domingo, 27 de março de 2011

O pulsar da alma


Ver-O-Peso, acrílico sobre tela de Olivar Cunha

Dois urubus conversavam num telhado nas imediações do Ver-O-Peso, em Belém do Pará. O Ver-O-Peso, à margem da baía de Guajará, no rio Guamá, é a maior feira livre da Ibero-América. Ao norte, fica o arquipélago de Marajó, a boca do maior rio do mundo, o Amazonas, o estado do Amapá e o Caribe.

Os urubus eram primos e o que chegara tentava convencer o belenense a passar uma temporada nos campos marajoaras, contando-lhe sobre a fartura que havia lá, carcaças de búfalo, anta, capivara, jacaré e incontáveis animais. Uma maravilha. Tanto que ele estava ali para confirmar isso, gordo, próspero, enquanto que seu primo não demoraria, ele mesmo, a virar carcaça, naquela vida de disputar alguns peixinhos descartados aqui e ali, ao largo da enseada do Ver-O-Peso. O urubu belenense estava com água no bico. Bem que precisava se enfiar na carcaça de um grande animal e se fartar. Assim, se mandou com seu primo para o Marajó. O primeiro dia foi uma farra. O primo citadino ficou com o papo por acolá de tanta carniça, mas no segundo dia ele foi ficando triste e no terceiro dia ele disse que ia voltar para Belém.
- Mas por que, se lá não tem nem sombra da fartura que tu tens aqui. Eu não entendo! – disse o urubu marajoara.
- Lá eu me sinto feliz, primo. Não há local melhor para se viver do que no Ver-O-Peso. Comer não é preciso, viver é preciso – filosofou, antes de abraçar seu gordo primo e levantar um voo excitado rumo ao Ver-O-Peso.
Esta crônica não é sobre o Ver-O-Peso, mas sobre um roteiro que começa na rodoviária do Plano Piloto, o coração de Brasília. Por ela passam diariamente, de segunda a sexta-feira, 600 mil pessoas, que chegam ou partem, de ônibus, metrô ou táxi, para todos os pontos do Distrito Federal e do Entorno de Brasília. Nos horários de pico, suas escadarias parecem cachoeiras humanas, sob o eterno zumbido da grande cidade se movendo.
A rodoviária do Plano Piloto fica no ponto de intersecção do Eixo Monumental com o Eixão, a cruz desenhada por Lúcio Costa no Cerrado do Planalto Central, a cabine do avião iluminado na noite. Do seu piso superior, dá-se de cara com a pirâmide do Teatro Nacional Claudio Santoro e com o Conjunto Nacional, onde é realizado um desfile perene de mulheres bonitas. No outro lado do calçadão do Conjunto Nacional surge o Conic, um centro comercial, e por trás de tudo isso o Setor Comercial e o Setor Hoteleiro, cortados pela Avenida W3.
Para homens, ou mulheres, da cidade grande, mergulhar nesse labirinto, com seus arranha-céus e vias subterrâneas, hotéis cinco estrelas, shoppings, restaurantes, cafés, livrarias e cinemas, é redentor. É como o urubu do Ver-O-Peso, para quem a aventura é preciso, mais do que viver. E a aventura está precisamente nas múltiplas possibilidades que um passeio no coração da cidade oferece. A visão evanescente de uma mulher que de tão linda não existe, o encontro fortuito com um amigo, ou uma amiga, um passeio sem compromisso numa grande livraria, a descoberta de um café, ou simplesmente caminhar, embriagando-se com a visão de mulheres tão lindas que são inalcançáveis, porque a beleza é como a luz, está sempre à frente.
Há dois tipos de saciedade: a da matéria e a do espírito. Aquela, está presa à força de gravidade. Esta, é livre como o pulsar da alma.

terça-feira, 22 de março de 2011

O casal Lélis brigou ontem à noite

Este conto foi publicado no livro O Casulo Exposto, à venda nas livrarias Saraiva, Cultura e Leitura. Em Brasília, pode ser encontrado nas lojas da Livraria Leitura do Conjunto Nacional e do Pátio Brasil. À venda ainda no site: www.lojalge.com.br.

Leia mais sobre O Casulo Exposto linkando a matéria Brasília como ela é, no Marcador Brasília.

Pedidos para o editor
Editor: Antonio Carlos Navarro
(55-61) 3362-0008


O ônibus parou e abriu a porta de trás. Era um ônibus bem iluminado. Um facho de luz projetou-se na parada. Um homem, de meia-idade, calvo, pequeno, com a pele branca queimada de sol, avançou escada abaixo, trôpego. Ao pisar a calçada, estudou ao redor de si, como um náufrago que chega à terra firme e aguarda um pouco até o chão parar de se mover. Pouco adiante, uma ruela dormia nas trevas. O ônibus arrancou e o homem ficou só. Começou a avançar em direção à ruela. Viu que vinha alguém.

- Onde tem um bar por aqui? - disse ao tipo que caminhava na sua direção. Era um negro bastante alto.

- Sei onde há um – disse o negro.

O homem que descera do ônibus meteu a mão num dos bolsos do casaco, tirou uma carteira de Malboro e a estendeu ao outro. - Meu nome é Souza Lélis, prazer! - apresentou-se.          O outro recusou o cigarro com um gesto. Souza Lélis acendeu o isqueiro. Notou que o negro trajava-se de terno preto, fosforescente.

- Vamos - disse para Souza Lélis, que o seguiu sem pestanejar. Notou que o negro era corcunda.

A ruela era sinuosa e escura, ladeada por casas imersas no sono da madrugada. Souza Lélis viu três homens numa esquina e percebeu que um deles empunhava um revólver. Mas os homens não fizeram nada, como se não os vissem. Em certo ponto, a ruela enviesava-se para a esquerda. Havia ali um bar, onde uma mulher, de pé, diante do balcão, parecia uma alma penada. Ao ver os dois homens entrando no bar seus olhos brilharam. O garçom era grande como um guarda-roupa e tinha a cabeça mais chata de tantas quanto Souza Lélis já vira. “Este ganharia facilmente um concurso de cabeças-chatas” - pensou.

- Uma rodada de Antarctica, para todos - disse.

O negro bebia em silêncio, observando Souza Lélis. A mulher se aproximou de Souza Lélis, insinuante, mas não foi adiante, pois se chocou no olhar do negro.

- Onde estou, irmão? - perguntou ao negro.

- No céu - disse a mulher, rindo.

Souza Lélis ouvia o riso interminável. Luz lhe ofuscou os olhos. Um automóvel passou perto, espantando o vira-lata que gania como hiena. Souza Lélis estava sentado na sarjeta da ruela. Tentou se levantar e logrou consegui-lo. Saiu ziguezagueando. Levou a mão ao bolso, encontrando a carteira e o dinheiro. Olhou para si e viu que suas roupas continuavam limpas. A manhã começou a esquentar e muitas pessoas caminhavam na ruela. O botequim, que é do botequim? Caminhou; ao dobrar uma esquina deu de cara com uma padaria. Parecia uma padaria despropositada, pois era luxuosa demais, surgindo, de repente, no monturo. Olhou-se num espelho. Havia espelhos por toda parte na padaria. Havia também um grande banheiro. Entrou nele, urinou, lavou as mãos e o rosto, e ajeitou um pouco os cabelos. Foi ao balcão e pediu um pingado e um sanduíche de queijo e presunto no pão francês. Momentos após, apanhou um táxi.

- 703 Sul - disse ao motorista.

Quarenta e cinco minutos depois entrava em casa.

- A Alessandra já se levantou? - perguntou à empregada.

- Já. Ela está se sentindo mal - disse a empregada.

Alessandra estava com os olhos inchados de tanto chorar, desde a briga com Souza Lélis na noite anterior. Ao vê-lo entrando no quarto caiu nos seus braços, derretendo-se como manteiga em pão recém-saído do forno.

A empregada foi levar o café da patroa, mas ficou em pé, à porta do quarto, ouvindo os gemidos que saíam de lá e iam morrer pouco adiante, como bolhas de sabão ao vento.


Valparaíso de Goiás, 7 de dezembro de 1998

quarta-feira, 16 de março de 2011

O resultado do exame de câncer

Naquele verão alguma coisa ia acontecer, pois as roseiras, as zínias e os jasmineiros compuseram um odoroso arco-íris no jardim da mansão, escorrendo como um rio de cores, e nas tórridas noites daquele julho amazônico os jasmineiros espalhavam seu perfume embriagador por toda a propriedade. Além do jardim e da casa, um rio movia-se no silêncio morno dos dias. Beija-flores, borboletas, libélulas, abelhas, besouros, a brisa, vivificavam o pequeno planeta que cochilava à sombra das árvores e da tarde. Uma jovem dormitava na cadeira de cipó-titica, atada a uma perna-manca da varanda que se debruçava para o rio. Sua pele lembrava cristal e via-se-lhe as veias, azuis, no dorso das mãos, nos braços e nas pernas. De algum ponto da casa fluía, quase em sussurros, o segundo movimento do Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart.

A jovem, que se chamava Zina, recostara sua cabeça, calva, sobre pequena almofada. Completara, às 7 horas daquele dia, 21 anos. Vivera sempre cercada no mais esplendoroso luxo, mas não sabia sequer rir. Sua mãe morreu ao lhe dar à luz, e tinha três anos quando o avião em que seu pai viajava explodiu. Apesar do amor dos avós, sonhara todos aqueles anos com sua mãe abraçando-a e beijando-a, e guardava, no relicário do seu coração, o calor do abraço do seu pai ao se despedir naquele dia fatal. Agora, que ia morrer, pedira, com toda a fé, à Fada Azul, para sentir o abraço da sua mãe e do seu pai. O câncer que a consumia se espalhava pelo seu corpo, enraizando-se, nutrindo-se, exaurindo-a. Sentia sua natureza de parasita crescendo, lançando tentáculos, calcando ventosas, sugando seu sangue.

O que a movia, o que a vivificava, era uma joia que guardava num lugar que nenhum câncer poderia contaminar – depositara a joia no éter. Seu pai lhe ensinara que o éter, que tudo preenche, é Deus. À noite, antes de dormir, seu pai lia, sempre, um conto, e, à medida que ia lendo, lhe mostrava as ilustrações. Foi assim que conheceu a Fada Azul, que tudo podia, pois era feita de amor, do amor mais azul – como o anoitecer, como o mar profundo e sereno. Relera aqueles livros toda a vida; eram eles que alimentavam sua alma, davam-lhe forças para esperar. A Fada Azul, pois, se tornou sua companhia mais constante.

Ouvia a voz do pai, rica em tonalidades, como uma melodia que fizesse parte do seu próprio ouvido; quando estava para adormecer, sentia o beijo do pai e seu perfume, e sua mão acariciando-a levemente. Foram três anos mágicos. Agora, completara 21 anos, às 7 horas da manhã. Às 13 horas, tudo já estava pronto, o testamento, tudo.

Legara ao Lar do Pequeno Príncipe, que ela mesma criou, uma fortuna. O Lar do Pequeno Príncipe era uma fundação para crianças órfãs, cancerosas, cegas, mudas, surdas, paraplégicas, tetraplégicas, aidéticas, esquizofrênicas, catatônicas, crianças que ninguém queria, que despertavam nojo e eram atiradas à sarjeta do desprezo. “Deus arrumará a manhã para as crianças, e haverá de enchê-la de rosas e borboletas, e a manhã durará a eternidade da primavera” – pensou, ao inaugurar o Lar do Pequeno Príncipe, que já contava, então, com 49 crianças; a maioria delas necessitava de pouco tempo na Terra para ascender cada vez mais na escala infinita do mundo espiritual, por isso eram as mais incompletas fisicamente.

- Fada Azul, sei que vou morrer, mas quero ver minha mãe e quero que ela me abrace, e quero sentir também meu pai me abraçando, é só o que peço, Fada Azul – a jovem murmurou.

- Ninguém morre – disse a Fada Azul. – Seus pais a aguardam no jardim.

Zina sorriu pela primeira vez, desde o último abraço do seu pai, e saiu correndo para a fonte. Tinha, de novo, três anos, o vestido branco esvoaçando, as tranças voando, o riso. Papai e mamãe estavam mesmo no jardim, esperando-a de braços abertos. Sentiu os braços vivificantes da mãe e os braços fortes do pai, e ouviu o próprio riso, como o Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart.

Acordou. O concerto estava no terceiro movimento.

No dia seguinte, o chefe da equipe médica, oncologista de renome mundial, passou a manhã, a tarde e entrou pela noite de queixo caído. A bateria de exames só apresentou um resultado: negativo.


Brasília, 10 de outubro de 2007

quinta-feira, 10 de março de 2011

Ranário


Ranário integra meu livro O casulo exposto (LGE Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 28), que enfeixa 17 histórias curtas ambientadas no submundo, inclusive político, de Brasília. Prefaciado pelo escritor Maurício Melo Júnior, apresentador do programa Leituras, da TV Senado, a capa é assinada pelo artista plástico André Cerino.

O casulo exposto pode ser encontrado nas redes de livrarias: Saraiva, Cultura e Leitura, ou na loja virtual da LGE Editora.

Pedidos para o editor
LGE Editora: http://www.lgeeditora.com.br/
Editor: Antonio Carlos Navarro
lgeeditora@lgeeditora.com.br
(55-61) 3362-0008


Acordou com um tapa no rosto desferido pelo sol de primavera. Sentia-se moído, sobretudo na memória. Girou o olhar num raio de 360 graus e viu que se encontrava no cerrado, sob magnífico Ipê carregado de flores amarelas. Olhou para si; estava todo escalavrado, como se houvesse fugido do diabo. Só então notou que trajava um vestido, úmido. Não conseguiu recordar a situação que o levara àquele estado, por mais que se esforçasse. Sentiu enjôo, e o peso de uma brutal ressaca desabou sobre o homem de vestido. Olhou para o céu e calculou que a manhã já ia avançada. Ouviu som de carros não muito distante. Caminhou em direção ao som. Subiu um barranco e deu de cara com uma rodovia. Foi para a beira da estrada e começou a fazer sinal para os motoristas. Alguém deve ter avisado à polícia. Pegaram-no quarenta minutos depois. Estava esgotado. Informou, na polícia, que trabalhava na Câmara dos Deputados, deu seu endereço e disse que era primo de um investigador da Décima-Segunda Delegacia de Polícia de Brasília, Distrito Federal, na cidade-satélite de Taguatinga. Tudo ok, mas não se lembrava como diabo acordara no cerrado vestido de mulher. Seu primo foi buscá-lo em Luziânia, cidade do estado de Goiás, distante 60 quilômetros de Brasília, e o levou para casa. Tomou banho e deitou-se. Dormiu imediatamente.

Comia pastel com caldo de cana na Pastelaria Viçosa, na Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília, quando recebeu o telefonema de Mariano.

- A festa vai ser do arromba - disse-lhe Mariano. Quando Mariano dizia que uma festa seria do arromba é porque seria do arromba mesmo. - Cara, vou te dar o endereço, você não pode perder essa. Anota aí: Setor Sudoeste...

A festa era do arromba, mesmo. Edinaldo bebeu sozinho uma garrafa de whisky. Já estava meio cego quando surgiu a vamp, de parar o trânsito. Saiu da festa com ela.

Subia por uma escarpa enlameada e resvalava quando ia alcançar a borda. Uma nesga de sol começou a tirá-lo do torpor que tolhia seu esforço para alcançar a borda da escarpa. A nesga do sol da tarde invadia a parte da janela sem a proteção da cortina de alumínio, na outra extremidade do quarto, um quarto enorme. Edinaldo abriu os olhos, querendo se libertar do torpor, e viu o grande espelho na parede oposta. Ergueu-se um pouco, atraído pelo espelho. Viu alguma coisa grande e verde ao seu lado e sentiu algo frio se encostar no seu braço. Uma rã descomunal espreguiçava-se na cama. Saltou em direção à porta do quarto. No vôo, pegou, indistintamente, algo sobre uma cadeira antes de abrir a porta do quarto e sair num corredor comprido.

- Ele está escapando! Não deixem ele escapar! – ouviu, como um gemido alto, um canto lamentoso, um coaxar.

Estava quase alcançando a porta que supunha ser a principal da casa quando uma rã gigantesca como a da cama, preta e encarquilhada, saltou sobre a porta.

- Por mim ele não passa! - disse o monstro.

Edinaldo freou, olhou para trás e viu três rãs avançando sobre ele, correndo somente com as pernas traseiras. Foi então que percebeu a porta entreaberta de uma varanda. Voou para lá e viu-se numa chácara. Atravessou um bosque e um riacho e se embrenhou no cerrado. O sol se punha.

Acordou. Telefonou para seu primo policial e contou o sonho. No dia seguinte, foram procurar a chácara, e a encontraram. Já era o começo da noite. Bateram na porta do casarão e aguardaram. A porta foi aberta e no vão surgiu uma velhinha escura e encarquilhada.

- Que é que vocês querem? – perguntou.

- A senhora não se lembra de mim? – disse Edinaldo.

- Não!

Nesse momento, saíram três belas jovens.

- Este vestido não é de uma das suas filhas? – Edinaldo perguntou, estendendo o sujo e rasgado vestido com que acordara naquela manhã.

- Nunca vi esse vestido, moço. Afinal, quem são vocês? – a velhinha perguntou.

- Sou policial e estou investigando um crime que se passou aqui por perto – disse o investigador. – Desculpe-nos o incômodo. - Olhou para Edinaldo e balançou a cabeça negativamente, desgostoso, e se virou para ir embora. Edinaldo o seguiu. No caminho de volta ao carro, olhou para trás. A velhinha já havia fechado a porta. Ouviu, então, um longo coaxo.


Valparaíso de Goiás, 2004

domingo, 6 de março de 2011

O Cerrado explode na paleta de André Cerino


Brasília, 5 de março de 2011 - O artista plástico André Cerino (http://www.cerino.com.br/) eterniza o Cerrado em exposição na galeria da LBV (Legião da Boa Vontade), na 916 Sul, até 28 de março, com 76 acrílicos sobre tela, com o tema Cores do Cerrado. Você pode ver a exposição também pelo blog: andrecerino.blogspot.com

O Cerrado explode em cores nos 76 acrílicos sobre tela que o artista plástico André Cerino expõe na galeria da LBV (Legião da Boa Vontade), na 916 Sul, até 28 de março, sob o tema Cores do Cerrado. Cerino surpreende novamente os apreciadores da sua arte. Depois de mostrar labirintos urbanos, em 2009, ele, agora, vivifica a floresta goiana. Maduro, André Cerino trabalha há 25 anos como artista plástico. Um dos mais produtivos artistas brasilienses, além de pintor, é também escultor, cartunista, chargista, ilustrador, artista gráfico e web designer. Nascido no Recife, a fovista capital de Pernambuco, em 10 de setembro de 1964, em 1983, aos 19 anos, mudou-se para Brasília.

Nos últimos 25 anos, além de se dedicar à pintura, tem ainda ilustrado livros, jornais e revistas. É autor, por exemplo, das capas de três livros de Ray Cunha: O Lugar Errado (Editora Cejup, Belém, 1996, romance), Trópico Úmido (edição do autor, Brasília, 2000, contos) e O Casulo Exposto (LGE Editora, Brasília, 2008, contos), este à venda nas lojas e sites das redes de livrarias Saraiva, Cultura e Leitura. Em Brasília, O Casulo Exposto é encontrado nas lojas da livraria Leitura do Conjunto Nacional e do Pátio Brasil.

O artista já participou de várias exposições individuais e coletivas, e de salões de arte e de humor no Brasil e no exterior. Nos anos de 1980, foi destaque nas 90 horas de pintura contemporânea, a maior maratona de artes plásticas realizada no país. Entre os prêmios que já ganhou como cartunista, destacam-se: Menção Honrosa no III Salão de Humor de Minas Gerais, segundo lugar no IV Salão de Humor de Minas Gerais, Menção Honrosa no II Salão de Humor sobre a Fiscalização dos Gastos Públicos (Unacon), terceiro e primeiro lugarares do júri popular no III Salão de Humor sobre a Fiscalização dos Gastos Públicos e primeiro lugar no V Salão de Humor sobre a Fiscalização dos Gastos Públicos.

Cerino também tem trabalhos publicados no Catalogue from III International Satirical Contest - Karpik 2005/Niemodlin-Polônia. Como artista plástico, entre vários prêmios e menções honrosas que ganhou, destaca-se o primeiro lugar no III Salão Nacional de Artes Plásticas do Iate Clube, Brasília-DF. Também é premiado em concursos de logomarcas e campanhas publicitárias.

CERINO POR ELE MESMO - "Quando estou diante de uma tela em branco fico imaginando que ela é a cortina de um teatro e que será aberta a qualquer momento, e eu, como artista e espectador, espero ser surpreendido pelo que vou ver. Minha ansiedade é tanta que fecho os olhos para imaginar o que virá por trás daquela lona. Como espectador, fico torcendo para que seja uma coisa maravilhosa e que possa transformar o meu estado de humor e trazer algo de bom para a minha vida. Como artista, procuro desorganizar o pensamento e improvisar os movimentos, que fogem ao meu controle. Não sei exatamente o que vou fazer, simplesmente busco o novo, intuitivo. Isso porque, quando há um planejamento, perde-se a surpresa. E necessito da surpresa para produzir a minha arte. A cortina se abre; começa, então, o diálogo. Muitas vezes, o espectador se encontra diante da obra com um olhar intrigante, questionando e tentando encontrar comparações com as imagens do mundo real. À medida que olha para o quadro mais de uma vez não existe mais aquela surpresa, mas a cumplicidade, pois as imagens captadas pelos olhos começam a fazer parte do universo da pessoa. Da mesma forma, quando outro espectador olhar o trabalho pela primeira vez também será surpreendido" - expressa o pintor.

E arremata: "Tento causar esse estranhamento com a minha arte, mantendo um constante diálogo com o público. Não conduzo a arte, deixo que ela me conduza. Nesse processo, eu me considero tão espectador quanto criador. O que não é mais novo para mim será novo para quem nunca viu aquela obra. Fiquei surpreso com Guernica, de Pablo Picasso, mesmo sabendo que milhões de pessoas já a tinham visto. A guerra é uma horrível criação humana, mas o que vi naquela obra não era guerra: Picasso pintou a dor. Mesmo o que conhecemos pode ser novo, dependendo da nossa imaginação. O olhar sobre as coisas é o que nos diferencia uns dos outros. Criar é a mais sublime das capacidades humanas. Quando criamos, damos a nós mesmos a medida da nossa existência. Diante de uma criação, o homem não vê o criador, mas a si mesmo. Todo homem é capaz de criar e dar à sua criação a importância que merece, desde que canalize suas idéias para um bem comum e que deixe de lado seus preconceitos sobre as coisas que existem. Minhas obras não me pertencem. Pertencem a todos os que buscam, através do olhar, a liberdade de ver o mundo com olhos de criança".

ARTEFIX - André Cerino inaugurou em dezembro passado sua própria galeria, Artefix (http://www.artefix.com.br/), no Centro Empresarial Barão do Rio Branco, Setor de Indústrias Gráficas (SIG), Quadra I, Lote 495, Sala 309, telefones 3344-0330 e 8437-8315. A galeria, que mede 120 metros quadrados e conta com dois banheiros e copa, funciona das 9 té as 18 horas. Quando houver eventos, eles começarão às 19 horas, até em torno de meia-noite.

O espaço foi inaugurado com exposição de Cerino, de suas duas últimas fases, em acrílico, Cidades e Cores do Cerrado. Cerino deverá expor, este ano, uma série de caricaturas em terracota, além de dar início à edição de histórias em quadrinhos com roteiros de escritores brasilienses, começando com dois contos do livro O casulo exposto (LGE Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 28), de Ray Cunha: Pode dar o cano quem quiser porque não vou mais correr atrás de ninguém e Confraria dos Mensalistas.

OLIVAR CUNHA - A galeria Artefix pretende expor este ano trabalhos de Olivar Cunha, um mestre da Amazônia. Nas suas telas, em acrílico, a Hileia explode em cores fovistas e expressionistas, como de um Van Gogh do Trópico Úmido. (olivarcunhaarte.blogspot.com)

terça-feira, 1 de março de 2011

O deputado

O deputado parecia uma égua prenha de tão barrigudo. Acabara de comer de uma marmita de um quilo a mesma comida gordurosa que seu chefe de gabinete, e soltava pequenos arrotos em sequência.

- É pegar ou largar – disse para seu assessor de imprensa.

O caso era o seguinte: o deputado fora eleito líder da Minoria e colocaria seu assessor de imprensa lá, desde que ele concordasse em lhe repassar um terço do seu salário.

- Eu lhe dou a resposta, amanhã, deputado – disse o assessor de imprensa.

O deputado pensou um pouco.

- Está bem – disse. – Amanhã!

A esposa do deputado, que estava presente, disfarçava lixando as unhas, mas estava atenta ao diálogo. Era uma desses mulheres fúteis, que passava a vida participando de festas com o único objetivo de aparecer nas colunas mundanas.

“Liderança da Minoria, meu Deus, onde fui parar” – pensava o jornalista, ao deixar o gabinete do deputado. “E ainda ter que continuar a dar o suor do meu rosto a esse depravado...” Ele sabia o que é que o deputado fazia, de vez em quando. Enquanto uma assessora dirigia seu carro, ele comia a outra no banco traseiro. Depois, a que acabara de ser comida ia ao volante enquanto a outra era papada. O deputado parecia um porco reprodutor. A mulher dele devia saber de tudo, mas não se importava. Certamente tinha seu pé-de-pano. “Bom, de qualquer forma tenho que dar uma resposta a esse filho de uma égua.”

No dia seguinte, o assessor de imprensa se apresentou ao novo líder da Minoria, para dar a resposta.

- Consegui um salário de R$ 10 mil, mas tu vais repassar R$ 5 mil para o Machado (o chefe de gabinete) e vais ter que atender ao gabinete e à liderança. Outra coisa: para de replicar matéria falando mal do Presidente. Vamos publicar no site somente matérias positivas, mostrando o crescimento do país. Que mania, só ver o lado ruim das coisas! Quero que tu cries um blog para mim e também quero ter um Twitter – disse o deputado, igual uma metralhadora.

O soco pegou-o na boca e ele caiu igual Silvio Berlusconi quando tomou aquela porrada... Levantou-se grogue. O chefe de gabinete, que também estava na sala, ficou amarelo.

- Filho duma égua, eis teu Twitter, ladrão do caralho. Acho que vou fazer teu parto, mensaleiro buchudo. Mete esse ultraje, que é a liderança da minoria, na flor do teu jardim de trás – disse, colérico, mas controlado, o assessor de imprensa.

- Você não pode fazer isso – balbuciou o chefe de gabinete e levou um tabefe na cara.

Estavam somente os três homens no gabinete e um gabinete ao lado passava por reforma, de modo que o barulho na sala era abafado pela barulheira ao lado.

- E mais, patife, tu vais me pagar R$ 24 mil, agora, referentes aos R$ 1 mil que repasso todo mês, há dois anos. Agora! Anda, assinas o cheque! Tenho todos os recibos bancários dos depósitos na conta desta anta corrupta, aqui – disse, apontando para o chefe de gabinete. - Vamos! Vamos! Não há sobre o que pensar. Se não, vou rebentar com vocês. Tenho alguém no jornal O Estado de S.Paulo que publicará minha história com prazer, pois tenho documentos também daqueles favores que tu fizeste para o Sarney Filho. Anda! Anda!...

“Ai, que alívio deixar esse esgoto” – disse o assessor de imprensa, de si para si. Do zebrinha ele via a Esplanada dos Ministérios, “capital da corrupção”. Com os R$ 24 mil iria respirar um pouco em Salinópolis.

Brasília, 14 de dezembro de 2009