quarta-feira, 16 de março de 2011

O resultado do exame de câncer

Naquele verão alguma coisa ia acontecer, pois as roseiras, as zínias e os jasmineiros compuseram um odoroso arco-íris no jardim da mansão, escorrendo como um rio de cores, e nas tórridas noites daquele julho amazônico os jasmineiros espalhavam seu perfume embriagador por toda a propriedade. Além do jardim e da casa, um rio movia-se no silêncio morno dos dias. Beija-flores, borboletas, libélulas, abelhas, besouros, a brisa, vivificavam o pequeno planeta que cochilava à sombra das árvores e da tarde. Uma jovem dormitava na cadeira de cipó-titica, atada a uma perna-manca da varanda que se debruçava para o rio. Sua pele lembrava cristal e via-se-lhe as veias, azuis, no dorso das mãos, nos braços e nas pernas. De algum ponto da casa fluía, quase em sussurros, o segundo movimento do Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart.

A jovem, que se chamava Zina, recostara sua cabeça, calva, sobre pequena almofada. Completara, às 7 horas daquele dia, 21 anos. Vivera sempre cercada no mais esplendoroso luxo, mas não sabia sequer rir. Sua mãe morreu ao lhe dar à luz, e tinha três anos quando o avião em que seu pai viajava explodiu. Apesar do amor dos avós, sonhara todos aqueles anos com sua mãe abraçando-a e beijando-a, e guardava, no relicário do seu coração, o calor do abraço do seu pai ao se despedir naquele dia fatal. Agora, que ia morrer, pedira, com toda a fé, à Fada Azul, para sentir o abraço da sua mãe e do seu pai. O câncer que a consumia se espalhava pelo seu corpo, enraizando-se, nutrindo-se, exaurindo-a. Sentia sua natureza de parasita crescendo, lançando tentáculos, calcando ventosas, sugando seu sangue.

O que a movia, o que a vivificava, era uma joia que guardava num lugar que nenhum câncer poderia contaminar – depositara a joia no éter. Seu pai lhe ensinara que o éter, que tudo preenche, é Deus. À noite, antes de dormir, seu pai lia, sempre, um conto, e, à medida que ia lendo, lhe mostrava as ilustrações. Foi assim que conheceu a Fada Azul, que tudo podia, pois era feita de amor, do amor mais azul – como o anoitecer, como o mar profundo e sereno. Relera aqueles livros toda a vida; eram eles que alimentavam sua alma, davam-lhe forças para esperar. A Fada Azul, pois, se tornou sua companhia mais constante.

Ouvia a voz do pai, rica em tonalidades, como uma melodia que fizesse parte do seu próprio ouvido; quando estava para adormecer, sentia o beijo do pai e seu perfume, e sua mão acariciando-a levemente. Foram três anos mágicos. Agora, completara 21 anos, às 7 horas da manhã. Às 13 horas, tudo já estava pronto, o testamento, tudo.

Legara ao Lar do Pequeno Príncipe, que ela mesma criou, uma fortuna. O Lar do Pequeno Príncipe era uma fundação para crianças órfãs, cancerosas, cegas, mudas, surdas, paraplégicas, tetraplégicas, aidéticas, esquizofrênicas, catatônicas, crianças que ninguém queria, que despertavam nojo e eram atiradas à sarjeta do desprezo. “Deus arrumará a manhã para as crianças, e haverá de enchê-la de rosas e borboletas, e a manhã durará a eternidade da primavera” – pensou, ao inaugurar o Lar do Pequeno Príncipe, que já contava, então, com 49 crianças; a maioria delas necessitava de pouco tempo na Terra para ascender cada vez mais na escala infinita do mundo espiritual, por isso eram as mais incompletas fisicamente.

- Fada Azul, sei que vou morrer, mas quero ver minha mãe e quero que ela me abrace, e quero sentir também meu pai me abraçando, é só o que peço, Fada Azul – a jovem murmurou.

- Ninguém morre – disse a Fada Azul. – Seus pais a aguardam no jardim.

Zina sorriu pela primeira vez, desde o último abraço do seu pai, e saiu correndo para a fonte. Tinha, de novo, três anos, o vestido branco esvoaçando, as tranças voando, o riso. Papai e mamãe estavam mesmo no jardim, esperando-a de braços abertos. Sentiu os braços vivificantes da mãe e os braços fortes do pai, e ouviu o próprio riso, como o Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart.

Acordou. O concerto estava no terceiro movimento.

No dia seguinte, o chefe da equipe médica, oncologista de renome mundial, passou a manhã, a tarde e entrou pela noite de queixo caído. A bateria de exames só apresentou um resultado: negativo.


Brasília, 10 de outubro de 2007

Nenhum comentário:

Postar um comentário