sábado, 30 de julho de 2011

Apesar do PT

Nem o aparelhamento do Estado e da sociedade, a que o PT vem se dedicando ferozmente, desde 2003, fará com que o Brasil pare de se desenvolver, graças à sua mestiçagem e espiritualidade. Em resumo, foi isso o que o intelectual, jornalista e escritor Ruy Fabiano disse em entrevista a este blog

Brasília, 30 de julho de 2011 - Ruy Fabiano é daqueles jornalistas fundamentais para se entender o Brasil. Sintoma disso é que outro jornalista, Ricardo Noblat, responsável pela premiada internacionalmente transformação editorial e gráfica pela qual passou o maior jornal da capital do país, o Correio Braziliense, na década de 1990, e hoje colunista de O Globo, publica religiosamente todos os sábados artigo de Ruy Fabiano no seu blog, que é o mais lido do país. Esses artigos são verdadeiros bisturis, que vão até o osso na análise do que está acontecendo no âmbito político do país, desmascarando a dissimulação dos camaleões que se agarram com os beiços à farta teta do poder, a qualquer custo.

Ruy Fabiano é carioca e começou a trabalhar como jornalista em 1972, exercendo também a crítica musical. Em 1979, mudou-se para Brasília e passou a se dedicar ao jornalismo político, trabalhando para o Correio Braziliense e para a Agência Estado. É também escritor, autor do romance Profanação (Editora A Girafa, São Paulo, 2005, 253 páginas), ambientado em Brasília, e do livro de contos Os Arquivos de Deus (Editora Novo Século, São Paulo, 2008, 209 páginas).

Fui me encontrar com Ruy Fabiano na casa dele, no Lago Norte, península com formato de bota no Lago Paranoá. A casa do grande intelectual é nova, como tudo em Brasília (que tem muita coisa sucateada, como o sistema viário, o transporte público, os sistemas educacional, de saúde e de segurança pública, a Universidade de Brasília, a rodoviária do Plano Piloto... a lista é grande), mas por dentro conserva a atmosfera de um casarão antigo, especialmente a biblioteca, que é o escritório de Ruy Fabiano e onde ele me recebeu na manhã de 28 de março, uma quinta-feira.

O Brasil é singular no mundo. É a natureza mais pujante do planeta em recursos naturais e condições climáticas, mestiço, espiritualista e cada vez mais rico, apesar dos políticos. Mas nesse cenário o PT, e Lula, não poderão se sustentar mais por muito tempo. Foi isso, de forma sintética, o que disse Ruy Fabiano na entrevista que se segue.

O sistema político brasileiro faliu?

A palavra falir não se aplica, porque pressupõe que em algum momento o sistema político brasileiro teve alguma performance. Ele é disfuncional. O presidencialismo de coalizão é um híbrido que não funcionou. É um monstrengo, porque a Constituição de 1988 foi elaborada tendo em vista o sistema parlamentarista de governo. Mário Covas era o mais entusiasta disso aí e organizou tudo nessa direção. Estava lá também o Fernando Henrique, esse povo todo, querendo o parlamentarismo no Brasil. A certa altura o presidente Sarney disse que não queria ser a rainha Elizabeth. Eu lembro perfeitamente dessa frase dele. O grupo chamado Centrão, que não tinha interesse na área de organização política, mas tinha interesse na área econômica, de não permitir que o país adotasse um perfil socialista, se mobilizou para derrubar iniciativas esquerdizantes na Constituição, e acabou fazendo o jogo do governo Sarney de demolir o parlamentarismo. Só que fizeram uma demolição pela metade. Instrumentos como as medidas provisórias foram inspiradas do modelo italiano, parlamentarista. A medida provisória dá ao Executivo o poder de legislar, sumariamente. Só que no regime parlamentarista o poder executivo é o poder legislativo, mas no regime presidencialista, não. Temos um sistema em que o Executivo legisla e a última palavra é do Legislativo. Se ele derrubar os vetos do presidente, o presidente não governa, o que torna o Congresso um ambiente de negócios.

O ex-presidente Lula já afirmou que é candidato a presidente em 2014. Se ganhar, poderá radicalizar o aparelhamento do Estado, que ele começou em 2003 e que continua até hoje, e instalar uma ditadura nos moldes da de Hugo Chávez na Venezuela, que é o que Lula sempre almejou, manifestando isso com a simpatia, nos seus oito anos de mandato, a ditadores mundo afora, especialmente Fidel Castro, o mais longevo do mundo. As instituições brasileiras estariam maduras para impedir uma ditadura?

Falar, hoje, em 2014, é muito arriscado, porque a rapidez com que as mudanças têm ocorrido, no Brasil e no mundo, não autoriza que se faça um prognóstico de tão longo prazo. Contudo, o Estado brasileiro já está aparelhado. Não só o Estado, a própria sociedade civil está aparelhada. Por exemplo: as entidades associativas, de classe, sindicatos, organizações como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), a ABI (Associação Brasileira de Imprensa), tudo isso aí já está aparelhado partidariamente. A UNE, União Nacional dos Estudantes, que sempre se notabilizou por ser uma instituição independente, por ser composta de jovens ainda não contaminados por interesses corporativos, por ser composta de pessoas que tinham uma rebeldia congênita e um papel no cenário político, acabou. Hoje, a UNE faz parte do PCdoB, que é uma célula do governo, da estrutura de poder do PT. Precisamos ver como isso estará até 2014, porque nós não sabemos do cenário econômico, do cenário internacional, e tudo isso provoca uma ebulição muito grande. Lula está fazendo um mero jogo de especulação. Ele tem um capital eleitoral grande junto às massas, que elegem, mas influem pouco na governabilidade. As duas eleições de que ele participou e a da sucessora dele, Dilma Rousseff, foram eleições muito disputadas e em nenhuma delas ele teve uma vitória no primeiro turno, uma vitória massacrante. Se contabilizarmos o universo de eleitores que exerce influência pós-eleitoral, pelo nível de renda, pelo nível intelectual, vai-se perceber que Lula é muito questionado nesse âmbito. E ele ainda lida com um dado complicado: se o governo Dilma for mal sucedido, ele será sempre apontado como o que deixou a herança maldita; se o governo Dilma for bem sucedido, ela terá a possibilidade legítima de postular a reeleição.

Você acredita que o Mensalão realmente será julgado no Supremo Tribunal Federal (STF)?

Não tem como não ser. Agora, tem como diluir isso aí. Os protagonistas do primeiro escalão podem conseguir atenuantes. Mas, de qualquer forma, os 39 restantes já são pessoas fora do cenário político. A figura mais importante é o José Dirceu (ex-chefe da Casa Civil da presidência da República e tido como chefe do Mensalão), que não ocupa nenhum cargo no Estado. José Dirceu é hoje uma pessoa da iniciativa privada. A gente sabe que ele é ainda uma peça-chave dentro do PT, exerce uma liderança muito grande, mas institucionalmente ele já está fora do jogo, não é ministro, não é deputado, não é nada. Então, se ele for condenado, isso será visto como uma coisa menor, à margem do processo político. Se ele for absolvido, aí ele volta com força.

Faça uma avaliação do homem, do político e ex-presidente Lula.

Lula é uma figura ímpar na história da política brasileira. Não é o único político que veio de uma origem pobre. O Juscelino (Kubitschek) teve origem muito humilde. E há outros políticos que não nasceram em berço de ouro. O que diferencia Lula desses personagens é que ele manteve os sinais exteriores da origem dele, e cultivou esses sinais, inclusive a condição de iletrado, e fazia até brincadeira com isso. Lula é um sujeito muito inteligente. Assim como se diz que existe ouvido musical, existe o ouvido político, e Lula tem ouvido absoluto nessa área. Ele capta as coisas e sabe jogar para o público dele. Ele é realmente um talento político. Agora, ele tem um projeto pessoal de poder e se associou a uma série de forças políticas com as quais não se sente efetivamente comprometido. Ele já disse mais de uma vez que não é socialista e que não é comunista. Desde o tempo em que liderava sindicatos ele fazia muito claramente distinção entre interesses da classe trabalhadora, de estudantes, acadêmicos, socialistas, intelectuais, mas se juntou a esse universo todo para chegar aonde ele chegou. Ele tem uma capacidade enorme como político, mas não tem consistência para ter duração muito grande nesse cenário. Acho que a História vai tratá-lo com menos condescendência do que a Fernando Henrique. O resgate do Fernando Henrique, depois de toda a desconstrução que o Lula fez dele, mostra que FHC tem uma consistência maior. E Lula vai enfrentar um período de desconstrução da sua imagem ao longo do governo Dilma, porque, se o governo for mal, a desconstrução será inevitável e espontânea; se for bem, vai haver uma desconstrução política para que ela prossiga.

Se você tivesse que selecionar um item vital para o desenvolvimento do Brasil, qual seria?

O Brasil precisa se organizar politicamente, porque é a política que organiza o resto. Esse quesito, eu acho que é básico; o restante não é preciso organizar porque a ação econômica se dá espontaneamente. A própria sociedade tem energias criadoras. A bagunça política gera danos terríveis, inclusive na escala de valores da população.

Mas como se organizar politicamente?

O Brasil fez uma Constituição num momento muito confuso da sua história. Estava saindo de 20 anos de um regime militar, que organizou uma conjuntura da Guerra Fria, com polaridade ideológica, que se rompeu a certa altura, e nesse momento de rompimento – a queda do Muro de Berlim – o Brasil fez sua constituinte com uma agenda ainda da Guerra Fria. A ditadura aprisionou demandas da sociedade por muito tempo e quando isso acabou houve uma enxurrada de reivindicações, delírios, ilusões, e tudo isso foi para a Constituição, que regulava até taxa de juro. Era como querer regular a temperatura da atmosfera pela lei. Uma Constituição muito cheia de detalhismo; tem um capítulo de legislação trabalhista que parece uma CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Tudo isso é problemático, engessa o país. Penso que a solução para o Brasil seria uma nova constituinte. 

Isso só será possível com uma grande pressão da sociedade, não?

A sociedade não acredita mais na política. Para mobilizar a sociedade para uma constituinte seria preciso que a mídia estivesse de acordo com essa tese, mas a mídia teme essa tese, porque hoje é controlada por grupos econômicos, que têm muitos outros interesses. Não embarcarão numa coisa que é uma porta de entrada que ninguém sabe como será a saída. A constituinte é como uma guerra: sabe-se como começa e não como termina, nem o estrago que causa. O que pode haver são arremedos, como criar uma constituinte congressual, por meio de iniciativas do próprio Congresso, e não por uma mobilização da sociedade.

Isso quer dizer que só nos resta o potencial econômico para levar o país ao desenvolvimento. Os políticos representariam o caos.

Dizia-se, antigamente, que o Brasil cresce de noite porque o governo está dormindo. Esse princípio tem fundamente. O Brasil é um país com algumas peculiaridades que só há aqui mesmo. É um país multicultural, com um processo de miscigenação numa escala que não ocorre em parte alguma do planeta. No Brasil não existe guerra étnica e não existe guerra religiosa, que são dois tipos de conflitos insolúveis. Guerra étnica, por exemplo, vimos entre sérvios e croatas, chechenos e russos, palestinos e israelenses – um não pode ver o outro, matam mesmo, e vão criando um contencioso recíproco que não tem fim. Isso não tem aqui. Quanto ao racismo, é um sentimento individual que há em toda parte. O Brasil é mestiço; a mestiçagem vai diluindo as raças e com isso o racismo, e aqui qualquer manifestação racista é punida até com excessivo rigor. Quem manifestar alguma contrariedade nesse assunto vai preso, não tem fiança e o crime não prescreve. É um negócio duro demais, desproporcional ao delito. Até por assassinato se consegue fiança. Então, o Brasil tem este patrimônio, de ser um país que não tem contencioso político grave com nenhum vizinho; tem um potencial de biodiversidade, de recursos naturais, único – é a maior extensão territorial de terras agricultáveis do mundo -, e tem sol e safra o ano inteiro. São condições que a natureza ofereceu. E o Brasil tem atraído a atenção do mundo exatamente porque é receptivo a todos. Com todas as limitações – estamos às voltas com apagão de mão de obra tecnológica -, o Brasil já é o sétimo PIB (Produto Interno Bruto) e até o final da década se prevê que ele seja o quinto, isso sem levar em conta que existe uma economia informal enorme, que se avalia que seja metade da economia formal. O Brasil está saindo do estado de ser puramente um país com potencialidade para começar a realizar essa potencialidade. Está só no começo. O país acontecerá até por uma fatalidade, uma predisposição do destino, que faz tudo convergir para cá.

O que você acha das cotas étnicas?

Acho uma bobagem, um disparate, num país mestiço se falar em cota étnica. Que etnia? Eu mesmo não sei qual é a minha etnia, porque a minha família tem gente de várias nacionalidades. Cotas criam um problema, que é racializar a crise brasileira, tentando-se criar grupos étnicos que não se sustentam. Por exemplo: no movimento negro 90% são mulatos. O mulato é o branco com o negro. Então, por que a opção pelo negro e não pelo branco? Teve o caso, emblemático, que aconteceu na Universidade de Brasília (UnB), de dois gêmeos que foram se submeter ao sistema de cotas. Um, foi considerado negro e o outro, não. Não sei se isto é positivo, mas pode-se tentar criar cotas sociais, no sentido de se facilitar o acesso social, porém não vejo sentido em acesso racial.

Ajude a resolver uma equação. Como você classificaria o governo petista: fascista ou comunista?

Por enquanto, nem uma coisa, nem outra. Ele é confuso, porque o PT se submeteu a uma mutação ao longo do tempo. O PT surgiu daquele movimento sindicalista do ABC paulista no tempo do regime militar, e o discurso da época era de um sindicalismo diferente do varguista, do pelego. Lula era contra imposto sindical. Então parecia uma coisa moderna. Aquilo atraiu a universidade brasileira e houve a aproximação com os intelectuais. Aí o PT adquiriu um viés socialista e se desenvolveu assim, absorvendo o meio artístico e ganhando espaço como crítico da conduta ética dos políticos, acenando com um mundo diferente quando chegasse lá. Chegou, e pôs em prática tudo o que condenou ao longo da caminhada para chegar ao poder. Aí então entrou o viés que chamam de pragmático: não adianta brigar com essa realidade porque ela é assim mesmo; então vamos usá-la para fazer o que é preciso fazer, as transformações sociais, distribuir renda. Até os instrumentos que eles passaram a usar para fazer isso eram os que eles consideravam negativos, assistencialistas, o Bolsa Família, todo o sistema de bolsas, que foi estabelecido no governo anterior (de Fernando Henrique Cardoso) e que eles consideravam manipulação do Estado. Mas usaram. Chegaram ao poder e, como todo mundo que chega, quer ficar. Então, o PT está num processo de mutação, foi uma coisa, se tornou outra, mais outra e no poder se tornou um partido de viés conservador e na economia já começa a mostrar um viés que o aproxima do fascismo, porque o controle da economia pelo Estado, hoje, é óbvio, inclusive o controle das empresas. Eu tenho uma expectativa de preocupação com relação a isso. 

Como ocorre, hoje, o colonialismo europeu e norte-americano no Brasil?

O colonialismo é ainda cultural. Tudo o que compõe a grande mídia, em que entra, além dos jornais, o cinema, a música, a televisão, a internet, tudo isso aí estabeleceu um neocolonialismo. Porém na minha geração, que hoje está com 50 anos, tinha a presença maciça da música norte-americana, inglesa, mas você tinha também uma música popular brasileira também forte, havia um equilíbrio. Isso aí hoje não há. A geração dos meus filhos, toda, fala inglês, como uma segunda língua e em alguns casos como se fosse a primeira. Isso não acontecia na nossa geração. Poucos falavam inglês. Acho que houve um avanço nisso aí. Mas não sei aonde isso vai dar.

Então esse colonialismo seria positivo?

Eu acho que não. Acho que a cultura brasileira tem coisas muito ricas e que não vão ser colonizadas. É inevitável que no sistema de globalização a comunicação circule de uma maneira intensa, mas existe também uma coisa que vai daqui para lá. Por exemplo: Portugal se queixa da colonização brasileira, e ela de fato existe, as novelas, a música, tudo isso tem uma presença muito forte no cenário português. Agora, o que prevalece é realmente a cultura anglo-saxônica.

Qual seria o verdadeiro embrião da identidade brasileira?

O Brasil é um país que ainda está criando uma identidade, a qual vai sair dessa civilização multicultural miscigenada. Nós não sabemos ainda que país vai resultar disso tudo, mas tem coisas que estão surgindo aí e que ainda não têm uma visibilidade maior que vão marcar essa civilização brasileira mais adiante, pois a gente percebe que os elementos dessa miscigenação cultural são muito ricos. Mas este momento é muito confuso para identificar cultura no mundo, quanto mais no Brasil. A Europa está vivendo uma invasão islâmica, que gera confusão e produz de vez em quando tragédias como a da Noruega, quando alguém não se conforma com o que está acontecendo, alguém que tem uma imagem europeia do passado ideal e que vê que não está presente mais, e aí resolve criar os bodes expiatórios e sai matando. Ao se industrializar, a cultura, pop, massificante, perdeu muito da sua substância. O referencial de religiosidade, de espiritualidade, se diluiu, com a própria secularização das igrejas; elas viraram instituições de poder e perderam a perspectiva do sobrenatural, do transcendental, que elas ofereciam. Esse referencial desapareceu, e não há nenhuma civilização que não tenha surgido a partir de uma religião. A Europa é o fruto maior da civilização cristã. A cristandade construiu a Europa. As pessoas viajam para lá para ver castelos, catedrais, igrejas, tudo fruto do cristianismo. No fim do Império Romano formaram-se feudos e quem organizou e administrou esses feudos foram os padres, que exerciam até função de Estado. Esses feudos se transformaram em nações e, depois do embate com os islâmicos, no tempo de Carlos Magno, a Europa cristã prevaleceu sobre os muçulmanos. Agora, a Europa abdicou do cristianismo. A constituição da União Europeia não menciona nada dessa raiz cristã, diz que a Europa é fruto da civilização grega, da Antiguidade Clássica e da Renascença. É por aí, pela espiritualidade, que o Brasil pode vir a oferecer alguma coisa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário