quarta-feira, 29 de junho de 2011

Eu, velho

Quando eu tinha 21 anos, morei em Manaus, cidade sensualíssima. Não era nenhum Brad Pitt, mas tinha meu charme. Já publicara um livro de poemas, Xarda Misturada, juntamente com Joy Edson e José Montoril, em Macapá, minha cidade natal; assinava uma coluna semanal, No Mundo da Arte, no jornal A Notícia; assinava matérias na condição de repórter; e frequentava o Clube da Madrugada, a nata dos escritores de Manaus. Fisicamente, eu tinha 1,64 metro (creio que isso tenha caído, hoje, para 1,63 metro, 1,62 metro), pesava em torno de 60 quilos e, como rachei lenha quando criança e aqui e ali jogava um pouquinho de boxe, fui musculoso até bem pouco. Também a testa larga e o olhar atento me davam um ar de intelectual. Esse perfil se completava com minha alegria e entusiasmo pela vida.

Assim, até mulher casada se ajoelhou aos meus pés, e tive mulheres lindas. Não estou me gabando, mas apenas constatando a força da juventude física, se, mesmo jovem, já vislumbramos a chave com a qual, um dia, abriremos a porta da Luz e deixaremos a luminosidade jorrar na nossa vida.

Leio desde os 5 anos de idade, quando os gibis e a biblioteca do meu irmão mais velho, Paulo Cunha, me seduziram para sempre. Aos 14 anos, já lera Hemingway, Fitzgerald, Graciliano Ramos, Dostoiévsk, Jorge Luís Borges, livros de história e de geografia, e frequentava a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho. Lia também enciclopédias, dicionários, bulas de remédio, e tudo o que me caísse às mãos. Passei parte do meu tempo na Biblioteca Pública de Macapá e outra parte mergulhando nos livros, na madrugada.

Mas as mulheres, eu as tinha como se mastiga feijão com arroz com um pedaço de carne, prato com que tenho tanta familiaridade que o devorava mecanicamente. Hoje, depois que comecei a descer o morro da vida, prestes a completar 57 anos, em 7 de agosto, degusto os beijos da mulher amada com a sensação de um terremoto de rosas, e cheguei à sofisticação de capturar a dança delirante de mulheres caminhando em vestido justo, de seda. Também hoje sei que não há mulheres feias. Quando uma mulher sem encantos físicos brande o gume da inteligência, sua feminilidade explode em estrelas. E se é uma mulher fisicamente sem atrativos, sem presença de espírito e sem brilho intelectual, é só fazê-la sorrir, e seu sorriso terá o efeito do sol da primavera, e ela se sentirá, e será, a mulher mais bonita do mundo.

Já maduro, ao reler alguns livros da minha juventude, fiquei atônito. Descobri, neles, cheiros insuspeitos, ruas ainda não percorridas, personagens que, agora, puseram-se a contar coisas para mim. Também os livros li da mesma forma que comia, bebia e amava, como um leão, que eu era, e que tudo podia rasgar com minhas garras.

Há muitas pessoas que continuam jovens para sempre. Engolem  sempre com a mesma avidez e amam com a fugacidade de uma ejaculação precoce, mecanicamente, bastando-lhes a mão e a ilusão da fantasia. Desconhecem que tempo não existe, que só há o agora e o agora, o momento mesmo da vida, que a dimensão física é ilusão, é apenas vibração atômica, pois somos espíritos, existimos desde antes do princípio e existiremos até depois do fim. 

Na verdade, não envelhecemos, pois o desgaste é físico, e somos de uma dimensão diversa do mundo físico, somos espírito. As pessoas muito apegadas aos sentidos e aos bens materiais povoam a Terra como mortas-vivas, suas mãos são frias e seu corpo macilento, disfarçam-se para parecerem mais jovens, agem como adolescentes, são egoístas e mesquinhas, no âmbito da sua limitação. Há pessoas com 90, 100 anos, que se sentem como sempre foram, sem idade. São aquelas que, de uma forma ou de outra, sentiram que a vida é uma eterna caminhada rumo ao Éter, à Luz, a Deus.

Como velho, já quase não sou mais arrogante, procuro ser gentil e atencioso com todos, e cuido para que a mulher amada se sinta como a mais bela flor de um jardim esplendoroso. Já não faço questão de receber presentes, mas de distribuir caixas de alegria a quem eu alcançar. Não ambiciono nada além de uma rosa bem vermelha e do riso de uma criança, que é música executada pelo próprio Criador. 

Também peço que o Universo me perdoe pelas ofensas que eu cometi, porque sei, na minha esperança, que basta um raio de luz para extinguir a treva. E não há nada que eu queira mais do que ver o sorriso da mulher amada. Sinto a velhice como um mergulho infindável no abismo da poesia, uma caminhada permanente entre a primavera que se espraiava no telhado da casa da minha infância, as zínias, as rosas, o jasmineiro embriagando o ar nas noites tórridas, a mangueira e o cajueiro no quintal, a seringueira que interrompe o muro do Colégio Amapaense, e as paredes de tijolos deitados da Casa Amarela, sólida como um navio singrando a luz.

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