sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A censura das biografias

Por iniciativa da deputada comunista Manoela D'Ávila, do Rio Grande do Sul, tramita novamente na Câmara dos Deputados projeto de lei que libera a divulgação da imagem e de informações em biografia de pessoas públicas e celebridades, como João Guimarães Rosa. Manoela D’Ávila reapresentou projeto de 2008, apresentado pelo então deputado Antonio Palocci (hoje, chefe da Casa Civil), que obtivera parecer favorável do relator, deputado Martins Cardozo (hoje, ministro da Justiça), e foi arquivado em 31 de janeiro de 2010. No Brasil, há uma enxurrada de ações judiciais contra editoras e autores de biografias, por parentes de biografados pedindo dinheiro por dano moral e a retirada do livro de circulação.

Por exemplo: em 2007, o cantor Roberto Carlos conseguiu que a Justiça mandasse retirar das livrarias um livro escrito por um admirador, que relatava a vida familiar do artista e sua trajetória. Em 2008, o jornalista Ruy Castro, ao lançar a biografia de Garrincha, foi processado duas vezes: pelas filhas de Garrincha e por uma ex-companheira do astro do futebol. Ruy ganhou um dos processos, mas foi condenado no outro pelo Superior Tribunal de Justiça, que estipulou indenização de 5% sobre o total de vendas do livro, com juros de 6% ao ano, contados a partir da citação das partes. Em 2009, depois que a imprensa divulgou que Ruy Castro estava escrevendo a biografia de Raul Seixas, o autor foi advertido por uma das cinco ex-mulheres do cantor baiano de que entraria na Justiça caso o livro fosse publicado. Em 2008, a Justiça mandou retirar do mercado a primeira biografia completa de João Guimarães Rosa.
Não temos legislação sobre o limite entre o direito à privacidade e o direito à informação sobre pessoas de notória projeção pública e celebridades, nem há jurisprudência sobre isso. Palocci foi procurado por escritores, intelectuais e jornalistas. "É fundamental a sociedade conhecer sua história. As biografias de pessoas de interesse público têm um papel muito importante nesse sentido. A soma de cada uma das histórias dessas personagens, inclusive com suas diferentes e quase sempre conflitantes visões de mundo e dos fatos narrados, é que escreve a história de um povo e de uma nação" - disse Palocci, na época.
Engavetado o projeto, escritores, intelectuais e jornalistas voltaram a se mexer e, a pedido de Palocci e de Cardozo, Manoela D’Ávila decidiu reapresentar o documento, como se fosse de sua autoria. Agora, o texto terá de passar novamente pelas mesmas comissões técnicas nas quais havia recebido pareceres favoráveis.
Grande Sertão: Veredas
Vilma Guimarães Rosa, filha de João Guimarães Rosa, autor de Grande Sertões: Veredas, entrou, em 10 de julho de 2008, com ação na Vigésima Quarta Vara Cívil do Foro do Rio de Janeiro, contra o romancista e ensaísta Alaor Barbosa, autor da primeira biografia de Guimarães Rosa publicada no Brasil, Sinfonia Minas Gerais: A vida e a literatura de João Guimarães Rosa (LGE Editora, 2007, Brasília, 388 páginas). Vilma alega que Alaor Barbosa utilizou citações do livro dela, Relembramentos: João Guimarães Rosa, Meu Pai, de 1983, que ela chama de biografia, mas que se trata de livro epistolar; e alega que Alaor Barbosa afirma que Guimarães Rosa era místico.
Em setembro de 2008, o juiz Marcelo Almeida de Moraes Marinho mandou a LGE, uma editora de Brasília, retirar das livrarias, em 24 horas, a primeira biografia sobre o gênio mineiro, acatando pedido da filha do escritor e da Editora Nova Fronteira, editora que publica Rosa.
A ação é absurda, e já causou sérios danos à LGE Editora, que teve de recolher o livro das livrarias em todo o território nacional. Recolher livros num país continental como o Brasil e nos tempos de hoje, com vendedores eletrônicos em cada esquina da internet, é outro absurdo. Além disso, o custo editorial é elevado e a retirada de um livro do mercado é brutal para uma editora pequena. 
Alaor Barbosa afirma na sua defesa que as autoras da ação querem garantir reserva de mercado para faturar em cima de Guimarães Rosa: "A Editora Nova Fronteira acaba de relançar obra de autoria de Vilma Guimarães Rosa, intitulada Relembramentos: João Guimarães Rosa, meu pai; livro publicado em 1983, com pouco sucesso comercial e que não se configura tecnicamente uma biografia, mas sim um livro que procura mostrar, em sua visão de filha de Guimarães Rosa, quem seria o seu pai, principalmente por meio da transcrição de cartas escritas e recebidas por Rosa ao longo de sua vida.
"Evidente que as autoras da ação se aproveitam do ano de centenário de morte de Guimarães Rosa para, absurdamente, tentarem obter vantagens econômicas; sendo certo que buscam o Poder Judiciário visando a uma espécie de exclusividade em relação à história de um dos maiores escritores brasileiros; história esta cuja importância em muito transcende os laços de parentesco.
"Trata-se, como restará demonstrado, de uma evidente pretensão de apropriação da figura, da vida e da obra de João Guimarães Rosa por parte de uma sociedade editorial de grande porte, que, repita-se, tenta se utilizar do Poder Judiciário para potencializar o seu já notável poderio econômico; buscando, absurdamente, vedar a concorrência".
Em pronunciamento no Plenário da Câmara, em novembro de 2008, o deputado Pedro Wilson (PT/GO) referiu-se à volta da velha ditadura, que, de vez em quando, assombra os brasileiros conscientes da democracia. A razão do pronunciamento do deputado Pedro Wilson é a censura imposta a Sinfonia Minas Gerais: A vida e a literatura de João Guimarães Rosa. “A ditadura parece estar de volta à Nação. Repito, senhoras e senhores: parece estar de volta a ditadura. Inacreditável, estarrecedoramente, a censura afia as suas garras. Esse monstro, que muito custamos domar, volta a dar sinais de vida. Afia as suas garras e escancara as fauces, em arreganho ameaçador, rosnando para todos os brasileiros. Espantoso, inacreditável, senhoras e senhores! Espantoso e inacreditável, mas verdadeiro.
“Venho fazer desta nobre tribuna da Câmara dos Deputados, neste momento, para o conhecimento de V. Exas. e, portanto, para o conhecimento do Congresso Nacional e da Nação aqui representada, uma denúncia de um acontecimento gravíssimo: a proibição de um livro no Brasil. Proibição de livro, pasmem os nobres colegas, determinada por ordem de um juiz de direito.
“Isso é de causar espanto, perplexidade e, naturalmente, revolta e indignação. Um fato que só se poderia imaginar possível em alguma ditadura remanescente ou em antigas sociedades totalitárias, acaba de acontecer há pouco mais de um mês em nosso país, o Brasil da Constituição de 1988, o Brasil da Constituição Cidadã, o Brasil redemocratizado há exatamente 20 anos, comemorados no último dia 5 de outubro (de 2008).
“Refiro-me, senhoras e senhores deputados, à proibição judicial do livro Sinfonia Minas Gerais: A vida e a literatura de João Guimarães Rosa, de autoria do escritor e advogado, consultor legislativo do Senado Federal aposentado, Alaor Barbosa. Essa proibição foi ordenada no despacho inicial da ação de indenização por danos morais proposta por uma das filhas do grande autor mineiro e pela editora que lhe edita os livros, contra a editora que publicou o livro, por sinal uma editora daqui da capital federal, a LGE Editora, bem conhecida em todo o Brasil pela elevada qualidade dos livros que tem editado, grande número dos quais destinados a leitores infantis.
“Existem dois aspectos principais nesse absurdo que ora denunciamos à consciência cívica da Nação. O primeiro, que preliminarmente agride a nossa consciência de brasileiros, é que a proibição de livro constitui uma insuportável, intolerável violação da Constituição, a qual, no seu Artigo 5, Inciso IX, assegura às pessoas o direito à liberdade de expressão do pensamento, de criação artística e intelectual, sem qualquer censura prévia. Esta é uma liberdade assegurada também por numerosas declarações de direitos internacionais, e há mais de dois séculos: desde a Declaração dos Direitos do Homem, proclamada ao mundo em 1789 pela Revolução Francesa — e cuja reiteração mais importante é, sem dúvida, a Declaração dos Direitos Humanos, promulgada pela Organização das Nações Unidas, em 1948.
“Faz, portanto, 60 anos. Harmoniza-se a referida norma constitucional com o texto constitucional que fixa a responsabilidade civil dos autores de obras literárias que contenham alguma espécie de dano moral a alguém. Responsabilidade essa que se verifica, evidentemente, de acordo com o sistema de direitos e deveres da ordem jurídica vigente, mediante processo regular, o que implica o direito da contradição (contestação) e a livre apuração de provas, num processo obviamente culminante em sentença (sentença que somente produzirá efeitos depois de transitada em julgado, quer dizer, depois de tornar-se não mais suscetível de recurso). Portanto, a proibição do livro, ordenada antes de exercido o direito do contraditório e antes de sentença irrecorrível, é simplesmente um atentado ao Direito e à Justiça!
“O segundo aspecto, que se verifica na legislação infraconstitucional, ou seja, no Código Civil, é que a proibição do referido livro constitui também uma fragrante violação da sadia interpretação do Artigo. 20 do Código Civil. Com efeito, eminentes senhores deputados, não existe, não ocorre, não se vislumbra no texto desse artigo nenhuma palavra autorizadora da interpretação de que nele se contenha a exigência de autorização prévia para publicação de biografias. Nem o Artigo 20 fala em biografias nem qualquer outro texto da legislação infraconstitucional. Portanto, essa errônea interpretação deve ser evitada já mesmo mediante uma interpretação literal do texto do Artigo 20 do Código Civil.
“Nele só se encontra a palavra “escritos”, a qual, evidentemente, não compreende, na sua significação, isto que se chama e classifica, entre os diversos gêneros literários, de biografia. E o livro de Alaor Barbosa, no seu primeiro tomo publicado, é precisamente uma biografia. Somente não o será o segundo tomo programado, o qual consistirá em estudos a respeito do conjunto dos livros que constituem a obra literária construída por João Guimarães Rosa.
“Portanto, é inteiramente arbitrária e contrária às mais elementares regras da hermenêutica jurídica a interpretação que algumas pessoas vêm tentando fazer e impor aos juízes e tribunais do Brasil, qual seja, a de que o Artigo 20 do novel Código Civil Brasileiro, entrado em vigor em janeiro do ano de 2003, contenha a exigência de autorização prévia (ou mesmo posterior) para publicação de biografias. Esta é uma verdade que precisa ser proclamada de forma muito clara.
“Tão verdade é que, na nossa opinião, o oportuno projeto de lei apresentado pelo ilustre deputado Antonio Palocci, que dá nova redação ao Artigo 20 do Código Civil, ora em curso na Comissão de Justiça desta Casa, justifica-se não por expressar uma nova realidade normativa, mas por explicitar, intencionalmente, aquilo que já se encontra implícito no texto atualmente vigente do citado Artigo 20 do Código Civil.
“O caso, entregue à apreciação do juiz da 24a. Vara Cível da comarca do Rio de Janeiro, transcende, pela sua importância, o âmbito do poder judiciário. Sendo uma questão de liberdade constitucional, constitui-se em tema de interesse de toda a Nação brasileira.
“Aproveitamos esta oportunidade para ler uma carta escrita pela filha do autor do livro proibido, Noemia Gonçalves Barbosa Boianovsky, advogada e assessora da Câmara Legislativa do Distrito Federal, em que expressa bem a significação maior deste caso. Vamos lê-la porque constitui um documento histórico de uma resistência moral e intelectual contra uma violência perpetrada contra a liberdade intelectual no Brasil, e a fim de que, inscrita nos Anais do Parlamento Brasileiro, venha a ser, de hoje em diante, um instrumento eficaz de luta, um documento de dignidade evocado sempre que se repita essa espécie de violência e erro em nosso País”.
E quem é esse Guimarães Rosa que não pode ter sua vida revelada por uma biografia, bem documentada, diga-se?
Quem foi João Guimarães Rosa? "Sou um sertanejo" - disse - durante uma das raríssimas entrevista que concedeu - a Günter W. Lorenz, em Gênova, em janeiro de 1965. Essa entrevista, um longo e esclarecedor papo, foi publicada em Arte em Revista, do Centro de Estudos de Arte contemporânea, em maio de 1979, sob a coordenação de Otilia Beatriz Fiori Arantes, Celso Fernando Favaretto e Matinas Suzuki Júnior. Um sertanejo mineiro.
Entre os monstros brasileiros da ficção, Guimarães Rosa foi um dos que mais fundo mergulhou na língua brasileira. "Nosso português-brasileiro é uma língua mais rica, inclusive metafisicamente, que o português falado na Europa. E, além de tudo, tem a vantagem de que seu desenvolvimento ainda não se deteve; ainda não está saturada. Ainda é uma língua jenseits Von Gut und Bose (Além do Bem e do Mal, título de um livro de Nietzsche), e, apesar disso, já é incalculável o enriquecimento do português no Brasil, por razões etnológicas e antropológicas" - disse Guimarães Rosa a Günter W. Lorenz. "Pelo processo de mistura com elementos indígenas e negroides com os quais se fundiu no Brasil..." - disse Lorenz, a que Guimarães Rosa replicou: "Exato, este foi um enriquecimento imenso e já pode ser notado no exterior pela quantidade de diferentes dicionários europeus e americanos do mesmo idioma. Naturalmente, tudo isso está à nossa disposição, mas não à disposição dos portugueses. Eu, como brasileiro, tenho uma escala de expressões mais vasta que os portugueses, obrigados a pensar utilizando uma língua já saturada".
Com efeito, como num iceberg, língua é a parte emersa e, cultura, os restantes seis sétimos sob a superfície da água. Guimarães Rosa, que compreendia mais de uma dezena de idiomas, foi um artífice único do mundo singular do sertanejo mineiro. Daí porque é um dos escritores brasileiros mais estudados e traduzidos na Europa, na tentativa, malograda, de os europeus compreenderem o trópico. Nesse mister, nem os lusitanos compreenderam o trópico; portanto, ficaram sem entender o Brasil.
Assim, compreender o mundo de Rosa é enxergar um ângulo da pedra angular da cultura brasileira. É isso que Alaor Barbosa faz, lança luzes sobre a vida e a obra do gênio mineiro. "Creio que minha biografia não é muito rica em acontecimentos. Uma vida complemente normal" - disse o monstro mineiro a Lorenz, em 1965, dois anos antes de morrer. É fato. Guimarães Rosa foi um sertanejo e funcionário público; um sujeito tão discreto que parecia se esconder, e isso Alaor Barbosa resgata.
A biografia escrita por Alaor é adiposa. Vilma se queixou, na Justiça, de que Alaor fez inúmeras citações do seu livro epistolar Relembramentos: João Guimarães Rosa, meu pai. Alaor pode extirpar todas essas citações que, ainda assim, a biografia do monstro sagrado continuará inchada como os pés de um pinguço. Alaor produziu um bom material: reconstruiu a geografia de Rosa, psicanalisou-o e resgatou o dia-a-dia do criador de Grande Sertão: Veredas, desde seus antepassado até o caixão.
Homoerotismo em Grande Sertão: Veredas
O centenário de nascimento do gênio mineiro Guimarães Rosa (1908-1967) foi comemorado com enfoque inusitado na crítica brasileira pelo Núcleo de Estudos sobre Homocultura (Nehom), da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), em Minas Gerais, em evento cultural O Segredo de Grande Sertão: Veredas, de 1 a 6. No encontro, analisou-se o que há de homoerótico e homofóbico em um dos maiores clássicos da literatura brasileira, a sutil relação de amor entre os personagens Riobaldo e Diadorim (Reinaldo). As discussões ocorrem na Biblioteca Central Professor Antônio Jorge, da Unimontes.
Foram analisados dois artigos. Em Confessando a carne em Grande Sertão: Veredas, Denise Carrascosa esclarece que “não há, na crítica literária brasileira - “autorizada” - sobre a obra de Guimarães Rosa, a não ser por alguns acenos, referência à relação de desejo carnal, homoerótica em alguns momentos, homofóbica em outros, que se pinta nas zonas de sombra na narrativa”. O outro texto é Riobaldo/Diadorim e o tema da homossexualidade, de Walnice Matos Vilalva.
O objetivo do estudo é constatar que a homossexualidade na obra de Rosa está implícita na ideia do próprio autor, de que “sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte que o poder do lugar”. Diz Riobaldo: “Nego que gosto de você, no mal. Gosto, mas só como amigo!... Assaz mesmo me disse. De por diante, acostumei a me dizer isso sempre vezes, quando perto de Diadorim eu estava. E eu mesmo acreditei. Ah, meu senhor! Como se o obedecer do amor não fosse sempre o contrário...” (Fonte: Mix Brasil)
Em Berlim, encontro internacional de 1 a 3 de dezembro de 2008 debateu a dificuldade de se traduzir João Guimarães Rosa, durante três dias. Ligia Chiappini, professora do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Livre de Berlim, disse que a principal motivação do simpósio foi perceber que João Guimarães Rosa não é reeditado na Alemanha e que há um desconhecimento cada vez maior da obra do gênio no país, onde seus livros acabam chegando somente ao gueto dos brasilianistas.  Durante o evento, foi apresentada uma nova edição de Meu tio o iauaretê. Após o simpósio, durante dois dias, foi realizado um encontro na embaixada brasileira em Berlim, com palestras, filmes e discussões. A filha do escritor, Vilma Guimarães Rosa, fez um depoimento sobre o seu pai.
Sinfonia Minas Gerais: a vida e a literatura de João Guimarães Rosa
Sinfonia Minas Gerais: a vida e a literatura de João Guimarães Rosa é a primeira biografia do extraordinário escritor brasileiro João Guimarães Rosa. Primeira, mas completa. Feita com competência e calma, nasce já clássica e portanto indispensável a quantos, no Brasil e fora do Brasil, queiram conhecer a vida do poderoso contista e romancista mineiro que já se tornou o mais estudado dos escritores brasileiros” – diz a quarta capa do livro.
E a orelha: “João Guimarães Rosa nasceu em 27 de junho de 1908 e morreu em 19 de novembro de 1967. Neste ano de 2007, comemoram-se, portanto, quarenta anos da sua morte e se está na véspera do ano do centenário do seu nascimento.
“Era preciso que alguém lhe escrevesse a necessária e indispensável biografia. Apesar de já ser talvez o escritor brasileiro sobre quem mais se tem escrito no Brasil, ainda faltava um livro que contasse a história da sua vida exemplar. Pois João Guimarães Rosa foi um raro exemplo de dedicação de um homem à sua arte literária. Essa lacuna foi felizmente preenchida, em boa hora, pela iniciativa, providência e admirável operosidade de um consagrado ficcionista brasileiro.
“Alaor Barbosa escreveu a biografia de João Guimarães Rosa movido pelo sentido e convicção de que cumpria um múltiplo dever: para com o biografado, a quem conheceu pessoalmente, de quem foi amigo e a quem tributa profunda admiração pessoal; para com a literatura brasileira, cujos criadores devem ser mostrados, difundidos, cultuados; para com a língua portuguesa, que necessita e merece ser defendida; e para com a nacionalidade brasileira, que deve ser preservada principalmente mediante a valorização da sua cultura.
“Observe-se que esta biografia constitui a primeira parte de um trabalho mais amplo, que inclui, em segundo volume, uma análise de toda a obra literária de João Guimarães Rosa.
“Um escritor autenticamente brasileiro, de origens radicadas no interior do nosso país, Alaor Barbosa descende de mineiros da região da Serra da Canastra (Espírito Santo da Forqueilha, hoje Delfinópolis) e de paulistas de Igarapava, nasceu bem no âmago do Brasil: em Morrinhos, Goiás; e vive em Brasília, no Planalto Central, há 23 anos.
“Escrevendo sobre ele em 1969, afirmou o contista e romancista José Edson Gomes: “Alaor Barbosa vem pacientemente desenvolvendo uma obra que terminará por explodir neste Brasil imenso e quase cego”.
O romancista e crítico Assis Brasil assim o classificou, em 1996: “Um dos mais desenvolvidos e seguros narradores da nova literatura brasileira”.
Em 2000, trinta e um anos depois da previsão de José Edson Gomes, o severo crítico Wilson Martins, ao escrever sobre o romance Memórias do nego-dado Bertolino d’Abadia, outorgou a Alaor Barbosa a definitiva consagração, colocando-o na família de Balzac, Thomas Hardy, Eça de Queiroz, Dostoievski, Graciliano Ramos e Giovanni Verga.”
O que os pais deixam aos filhos
Carta de Noemia Barbosa, filha de Alaor Barbosa, para Vilma Rosa, filha de Guimarães Rosa:
Vilma,
Nasci filha de escritor. Doei para o meu pai, desde o meu nascimento, longas horas da minha infância e da minha adolescência. Meus irmãos doaram outras tantas horas. Minha mãe dividiu o marido, durante décadas, com sua amante, a literatura. Mas meu ciúme de criança foi se atenuando, ao longo dos anos, e mais ainda com o chegar da maturidade. Passei a admirá-lo, respeitá-lo, reverenciá-lo. Principalmente, passei a compreendê-lo. Literatura, para o meu pai, o escritor Alaor Barbosa, é e sempre foi devoção. Triste do filho ou da filha que não respeita e nem compreende as devoções paternas.
Assim como você, também sou herdeira de uma obra literária. Grande, extensa, profunda, séria. Fruto de muito trabalho, pesquisa e esforço, feita com paixão e talento. Obra reconhecida e tantas vezes premiada. Falo de quase meio século de produção literária, tempo bem maior do que eu mesma tenho de vida. Meu pai, Vilma, já era escritor antes de eu nascer.
Tenho a sorte de ter meu pai comigo, avô carinhoso das minhas filhas, em almoços de domingo. Vivo, feliz e produtivo. Mas já estou de posse da herança que ele me legou. Foi uma partilha sem desavenças, entre a família e os amigos. Não a herança material, mensurável, quantitativa, que se deposita em conta bancária. Desta, basta-nos o óbolo de Caronte. O que recebi de meu pai foi um norte, um rumo, um equilíbrio, um eterno buscar da verdade. O amor e o respeito por tudo de bom que o ser humano já produziu.
Você, Vilma, também recebeu uma herança. Magnífica herança, portentosa, imensurável. A herança de um gigante. A herança de um gênio, primus inter pares. Temos, portanto, responsabilidades. Eu e você. A minha, talvez mais leve, é a de impedir que a herança de meu pai seja aviltada, desqualificada, vilipendiada. Isso, tenha certeza, não acontecerá. As inverdades, calúnias e difamações são muito fugazes e, uma vez reveladas, deixam despida aquela que as inventou. Aliás, é assim que eu vejo você: despida, nua, pelada. Porque mais marcado será sempre o caluniador do que o caluniado. Já a sua responsabilidade, Vilma, é a de não abastardar, não apequenar, não diminuir a sua herança, o seu legado. A obra do seu pai é universal. Não a amesquinhe, não reduza a herança à estatura da herdeira.
Num país como o nosso, Vilma, tão carente de cultura, tão necessitado de modelos, tão merecedor de exemplos, resta-me recordar as palavras de outro ídolo de meu pai, Monteiro Lobato, cuja biografia para crianças também saiu da máquina de escrever Olivetti que havia na biblioteca lá de casa. Lobato disse que um país se faz com homens e livros. Você, portanto, quando tenta impedir a existência de um livro, de uma obra literária, espanca a inteligência nacional, ofende a tantos que tombaram em nome da liberdade e do direito de expressão e do livre pensamento! Talvez, Vilma, seu tempo tenha passado. Imagino você mais feliz vivendo uma outra época - mais escura do que a de agora. Talvez sob o Estado Novo ou abrigada pelo AI-5. Imagino você, Vilma, com um carimbo de censura na mão — arma formidável! — detentora exclusiva da faculdade de permitir ou não que alguém leia, fale ou pense. Para nossa sorte e infelicidade sua, vivemos tempos mais claros. E você, faça o que fizer, diga o que disser, jamais impedirá meu pai de ler, escrever, falar ou pensar. Nem meu pai nem ninguém.
Portanto, Vilma Rosa, não acenda fogueiras com livros. O fumo do livro incinerado escurece uma nação.
Cada um de nós tem seus próprios ídolos. Sorte do meu pai, que fez boas escolhas. Os seus, parecem ser o Index Librorum Prohibitorum, o Santo Ofício, Savonarola e Torquemada. Talvez, até Herr Goebbels... Eu, que também tenho os meus, cito um deles: você vai amargar vendo o dia raiar sem lhe pedir licença...
Lembre-se, Vilma, você é apenas uma filha. Você é apenas uma herdeira que avilta a herança magnífica que recebeu. constatar que nem tudo que Guimarães Rosa nos deixou é tão bom quanto a sua obra literária.
Noemia Barbosa Boianovsky é bacharela em Relações Internacionais, jornalista, advogada, consultora da Câmara Legislativa do Distrito Federal e filha de Alaor Barbosa.

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