domingo, 22 de maio de 2011

O febeapá da era da mediocridade

O espantoso nesse imbróglio envolvendo o Ministério da Educação, que está distribuindo o livro Por uma vida feliz, com erros propositais de gramática, é que o MEC teima no erro, o que é burrice. A edição 2.167, de 20 de maio, da revista semanal IstoÉ, traz matéria elucidativa sobre livro. Em tempo, febeapá significa: festival de besteiras que assola o país, expressão criada pelo cronista carioca Sérgio Porto, ou, como era conhecido, Stanislaw Ponte Preta.

RAY CUNHA

Brasília, 22 de maio de 2011 – Logo depois que começaram a pipocar as críticas ao livro Por uma vida melhor, da professora Heloísa Campos, no qual ela defende que se deve educar nossas crianças e adolescentes barbarizando a gramática normativa, publiquei matéria neste site intitulada “MEC faz apologia da burrice”. Fui acusado de preconceito, e, pasmem, por jornalistas e pessoas que me enviaram até títulos acadêmicos. Mais adiante voltaremos a essa questão específica.
Pois bem, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Qualquer pessoa com curso superior feito numa universidade federal sabe que há uma linguagem falada e uma linguagem escrita. Conforme a linguística, que estuda o homem o ponto de vista da comunicação, se alguém disser “nós vai lá na doviária e compra 5 real de pão de quejim” e o outro entender o recado, tudo bem, fez-se a comunicação. Mas a linguagem escrita é outra coisa. Trata-se da mais complexa invenção humana, uma série de códigos, amadurecidos durante milhares de anos, capaz de transmitir uma ideia, ou todo um sistema, para bilhões pessoas. Transgredir esse sistema é voltar à pré-história.
Sabemos que todos os países desenvolvidos, todos mesmo, investem maciçamente, de forma nunca desestimulada e nunca descontinuada, em educação, em leitura, no aprendizado cada vez mais sofisticado do maior número de palavras possíveis e de várias línguas, ou culturas. Isso leva para o campo prático todo o saber humano, tanto filosófico quanto tecnológico. No caso do Brasil, a politicalha está se lixando para a Educação, preocupada em roubar. Simples assim.
Voltando ao livro em questão, Por uma vida melhor, há um claro contexto que o cerca. Desde quando Lula chegou ao poder, em 2003, foi instalada no Brasil o que o jornalista Augusto Nunes chama de “era da mediocridade”. Lula, que não é burro, mas é esperto e medíocre, nivela tudo por baixo, porque é o que ele conhece. E não se enganem, Lula continua no poder, manipulando sua títere. E por trás de Lula há aquele discurso bandido dos comunistas: Deus não existe, ou melhor, Deus é o politburo, e o politburo sabe o que é melhor para todo mundo, de modo que a vida de todos passa a ter regras comuns e todos serão monitorados. A massa terá que aprender a balir. Todo mundo, menos o politburo, vai virar ovelha. Isso ocorreu na União Soviética e ocorre agora em Cuba, Venezuela, Coreia do Norte, China, e em todas as ditaduras carniceiras da Ásia e da África, todas elas cortejadas por Lula.
Uma coisa, entretanto, fica clara nesse mar de burrice perversa: nossas instituições democráticas ficam cada vez mais fortes, pois suportam, dentro das convenções democráticas, um governo que se alicerça na conversa demagógica dos comunistas.

O assassinato da língua portuguesa

AMAURI SEGALLA
E BRUNA CAVALCANTI
Para a IstoÉ

Imagine a seguinte cena: na sala de aula, o adolescente levanta o braço para perguntar à professora se ele pode falar “nós pega o peixe”. Ato contínuo, a mestre pede ao jovem para consultar o livro Por uma Vida Melhor e dar uma olhada na página 16. Sedento por conhecimento, o aluno acompanha com olhos curiosos enquanto a docente lê o trecho proposto. O garoto, enfim, sacia a dúvida: sim, ele pode falar “nós pega o peixe”. Está escrito ali, claro como a soma de dois mais dois em uma cartilha de matemática. Com nuances diferentes, a situação descrita acima provavelmente vai se repetir em milhares de escolas públicas de todo o país. Não é difícil calcular os efeitos nefastos no futuro dos 485 mil estudantes do ensino fundamental que devem receber a obra distribuída pelo Ministério da Educação por meio do Programa Nacional do Livro Didático. De autoria da professora Heloísa Campos e outros dois educadores, Por uma Vida Melhor defende a ideia de que erros gramaticais são aceitáveis na língua falada. Para Heloísa, frases como “os livro ilustrado mais interessante estão emprestado” (tal pérola aparece em destaque no material) não podem ser condenadas se forem expressas verbalmente. Mesmo que em uma sala de aula.
Autora desconhecida, sem grandes feitos na área da educação, Heloísa se viu no centro de uma polêmica que envolveu escritores, linguistas e professores. Por mais que alguma voz aqui e ali tenha defendido os argumentos de Heloísa, além dos eternos demagogos de plantão, a maioria esmagadora condenou seus métodos de ensino. Uma das mais importantes escritoras brasileiras, Nélida Piñon, tem autoridade – como poucos, a propósito – para falar sobre a língua portuguesa. Eis seu veredicto: “O livro confirma a tese de que esteve sempre em curso no Brasil o projeto de manter uma legião de brasileiros como cidadãos de segunda classe”, diz a autora de Vozes no Deserto. Escritor que conseguiu a rara combinação de fazer sucesso junto ao público e, ao mesmo tempo, conquistar a crítica, Fernando Morais está indignado. “Esse livro é uma barbaridade”, diz o biógrafo do jornalista Assis Chateaubriand. “Trata-se de um desastre, o oposto do que é pregado por uma pessoa minimamente civilizada.” Linguista com décadas de serviços prestados à educação brasileira e ex-professor da Unifesp, Francisco da Silva Borba amplia a discussão. “O aluno tem que ser ensinado”, afirma. “Se ele tolerar infração às regras, então para que serve a escola?”
Sob diversos aspectos, Por uma Vida Melhor tem potencial para piorar a existência de meio milhão de brasileiros. Se realmente for levado a sério pelas escolas públicas, a obra vai condenar esses jovens a uma escuridão cultural sem precedente. Ao dificultar o aprendizado da norma correta, os professores da ignorância terão criado uma espécie de “apartheid linguístico”, para usar uma expressão do ex-ministro da Educação Cristovam Buarque. De um lado, os ricos e bem instruídos. De outro, os jovens reféns da falta de conhecimento gramatical. Se é evidente que o livro assassina a língua portuguesa, na medida em que diz que o aluno pode, na fala, escolher usar a concordância ou não, por que diabos ele teve o aval do MEC? Procurado, Fernando Haddad, o atual ministro da pasta, não quis se pronunciar. A autora Heloísa Campos pelo menos não se furtou ao dever de defender sua obra. “Falar “os livro” do ponto de vista da linguagem popular não é um erro”, diz a professora. “A nossa abordagem é de acolher a fala que o aluno traz da sua comunidade. A cultura dele é tão válida quanto qualquer outra.”
Embora não faça referências diretas, Heloísa repete as máximas do livro Preconceito Linguístico, do professor e escritor Marcos Bagno, que faz certo sucesso entre educadores modernos por colocar questões políticas e ideológicas na discussão. Bagno afirma que a linguagem reproduz desigualdades sociais – como se isso fosse uma descoberta assombrosa. É claro que sim. A questão não é essa. Em vez de manter o jovem que não domina a língua imerso na triste ignorância – a pretexto de preservar suas raízes culturais –, por que não retirá-lo de lá? Falar corretamente não é o primeiro passo para, no avanço seguinte, escrever melhor? Escrever melhor não representa uma oportunidade de crescimento pessoal e profissional? Tente conseguir um emprego falando “nós vai” e você certamente terá suas chances reduzidas a zero. É simples assim.
Pode ser bonito, pode ser simpático, pode ser ousado defender o direito de as pessoas cometerem barbaridades gramaticais, mas na vida prática isso é uma tragédia. É claro que todos nós cometemos erros ao falar – intencionais ou não –, como é óbvio que, em certos ambientes, se expressar como um decano da linguística pode soar arrogante e desnecessário. Mas, na vida real, falar minimamente direito só traz vantagens e são justamente essas vantagens que autores como Heloísa Campos desprezam. “Uma coisa é compreender a evolução da língua, que é um organismo vivo, a outra é validar erros grosseiros”, diz Marcos Vilaça, presidente da Academia Brasileira de Letras. “É como ensinar tabuada errada. Quatro vezes três é sempre 12, na periferia ou no palácio.” Mesmo para aqueles que, em tese, defendem a abordagem de Heloísa, o livro é visto como uma obra menor. “Não há nenhuma novidade no que o livro diz”, afirma o professor de português Pasquale Cipro Neto. “Ele tem uma ou outra passagem meio ingênua, pueril, mas no todo cumpre o seu papel.”
Para um país que nos últimos anos vem registrando índices de crescimento assombrosos e tem a ambição de reduzir o abismo da desigualdade social, a educação é talvez a arma mais poderosa que existe. Nesse campo, conforme estudos internacionais demonstram, o Brasil está encalhado na rabeira global. Aqui pouco se lê, pouco se estuda, pouco valor se dá ao conhecimento. Não é hora de mudar? A língua, como já observaram pesquisadores importantes, é um elemento que traduz a identidade nacional. É um instrumento de unificação – e não de segregação entre os que sabem e os que não merecem saber. Ela é, acima de tudo, um princípio de cidadania. Diante da onda de protestos provocada pela notícia da distribuição de “Por uma Vida Melhor”, é possível que o livro encontre alguma resistência entre os professores. Na semana passada, a procuradora da República Janice Ascari, do Ministério Público Federal, afirmou que a Justiça provavelmente receberá uma avalanche de ações contra a publicação. Ela própria foi incisiva em seu blog. “Vocês estão desperdiçando dinheiro público com material que emburrece em vez de instruir”, escreveu Janice. “Essa conduta é inadmissível.” Se as ações vingarem, os jovens terão a chance de dizer, alto e bom som: “Nós pegamos o peixe.”
As trapalhadas de Haddad
A polêmica sobre os livros didáticos distribuídos pelo MEC não foi a única a atormentar o ministro Fernando Haddad nos últimos tempos. O episódio da fraude no Enem em 2009, quando foram roubadas provas dentro da gráfica responsável pela confecção dos testes, foi mais uma de suas trapalhadas. No ano seguinte, constatou-se erro na impressão das provas – e de novo a responsabilidade recaiu sobre o Ministério da Educação. À época, os exames correram sério risco de serem cancelados, o que acabou não acontecendo. Os equívocos não param por aí. Neste ano, surgiu a denúncia de fraudes no Prouni, com estudantes beneficiados pelo programa, mas que não se enquadravam nos limites de renda. Ao mesmo tempo, veio à tona o episódio da sobra de vagas, principalmente no caso de bolsas parciais e no programa de educação a distância, o que demonstraria uma falha administrativa. Para aumentar o desgaste de Haddad, entidades internacionais de fomento não cansam de advertir que o grande gargalo ao desenvolvimento do Brasil continua a ser o baixo nível da educação.

Nenhum comentário:

Postar um comentário