optado por se manterem próximos do regime que vigorava em Portugal.

Foi o Estado de S.Paulo, foi a figura honrada de Júlio de Mesquita Filho, quem deu então uma mão solidária a vários profissionais exilados da imprensa portuguesa, bem como a outras figuras da Oposição ao salazarismo, oferecendo-lhes emprego, ajudando-os a reconstituir a sua vida e a sustentar o seu quotidiano. Nada disso era feito por adesão ideológica ou doutrinária, por qualquer interesse ou favoritismo, mas simplesmente por um sentimento de simpatia e pela partilha de uma magnífica e rara ética de solidariedade. Nomes como Vítor Cunha Rego, Miguel Urbano Rodrigues, João Alves das Neves, Carlos Maria de Araújo, João Santana Mota ou mesmo Henrique Galvão, puderam encontrar no Estadão um apoio essencial, nesse tempo de turbulência de suas vidas.

Por essa razão, por essa memória grata e afetiva que os democratas portugueses devotam ao Estado de S.Paulo, sentimo-nos livres para pedir que, quando um capítulo da nossa História em comum vem a lume, num dos seus editoriais, aliás, sempre redigidos num excelente “português de lei”, o máximo rigor seja mantido. Achamo-nos, assim, no direito de exigir ao Estadão, com toda a cordialidade e imensa simpatia, a absolvição póstuma de Pero Vaz de Caminha, que nunca pisou os terrenos pantanosos do nepotismo e se limitou a exercer o direito à solicitação de um singelo emprego.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Confraria Candango

Fizera um calor estúpido durante todo o dia, mas agora, já no início da madrugada, a temperatura estava agradável. Contudo Gim suava, apesar de estar apenas de camiseta. Gim vivia suando mesmo. Era o maior dos dois. O outro, apesar do seu metro e oitenta de altura, parecia bem menor do que Gim, pois batia-lhe no ombro. O telefone tocou e Gim atendeu. Ouviu o que disseram, desligou o telefone e o guardou no cinto.

- Calisto, o homem está saindo - disse para o outro.

Estavam dentro de um Gol, no estacionamento do bar e restaurante Anturius, no Setor Hoteleiro de Taguatinga. No começo da noite fora um entra e sai de políticos, empresários e jornalistas, mas àquela hora havia poucos carros no estacionamento.

- Lá vem ele - Gim avisou.

O homem que acabara de sair era pequeno e usava óculos. Teria menos de sessenta anos, mas seu cabelo já estava todo branco. Dirigiu-se para seu carro, também um Gol branco, estacionado ao lado do Gol dos dois sujeitos. Nem chegou a abrir a porta. Sentiu algo duro na nuca. Era o cano preto de um trinta e oito.

- O Gol é este - disse Gim, indicando, com o cano, seu carro. - Vai entrando!

O jornalista não esboçou qualquer sinal de surpresa e entrou tranqüilamente no automóvel.

- Posso fumar? - perguntou.

- Aproveite - disse Gim.

Arlindo tirou o maço de Hilton, ofereceu cigarro aos dois; diante da recusa de ambos, pôs um cigarro na boca e o acendeu. Calisto, ao seu lado, brincava com uma peixeira. Arlindo bebera bastante, mas, diante das circunstâncias, sentia-se sóbrio.

- Posso saber para onde os senhores estão me levando? - perguntou. Ninguém respondeu.

Já vira Gim, antes, mas não se lembrava onde. Concentrou-se e acabou se lembrando. Vira-o na Décima-Segunda Delegacia de Polícia. Por que o estavam seqüestrando? Seria por causa da sua investigação sobre caixa dois no Partido dos Trabalhadores do Movimento Democrático Brasileiro (PTMDB)? O presidente nacional da agremiação morava numa mansão no centro de Taguatinga, sob jurisdição da Décima-Segunda.

O Gol entrara em um local ermo, no Areal, atrás da Universidade Católica.

- Fim da linha, bonitão - disse Gim.

Arlindo desceu.

- Você vai parar com a investigação sobre o caso do PTMDB - disse Gim.

PTMDB. Essa sigla sempre soara mal nos ouvidos de Arlindo.

- Eu lamento, mas a próxima edição da Confraria Candango já está pronta.

- A edição vai ficar com a gente - disse Gim.

- Vocês foram mandados pelo deputado Jesus, não foram?

- A edição vai ficar com a gente e você vai esquecer esse assunto - disse Gim.

- De qualquer modo, a edição já está pronta...

Calisto deu uma cacetada tão forte na cabeça do jornalista que ele aterrissou e comeu capim.

- Ele não vai cooperar - disse Calisto. - Vamos apagar logo ele.

- Espera! Você não ouviu ele dizer que tem uma edição pronta? Temos de ir com ele até o jornal e destruir tudo - disse Gim.

Começou a chover de repente. Calisto chutou o jornalista na cabeça e depois pisou nela.

- Espera! - disse Gim - senão ele não vai poder dizer onde é que está a edição da Confraria.

Meia hora depois, Gim e Calisto estacionaram na CNB-7. Gim desceu e abriu uma porta, que dava para estreito hall e sinuosa escadaria. Não havia viv’alma na Avenida Comercial Norte. Arrastaram Arlindo até o hall e o jogaram lá, como se joga um saco de lixo. Sentiram movimento em cima. Alguém abriu uma porta.

- Vamos! - disse Gim. - O palhaço está morto e não sabemos qual é a sala.

A secretária do jornal chegava sempre antes das oito horas, preparava café e logo depois Arlindo entrava na redação e ia direto para a cozinha. Naquela manhã de sábado, Vânia chegou mais cedo, pois sabia que não tardaria a chover. Quase cai ao tropeçar em Arlindo. Ele gemia baixinho e uma bolha de sangue formava-se na sua boca. Vânia gritou.

- Ai, meu Deus! Socorro! - gritou, histérica.

Mais tarde, no Hospital Regional de Taguatinga, o médico explicou a Arlindo Filho: - Tivemos de drenar água de dentro do crânio dele.

- Filho - Arlindo sussurrou no ouvido do rapaz -, a arte do jornal está em casa, dentro do gavetão do guarda-roupa, no meu quarto. Leva-a para o Jornal de Brasília para rodar. Antes, manda tua mãe e teus irmãos para Goiânia, procura o pessoal da Confraria Candango e toma muito, muito cuidado. Vai!

Em seguida, Arlindo sentiu que mergulhava em uma vala cheia de sangue, mas agüentaria mais um pouco. Queria ver a cara do deputado Jesus e dos dois policiais quando lessem o jornal. Tinha de agüentar só mais um pouco. Depois, então, que se fodessem.


Brasília, 2002


Confraria Candango integra o livro O casulo exposto, à venda nas livrarias Saraiva, Cultura e Leitura, e na Loja Virtual da LGE Editora