quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Tatamirô Grupo de Poesia

Recebi homenagem do Tatamirô Grupo de Poesia, de Macapá, que publicou texto a respeito do evento no seu site. O grupo refere-se ao meu primeiro livro de poesia, Xarda Misturada, em parceria com Joy Edson (José Edson dos Santos) e José Montoril, publicado em dezembro de 1971, em Macapá. Vamos ao texto.

“O Tatamirô Grupo de Poesia é um grupo amapaense de declamação de textos poéticos, sejam eles escritos na forma de prosa ou verso em suas múltiplas manifestações verbovisuais. Criado em abril de 2009, o grupo nasceu do desejo de dizer poesia às pessoas. De colocar a voz a serviço da poesia. De falar as coisas do mundo de forma diferente.

Cantando, foi assim que abrimos nossa apresentação, saudando Iemanjá, senhora das águas, para dançar a xarda com desenvoltura.

A montagem do Tatamirô e do Pium Filmes, em sintonia com a programação do MIS-AP, manifestou nosso apreço pela cidade. Começamos com a projeção que os piuns Paulo e Renan prepararam especialmente para a ocasião: páginas do livro Xarda Misturada com a narração do poeta Herbert Emanuel rememorando a convivência com os poetas Ray, Joy e José. A poesia do Xarda, que iniciou no vídeo, prosseguiu com as declamações feitas por mim e Lorena, enquanto haikais com fotos antigas da cidade de Macapá alternavam-se na tela. A poetisa Mary Paz juntou-se a nós declamando o poema Cuidado! Sou louca!,  de sua autoria.

Esta postagem é a nossa homenagem aos 253 anos de Macapá. Nela, mostraremos nossas escolhas para a atuação no Sesc-Centro. Primeiro, o texto da narração do poeta Herbert Emanuel para o vídeo e o poema que dá título ao livro:

Um certo Zé que morava numa lata de sardinha

O livro Xarda Misturada faz parte da minha memória afetiva de Macapá. Na década de 70, seus autores, Ray Cunha, Joy Edson e José Montoril, eram amigos das minhas irmãs e frequentavam bastante a minha casa. Quem não gostava muito era o meu pai. Acho que ele desconfiava de alguma paquera, não via com bons olhos a amizade daqueles jovens poetas boêmios com suas filhas.

Eu tinha 9 ou 10 anos e me lembro de uma cena em que os três, numa noite chuvosa, rolavam pelo chão, enlameados e encharcados, declamavam poemas para minhas irmãs, que assistiam aquilo da janela do sobrado rindo muito. O comportamento irreverente daqueles poetas, que eram bem novos (tinham entre 16 a 17 anos), marcou a minha infância e foi decisivo na minha escolha pela poesia. Eu também queria ser poeta.

Dos três, Ray Cunha era quem eu mais admirava.  Ele inventava umas histórias pra mim de um certo Zé que morava numa lata de sardinha e vivia metido em confusões quixotescas. Ray era um excelente contador de histórias. Quando me encontrei com ele muitos anos depois, falou que tinha abandonado a poesia e se dedicava exclusivamente à prosa, ao contrário do seu parceiro de Xarda, Joy Edson, que é poeta e jornalista, e mora em Brasília. Do José Montoril não tenho notícias, se ainda é vivo, se é poeta ou enveredou por outros caminhos.

Relendo o livro Xarda Misturada, a gente percebe alguma imagem, algum verso interessante, alguns achados, mas o tom extremadamente lírico revela, ao mesmo tempo – e é isso que eu acho válido na poesia deles, como testemunha de uma época –, a imaturidade, a ingenuidade e a gana de querer transfigurar a vida em experiência poética.

No livro, há um poema que gosto particularmente: o poema-título, Xarda Misturada.  Xarda é nome de uma dança húngara, que possui uma parte melancólica e outra de caráter selvagem. Eu gosto do poema porque ele consegue um certo alcance da atmosfera vivida na época: a influência ainda dos Beatles, de um certo Oriente filtrado pela contracultura.

Xarda Misturada

Descobri o que é czarda,
minha poesia herda algo húngaro!
A inspiração é do achado de xarda.
Acho que herdaram-na;
Oeste e leste de Greenwich.
Beatles misturaram xarda
George Harrison a estuda no Oriente;
volvemos gueixas, samurais, jiu-jitsu
e arte musical,
apenas cítaras no tempo de “A Grande Muralha”
em Abbey Road (os dois no atual).
Filmes e exposições.
Alucinações de pensamentos desconexos
providos de tudo!
Inspiração? É o que tenho desabafar,
tópico é o que não há.
Achei! É o tema de um livro azul,
chama-se Malabar.
O mundo é profundo,
o homem, a vida.
Sinto inspirações sem temas,
adolescentes, imaturas, profundas.
Quero desabafar, aos poucos desabafo
e agora existe Xarda Misturada.
Czardas, dedos e teclas e cordas e outros
somem-se no gesto de bailarino,
apenas tímpanos esmaecem e depois
tomam outro tom, deve ser verde...
Há o nexo. O fim é:
Cosmo.
Havendo mais:
A vida é bela.
(Não para todos)
O amor é a substância vital da alma.
O mundo é um conjunto,
façamo-nos elementos do mesmo.
Quando Alexandre Dumas Jr....
minha máquina do tempo
volveu ao tempo,
fui e vi espadas normandas e mundo saxão.
Esse passatempo considero uma equação.

Ray Cunha


Aproveito a oportunidade que o Tatamirô Grupo de Poesia, especialmente meu querido amigo Herbert Emanuel (beijos para toda a tua família, Herbert!), para publicar o prefácio de Xarda Misturada, de Isnard Lima.

Palavras

Este prefácio estava em gestação no meu crânio há alguns meses. Numa tarde azul de verão eles chegaram com a bagagem de seus poemas e uma mensagem que me agradou. Eu sempre olho com respeito a Juventude, inclusive a de setenta anos. Olhei-os de repente e abri a mochila dos garotos. Eles estavam muito sérios e calados, esperando o julgamento de um irmão mais velho... Minhas mãos tocaram pérolas e lentejoulas, testaram rubis e palparam diamantes, e meu olhar cigano acendeu de alegria: eu não estava com certeza diante de embromadores, como conheço muitos pela aí, nesses roteiros amargos que DEUS, soberano POETA, às vezes oferta aos palhaços mais ricos do Mundo – os artistas! Fumei meu cigarro e olhei para o Alto e numa prece feliz agradeci ao Mestre. Nem sempre se encontra o milagre da Poesia, ainda verde, procurando a Porta Secreta do Triunfo. Surgiu no olhar deles o brilho esperado; prometi a mim mesmo não deixa-los sozinhos.

Lembro-me perfeitamente do meu primeiro poema publicado (nem sei se era) e da crítica severa e positiva de meu pai jogando longe um sonho de três dias, muito bem treinado pela métrica que Waldomiro Gomes me ensinara. O tempo passou, deixou sangue e lágrimas nos meus caminhos. Eu fui andando à procura da Poesia, até descobrir que deveria encontra-la dentro de mim... Um dia, doze anos depois, tomando um copo de vinho e prostituído pela vida, chamaram-me poeta... Eu começava a ser marcado de duas maneiras: pelo mundo e pelo pecado de ser artista.

Encontrei agora três meninos que prometem vender seu pão e doar seu sangue. XARDA MISTURADA é um livro de poemas e o batismo de fogo, a hora da verdade de Ray, Montoril e Edson iluminando os corredores da estrada dos iluminados. Haverá muito tropeço e pedras pelo caminho; amor e glória, angústia e dor são fatos positivos no futuro. Mas eles hão de olhar de cima os grandes edifícios e sorrir calados para os cadilacs de luxo. Nada se compara, senão Deus, ao milagre argênteo da Grande Corrente Astral, e na Quinta Azul só podem entrar aqueles que trouxeram, ao nascer, a clara marca dos pequenos deuses.

Macapá, 15 de dezembro de 1971

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