quarta-feira, 29 de junho de 2011

Eu, velho

Quando eu tinha 21 anos, morei em Manaus, cidade sensualíssima. Não era nenhum Brad Pitt, mas tinha meu charme. Já publicara um livro de poemas, Xarda Misturada, juntamente com Joy Edson e José Montoril, em Macapá, minha cidade natal; assinava uma coluna semanal, No Mundo da Arte, no jornal A Notícia; assinava matérias na condição de repórter; e frequentava o Clube da Madrugada, a nata dos escritores de Manaus. Fisicamente, eu tinha 1,64 metro (creio que isso tenha caído, hoje, para 1,63 metro, 1,62 metro), pesava em torno de 60 quilos e, como rachei lenha quando criança e aqui e ali jogava um pouquinho de boxe, fui musculoso até bem pouco. Também a testa larga e o olhar atento me davam um ar de intelectual. Esse perfil se completava com minha alegria e entusiasmo pela vida.

Assim, até mulher casada se ajoelhou aos meus pés, e tive mulheres lindas. Não estou me gabando, mas apenas constatando a força da juventude física, se, mesmo jovem, já vislumbramos a chave com a qual, um dia, abriremos a porta da Luz e deixaremos a luminosidade jorrar na nossa vida.

Leio desde os 5 anos de idade, quando os gibis e a biblioteca do meu irmão mais velho, Paulo Cunha, me seduziram para sempre. Aos 14 anos, já lera Hemingway, Fitzgerald, Graciliano Ramos, Dostoiévsk, Jorge Luís Borges, livros de história e de geografia, e frequentava a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho. Lia também enciclopédias, dicionários, bulas de remédio, e tudo o que me caísse às mãos. Passei parte do meu tempo na Biblioteca Pública de Macapá e outra parte mergulhando nos livros, na madrugada.

Mas as mulheres, eu as tinha como se mastiga feijão com arroz com um pedaço de carne, prato com que tenho tanta familiaridade que o devorava mecanicamente. Hoje, depois que comecei a descer o morro da vida, prestes a completar 57 anos, em 7 de agosto, degusto os beijos da mulher amada com a sensação de um terremoto de rosas, e cheguei à sofisticação de capturar a dança delirante de mulheres caminhando em vestido justo, de seda. Também hoje sei que não há mulheres feias. Quando uma mulher sem encantos físicos brande o gume da inteligência, sua feminilidade explode em estrelas. E se é uma mulher fisicamente sem atrativos, sem presença de espírito e sem brilho intelectual, é só fazê-la sorrir, e seu sorriso terá o efeito do sol da primavera, e ela se sentirá, e será, a mulher mais bonita do mundo.

Já maduro, ao reler alguns livros da minha juventude, fiquei atônito. Descobri, neles, cheiros insuspeitos, ruas ainda não percorridas, personagens que, agora, puseram-se a contar coisas para mim. Também os livros li da mesma forma que comia, bebia e amava, como um leão, que eu era, e que tudo podia rasgar com minhas garras.

Há muitas pessoas que continuam jovens para sempre. Engolem  sempre com a mesma avidez e amam com a fugacidade de uma ejaculação precoce, mecanicamente, bastando-lhes a mão e a ilusão da fantasia. Desconhecem que tempo não existe, que só há o agora e o agora, o momento mesmo da vida, que a dimensão física é ilusão, é apenas vibração atômica, pois somos espíritos, existimos desde antes do princípio e existiremos até depois do fim. 

Na verdade, não envelhecemos, pois o desgaste é físico, e somos de uma dimensão diversa do mundo físico, somos espírito. As pessoas muito apegadas aos sentidos e aos bens materiais povoam a Terra como mortas-vivas, suas mãos são frias e seu corpo macilento, disfarçam-se para parecerem mais jovens, agem como adolescentes, são egoístas e mesquinhas, no âmbito da sua limitação. Há pessoas com 90, 100 anos, que se sentem como sempre foram, sem idade. São aquelas que, de uma forma ou de outra, sentiram que a vida é uma eterna caminhada rumo ao Éter, à Luz, a Deus.

Como velho, já quase não sou mais arrogante, procuro ser gentil e atencioso com todos, e cuido para que a mulher amada se sinta como a mais bela flor de um jardim esplendoroso. Já não faço questão de receber presentes, mas de distribuir caixas de alegria a quem eu alcançar. Não ambiciono nada além de uma rosa bem vermelha e do riso de uma criança, que é música executada pelo próprio Criador. 

Também peço que o Universo me perdoe pelas ofensas que eu cometi, porque sei, na minha esperança, que basta um raio de luz para extinguir a treva. E não há nada que eu queira mais do que ver o sorriso da mulher amada. Sinto a velhice como um mergulho infindável no abismo da poesia, uma caminhada permanente entre a primavera que se espraiava no telhado da casa da minha infância, as zínias, as rosas, o jasmineiro embriagando o ar nas noites tórridas, a mangueira e o cajueiro no quintal, a seringueira que interrompe o muro do Colégio Amapaense, e as paredes de tijolos deitados da Casa Amarela, sólida como um navio singrando a luz.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O homem-aranha é flagrado

- Ela só tem onze anos - disse a mulher loira. Os cabelos dela tinham o tom branco de quando se é muito loiro. Por entre as mechas amarelo-claras vislumbrava-se o negror dos cabelos no rés do casco da cabeça. Riu. Tinha um riso paradoxalmente louco e controlado. Seus traços revelavam a aspereza dos objetos expostos à intempérie. Salvo a esperteza que se observava no seu rosto, lembrava uma vaca. Uma vaca oxigenada, mastigando chiclete.

O homem se mexeu na cadeira. Era o começo da noite. Comerciários dirigiam-se quase correndo para as paradas de ônibus. Automóveis passavam zunindo na frente do bar. Nuvens escuras pairavam ameaçadoras.

- Quanto? - disse ele. Seus cabelos também eram pintados, de acaju, e bem aparados. Seus braços magros e longos e seus dedos excessivamente compridos lembravam uma aranha.

A vaca parou de ruminar e pareceu pensar um pouco.

- Você sabe, é minha irmã... não pode ser por menos de mil reais - ela disse. - E outra coisa: você tem que devolver minha irmã do jeito que eu vou entregar...

- Bem, do jeito que você vai me entregar não dá para devolvê-la, mas ela será bem tratada - disse o homem-aranha, rindo imperceptivelmente.

A vaca ficou vidrada quando viu o dinheiro, mesmo assim o homem-aranha sentiu que alguma coisa não se encaixava. Deveria dar só a metade? Mas não havia razão para isso; a vaca já lhe arranjara tanta ninfeta que confiava plenamente nela, embora, agora, se tratasse da sua própria irmã. Ora, aquela vaca era capaz de vender a própria filha antes da idade de corte, nove anos.

Fechado o negócio, levou a menina para sua chácara, em Taguatinga Sul, onde estaria sozinho e poderia fazer o que quisesse com ela. Já estava babando só de vê-la. A menina tinha onze anos, mas parecia ter quatorze.

Os policiais deram o flagrante na hora em que o homem-aranha ia enfiando o c... na boca da menina. Naquela noite, em vez de dar um banho de gato numa ninfeta, o homem-aranha ficou acordado por outro motivo, pois havia um colega de cela que não dispensava nem c... de velho, quando se tratava de estuprador de criança.

Taguatinga-DF, 7 de outubro de 2001


Este conto foi extraído do livro O casulo exposto (LGE Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 28), à venda, em Brasília, nas livrarias Leitura do Conjunto Nacional e Pátio Brasil. Também pode ser adquirido via sites das livrarias Saraiva, Cultura e Leitura, e LGE Editora (http://www.lojalge.com.br/).

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A questão da água e da Amazônia assemelha-se a uma frase, já famosa, do Ministério da Educação (MEC): “Nós pega o peixe”

Esteve sempre implícita uma velha pauta permanente aos 100 jornalistas da Amazônia Legal que debateram o tema “Amazônia, comunidade e tecnologia social: Iteração e sustentabilidade” no II Encontro de Jornalistas do Norte, realizado de 29 a 31 de maio pela Fundação Banco do Brasil: a água. Até porque a assembleia foi instalada em Porto Velho, situada na margem direita do rio Madeira, maior afluente também da margem direita do Amazonas, no qual deságua a leste de Manaus. Como se vê, trata-se, aqui, do Mundo das Águas, o subcontinente amazônico.

O especialista em recursos hídricos Flávio Carvalho, da Agência Nacional de Águas (ANA), fez uma exposição aos jornalistas, informando-os sobre alguns dados básicos. A água doce representa 2,5% da massa líquida do planeta; desses 2,5%, somente 0,3% são fluviais – quase toda a água doce encontra-se em geleiras e aquíferos. O Brasil detém 12% da água doce do mundo e 73% disso estão na Amazônia. A vazão do rio Amazonas, segundo Flávio Carvalho, é de 130 mil metros cúbicos por segundo.
Estrategistas do Pentágono, o coração da Defesa norte-americana, já perceberam que a água é cada vez mais preciosa. Sabemos que se trata de um ciclo fechado, a água não se esgota, apenas se torna cada vez mais caro dispor-se dela pronta para ser ingerida. Assim, o desmatamento, a desertificação, a poluição, levam, hoje, à morte pela sede e pela desidratação centenas de milhões de pessoas por ano, em várias partes do mundo, e esse contingente aumenta cada vez mais. No futuro, não está descartada guerra pela água.
No Brasil, os presidentes, e agora “presidenta”, que se revezam no Palácio do Planalto, mantêm-se rigorosamente de costas para a Amazônia, onde só vão buscar energia hidrelétrica e commodities, como minerais e madeira; da mesma forma, desprezam a água – vejam-se as matas ciliares em todo o país e as nascentes na capital da República. Em Brasília, nascentes são tratadas como esgoto.
Na Amazônia, metrópoles como Belém e Manaus despejam milhares de toneladas de dejetos in natura por dia no rio. Cidades como Macapá, situada quase na boca do rio Amazonas, além de não ter rede de esgoto ainda vende para a população água racionada e, às vezes, turva. Para agravar a situação, o amazônida, de modo geral, joga tudo no rio. Navegue pelos rios da Amazônia e observe o que o caboclo faz com o lixo.
Quem tem dinheiro, incluindo empresários estrangeiros, engarrafa água mineral e até exporta. A Constituição federal reza que a água é bem de todos os brasileiros. É mais uma falácia da Carta. Aliás, precisamos, com urgência, eleger uma Constituinte e redigir uma constituição realista, na qual se possa ler: “Nós pegamos o peixe”.
Aproveito para republicar matéria sobre o Mundo das Águas.

O maior rio do planeta

O rio Amazonas, que nasce no rio Apurimac, na parte ocidental da cordilheira dos Andes, no sul do Peru, na América do Sul, e deságua no oceano Atlântico, é o maior rio do mundo, 140 quilômetros mais longo do que o africano Nilo - que nasce no rio Kagera, próximo à fronteira entre o Burundi e Ruanda, na África, e deságua no mar Mediterrâneo -, tido como o mais comprido do planeta durante muito tempo. A comprovação foi feita por uma das mais sérias instituições científicas do Brasil, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que utilizou dados obtidos em expedição à nascente do Amazonas e imagens de satélite. Segundo o Atlas Geográfico Mundial, a extensão do Nilo é de 6.695 quilômetros e a do Amazonas, de 6.515 quilômetros. Os livros de geografia precisam ser reeditados. Agora, o rio Amazonas mede 6.992,06 quilômetros e o Nilo, 6.852,15 quilômetros.
A equipe que chegou a essa conclusão, divulgada em julho de 2008, foi chefiada pelo geólogo Paulo Roberto Martini, 60 anos, da Divisão de Sensoriamento Remoto do Inpe. Ele comentou que as medições anteriores foram feitas sem o uso de metodologias científicas: “Esse resultado mostra que, às vezes, as verdades mais bem estabelecidas têm de ser revistas porque podem simplesmente não ser verdade. Pelo menos desta vez não temos acho. Temos metodologia científica e, por essa leitura, por essa interpretação, você pode colocar nos livros que o Amazonas é maior do que o Nilo”.
Em junho de 2007, uma expedição, que incluía representantes do Inpe, do Instituto Geográfico Militar do Peru, da Agência Nacional de Águas (ANA) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já havia determinado a nascente do rio Amazonas. Desde o início dos anos 1990, cientistas do Inpe se debruçam sobre o gigante, por meio de sensoriamento remoto e geoprocessamento, tecnologias utilizadas no Programa Espacial Brasileiro. Foram usadas imagens dos satélites norte-americanos Landsat, distribuídas pela Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos. Os pesquisadores marcaram o traçado dos dois rios e com ajuda de um programa de computador calcularam a extensão deles da nascente à foz.
Em maio de 2008, o vice-presidente da Sociedade Geográfica de Lima, professor Zaniel Novoa, após 12 anos de investigação, confirmava a versão do explorador polonês Jacek Palkiewicz, que, em 1996, localizou a nascente do Amazonas e afirmou que o rio sul-americano era mesmo o maior do mundo. Até a segunda metade do século XX, os geógrafos apontavam o Nilo como o maior. Desde que o Amazonas foi batizado, em 1500, foram identificadas nascentes em vários pontos do Peru, contudo a nascente verdadeira se encontra a 5.179 metros de altitude, próximo do monte nevado Quehuisha, na região sul de Arequipa, no Peru.
O Amazonas foi chamado pelo navegador espanhol Vicente Yañez Pizón, em 1500, de Mar Doce; o também espanhol Francisco Orellana mudou-o para Amazonas, em 1542. O colosso marrom, que no estado do Amazonas recebe o nome de Solimões e nos estados do Pará e Amapá, de Amazonas, é a espinha dorsal da maior bacia hidrográfica do mundo, formada por 7 mil afluentes, abrangendo uma área, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), de 6,110 milhões de quilômetros quadrados, no norte da América do Sul, banhando Peru (17%), Equador (2,2%), Bolívia (11%), Brasil (63%), Colômbia (5,8%), Venezuela (0,7%) e Guiana (0,2%). Só a bacia do rio Negro, afluente da margem esquerda do Amazonas, contém mais água doce do que a Europa.
Da nascente até 1.900 quilômetros, o Amazonas desce 5.440 metros; desse ponto até o Atlântico, a queda é de apenas 60 metros. Suas águas correm a uma velocidade média de 2,5 quilômetros por hora, chegando a 8 quilômetros, em Óbidos, cidade paraense a mil quilômetros do mar e ponto da garganta mais estreita do Amazonas, com 1,8 quilômetro de largura e 50 metros de profundidade.
Fora do estuário, a parte mais larga situa-se próxima à boca do rio Xingu, à margem direita, no Pará, com 20 quilômetros de largura, mas nas grandes cheias chega a mais de 50 quilômetros de largo, quando as águas sobem ao nível de até 16 metros. O Amazonas é navegável por navios de alto-mar da embocadura à cidade de Iquitos, no Peru, ao longo de 3.700 quilômetros. Seu talvegue, nesse curso, é sempre superior a 20 metros, e chega a meio quilômetro de profundidade próximo à foz. A bacia amazônica conta com 25 mil quilômetros de rios navegáveis.
A vazão média do rio-mar é de pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo, o suficiente para encher 8,6 baías da Guanabara em um dia. No Atlântico, despeja, em média, 400 mil metros cúbicos de água por segundo; chega, portanto, a despejar 600 mil metros cúbicos de água por segundo no mar. Num único dia, o Amazonas deságua no Atlântico mais do que a vazão de um ano do rio Tamisa, na Inglaterra. O colosso contém mais água do que os rios Nilo, na África; Mississipi, nos Estados Unidos; e Yangtzé, na China, juntos.
O Amazonas despeja também no mar 3 milhões de toneladas de sedimento por dia, 1,095 bilhão de toneladas por ano. O resultado disso é que a costa do Amapá está crescendo. A boca do rio, se escancarando do arquipélago do Marajó, no Pará, até a costa do Amapá, mede 240 quilômetros, e sua água túrgida de húmus penetra 320 quilômetros no mar, atingindo o Caribe nas cheias e fertilizando o Atlântico com 20% da água doce do planeta. O húmus despejado pelo gigante no Atlântico torna a costa do Amapá uma explosão de vida marinha, o ponto mais rico da Amazônia Azul, no Brasil mais mal-guardado pela Marinha de Guerra e menos estudado pela academia.
“O que me intriga, não apenas no conteúdo da educação fundamental brasileira, mas também na base de informações científicas e acadêmicas no Brasil, é a pobreza de informações ambientais e biológicas sobre essa região, batizada de Mar Dulce pelo navegador espanhol Vicente Yañez Pinzón, em 1500, mesmo ano em que Cabral achava o Brasil” – comenta o oceanógrafo Frederico Brandini.
Ele lembra que, no Amapá, as autoridades estão pouco preocupadas com o estudo da Amazônia Atlântica, e as costas do Amapá e do Pará são um inacreditável banco de vidas marinhas, coalhado de piratas, que vão lá pegar, de arrastão, pescados, lagostas, camarão e outros frutos do mar. Tenho notícia de que pescadores paraenses já capturaram na altura da Vila de Sucuriju, no município de Amapá, um marlim azul de meia tonelada. Nem Ernest Hemingway conseguia espadarte desse porte no Gulf Strean.

domingo, 5 de junho de 2011

O realismo fantástico de Olivar Cunha

Caixa d'Água, acrílica sobre tela, de Olivar Cunha, 2011

O pintor brasileiro Olivar Cunha, nascido na Amazônia, em Macapá, acaba de concluir mais uma acrílica sobre tela, de 20 por 20, que deverá integrar exposição no fim deste ano, na Galeria Artefix, em Brasília. Da série Invisíveis Quintais, Caixa d’Água começou a ser pintada em junho de 2010 e foi concluída em maio deste ano, em Vitória (ES), onde o pintor mora, no balneário de Jacaraípe.

A tela mostra ouriços de castanha-do-pará, lembrando o que ocorreu no Projeto Jari, do empresário norte-americano Daniel Ludwig. Para a instalação do projeto foi desmatado o castanhal de Monte Dourado e junto com ele todas as madeiras nobres da região, como acapu, maçaranduba etc. Atualmente, na região de Cumaru, é feito o processo do replantio.

A pesquisa para diminuir o tempo de amadurecimento das castanheiras já é um sucesso. Normalmente, uma castanheira leva 10 anos para dar frutos; com a nova técnica, esse tempo é reduzido para 8 ou até 6 anos. A árvore, uma das mais belas do mundo, chega a 70 metros de altura, e produz em cada safra aproximadamente 900 ouriços com 17 a 25 castanhas.

Também a tela apresenta um desenho indígena, que é o resgate da cultura material e iconográfica amazônica, que Olivar Cunha vem fazendo. Ainda, a tela mostra a Caixa d’Água da Caesa (empresa de água e esgoto do estado do Amapá), no bairro Marco Zero, local de Macapá dividido pela Linha Imaginária do Equador. A Caixa d’Água foi pintada com um motivo do marabaxo, música e dança do folclore afro-amapaense.

A série Invisíveis Quintais é resultado de pesquisa de Olivar Cunha sobre o Amapá, abarcando costumes, nações indígenas, folclore, fauna e flora. O atual trabalho do pintor amazônida tem raízes no realismo fantástico, tão bem recriado por Gabriel García Márquez.

E não poderia deixar de sê-lo, pois que a Amazônia é o objeto central da expressão criada pelos europeus ao se depararem com o trópico, principalmente com o trópico úmido. Nesse contexto, o Amapá é especial, pois se localiza entre a Amazônia e o oceano Atlântico; as montanhas do Tumucumaque e o maior rio do planeta, o Amazonas; entre o Pará, estado-síntese da Amazônia, e um corredor da Europa, a Guiana Francesa.

O blog de Olivar Cunha é: olivarcunhaarte.blogspot.com

sábado, 4 de junho de 2011

Free-lance

Estarei ausente do blog e da coluna Café Expresso (do site Brasil CPLP), até segunda-feira 13, pois estou fazendo um free-lance, full-time. Aproveito a oportunidade para agradecer ao embaixador português João Salgueiro convite para participar de recepção na embaixada, dia 10, em comemoração ao Dia de Portugal. Muito obrigado!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A Amazônia é sustentável?

Durante dois dias, cerca de 100 jornalistas da Amazônia se reuniram em Porto Velho, para discutir a sustentabilidade das comunidades pobres do Trópico Úmido, as mais desprezadas pelos políticos e mais vilipendiadas pelo statu quo

A Fundação Banco do Brasil realizou o II Encontro de Jornalistas do Norte, nos dias 30 e 31 de maio, em Porto Velho, Rondônia, pondo em debate o tema central: Amazônia, comunicação e tecnologia social – Interação e sustentabilidade. Nada mais emblemático, para o tema do encontro, do que Porto Velho, que surgiu em 1907, da construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré, um empreendimento falido e que mostrou de forma dramática a Amazônia real. Porto Velho foi elevada à categoria de cidade, ainda pertencente ao estado do Amazonas, em 1914. Em 1943, o atual estado de Rondônia foi desmembrado do Amazonas e de Mato Grosso, como Território Federal do Guaporé, passando para Território Federal de Rondônia em 1956 e se tornando estado em 1982. O nome Rondônia foi dado pelo então deputado Áureo Mello. Hoje, o poeta, ficcionista e ex-senador Áureo Mello mora em Brasília.
Em menos de 100 anos, Porto Velho já tem 426.558 habitantes, segundo o censo de 2010 do IBGE, só conta com 3% de rede de esgoto e metade da população não sabe o que é água tratada. A cidade não é arborizada. As árvores existentes são dos quintais das casas e nos passeios públicos de algumas poucas ruas. Da margem direita do rio Madeira, onde está localizada a leste do rio, dá para ver as obras da hidrelétrica de Santo Antônio, e a 150 quilômetros da cidade, mas no município de Porto Velho, é erguida também outra hidrelétrica, a de Jirau. Esses dois empreendimentos, federais, que gerarão energia elétrica principalmente para o Sudeste, já começaram a inchar Porto Velho, e a causar inflação.
Como se viu, Porto Velho é, desde o início, uma cidade de fronteira, onde é comum se ver levas de forasteiros, que fazem parte da paisagem da cidade, de modo que são vistos com familiaridade. Agora, nas suas ruas e boates misturam-se técnicos de nível superior e de nível médio, operários, aventureiros, golpistas, malandros, bandidos e, claro, políticos, juntamente com todo o comércio que gira em torno desses aglomerados.
Do tema Amazônia, comunicação e tecnologia social: Interação e sustentabilidade, tiremos a palavra “sustentabilidade”. Acredito que haja, no Brasil, quatro grandes conhecedores da Amazônia: o jornalista e ensaísta paraense Lúcio Flávio Pinto, que já escreveu uma verdadeira enciclopédia da Amazônia, por meio da sua Agenda Amazônica e do Jornal Pessoal; o ensaísta e romancista amazonense Márcio Souza, autor de Breve História da Amazônia; o gaúcho Gelio Fregapani, mentor da doutrina brasileira de guerra na selva, autor de Amazônia – A grande cobiça internacional; e a antropóloga paranaense, dra. Mary Allegretti.
Desse quarteto, foram convidados Lúcio Flávio Pinto e Mary Allegretti. Lúcio não pôde ir porque estava se defendendo, como sempre, dos processos com que a família Maiorana, repetidora da TV Globo e “dona” do Pará, o mantém refém; inclusive, Ronaldo Maiorana pegou Lúcio à traição, junto com dois guarda-roupas da Polícia Militar, em serviço e a serviço de Ronaldo Maiorana, e rebentou a pancadas o jornalista, isso em um restaurante frequentado pela elite belenense e, na época, Ronaldo Maiorana era presidente da Comissão de Ética da Ordem dos Advogados do Pará. Lúcio não pôde ir, mas Mary Allegretti pôde.
Ela explicou que o conceito de sustentabilidade surgiu nos anos de 1970, no Acre, extremo oeste brasileiro, região comprada da Bolívia pelo Brasil, o coração das trevas. Chico Mendes estava na parada. Pois bem, o conceito de desenvolvimento sustentável foi usado deliberadamente pela primeira vez em 1987, no Relatório Brundtland, elaborado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada em 1983 pela Assembleia das Nações Unidas (ONU): “O desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades; significa possibilitar que as pessoas, agora e no futuro, atinjam um nível satisfatório de desenvolvimento social e econômico e de realização humana e cultural, fazendo, ao mesmo tempo, um uso razoável dos recursos da terra e preservando as espécies e os habitats naturais” (Wikipédia).
Fala-se muito em desenvolvimento sustentável para a Amazônia. O governo federal, não importa a cor que tenha, vê o continente Brasil do ponto de vista macroeconômico e, para completar essa tragédia, se cerca de “companheiros” e burocratas. Assim, desenvolvimento sustentável para o governo federal significa, por exemplo, a produção de energia elétrica oriunda de megaempreendimentos como Tucuruí, Santo Antônio, Jirau e Belo Monte. Quem estiver por perto que se exploda. Veja-se o caso do Pará. Tucuruí é a maior usina hidrelétrica nacional, mas no Pará metade dos municípios não conta com energia elétrica firme; no arquipélago de Marajó, uma das regiões mais fantásticas do planeta, crianças são estupradas em balsas a troco de comida. Mas os príncipes paraenses jamais construíram o linhão de Tucuruí levando energia elétrica firme para o Marajó, e outras paragens.
O encontro em Porto Velho foi vitorioso e a Fundação Banco do Brasil está de parabéns, porque conseguiu passar para cerca de 100 jornalistas da região o verdadeiro desenvolvimento sustentável, por meio de palestras sobre a joia da instituição: o programa de tecnologia social Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (Pais). O conceito de “tecnologia social compreende produtos, técnicas ou metodologias reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade e que representem efetivas soluções de transformação social”. Isso quer dizer que o verdadeiro desenvolvimento social não é o bolso do dono da empreiteira, ou da fazenda de boi ou de soja, mas do autóctone, no caso da Amazônia, os habitantes da floresta – o índio, o ribeirinho, o caboclo, o quilombola. Essa gente precisa comer também, e de escolas.
Porto Velho é um exemplo de insustentabilidade, como a maioria das cidades brasileiras, incluindo São Paulo, a mais rica, e que todo ano vai para o fundo d’água, e Brasília, a capital do país, inchada, sucateada, esburacada, servida por ônibus urbanos imundos e caros, com seu sistema de saúde que é um verdadeiro matadouro, e violenta. O que está errado, então? Creio que não será com a Bolsa Família que se resolverá o problema, mas com investimento maciço, continuado e nunca desestimulado em educação, pois o cenário é desesperador. Recentemente, o Ministério da Educação (MEC) distribuiu para os estudantes de todo o país um livro com erros gramaticais propositais, estimulando as populações pobres a escrever como falam, e assim privando-as da compreensão da realidade e da cidadania que adquirimos ao entendermos plenamente o que é desenvolvimento sustentável.
Voltarei ao assunto oportunamente, desta vez abordando a questão da água.