terça-feira, 19 de julho de 2011

A pior e a melhor entrevista que fiz como repórter


Este repórter e Roberto Carlos, em 1976, no Hotel Amazonas

Em 1976, eu era repórter em A Notícia, diário de Manaus, já extinto. Foi o segundo jornal em que trabalhei. O primeiro, também de Manaus, em 1975, foi o Jornal do Commercio, onde comecei a carreira, como repórter policial. Era autodidata, pois tinha apenas o terceiro ano do antigo curso ginasial; só me graduei em jornalismo 12 anos depois, em 1987, pela Universidade Federal do Pará (UFPA).

A Notícia foi uma escola para mim. Lá, conheci José Marqueiz, Prêmio Esso de 1973, por cobrir para O Estado de S.Paulo a expedição dos irmãos Villas-Bôas de contato dos índios kranhacarores, no Mato Grosso. Marqueiz era correspondente do Estadão e redator de A Notícia. Ele foi o primeiro a pavimentar meu texto jornalístico. Depois, tive outro mestre, Octávio Ribeiro, o Pena Branca. Fui redator dele, que era editor de polícia em O Estado do Pará, lá por 1978, e com ele aprendi a escrever de maneira objetiva e clara. Obrigado! O Estado do Pará era comandado pelo mestre Walmir Botelho, era de Oliveira Bastos e Avertano Rocha.

O Marqueiz e eu nos tornamos amigos. Batíamos muito papo no Amarelinho. Quando fez a reportagem que lhe daria o Esso, ele contraiu malária e para combater o frio bebia. Tornou-se alcoólatra. Bebia pequenos tragos de Pitú, seguidos de chopp. Certa noite, pernoitei na casa dele e saímos cedinho. Paramos no bar de um português, no centro de Manaus, que Marqueiz frequentava, e ele me convidou para fazer o desjejum: um copo de Pitú na cintura, que ele sorveu de um só trago. Recusei. O máximo a que cheguei foi fazer desjejum com a maravilhosa Antarctica manauara.

Mas a pessoa de quem quero falar, realmente, é Bianor Garcia, então diretor de redação de A Notícia. Comparo os diretores de redação a comandantes de navio. Se não conhecerem as vísceras da arte de fazer jornal e tiverem talento e pulso, a redação naufraga, e, com ela, a empresa. Nesse contexto, o maior mestre que tive foi Walmir Botelho, um dos mais brilhantes editores de jornal do país e um dos textos jornalísticos mais enxutos que conheço, e ser humano iluminado.

Voltemos a Bianor Garcia. Nosso relacionamento era bom. Apesar de que só ter 21 anos de idade, assinava uma coluna semanal, No Mundo da Arte, e cobria, eventualmente, a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). Certa vez, Bianor Garcia foi convocado a dar uma explicação ao comandante Militar da Amazônia. Não foi; enviou a mim para representá-lo. Foi nessa época que, acredito, fiz a pior entrevista como repórter. Fui escalado para entrevistar Roberto Carlos.

A produção do jornal conseguiu entrevista exclusiva com Roberto, que fora apresentar-se em Manaus (um dos grandes shows que vi) e estava hospedado no Hotel Amazonas, centro da cidade. O chefe de reportagem instruiu-me a perguntar ao Rei se ele usava meia de mulher como touca, antes dos shows. Pergunta bizarra, mas que satisfaria o suposto perfil dos leitores do jornal, que tendia ao sensacionalismo. Tudo bem! O problema era que o gravador estava falhando, e isso foi meu terror, porque se chegasse à redação sem a entrevista meu destino estaria selado: rua. Aí, só me restaria mudar de cidade, pois saberiam disso no jornal concorrente, A Crítica, e eu não teria para onde correr.

Fui fazer a entrevista. No hotel, nos conduziram, o fotógrafo e eu, ao corredor do apartamento do Rei, onde fomos recebidos por dois seguranças. Roberto não nos recebeu no apartamento, mas, depois de aparentemente se arrumar, saiu do apartamento, que, suponho, fosse modesto, pois que o hotel, salvo engano, era três estrelas, e me deu a entrevista no corredor.

O Rei é um sujeito carismático. Ele me deixou à vontade e eu me senti como se fosse velho amigo dele. Perguntei-lhe sobre o negócio da meia, assunto que fora objeto de revista de fofoca. Ele me respondeu numa boa. Mas não me lembro do teor da entrevista, pois estava preocupado com o gravador, de olho nele, vigiando o rolo de fita girando. Era um velho gravador de tamanho médio. Assim, não prestei atenção à fala do Rei. Mais tarde, na redação, degravando a entrevista, vi o quanto ela foi burocrática. Mas tudo bem! Restou uma fotografia com o Rei.

A Notícia me proporcionou, também, o que julgo ser uma das melhores, senão a melhor entrevista que já fiz como repórter. Também foi em 1976. Estávamos nos anos de chumbo, a Ditadura dos Generais (1964-1985), governo de Ernesto Geisel. O ministro da Educação era o general de brigada Ney Braga. No dia 31 de março de 1976, Ernesto Geisel inaugurou o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, de Manaus. Ney Braga estava na comitiva.

Quase toda a equipe do jornal foi escalada para cobrir a permanência de Geisel e comitiva em Manaus, o dia todo. Fazia parte da minha pauta fazer entrevista exclusiva com Ney Braga e perguntar a ele se o Decreto 477 (editado em 1969) ainda era necessário. Bianor Garcia deixara claro: se eu não conseguisse a entrevista era melhor nem voltar para o jornal. Desconfiei, inclusive, que Bianor queria se livrar de mim, pois a missão era impossível.

A propósito do Decreto 477, enquadrava estudantes e professores que contrariassem o regime. Em 1972, eu era aluno da quarta série do antigo curso ginasial, que não concluí, no Colégio Amapaense, em Macapá, minha cidade natal, e editor de A Rosa, um jornal estudantil anarquista, mimeografado. Um exemplar desse jornal fora enviado para o general Ivanhoé Gonçalves Martins, governador do Amapá, mas um amigo meu o interceptou. Caso houvesse chegado às mãos do general talvez eu tivesse sido expulso do mundo estudantil. Só peguei 15 dias de suspensão, após inquérito disciplinar, quando fui interrogado pelo diretor e vice-diretor do colégio.

Voltemos a Manaus. À noite, Ney Braga participaria de um encontro num clube da alta sociedade no centro de Manaus. Fui para lá, desta vez com um gravador que estava funcionando normalmente. Sentia-me meio condenado, mas com o estímulo do tudo ou nada. Fiquei de plantão num local pelo qual Ney Braga teria que passar. Quando ele se aproximou, avancei. Os seguranças foram pegos de surpresa, pois não dei tempo a ninguém. O gravador na mão, avancei para Ney Braga, com a serenidade dos que não têm nada a perder, identifiquei-me como repórter de A Notícia e sapequei a pergunta:

– O Decreto 477 ainda tem razão de ser? – algo assim.

Ney Braga parou, me olhou nos olhos. Os olhos dele tinham a opacidade de quem compartilha as intimidades do ditador, uma espécie de tédio e certeza de que pode tudo.

– Você é jornalista? – ele me perguntou. Eu não era jornalista. Sequer tinha o ensino básico completo. Só em 1982 é que comecei a cursar jornalismo, por pressão das empresas jornalísticas e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Pará.

– Sou repórter de A Notícia – repeti.

– E o que é que você acha? Você acha certo a anarquia? – ele disse algo mais ou menos assim.

– Quero saber sua opinião, ministro – insisti.

O restante da entrevista caiu para a burocracia. O general, e seu labirinto, foram-se logo. Creio que ele encerrou a entrevista mais por enfado do que por pressa. Voltei iluminado para o jornal. Havia compreendido várias coisas, entre as quais quem está na chuva é para se molhar.

Anos depois, o sargento paraquedista do Exército, Abílio Teixeira, que foi segurança de vários generais, me ensinou que um general é um homem como outro qualquer. A única coisa que o diferencia é seu uniforme. E um uniforme é só um uniforme. Aquela entrevista foi uma das melhores que já fiz, porque comecei, naquele momento, a entender, intuitivamente, que jornalismo é mais do que profissão; é a missão de desmitificar a realidade, essa dama escorregadia, que se move no pântano das trevas.

sábado, 16 de julho de 2011

Acme

O momento do dia que mais me causa prazer é às 5 horas. É madrugada, e os sons do amanhecer pulsam como música de Mozart, até o sol iluminar as rosas. Levanto-me e pouco depois preparo café Três Corações, gourmet, e bebo três xícaras médias com leite em pó e, geralmente, como pão com passas. Então vou ao encontro das personagens de ficção com quem eu convivo. Neste sábado, minha rotina foi mais azul, pois ouvi, no melhor horário do mundo, os sons do acme, que arranquei, com minhas mãos de poeta, da mulher amada. Os sons do acme são combustível poderoso, que nos remete para a dimensão dos abismos de rosas, em voos tão inacreditáveis como o de um avião, tão redentores quanto o sorriso misterioso da mulher amada, na entrega total, naquele momento em que ela se torna a princesa que nunca deixou de ser.

Neste sábado, o jardim da minha casa é um cataclismo de rosas. Há tantas, e amarelas, que deixariam Gabriel García Márquez embriagado. Ouço agora Mireille Mathieu, Um monde avec toi, “no acme, contigo”, eu traduziria. Também vi fotos de Núbia Santana e li versos que falam de cavalos, maré e do próprio mar, de Elzita Maria de Lima. Tudo isso neste sábado. Também a mulher amada preparou pirarucu, um dos mais saborosos peixes do mundo, no tucupi e jambu. Delícia! Remete-me ao tacacá da banca defronte ao Colégio Nazaré, em Belém do Pará, e à Estação das Docas, trilha que leva a Macapá e ao Caribe. E assim avança o sábado, no seu rio azul como os poemas da Alcinéa Maria Cavalcante, filha do poeta Alcyr Araújo e afilhada do também mago prestidigitador de palavras Isnard Brandão Lima Filho.

Deus descansou no azul do sábado, segundo os judeus. Penso que o Pai repousou num jardim prenhe de rosas vermelhas, e já colombianas, ao som do riso de crianças, e os jasmineiros espargiam Chanel número 5.

Os sábados são pedras preciosas que nascem no relicário do meu coração, com as quais presenteio a todos que eu amo. Que o azul dos sábados invada a privacidade de todos que precisam me perdoar, para que se livrem de qualquer resíduo de mágoa que respingou na região pantanosa do subconsciente, e sintam-se livres para viajar na luz. Viver os sábados é preciso; viver não é preciso, porque o sétimo dia é feito de azul, tão azul que é branco, como a luz. Os sábados são todos os dias, é a própria vida, e são azuis.

Os sons do acme, misturados aos sons da madrugada, que ouvi hoje, são feitos de uma substância que só encontramos no primeiro beijo, no nascimento dos nossos filhos, na criação de personagens de ficção, na oração, no riso da mulher amada, na luz. São sons que só ouvimos com os tímpanos dos nervos e especialmente às 5 horas, que é a hora em que Deus, que nunca dorme, acorda.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Poema sem título

Poeta, contista e ensaísta Fernando Canto na casa dele, em Macapá

Para Fernando Canto


Existem rumores na tarde
e os escuto
são como gemidos
e os ouço nitidamente
vindos não sei de onde
sentado diante da janela que dá para a rua
perco-me no vento
entre as ramas do arvoredo acima do chalé em frente...
degusto mais aguardente e caminho
os rumores, só eu os ouço
nas tardes quentes
e flutuo além das ramas do arvoredo em frente...
meus pelos se eriçam
e meu rosto assume a forma clássica
de uma tarde onde há rumores...


Escrevi este poema em 1978, em Belém. Foi uma época em que convivi intensamente com o escritor e compositor Fernando Canto. Ele se graduava em sociologia na Universidade Federal do Pará e eu trabalhava como repórter em O Liberal e morava na casa do pintor Olivar Cunha, no Guamá. Eu costumava escrever, ficção ou poesia, naquele momento em que a tarde se encontra com a noite. Lembro-me que este poema saiu numa tarde que agonizava, na cozinha da casa do Olivar. À noite, o Fernando Canto e eu saímos, sempre farejando bebida. Uma noite eu estava sedento e o Fernando me levou ao bar do tio dele, que nos serviu, por conta da casa, gim inglês com água tônica. O gim encharcou meus nervos expostos e me conduziu ao azul mais azul da via noturna. No dia seguinte, ao tomar banho, rescendia a gim.

O Fernando Canto tem a mesma idade que eu, suponho, assim como o poeta José Edson dos Santos, o Joy Edson, mas o Fernando sempre foi como meu irmão mais velho, mais maduro do que eu, de modo que ele funciona como um condutor seguro nas trilhas às vezes escorregadias das circunstâncias. Sei que na sua companhia estou protegido e que basta lhe enviar uma mensagem para me sentir seguro. É isso que sentimos por um irmão. É o que sinto na presença do Olivar e do Joy, e de todos os meus irmãos, de sangue e das trilhas do azul. Sentimo-nos, junto às pessoas que amamos, como se estivéssemos batendo papo na cozinha de casa, cheia de alimentos e bebidas, fartos e saborosos, à nossa disposição.

É como rumores na tarde, a velha intimidade com nós mesmos. Como gin fiz degustado num bar em Belém. Assim são os rumores da tarde, que são azuis, e que, à medida que o rio da tarde escoa na noite, ficam tão azuis que se confundem com a luz, como uma pessoa que passou uma eternidade nos ignorando, a quem amamos, que nos inebria, de repente, com um sorriso. São assim estes rumores...

terça-feira, 5 de julho de 2011

O perfume das virgens ruivas

É recorrente jornalistas perguntarem a escritores por que escrevem. As respostas são infinitas. Algumas, tão elaboradas que se tornam incompreensíveis, objeto de análise psicológica. Contudo, o modo como os escritores se comportam no processo de trabalho é previsível. Costumam se levantar em torno das 5 horas e a dedicar boa parte da manhã trabalhando, geralmente sem que ninguém os paguem por isso. Levantam-se num horário em que quase todos os demais jamais cogitaram em deixar a cama, e no resto do dia, ou da noite, recarregam as baterias da criação praticando esporte, bebendo, ou simplesmente vagabundando.

Os escritores iniciantes, ou pobres, ou que ainda não conseguiram ganhar nada com sua produção literária, fazem qualquer trabalho para pôr comida na mesa da família e manter a estranha rotina de levantar à noite para escrever. São como viciados que mergulham num vício apenas tolerado pela família. É claro, há os casos dos escritores que se tornam grandes vendedores de livros, vendem milhões de livros, ficam ricos e com eles a família, que, assim, passa a estimular o escritor, a quem antes desestimulavam, a se profissionalizar.

Já dá para notar uma coisa: escritores são incansáveis. Há aqueles que trabalham como jornalistas, passam o dia escrevendo matérias ou copidescando nas redações dos jornais, e ainda encontram substância, à noite, para a criação. Outros, além de escrever e fugir dos cobradores, são ainda matadores compulsivos de mulheres. Matadores no bom sentido. Diz-se que Honoré de Balzac tanto escrevia compulsivamente quanto fornicava. Era extremamente talentoso e não podia passar sem fornicar. Sua força moral era a criação literária. Escrevia como um condenado e recarregava a bateria da criação fornicando.  

Mas os escritores, estou certo disso, pouco estão querendo saber se contarão ou não com comida no almoço e mulher no jantar. Precisam escrever! E não escrevem com o estômago, embora um naco de carne quente seja sempre bem-vindo. William Faulkner disse que o escritor é aquele sujeito que não tem medo de saber o quanto aguenta sem comer. O escritor é aquele que entre o conforto e o sacerdócio da escrita renuncia ao luxo e se entrega à criação como o padre se entrega a Deus. O escritor é um escravo voluntário. Um viciado que não faz mal a ninguém. Apenas incomoda a quem possa entrevê-lo na sua solidão. O escritor é feio ou belo, doente ou tímido. Isso nada significa para ele. O verdadeiro escritor, quando é pobre e tem que sustentar a família realizando qualquer trabalho, o faz sem perda de tempo, e não deixa escapar também qualquer oportunidade de escrever, mesmo que seja no intervalo entre uma pedreira e outra. Não perde tempo com coisa alguma. Apenas o que escreve é importante, porque extrai luz da criação.

Se o que escreve não tem luz, ou se o escritor é mais importante do que o que escreve, então se trata de um impostor. O falso escritor nunca tem tempo para escrever. Tem tempo para tudo, menos para escrever. O falso escritor não gosta de escrever, detesta escrever, não quer enfrentar o papel em branco, não sabe escrever. Intitula-se escritor, ou se obriga a escrever algum chavão aqui, outro ali, porque o status de escritor lhe deu alguma vantagem, ou lhe proporciona prazer. Os falsos escritores lutam para ser tratados como verdadeiros escritores, se locupletando entre si com elogios de arrepiar.

E por que se escreve, então? Por que gastar o tempo com algo que geralmente não proporciona nem feijão com arroz, durante anos, ou décadas, ou a vida inteira? Os escritores sentem uma vontade insuportável de criar, de inventar histórias, de costurar personagens e lhes conceder vida. Faulkner achava que o escritor classe A é conduzido por demônios. Hemingway pelejava laboriosamente sobre o papel em branco. É que mesmo conduzidos pelo diabo, ou pela angústia, seguiam um odor. Este odor, creio, é o perfume das virgens ruivas.

Os escritores, no ato da criação, seguem o odor do cio, irresistível como o perfume das virgens ruivas. Criar é como a queda no abismo do gozo, uma queda longa, interminável, sempre interrompida e reiniciada a cada poema, conto, romance, crônica, ensaio, verso, frase. Assim, o ato de criar é o perfume da virgem ruiva que ele deflora a cada manhã. É sua luz.