sábado, 30 de julho de 2011

Apesar do PT

Nem o aparelhamento do Estado e da sociedade, a que o PT vem se dedicando ferozmente, desde 2003, fará com que o Brasil pare de se desenvolver, graças à sua mestiçagem e espiritualidade. Em resumo, foi isso o que o intelectual, jornalista e escritor Ruy Fabiano disse em entrevista a este blog

Brasília, 30 de julho de 2011 - Ruy Fabiano é daqueles jornalistas fundamentais para se entender o Brasil. Sintoma disso é que outro jornalista, Ricardo Noblat, responsável pela premiada internacionalmente transformação editorial e gráfica pela qual passou o maior jornal da capital do país, o Correio Braziliense, na década de 1990, e hoje colunista de O Globo, publica religiosamente todos os sábados artigo de Ruy Fabiano no seu blog, que é o mais lido do país. Esses artigos são verdadeiros bisturis, que vão até o osso na análise do que está acontecendo no âmbito político do país, desmascarando a dissimulação dos camaleões que se agarram com os beiços à farta teta do poder, a qualquer custo.

Ruy Fabiano é carioca e começou a trabalhar como jornalista em 1972, exercendo também a crítica musical. Em 1979, mudou-se para Brasília e passou a se dedicar ao jornalismo político, trabalhando para o Correio Braziliense e para a Agência Estado. É também escritor, autor do romance Profanação (Editora A Girafa, São Paulo, 2005, 253 páginas), ambientado em Brasília, e do livro de contos Os Arquivos de Deus (Editora Novo Século, São Paulo, 2008, 209 páginas).

Fui me encontrar com Ruy Fabiano na casa dele, no Lago Norte, península com formato de bota no Lago Paranoá. A casa do grande intelectual é nova, como tudo em Brasília (que tem muita coisa sucateada, como o sistema viário, o transporte público, os sistemas educacional, de saúde e de segurança pública, a Universidade de Brasília, a rodoviária do Plano Piloto... a lista é grande), mas por dentro conserva a atmosfera de um casarão antigo, especialmente a biblioteca, que é o escritório de Ruy Fabiano e onde ele me recebeu na manhã de 28 de março, uma quinta-feira.

O Brasil é singular no mundo. É a natureza mais pujante do planeta em recursos naturais e condições climáticas, mestiço, espiritualista e cada vez mais rico, apesar dos políticos. Mas nesse cenário o PT, e Lula, não poderão se sustentar mais por muito tempo. Foi isso, de forma sintética, o que disse Ruy Fabiano na entrevista que se segue.

O sistema político brasileiro faliu?

A palavra falir não se aplica, porque pressupõe que em algum momento o sistema político brasileiro teve alguma performance. Ele é disfuncional. O presidencialismo de coalizão é um híbrido que não funcionou. É um monstrengo, porque a Constituição de 1988 foi elaborada tendo em vista o sistema parlamentarista de governo. Mário Covas era o mais entusiasta disso aí e organizou tudo nessa direção. Estava lá também o Fernando Henrique, esse povo todo, querendo o parlamentarismo no Brasil. A certa altura o presidente Sarney disse que não queria ser a rainha Elizabeth. Eu lembro perfeitamente dessa frase dele. O grupo chamado Centrão, que não tinha interesse na área de organização política, mas tinha interesse na área econômica, de não permitir que o país adotasse um perfil socialista, se mobilizou para derrubar iniciativas esquerdizantes na Constituição, e acabou fazendo o jogo do governo Sarney de demolir o parlamentarismo. Só que fizeram uma demolição pela metade. Instrumentos como as medidas provisórias foram inspiradas do modelo italiano, parlamentarista. A medida provisória dá ao Executivo o poder de legislar, sumariamente. Só que no regime parlamentarista o poder executivo é o poder legislativo, mas no regime presidencialista, não. Temos um sistema em que o Executivo legisla e a última palavra é do Legislativo. Se ele derrubar os vetos do presidente, o presidente não governa, o que torna o Congresso um ambiente de negócios.

O ex-presidente Lula já afirmou que é candidato a presidente em 2014. Se ganhar, poderá radicalizar o aparelhamento do Estado, que ele começou em 2003 e que continua até hoje, e instalar uma ditadura nos moldes da de Hugo Chávez na Venezuela, que é o que Lula sempre almejou, manifestando isso com a simpatia, nos seus oito anos de mandato, a ditadores mundo afora, especialmente Fidel Castro, o mais longevo do mundo. As instituições brasileiras estariam maduras para impedir uma ditadura?

Falar, hoje, em 2014, é muito arriscado, porque a rapidez com que as mudanças têm ocorrido, no Brasil e no mundo, não autoriza que se faça um prognóstico de tão longo prazo. Contudo, o Estado brasileiro já está aparelhado. Não só o Estado, a própria sociedade civil está aparelhada. Por exemplo: as entidades associativas, de classe, sindicatos, organizações como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), a ABI (Associação Brasileira de Imprensa), tudo isso aí já está aparelhado partidariamente. A UNE, União Nacional dos Estudantes, que sempre se notabilizou por ser uma instituição independente, por ser composta de jovens ainda não contaminados por interesses corporativos, por ser composta de pessoas que tinham uma rebeldia congênita e um papel no cenário político, acabou. Hoje, a UNE faz parte do PCdoB, que é uma célula do governo, da estrutura de poder do PT. Precisamos ver como isso estará até 2014, porque nós não sabemos do cenário econômico, do cenário internacional, e tudo isso provoca uma ebulição muito grande. Lula está fazendo um mero jogo de especulação. Ele tem um capital eleitoral grande junto às massas, que elegem, mas influem pouco na governabilidade. As duas eleições de que ele participou e a da sucessora dele, Dilma Rousseff, foram eleições muito disputadas e em nenhuma delas ele teve uma vitória no primeiro turno, uma vitória massacrante. Se contabilizarmos o universo de eleitores que exerce influência pós-eleitoral, pelo nível de renda, pelo nível intelectual, vai-se perceber que Lula é muito questionado nesse âmbito. E ele ainda lida com um dado complicado: se o governo Dilma for mal sucedido, ele será sempre apontado como o que deixou a herança maldita; se o governo Dilma for bem sucedido, ela terá a possibilidade legítima de postular a reeleição.

Você acredita que o Mensalão realmente será julgado no Supremo Tribunal Federal (STF)?

Não tem como não ser. Agora, tem como diluir isso aí. Os protagonistas do primeiro escalão podem conseguir atenuantes. Mas, de qualquer forma, os 39 restantes já são pessoas fora do cenário político. A figura mais importante é o José Dirceu (ex-chefe da Casa Civil da presidência da República e tido como chefe do Mensalão), que não ocupa nenhum cargo no Estado. José Dirceu é hoje uma pessoa da iniciativa privada. A gente sabe que ele é ainda uma peça-chave dentro do PT, exerce uma liderança muito grande, mas institucionalmente ele já está fora do jogo, não é ministro, não é deputado, não é nada. Então, se ele for condenado, isso será visto como uma coisa menor, à margem do processo político. Se ele for absolvido, aí ele volta com força.

Faça uma avaliação do homem, do político e ex-presidente Lula.

Lula é uma figura ímpar na história da política brasileira. Não é o único político que veio de uma origem pobre. O Juscelino (Kubitschek) teve origem muito humilde. E há outros políticos que não nasceram em berço de ouro. O que diferencia Lula desses personagens é que ele manteve os sinais exteriores da origem dele, e cultivou esses sinais, inclusive a condição de iletrado, e fazia até brincadeira com isso. Lula é um sujeito muito inteligente. Assim como se diz que existe ouvido musical, existe o ouvido político, e Lula tem ouvido absoluto nessa área. Ele capta as coisas e sabe jogar para o público dele. Ele é realmente um talento político. Agora, ele tem um projeto pessoal de poder e se associou a uma série de forças políticas com as quais não se sente efetivamente comprometido. Ele já disse mais de uma vez que não é socialista e que não é comunista. Desde o tempo em que liderava sindicatos ele fazia muito claramente distinção entre interesses da classe trabalhadora, de estudantes, acadêmicos, socialistas, intelectuais, mas se juntou a esse universo todo para chegar aonde ele chegou. Ele tem uma capacidade enorme como político, mas não tem consistência para ter duração muito grande nesse cenário. Acho que a História vai tratá-lo com menos condescendência do que a Fernando Henrique. O resgate do Fernando Henrique, depois de toda a desconstrução que o Lula fez dele, mostra que FHC tem uma consistência maior. E Lula vai enfrentar um período de desconstrução da sua imagem ao longo do governo Dilma, porque, se o governo for mal, a desconstrução será inevitável e espontânea; se for bem, vai haver uma desconstrução política para que ela prossiga.

Se você tivesse que selecionar um item vital para o desenvolvimento do Brasil, qual seria?

O Brasil precisa se organizar politicamente, porque é a política que organiza o resto. Esse quesito, eu acho que é básico; o restante não é preciso organizar porque a ação econômica se dá espontaneamente. A própria sociedade tem energias criadoras. A bagunça política gera danos terríveis, inclusive na escala de valores da população.

Mas como se organizar politicamente?

O Brasil fez uma Constituição num momento muito confuso da sua história. Estava saindo de 20 anos de um regime militar, que organizou uma conjuntura da Guerra Fria, com polaridade ideológica, que se rompeu a certa altura, e nesse momento de rompimento – a queda do Muro de Berlim – o Brasil fez sua constituinte com uma agenda ainda da Guerra Fria. A ditadura aprisionou demandas da sociedade por muito tempo e quando isso acabou houve uma enxurrada de reivindicações, delírios, ilusões, e tudo isso foi para a Constituição, que regulava até taxa de juro. Era como querer regular a temperatura da atmosfera pela lei. Uma Constituição muito cheia de detalhismo; tem um capítulo de legislação trabalhista que parece uma CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Tudo isso é problemático, engessa o país. Penso que a solução para o Brasil seria uma nova constituinte. 

Isso só será possível com uma grande pressão da sociedade, não?

A sociedade não acredita mais na política. Para mobilizar a sociedade para uma constituinte seria preciso que a mídia estivesse de acordo com essa tese, mas a mídia teme essa tese, porque hoje é controlada por grupos econômicos, que têm muitos outros interesses. Não embarcarão numa coisa que é uma porta de entrada que ninguém sabe como será a saída. A constituinte é como uma guerra: sabe-se como começa e não como termina, nem o estrago que causa. O que pode haver são arremedos, como criar uma constituinte congressual, por meio de iniciativas do próprio Congresso, e não por uma mobilização da sociedade.

Isso quer dizer que só nos resta o potencial econômico para levar o país ao desenvolvimento. Os políticos representariam o caos.

Dizia-se, antigamente, que o Brasil cresce de noite porque o governo está dormindo. Esse princípio tem fundamente. O Brasil é um país com algumas peculiaridades que só há aqui mesmo. É um país multicultural, com um processo de miscigenação numa escala que não ocorre em parte alguma do planeta. No Brasil não existe guerra étnica e não existe guerra religiosa, que são dois tipos de conflitos insolúveis. Guerra étnica, por exemplo, vimos entre sérvios e croatas, chechenos e russos, palestinos e israelenses – um não pode ver o outro, matam mesmo, e vão criando um contencioso recíproco que não tem fim. Isso não tem aqui. Quanto ao racismo, é um sentimento individual que há em toda parte. O Brasil é mestiço; a mestiçagem vai diluindo as raças e com isso o racismo, e aqui qualquer manifestação racista é punida até com excessivo rigor. Quem manifestar alguma contrariedade nesse assunto vai preso, não tem fiança e o crime não prescreve. É um negócio duro demais, desproporcional ao delito. Até por assassinato se consegue fiança. Então, o Brasil tem este patrimônio, de ser um país que não tem contencioso político grave com nenhum vizinho; tem um potencial de biodiversidade, de recursos naturais, único – é a maior extensão territorial de terras agricultáveis do mundo -, e tem sol e safra o ano inteiro. São condições que a natureza ofereceu. E o Brasil tem atraído a atenção do mundo exatamente porque é receptivo a todos. Com todas as limitações – estamos às voltas com apagão de mão de obra tecnológica -, o Brasil já é o sétimo PIB (Produto Interno Bruto) e até o final da década se prevê que ele seja o quinto, isso sem levar em conta que existe uma economia informal enorme, que se avalia que seja metade da economia formal. O Brasil está saindo do estado de ser puramente um país com potencialidade para começar a realizar essa potencialidade. Está só no começo. O país acontecerá até por uma fatalidade, uma predisposição do destino, que faz tudo convergir para cá.

O que você acha das cotas étnicas?

Acho uma bobagem, um disparate, num país mestiço se falar em cota étnica. Que etnia? Eu mesmo não sei qual é a minha etnia, porque a minha família tem gente de várias nacionalidades. Cotas criam um problema, que é racializar a crise brasileira, tentando-se criar grupos étnicos que não se sustentam. Por exemplo: no movimento negro 90% são mulatos. O mulato é o branco com o negro. Então, por que a opção pelo negro e não pelo branco? Teve o caso, emblemático, que aconteceu na Universidade de Brasília (UnB), de dois gêmeos que foram se submeter ao sistema de cotas. Um, foi considerado negro e o outro, não. Não sei se isto é positivo, mas pode-se tentar criar cotas sociais, no sentido de se facilitar o acesso social, porém não vejo sentido em acesso racial.

Ajude a resolver uma equação. Como você classificaria o governo petista: fascista ou comunista?

Por enquanto, nem uma coisa, nem outra. Ele é confuso, porque o PT se submeteu a uma mutação ao longo do tempo. O PT surgiu daquele movimento sindicalista do ABC paulista no tempo do regime militar, e o discurso da época era de um sindicalismo diferente do varguista, do pelego. Lula era contra imposto sindical. Então parecia uma coisa moderna. Aquilo atraiu a universidade brasileira e houve a aproximação com os intelectuais. Aí o PT adquiriu um viés socialista e se desenvolveu assim, absorvendo o meio artístico e ganhando espaço como crítico da conduta ética dos políticos, acenando com um mundo diferente quando chegasse lá. Chegou, e pôs em prática tudo o que condenou ao longo da caminhada para chegar ao poder. Aí então entrou o viés que chamam de pragmático: não adianta brigar com essa realidade porque ela é assim mesmo; então vamos usá-la para fazer o que é preciso fazer, as transformações sociais, distribuir renda. Até os instrumentos que eles passaram a usar para fazer isso eram os que eles consideravam negativos, assistencialistas, o Bolsa Família, todo o sistema de bolsas, que foi estabelecido no governo anterior (de Fernando Henrique Cardoso) e que eles consideravam manipulação do Estado. Mas usaram. Chegaram ao poder e, como todo mundo que chega, quer ficar. Então, o PT está num processo de mutação, foi uma coisa, se tornou outra, mais outra e no poder se tornou um partido de viés conservador e na economia já começa a mostrar um viés que o aproxima do fascismo, porque o controle da economia pelo Estado, hoje, é óbvio, inclusive o controle das empresas. Eu tenho uma expectativa de preocupação com relação a isso. 

Como ocorre, hoje, o colonialismo europeu e norte-americano no Brasil?

O colonialismo é ainda cultural. Tudo o que compõe a grande mídia, em que entra, além dos jornais, o cinema, a música, a televisão, a internet, tudo isso aí estabeleceu um neocolonialismo. Porém na minha geração, que hoje está com 50 anos, tinha a presença maciça da música norte-americana, inglesa, mas você tinha também uma música popular brasileira também forte, havia um equilíbrio. Isso aí hoje não há. A geração dos meus filhos, toda, fala inglês, como uma segunda língua e em alguns casos como se fosse a primeira. Isso não acontecia na nossa geração. Poucos falavam inglês. Acho que houve um avanço nisso aí. Mas não sei aonde isso vai dar.

Então esse colonialismo seria positivo?

Eu acho que não. Acho que a cultura brasileira tem coisas muito ricas e que não vão ser colonizadas. É inevitável que no sistema de globalização a comunicação circule de uma maneira intensa, mas existe também uma coisa que vai daqui para lá. Por exemplo: Portugal se queixa da colonização brasileira, e ela de fato existe, as novelas, a música, tudo isso tem uma presença muito forte no cenário português. Agora, o que prevalece é realmente a cultura anglo-saxônica.

Qual seria o verdadeiro embrião da identidade brasileira?

O Brasil é um país que ainda está criando uma identidade, a qual vai sair dessa civilização multicultural miscigenada. Nós não sabemos ainda que país vai resultar disso tudo, mas tem coisas que estão surgindo aí e que ainda não têm uma visibilidade maior que vão marcar essa civilização brasileira mais adiante, pois a gente percebe que os elementos dessa miscigenação cultural são muito ricos. Mas este momento é muito confuso para identificar cultura no mundo, quanto mais no Brasil. A Europa está vivendo uma invasão islâmica, que gera confusão e produz de vez em quando tragédias como a da Noruega, quando alguém não se conforma com o que está acontecendo, alguém que tem uma imagem europeia do passado ideal e que vê que não está presente mais, e aí resolve criar os bodes expiatórios e sai matando. Ao se industrializar, a cultura, pop, massificante, perdeu muito da sua substância. O referencial de religiosidade, de espiritualidade, se diluiu, com a própria secularização das igrejas; elas viraram instituições de poder e perderam a perspectiva do sobrenatural, do transcendental, que elas ofereciam. Esse referencial desapareceu, e não há nenhuma civilização que não tenha surgido a partir de uma religião. A Europa é o fruto maior da civilização cristã. A cristandade construiu a Europa. As pessoas viajam para lá para ver castelos, catedrais, igrejas, tudo fruto do cristianismo. No fim do Império Romano formaram-se feudos e quem organizou e administrou esses feudos foram os padres, que exerciam até função de Estado. Esses feudos se transformaram em nações e, depois do embate com os islâmicos, no tempo de Carlos Magno, a Europa cristã prevaleceu sobre os muçulmanos. Agora, a Europa abdicou do cristianismo. A constituição da União Europeia não menciona nada dessa raiz cristã, diz que a Europa é fruto da civilização grega, da Antiguidade Clássica e da Renascença. É por aí, pela espiritualidade, que o Brasil pode vir a oferecer alguma coisa.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A revolução já começou

Um intelectual conhecido meu, jornalista, ex-Itamaraty, assessor no Senado Federal, me contou, outro dia, o seguinte: o elevador privativo dos senadores quebrou. Meu conhecido estava no elevador dos funcionários, meio lotado e já programado para parar em diversos andares, quando entrou o empresário alagoano senador Fernando Affonso Collor de Mello (PTB), ex-presidente da República. Entrou e foi logo ordenando ao ascensorista:

- Vai direto para o andar tal.

Ao que o ascensorista retrucou:

- Não! Há todas essas pessoas que vão ficar antes.

- Você é terceirizado? – perguntou Fernando Collor, olhando o ascensorista do alto do seu nariz empinado.

- Sou concursado, graças ao meu esforço pessoal – respondeu-lhe o ascensorista, acertando um direto no olhar aristocrático de Collor.

Caiu o pano.

Meu conhecido também me contou outra no contexto da de Collor. O maranhense Zé Sarney, um dos cartolas do PTPMDB, presidente do Senado, tomou o elevador com o ascensorista e uma mulher grávida. Como seu parceiro Collor, foi logo ordenando ao ascensorista para ir diretamente o andar tal. O ascensorista explicou que teria que parar o elevador antes do andar de Zé Sarney, para a senhora sair. Sarney olhou para a mulher.

- Mas ela não está doente! – argumentou.

- Mas está grávida, e mesmo que não estivesse é direito dela parar no andar que ela pediu, antes do senhor – respondeu o ascensorista. Certamente concursado também.

O imortal engoliu em seco. Caiu o pano.

Isso é sintomático de que há uma nova geração, uma nova mentalidade, grassando neste país tão corrupto. O tumor lulapetista está suturando. O aparelhamento do Estado; a formação de quadrilhas como a do Mensalão; o arrocho tributário; a falência dos setores da Educação, Saúde e Segurança; a corrupção se acamando nas três esferas de poder (Executivo, Legislativo e Judiciário); a impunidade; a tentativa de calar a imprensa com o objetivo de dar um golpe na democracia e instalar uma ditadura, senão como a do carniceiro Fidel Castro, mas até como a do palhaço trágico Hugo Chávez, tudo isso começou a espirrar como carnicão.

Dilma Rousseff, a “presidenta”, como ela gosta de ser chamada, é uma faca de dois gumes para Lula, que tentará, se for preciso desesperadamente, voltar de qualquer maneira em 2014. Aliás, ele voltou a fazer discurso até em batizado e enterro. Só que Dilma não aguentará o tranco e não conseguirá estancar a sangria. Todos os dias, a mídia nacional estampa as bandalheiras cabeludas de assaltantes de colarinho branco. E tem o PMDB, que conspira o tempo todo. Também tem a web, que vem derrubando corruptos mundo afora.

Isso é democracia.

terça-feira, 19 de julho de 2011

A pior e a melhor entrevista que fiz como repórter


Este repórter e Roberto Carlos, em 1976, no Hotel Amazonas

Em 1976, eu era repórter em A Notícia, diário de Manaus, já extinto. Foi o segundo jornal em que trabalhei. O primeiro, também de Manaus, em 1975, foi o Jornal do Commercio, onde comecei a carreira, como repórter policial. Era autodidata, pois tinha apenas o terceiro ano do antigo curso ginasial; só me graduei em jornalismo 12 anos depois, em 1987, pela Universidade Federal do Pará (UFPA).

A Notícia foi uma escola para mim. Lá, conheci José Marqueiz, Prêmio Esso de 1973, por cobrir para O Estado de S.Paulo a expedição dos irmãos Villas-Bôas de contato dos índios kranhacarores, no Mato Grosso. Marqueiz era correspondente do Estadão e redator de A Notícia. Ele foi o primeiro a pavimentar meu texto jornalístico. Depois, tive outro mestre, Octávio Ribeiro, o Pena Branca. Fui redator dele, que era editor de polícia em O Estado do Pará, lá por 1978, e com ele aprendi a escrever de maneira objetiva e clara. Obrigado! O Estado do Pará era comandado pelo mestre Walmir Botelho, era de Oliveira Bastos e Avertano Rocha.

O Marqueiz e eu nos tornamos amigos. Batíamos muito papo no Amarelinho. Quando fez a reportagem que lhe daria o Esso, ele contraiu malária e para combater o frio bebia. Tornou-se alcoólatra. Bebia pequenos tragos de Pitú, seguidos de chopp. Certa noite, pernoitei na casa dele e saímos cedinho. Paramos no bar de um português, no centro de Manaus, que Marqueiz frequentava, e ele me convidou para fazer o desjejum: um copo de Pitú na cintura, que ele sorveu de um só trago. Recusei. O máximo a que cheguei foi fazer desjejum com a maravilhosa Antarctica manauara.

Mas a pessoa de quem quero falar, realmente, é Bianor Garcia, então diretor de redação de A Notícia. Comparo os diretores de redação a comandantes de navio. Se não conhecerem as vísceras da arte de fazer jornal e tiverem talento e pulso, a redação naufraga, e, com ela, a empresa. Nesse contexto, o maior mestre que tive foi Walmir Botelho, um dos mais brilhantes editores de jornal do país e um dos textos jornalísticos mais enxutos que conheço, e ser humano iluminado.

Voltemos a Bianor Garcia. Nosso relacionamento era bom. Apesar de que só ter 21 anos de idade, assinava uma coluna semanal, No Mundo da Arte, e cobria, eventualmente, a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). Certa vez, Bianor Garcia foi convocado a dar uma explicação ao comandante Militar da Amazônia. Não foi; enviou a mim para representá-lo. Foi nessa época que, acredito, fiz a pior entrevista como repórter. Fui escalado para entrevistar Roberto Carlos.

A produção do jornal conseguiu entrevista exclusiva com Roberto, que fora apresentar-se em Manaus (um dos grandes shows que vi) e estava hospedado no Hotel Amazonas, centro da cidade. O chefe de reportagem instruiu-me a perguntar ao Rei se ele usava meia de mulher como touca, antes dos shows. Pergunta bizarra, mas que satisfaria o suposto perfil dos leitores do jornal, que tendia ao sensacionalismo. Tudo bem! O problema era que o gravador estava falhando, e isso foi meu terror, porque se chegasse à redação sem a entrevista meu destino estaria selado: rua. Aí, só me restaria mudar de cidade, pois saberiam disso no jornal concorrente, A Crítica, e eu não teria para onde correr.

Fui fazer a entrevista. No hotel, nos conduziram, o fotógrafo e eu, ao corredor do apartamento do Rei, onde fomos recebidos por dois seguranças. Roberto não nos recebeu no apartamento, mas, depois de aparentemente se arrumar, saiu do apartamento, que, suponho, fosse modesto, pois que o hotel, salvo engano, era três estrelas, e me deu a entrevista no corredor.

O Rei é um sujeito carismático. Ele me deixou à vontade e eu me senti como se fosse velho amigo dele. Perguntei-lhe sobre o negócio da meia, assunto que fora objeto de revista de fofoca. Ele me respondeu numa boa. Mas não me lembro do teor da entrevista, pois estava preocupado com o gravador, de olho nele, vigiando o rolo de fita girando. Era um velho gravador de tamanho médio. Assim, não prestei atenção à fala do Rei. Mais tarde, na redação, degravando a entrevista, vi o quanto ela foi burocrática. Mas tudo bem! Restou uma fotografia com o Rei.

A Notícia me proporcionou, também, o que julgo ser uma das melhores, senão a melhor entrevista que já fiz como repórter. Também foi em 1976. Estávamos nos anos de chumbo, a Ditadura dos Generais (1964-1985), governo de Ernesto Geisel. O ministro da Educação era o general de brigada Ney Braga. No dia 31 de março de 1976, Ernesto Geisel inaugurou o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, de Manaus. Ney Braga estava na comitiva.

Quase toda a equipe do jornal foi escalada para cobrir a permanência de Geisel e comitiva em Manaus, o dia todo. Fazia parte da minha pauta fazer entrevista exclusiva com Ney Braga e perguntar a ele se o Decreto 477 (editado em 1969) ainda era necessário. Bianor Garcia deixara claro: se eu não conseguisse a entrevista era melhor nem voltar para o jornal. Desconfiei, inclusive, que Bianor queria se livrar de mim, pois a missão era impossível.

A propósito do Decreto 477, enquadrava estudantes e professores que contrariassem o regime. Em 1972, eu era aluno da quarta série do antigo curso ginasial, que não concluí, no Colégio Amapaense, em Macapá, minha cidade natal, e editor de A Rosa, um jornal estudantil anarquista, mimeografado. Um exemplar desse jornal fora enviado para o general Ivanhoé Gonçalves Martins, governador do Amapá, mas um amigo meu o interceptou. Caso houvesse chegado às mãos do general talvez eu tivesse sido expulso do mundo estudantil. Só peguei 15 dias de suspensão, após inquérito disciplinar, quando fui interrogado pelo diretor e vice-diretor do colégio.

Voltemos a Manaus. À noite, Ney Braga participaria de um encontro num clube da alta sociedade no centro de Manaus. Fui para lá, desta vez com um gravador que estava funcionando normalmente. Sentia-me meio condenado, mas com o estímulo do tudo ou nada. Fiquei de plantão num local pelo qual Ney Braga teria que passar. Quando ele se aproximou, avancei. Os seguranças foram pegos de surpresa, pois não dei tempo a ninguém. O gravador na mão, avancei para Ney Braga, com a serenidade dos que não têm nada a perder, identifiquei-me como repórter de A Notícia e sapequei a pergunta:

– O Decreto 477 ainda tem razão de ser? – algo assim.

Ney Braga parou, me olhou nos olhos. Os olhos dele tinham a opacidade de quem compartilha as intimidades do ditador, uma espécie de tédio e certeza de que pode tudo.

– Você é jornalista? – ele me perguntou. Eu não era jornalista. Sequer tinha o ensino básico completo. Só em 1982 é que comecei a cursar jornalismo, por pressão das empresas jornalísticas e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Pará.

– Sou repórter de A Notícia – repeti.

– E o que é que você acha? Você acha certo a anarquia? – ele disse algo mais ou menos assim.

– Quero saber sua opinião, ministro – insisti.

O restante da entrevista caiu para a burocracia. O general, e seu labirinto, foram-se logo. Creio que ele encerrou a entrevista mais por enfado do que por pressa. Voltei iluminado para o jornal. Havia compreendido várias coisas, entre as quais quem está na chuva é para se molhar.

Anos depois, o sargento paraquedista do Exército, Abílio Teixeira, que foi segurança de vários generais, me ensinou que um general é um homem como outro qualquer. A única coisa que o diferencia é seu uniforme. E um uniforme é só um uniforme. Aquela entrevista foi uma das melhores que já fiz, porque comecei, naquele momento, a entender, intuitivamente, que jornalismo é mais do que profissão; é a missão de desmitificar a realidade, essa dama escorregadia, que se move no pântano das trevas.

sábado, 16 de julho de 2011

Acme

O momento do dia que mais me causa prazer é às 5 horas. É madrugada, e os sons do amanhecer pulsam como música de Mozart, até o sol iluminar as rosas. Levanto-me e pouco depois preparo café Três Corações, gourmet, e bebo três xícaras médias com leite em pó e, geralmente, como pão com passas. Então vou ao encontro das personagens de ficção com quem eu convivo. Neste sábado, minha rotina foi mais azul, pois ouvi, no melhor horário do mundo, os sons do acme, que arranquei, com minhas mãos de poeta, da mulher amada. Os sons do acme são combustível poderoso, que nos remete para a dimensão dos abismos de rosas, em voos tão inacreditáveis como o de um avião, tão redentores quanto o sorriso misterioso da mulher amada, na entrega total, naquele momento em que ela se torna a princesa que nunca deixou de ser.

Neste sábado, o jardim da minha casa é um cataclismo de rosas. Há tantas, e amarelas, que deixariam Gabriel García Márquez embriagado. Ouço agora Mireille Mathieu, Um monde avec toi, “no acme, contigo”, eu traduziria. Também vi fotos de Núbia Santana e li versos que falam de cavalos, maré e do próprio mar, de Elzita Maria de Lima. Tudo isso neste sábado. Também a mulher amada preparou pirarucu, um dos mais saborosos peixes do mundo, no tucupi e jambu. Delícia! Remete-me ao tacacá da banca defronte ao Colégio Nazaré, em Belém do Pará, e à Estação das Docas, trilha que leva a Macapá e ao Caribe. E assim avança o sábado, no seu rio azul como os poemas da Alcinéa Maria Cavalcante, filha do poeta Alcyr Araújo e afilhada do também mago prestidigitador de palavras Isnard Brandão Lima Filho.

Deus descansou no azul do sábado, segundo os judeus. Penso que o Pai repousou num jardim prenhe de rosas vermelhas, e já colombianas, ao som do riso de crianças, e os jasmineiros espargiam Chanel número 5.

Os sábados são pedras preciosas que nascem no relicário do meu coração, com as quais presenteio a todos que eu amo. Que o azul dos sábados invada a privacidade de todos que precisam me perdoar, para que se livrem de qualquer resíduo de mágoa que respingou na região pantanosa do subconsciente, e sintam-se livres para viajar na luz. Viver os sábados é preciso; viver não é preciso, porque o sétimo dia é feito de azul, tão azul que é branco, como a luz. Os sábados são todos os dias, é a própria vida, e são azuis.

Os sons do acme, misturados aos sons da madrugada, que ouvi hoje, são feitos de uma substância que só encontramos no primeiro beijo, no nascimento dos nossos filhos, na criação de personagens de ficção, na oração, no riso da mulher amada, na luz. São sons que só ouvimos com os tímpanos dos nervos e especialmente às 5 horas, que é a hora em que Deus, que nunca dorme, acorda.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Brasília sempre foi a casa da mãe Joana

Na extremidade da Asa Sul do Plano Piloto, em Brasília, entre a Avenida W3 e o Parque da Cidade, há dezenas de hospitais, clínicas, laboratórios, drogarias e farmácias. O Hospital Pacini fica nesse emaranhado de prédios, na 915 Sul. Na frente do Hospital Pacini há sempre um caos de automóveis, em quantidade e mistura absurdas. Quase defronte ao Bloco E, há uma rampa para embarque e desembarque de pacientes, carregados ou que ainda arrastam os pés. Mas é raro que não haja carros obstruindo o acesso à rampa.

Outro dia, ao apanhar minha sogra, que se submete a tratamento no hospital e utiliza a rampa, estacionei e fui fazer a costumeira fiscalização do local, que estava, como quase sempre, com dois carros fechando a passagem. Telefonei para a polícia, mas até a hora de a minha sogra sair nenhum policial apareceu. Fui à portaria do hospital pedir que ligassem também para a polícia, reiterando meu pedido de socorro. A atendente me disse que o dono de um dos carros estacionados na rampa já fora advertido e fizera ouvido de mercador, mas que estava, naquele momento, no segundo andar. Agradeci a informação e insisti em que ela ligasse para a polícia. 

Suponhamos que o dono do carro fosse um dono do mundo e cirurgião, e que tentasse me aplicar uma bisturizada na barriga... Não perco meu tempo com essa gente. É para lidar também com os donos do mundo que a polícia é preparada. Policiais são aptos a dar porrada e, se for preciso, encher de chumbo quente sacos de dejeto.

Brasília parece a rua do Hospital Pacini. Taí duas leis que estão à espera de autor: uma, regulamentando as penas para infrações no trânsito – tantas vergastadas para quem fez isso, tantas para quem fez aquilo; e a outra, todo prefeito deveria andar, pelo menos uma vez por mês, incógnito, durante um dia, nos ônibus do seu município. Os ônibus públicos de Brasília, por exemplo, são velhos, fumacentos, imundos e caríssimos, sacolejando nas ruas mal sinalizadas e esburacadas da capital federal. Advirta-se: ano passado, começou a chover em agosto.

Nosso governador, ou prefeito, Agnelo Queiroz, está mais para administrador de estádio. Se alguém quiser encontrá-lo, não deve ir ao Palácio do Buriti, mas às obras do Estádio Nacional de Brasília. Natural de Itapetinga, Bahia, nascido em 1958, nosso jovem administrador de estádio fez carreira política em Brasília. Era do Partido Comunista do Brasil, mas se tornou, com carteirinha do PTPMDB e tudo, companheiro de Lula, de quem foi um apagado ministro dos Esportes, por conta do que tem frequentado as editorias  político-policiais. Ano passado, venceu as eleições para administrador do Distrito Federal graças à sua oponente, dona Weslian, que Roriz empurrou para substituí-lo, para se livrar da Lei da Ficha Limpa. Dona Weslian fez um papelão tão vergonhoso nos debates que encheu Agnelo de voto de protesto. Ainda assim, quase derrota o petista.

O fato é que Agnelo está determinado a tirar de São Paulo a abertura da Copa do Mundo de 2014. Será que isso, da mesma forma que as obras bilionária da Copa, já têm carta marcada? Afinal, Agnelo tem cacife: é do mesmo partido da presidenta.

A Agência Brasília, órgão incumbido da propaganda do administrador de Brasília, já produziu dezenas de laudas sobre as obras do Estádio Nacional, antigo Mané Garrincha. Agnelo sempre ressalta que o estádio será concluído em dezembro de 2012, prontinho para o jogo de abertura, dois anos depois. ''Estamos fazendo um estádio com certificação platina de eco arena. É o único do mundo com um certificado assim. O estádio atende a todas as exigências da Fifa para fazer a abertura e, consequentemente, qualquer outra tarefa da Copa'' – disse Agnelo. Já notaram que Agnelo lembra a presidenta quando fala?

Seria bom que Brasília tivesse também “certificação platina”, ou ao menos transporte público decente.

domingo, 10 de julho de 2011

A queda

Em 2004, Lula convidou Alfredo Nascimento, do Rio Grande do Norte e que fez carreira política no estado do Amazonas, para ser ministro dos Transportes. Naquele mesmo ano o entrevistei para a coluna Enfoque Amazônico, que assinava no site ABC Politiko (www.abcpolitiko.com.br). Ele parou uma reunião com dezenas de assessores e me atendeu ali mesmo. Fiz uma varredura dos principais problemas na área dos transportes na Amazônia e ele me respondeu com lucidez a todas às perguntas.

Trabalhando como jornalista no Congresso Nacional, aprendi, lendo sobre e observando políticos, que não há classe mais mentirosa. É verdade também que sempre houve, há e haverá grandes políticos. Mas é no meio político que encontramos os bandidos mais perigosos do país, aqueles que, indiretamente, assassinam milhares de cidadãos assaltando os cofres públicos. Percebi naquela entrevista que Alfredo Nascimento queria passar um atestado de conhecimento ao seu estafe, por isso me fez entrevistá-lo em plena reunião no seu gabinete.

Contudo, ele não me convenceu. Publiquei a entrevista, que informava sobre os passos que Nascimento daria principalmente sobre questões como as rodovias federais e portos na Amazônia. Entretanto, naquela altura, Nascimento era apenas mais um agente da rede de corrupção que começava a ser montada, como nunca se viu neste país. O tempo, porém, que é um agente implacável, encarregou-se de mostrar que Alfredo Nascimento era mais um Lampião. Da mesma forma que Fidel Castro e agora Hugo Chávez, como José Dirceu, Antonio Palocci, José Jenuíno, José Paulo Cunha, para citar apenas alguns frequentadores da mídia, caiu de podre.

Sobreviveu sete anos no comando do Ministério dos Transportes, setor enlameado, que Nascimento transformou num pântano, tão fedorento que lembra até o Senado subterrâneo  do maranhense Zé Sarney. Queda de ministro é como o tombo de grandes árvores na Amazônia, o roubo é sempre milionário e arrasta familiares e assessores.

Nascimento queria ser governador do Amazonas, mas algumas instituições democráticas estão atentas. Um cara desses como governador se tornaria dono de metade do Estado. Em Brasília, José Roberto Arruda, o quadrilheiro brasiliense, seria fichinha na frente dele. Atenção: a Justiça oferece muitas brechas e o curral eleitoral é manejado sob rédeas curtas. Assim, a politicalha está sempre pronta para voltar a grudar a boca na teta do erário.

A sociedade precisa ficar atenta, agora, para o processo do Mensalão, um esquema de corrupção como nunca se viu neste país, parafraseando Lula. A propósito, Lula não sabia de nada. O Mensalão era uma máfia, chefiada por Zé Dirceu, também convidado por Lula para a chefia da Casa Civil. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a condenação de 36 dos 38 mensaleiros. “O STF servirá como verdadeiro paradigma para o Poder Judiciário brasileiro e, principalmente, para toda a sociedade, a fim de que os atos de corrupção, mazela endêmica no Brasil, sejam tratados com o rigor necessário” - diz o parecer do procurador.

Inicialmente, eram 40 réus, mas foram retirados do processo Sílvio Pereira, que fez acordo com o Ministério Público, e José Janene, que morreu. Também o procurador retirou da denúncia o ex-secretário de Comunicação Social, Luiz Gushiken, e Antônio Lamas, ex-assessor do deputado Valdemar Costa Neto.
Segue-se a lista dos mensaleiros, que, com exceção dos inocentados, estiveram, durante muito tempo, com a venta melada do leite da burra federal.

1 - Anderson Adauto (ex-ministro dos Transportes) – Acusado pelos crimes de corrupção ativa (2 a 12 anos de prisão e multa) e lavagem de dinheiro (3 a dez anos de prisão e multa).

2 - Anita Leocádia (ex-assessora do deputado Paulo Rocha) – Acusado pelo crime de lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa).

3 - Antônio Lamas (irmão de Jacinto Lamas e ex-assessor de Valdemar Costa Neto) – A PGR pede a absolvição do réu por falta de provas.

4 - Ayanna Tenório (ex-vice presidente do Banco Rural) – Acusada por gestão fraudulenta de instituição financeira (3 a 12 anos de prisão e multa), lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de reclusão e multa) e formação de quadrilha (1 a 3 anos).

5 - Breno Fischberg (sócio na corretora Bônus-Banval) – Foi acusado por formação de quadrilha (1 a 3 anos de reclusão) e lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa).

6 - Carlos Alberto Quaglia (dono da Empresa Natimar) – Acusado pelos crimes de formação de quadrilha (1 a 3 anos de reclusão) e lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa).

7 - Carlos Alberto Rodrigues Pinto (ex-deputado federal) – Acusado pelos crimes de corrupção passiva (2 a 12 anos de prisão e multa) e lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa).

8 - Cristiano Paz (sócio de Marcos Valério) – Acusado pelos crimes de corrupção ativa (2 a 12 anos de prisão e multa), peculato (2 a 12 anos de prisão e multa), formação de quadrilha (1 a 3 anos), evasão de divisa (2 a 6 anos de reclusão) e lavagem de dinheiro (3 a 10 anos e multa).

9 - Delúbio Soares (ex-tesoureiro do PT) – Acusado pelo crime de corrupção ativa (2 a 12 anos de prisão e multa) e formação de quadrilha (1 a 3 anos e multa).

10 - Duda Mendonça (publicitário) – Acusado pelo crime de lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa) e evasão de divisas (2 a 6 anos e multa).

11 - Emerson Eloy Palmieri – (ex-tesoureiro informal do PTB) – Acusado pelos crimes de corrupção passiva (2 a 12 anos de prisão e multa) e lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa).

12 - Enivaldo Quadrados (dono da Corretora Bônus-Naval) – Acusado pelos crimes de formação de quadrilha (1 a 3 anos de reclusão) e lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa).

13 - Geiza Dias (sócia de Marcos Valério) – Acusada pelo crime de corrupção ativa (2 a 12 anos de prisão e multa), lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de reclusão e multa), formação de quadrilha (1 a 3 anos) e evasão de divisas (2 a 6 anos de reclusão).

14 - Henrique Pizzolato (ex-diretor de marketing do Banco do Brasil) - Acusado pelos crimes de peculato (2 a 12 anos de prisão e multa), corrupção ativa (2 a 12 anos de prisão e multa), lavagem de dinheiro (3 a dez anos de prisão e multa).

15 - Jacinto Lamas (ex-tesoureiro do PL) – Acusado pelos crimes de formação de quadrilha (1 a 3 anos de reclusão), corrupção passiva (2 a 12 anos de prisão e multa) e lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa).

16 - João Cláudio Genu (ex-assessor da liderança do PP) - Acusado pelos crimes de formação de quadrilha (1 a 3 anos de reclusão), corrupção passiva (2 a 12 anos de prisão e multa) e lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa).

17 - João Magno (deputado federal do PT-MG) - Acusado pelo crime de lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa).

18 - João Paulo Cunha (ex-presidente da Câmara dos Deputados e atual deputado federal) - Acusado pelos crimes de corrupção passiva (2 a 12 anos de prisão e multa), lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa) e peculato (2 a 12 anos de prisão e multa).

19 - José Dirceu (ex-ministro da Casa Civil) – Acusado pelos crimes de formação de quadrilha (1 a 3 anos de reclusão) e corrupção ativa (2 a 12 anos de prisão e multa).

20 - José Genoíno (deputado federal do PT e atual assessor especial do ministro da Defesa Nelson Jobim) - Acusado pelo crime de corrupção ativa (2 a 12 anos de prisão e multa) e formação de quadrilha (1 a 3 anos de reclusão).

21 - José Janene (primeiro tesoureiro do PP) - Foi extinta a punibilidade em razão do seu falecimento.

22 - José Luiz Alves (ex-chefe de gabinete) - Acusado pelo crime de lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa), formação de quadrilha (1 a 3 anos de reclusão) e evasão de divisas (2 a 6 anos de prisão).

23 - José Roberto Salgado (diretor do Banco Rural) - Acusado pelo crime de gestão fraudulenta (3 a 12 anos de prisão e multa).

24 - José Borba (ex-deputado federal) - Acusado pelo crime de corrupção passiva (2 a 12 anos de prisão e multa) e lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa).

25 - Kátia Rabello (ex-presidenta do Banco Rural) – Acusada pelo crime de evasão de divisas (2 a 6 anos de prisão e multa), gestão fraudulenta (3 a 12 anos de reclusão e multa), lavagem de dinheiro (3 a dez anos de reclusão e multa) e formação de quadrilha (1 a 3 anos de reclusão).

26 - Luiz Gushiken (ex-ministro da Secretaria de Comunicação) – Foi absolvido por falta de provas.

27 - Marcos Valério (suposto operador do mensalão e dono de agências de publicidade) - Acusado pelo crime de corrupção ativa (2 a 12 anos de prisão e multa), peculato (2 a 12 anos e multa), lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de reclusão e multa), formação de quadrilha (1 a 3 anos de reclusão) e evasão de divisas (2 a 6 anos de reclusão e multa).

28 - Pedro Corrêa (ex-deputado federal pelo PP) - Acusado pelos crimes de formação de quadrilha (1 a 3 anos de reclusão), corrupção passiva (2 a 12 anos de prisão e multa) e lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa).

29 - Pedro Henry (deputado federal do PP) - Acusado pelos crimes de formação de quadrilha (1 a 3 anos de reclusão), corrupção passiva (2 a 12 anos de prisão e multa) e lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa).

30 - Paulo Rocha (deputado do PT) - Acusado pelo crime de lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa).

31 - Professor Luizinho (ex-deputado do PT) - Acusado pelo crime de lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa).

32 - Ramon Hollerbach (publicitário) – Acusado pelo crime de corrupção ativa (2 a 12 anos de prisão e multa), peculato (2 a 12 anos e multa), lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de reclusão e multa), formação de quadrilha (1 a 3 anos de reclusão) e evasão de divisas (2 a 6 anos de reclusão e multa).

33 - Roberto Jefferson (ex-deputado federal do PTB) - Acusado pelos crimes de lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa) e corrupção passiva (2 a 12 anos de prisão e multa).

34 - Rogério Tolentino (advogado) - Acusado pelo crime de corrupção ativa (2 a 12 anos de prisão e multa), lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de reclusão e multa) e formação de quadrilha (1 a 3 anos de reclusão).
35 - Romeu Queiroz (ex-deputado federal do PSB) - Acusado pelo crime de lavagem de dinheiro (três a dez anos de prisão e multa) e corrupção passiva (dois a 12 anos de prisão e multa).

36 - Sílvio Pereira (ex-secretário geral do PT) - O processo está suspenso. Está cumprindo as condições propostas.

37 - Simone Vasconcelos (diretora financeira da SMPB) - Acusada pelo crime de corrupção ativa (2 a 12 anos de prisão e multa), lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de reclusão e multa), formação de quadrilha (1 a 3 anos de reclusão) e evasão de divisas (2 a 6 anos de reclusão e multa).

38 - Valdemar Costa Neto (deputado federal do PR) - Acusado pelo crime de formação de quadrilha (1 a 3 anos de reclusão), corrupção passiva (2 a 12 anos de prisão e multa) e lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa).

39 - Vinicius Samarane (diretor do Banco Rural) - Acusado pelo crime de evasão de divisas (2 a 6 anos de prisão), gestão fraudulenta (3 a 12 anos de prisão e multa), lavagem de dinheiro (3 a 10 anos de reclusão e multa) e formação de quadrilha (1 a 3 anos de reclusão).

40 - Zilmar Fernandes (sócia de Duda Mendonça) - Acusada pelo crime de lavagem de  dinheiro (3 a 10 anos de prisão e multa) e evasão de divisas (2 a 6 anos de prisão).