quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Pesadelo

Desde os portugueses, que "acharam" o Brasil em 22 de abril de 1500, o Estado brasileiro é um dos mais corruptos do planeta, e no governo petelho os ratos enlouqueceram, locupletando-se à luz do dia com patrimonialismo, nepotismo, desvio de dinheiro público, furto de merenda escolar e roubo pesado do erário. A coisa ficou tão desavergonhada que o Senado Federal, dos atos secretos de Zé Sarney, e a Esplanada dos Ministérios, dos capos (o capo di tutti i capi nunca sabe de nada), ficaram parecidos com o bas-fond de São Paulo. A Polícia Federal deve utilizar um senhor efetivo e todo o tempo só para investigar essa máfia de lombrigas.

Mas chegamos a um ponto que não dá mais para ficar só olhando, pois tem gente morrendo de fome (num país como o Brasil), nas filas imorais de hospitais públicos indecentes, por causa de merenda escolar surrupiada, devido a verbas públicas assaltadas, pessoas são assassinadas nas ruas e rodovias, outras, são escravizadas, e crianças morrem várias vezes a cada estupro que sofrem entre lixeiras nos becos sórdidos das metrópoles.

Como não é possível reunir todos os vermes que matam e roubam, principalmente os de colarinho branco, na Muralha da China, e crivá-los de chumbo quente; como não é possível a reforma política de verdade (o que temos é a “reforma” que Zé Sarney está liderando no Senado Federal); como não é possível tornar o crime de corrupção inafiançável e imprescritível; como não é possível mobilizar os caras-pintadas da União Nacional dos Estudantes (UNE), que se tornou mais um cabide de emprego dos petelhos e cia. e não tem mais caras-pintadas; como não é possível aplicar uma marretada nos beiços de todos os mamadores que sugam e mordem o úbere inchado do erário; como não é possível aplicar 10% do PIB na Educação, com seriedade; como a “presidenta” quer criar mais impostos no bolso de um povo que só falta doar, literalmente, seu sangue para vampiros mafiosos; e porque o riso vem dando lugar ao grito, comecemos uma revolução gentil.

Para começar, não joguemos lixo nas ruas, nem no chão de casa, mas na lixeira, e, se possível, reciclado; não furemos as filas, pois elas já estão prenhes de moribundos; não aplaudamos políticos desonestos, que só querem enriquecer suas famiglias; se você tiver tempo, proteste, de alguma forma, contra a bandalheira, não dê guarida para patifes, principalmente os que já mamaram tanto na teta do erário que parecem múmias; não faça parte de máfias por omissão, denuncie anonimamente, porque há sempre um bom policial, que, como anjo de luz, está disposto a realizar seu trabalho; analise o discurso dos políticos – eles mentem o tempo todo; e sorriamos para Deus, que é o Éter.

Os bandidos não sabem que o mundo físico, o ter, ter e ter, é finito. Pode acabar até em uma queda na rua; num jorro de adrenalina e parada cardíaca; nos rins atrofiados; no câncer, obsceno; na bala de um bandido rival e mais poderoso; numa angústia que ele não enxerga e que é apenas a prisão espiritual em que ele encerra a si mesmo; no pesadelo. Não há saída. Riquezas materiais, por mais trilionárias que sejam, levam a nada, se não foram utilizadas para produzir risos nas crianças que brincam no campo de centeio.

Bandidos pensam que a vida é controlada à bala, e que podem estuprar crianças impunemente, que podem gozar serrando pessoas ainda vivas. Os gorilas (ditadores), como Hitler, Josef Stalin, Mao Tsé-Tung, Ban Ki-moon, Fidel Castro, Hugo Chávez, Muamar Kadafi, Mahmud Amadinejá, Hu Jintao, e os candidatos a gorila, todos eles, querem ser como os reis absolutistas: acham que os noivos devem lhes entregar suas noivas; os pais, suas filhas; as mulheres, sua honra; e todos, suas crianças e, claro, suas vidas.

Oh! Não! Não é assim. O mundo físico é apenas sombra da mente. A mente é o ser, e é eterna. Ouçam o Canto da vida eterna, do filósofo japonês Masaharu Taniguchi:

Este corpo é como o arco-íris.
O arco-íris não é perene
e em breve desaparece.

Este corpo é como a bolha.
A bolha não é perene
e em breve desaparece.

Este corpo é como a miragem.
A miragem não é perene
e em breve desaparece.

Este corpo é como o eco.
O eco não é perene
e em breve desaparece.

Este corpo é como o relâmpago.
O relâmpago não é perene
e em breve desaparece.

Este corpo é como a nuvem.
A nuvem não é perene
e em breve desaparece.

Este corpo é como a correnteza.
A correnteza é inconstante
e se escoa sem parar.

Este corpo é como a bananeira:
parece que é sólido,
mas não tem consistência.

Este corpo é como o fogo:
parece que transmite calor,
mas a tudo consome e se extingue.

Este corpo é como o sonho:
parece que é real,
mas é irreal e efêmero.

Este corpo vem da ilusão:
parece ter substância,
mas é vazio e efêmero.

Este corpo é desamparado;
parece ter amparo,
mas logo se desmorona.

Este corpo não possui mente;
embora pareça possuí-la,
não a possui, tal qual entulho.

Este corpo não tem vida;
como palha carregada pelo vento,
é arrastado pela força do carma.

Este corpo é impuro;
embora pareça formoso,
está repleto de impurezas.

Este corpo é transitório;
embora pareça duradouro,
um dia terá de morrer.

Não é existência verdadeira
o que some como a bolha,
o arco-íris, a miragem, o eco.

Não tomeis por vosso Eu
o que não é existência verdadeira;
jamais o considereis vosso Eu.

O que é efêmero não é o vosso Eu.
O que morre não é o vosso Eu.
O que desaparece não é o vosso Eu.

O ser infinito, eis o Eu!
O ser búdico, eis o Eu!
O ser diamantino, eis o Eu!

O que é eterno, eis o Eu!
O que é imortal, eis o Eu!
O que é universal, eis o Eu!

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Eclusas de Tucuruí, um tiro que Lula disparou no escuro e acertou o alvo



RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

As Eclusas de Tucuruí, inauguradas em novembro de 2010, representam potencializar a riqueza pujante do agronegócio da Região Centro-Oeste (Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal), mas não alterarão a rotina do ribeirinho da região, mera paisagem aos olhos dos governantes de Brasília e do Pará. Lúcio Flávio Pinto, sumidade internacional em Amazônia, faz, no artigo Caminho de saída, publicado no seu Jornal Pessoal, de 15 de março, uma análise de uma das obras civis mais importantes para a Amazônia, e para o Centro-Oeste, no início deste século.

A BR-163 rasga o Brasil do Rio Grande do Sul ao Pará, passando por Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Tem 1.780 quilômetros de extensão, com apenas um terço asfaltado. Liga Cuiabá, a capital do Mato Grosso, a Santarém (PA), no baixo Amazonas. É por ela que os grãos da Região Centro-Oeste seguem para os portos do Pará. Os militantes dos movimentos ecológicos não querem nem ouvir falar na BR-163. A hidrovia Araguaia-Tocantins é, portanto, a saída para o agronegócio do Centro-Oeste.

As eclusas vencem um desnível de cerca de 75 metros, imposto pela construção da barragem da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, permitindo a navegação de Marabá (PA) a Belém, a capital do Pará, localizada na boca do rio Guamá, que deságua no Mundo das Águas, formado pelos rios Tocantins e Pará, não muito distante do oceano Atlântico. São as maiores eclusas do mundo em desnível. São duas, com câmaras de 210 por 33 metros, cada uma vencendo cerca de 35 metros de desnível, com um canal de cerca de 5,5 quilômetros. Ligam os rios Tocantins e Araguaia ao porto de Belém, numa extensão de mais de 2 mil quilômetros.

Começaram a ser construídas em 1981. Em 1987, as obras foram paralisadas por ordem do ex-presidente Fernando Collor de Mello e só foram retomadas em julho de 2004, por Luiz Inácio Lula da Silva, que queria desalojar o tucano Simão Jatene do governo do Pará. E conseguiu. Jatene foi sucedido pela petista Ana Júlia Carepa, que quase afunda o Pará, e voltou ao governo este ano.

O artigo que se segue, Caminho de saída, de Lúcio Flávio Pinto, é esclarecedor. Lúcio, paraense de Santarém, é o jornalista que mais entende de Amazônia, em todo o mundo.

Caminho de saída

LÚCIO FLÁVIO PINTO

No ano passado foi inaugurada no Pará uma das maiores obras de engenharia hidráulica no mundo. Os paraenses esperaram por ela durante três décadas. Agora, parecem não se dar conta do seu significado e do que fazer com ela em seu benefício. Pode ser mais um cavalo de Tróia.

Quatro meses depois de inaugurado, o sistema de transposição da barragem da hidrelétrica de Tucuruí ainda é um mistério para os paraenses, que esperaram durante quase 30 anos pela conclusão da obra. Seu custo é impressionante: 1,6 bilhão de reais. Equivale à maior obra de engenharia hidráulica do mundo: as duas portas de aço que protegem das grandes cheias do Mar do Norte o porto de Rotterdam, na Holanda, o maior da Europa. Mas ainda está longe de permitir a navegabilidade da bacia do Araguaia-Tocantins, que drena 10% do território brasileiro, em seus 2,4 mil quilômetros de extensão.

Pelo contrário: as duas eclusas vão tornar proibitiva a navegação nesse trecho para as pequenas embarcações, que fazem o transporte no baixo Tocantins. Para poder ter acesso aos elevadores hidráulicos e ao canal de concreto, com 5,5 quilômetros de extensão (percurso que será feito em uma hora), a embarcação precisará contar com defensas para se proteger das muralhas laterais das câmaras, que têm 140 metros de extensão.

Terão que dispor ainda de cabos de amarração para ficarem engatadas aos cabeçotes flutuantes, e rádio do tipo VHF, necessário para a comunicação com o operador da eclusa. Só farão a eclusagem as embarcações legalizadas junto à autoridade marítima e cujo condutor seja aquaviário, devidamente legalizado.

A esmagadora maioria das embarcações em operação na região não atende a essas exigências e nem possui condições para preenchê-las, por seu custo, proibitivo para esse tipo de negócio. As providências são necessárias para proteger tanto as embarcações que atravessarem o sistema de transposição como as instalações das eclusas.

O problema é que ninguém pensou na navegação local, nem no habitante nativo da área sob a influência da barragem, que é visto apenas como elemento decorativo da paisagem. O objetivo é atender grandes e poderosos clientes, como os mineradores e os produtores de grãos.

Sempre foi essa a preocupação dos que projetaram os “grandes projetos” na Amazônia, a partir dos anos 1970: identificar os locais onde estavam depositadas as riquezas naturais da Amazônia, como os minérios, e viabilizar meios de transporte até o litoral, de onde a produção seria levada para mercados externos, cada vez mais distantes (a princípio, os Estados Unidos e a Europa; por fim, a Ásia).

No caso de Tucuruí, a busca foi pelo máximo de energia a ser gerada num único ponto. Ao invés de três ou quatro barragens a montante, até Itupiranga, que poderiam vencer sucessivamente desníveis médios de 20 metros, um único represamento de alta queda, que provocou desnível de 70 metros. Com isso, possibilitou o máximo de energia, que chegou a 8,4 mil quilowatts.

Em compensação, foi preciso construir duas enormes eclusas e um longo canal intermediário entre elas para permitir a transposição, num dos maiores sistemas desse tipo em todo o mundo. O desnível é do tamanho de um prédio de 33 andares, como o Real Class, que desabou em Belém no dia 29 de janeiro (2011), no maior acidente da construção civil na capital paraense (embora com menos vítimas do que o outro grave episódio, de 24 anos antes).

Para se ter uma ideia do que representou essa decisão, tomada na metade da década de 70 do século passado, basta compará-la com a opção adotada pelos construtores das duas hidrelétricas em andamento no rio Madeira, em Rondônia. Juntas, elas vão gerar 80% da energia produzida por Tucuruí. Os projetistas descartaram liminarmente a alternativa de levantar uma única barragem no Madeira, o principal afluente do rio Amazonas.

Ao invés de uma só usina, com barragem de 40 metros, formando um grande reservatório, optaram por duas estruturas: Jirau, com desnível de 12 metros, e Santo Antônio, com altura de pouco menos de 20 metros, ambas formando pequenos reservatórios, em conjunto equivalentes a um quinto da área inundada pela represa de Tucuruí, com seus 70 metros.

Como a missão da Eletronortre, concessionária da usina, era se responsabilizar exclusivamente pela energia, que iria atender os dois maiores consumidores individuais do Brasil (a Albrás, em Barcarena, e a Alumar, em São Luís do Maranhão, responsáveis por quase 3% de toda demanda nacional), as eclusas foram entregues aos parcos recursos da Portobras.

A empresa portuária do Ministério dos Transportes foi extinta durante o acidentado percurso da obra e nenhum sucessor deu-lhe andamento. Ela só foi retomada em 2006. Por ironia, quando o Ministério dos Transportes delegou a tarefa à Eletronorte, que a descartara 25 anos antes.

O nó górdio atado em 1979 foi desfeito e a racionalidade - ao menos a formal - foi restabelecida: quem barrou o rio que lhe restabeleça a navegabilidade. Com a enorme vantagem, para a Eletronorte, de executar o serviço com recursos do governo. E maior vantagem ainda para a Construtora Camargo Corrêa, que mantém seu canteiro em Tucuruí há 36 anos, talvez recorde nacional.

Com dinheiro fluindo através do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), não faltaram recursos para que a empreiteira lançasse mão de um bilhão de reais até levar à inauguração das eclusas, em 30 de novembro do ano passado. O ato recebeu as bênçãos do presidente que saía e da sua sucessora, ambos do mesmo partido, o PT, constituindo o casal que gerou e acalentou o PAC: Lula e Dilma Rousseff.

O sistema permitirá a passagem de 40 milhões de toneladas de carga por ano nas duas direções, através de comboios com capacidade para 20 mil toneladas e calado máximo de 4,50 metros. É quase 10% a mais do que a barragem da hidrelétrica de Três Gargantas, na China, que deverá se tornar a maior do mundo, quando (e se) alcançar sua capacidade nominal de geração, mas que conta com cinco eclusas, três a mais do que Tucuruí.

É uma poderosa via de transporte de carga. Mas para quem acha que só agora está sendo corrigido o golpe traiçoeiro dado no Pará nos anos 1970, quando foi decidido escoar a produção de minério de Carajás por ferrovia até o litoral do Maranhão, e não pela costa do próprio Pará, usando o Tocantins, é bom não esquecer que a capacidade da ferrovia de Carajás já ultrapassou 100 milhões de toneladas - e ainda poderá ser expandida. Ninguém jamais previu tanto. Nem a Vale.

Fica cada vez mais claro que essa decisão estava coerente com a razão de ser do projeto: criar volumes crescentes de minério para exportação com o objetivo de chegar ao Japão e, em seguida (o que não foi cogitado inicialmente), à China, com preço melhor, graças à excepcional qualidade do minério de Carajás (com teor de 66% de hematita pura, o dobro do australiano) e ao custo decrescente do frete ferroviário até o porto (a partir da escala de 60 milhões de toneladas, se tornou igual ou inferior ao frete hidroviário).

As eclusas de Tucuruí se enquadram nesse modelo. Elas deverão escoar minérios e produtos siderúrgicos (como ferro gusa e chapas de aço), além de grãos, no sentido sul norte, e os contêineres da Zona Franca de Manaus na direção contrária, no maior fluxo desse tipo de carga em todo país, além de outras possibilidades, como a do gás, que dependem da evolução da pesquisa, da produção e do mercado. Mas tudo em grandes quantidades, o que acarretará o uso oligopolístico do sistem de transposição, em condições de receber 24 comboios diários nas duas direções.

Essas perspectivas só se consumarão definitivamente se outras obras forem realizadas, a montante e a jusante de Tucuruí. Uma das maiores é o derrocamento dos 40 quilômetros do Pedral do Lourenço, acima da barragem, a dragagem do baixo Tocantins, a ampliação do porto de Vila do Conde (ao custo de R$ 700 milhões), o porto de Marabá, e mais as eclusas de Lajeado, no Estado do Tocantins, e Estreito, no Maranhão. No final, talvez o dobro do que se gastou nas eclusas de Tucuruí.

Pode parecer exagero, mas, depois de tantos anos de investimento, a hidrovia Tietê-Paraná ainda tem uma capacidade de carga que é uma oitava parte do que pode ser utilizado em Tucuruí. Não para o benefício da população local e das atividades internas, mas como mais um caminho de passagem de riquezas naturais rumo ao exterior.

Essa é também a perspectiva do superporto da ponta da Tijoca, em Curuçá, no litoral nordeste do Pará. Será um terminal de embarque e reembarque de commodities, caso realmente seja exequível o projeto de construir um terminal próximo ao litoral (dois quilômetros e não de 8 a 11, como se previa), com um canal de acesso profundo, protegido das fortes correntes marítimas e com um fundo estável. Será mais um ponto de lançamento de riquezas para fora e não, como se deseja, um fator de indução do desenvolvimento para dentro. Nessa direção, o destino concebido é o do despejo dos restos do banquete que está sendo servido a privilegiados comensais no Pará.

domingo, 28 de agosto de 2011

Josiane, Tereza, Leila, Sílvia, Telma, Myrta, Graciete, Eliana, Tiana, Roberta, Mara, Célia, Bethania, Elijanete, Tharcilla...

Há dias que não sou visitado por ninguém na França, e na França tenho leitores, como o embaixador português Francisco Seixas da Costa, autor de Tanto Mar? Portugal, o Brasil e a Europa, e que representou seu país em Brasília e agora serve em Paris. Contudo, a maioria dos meus leitores na França é de mulheres, como a minha amiga Yara, cantora, ex-mulher do meu querido amigo, o compositor Luiz Tadeu Magalhães, ambos meus conterrâneos, naturais de Macapá, a cidade que se debruça para a boca do maior rio do mundo, o Amazonas, ao cruzar a Linha Imaginária do Equador. Também de Macapá tenho uma amiga da adolescência. Ela recebeu seu primeiro beijo de mim.

Naquela época, eu frequentava a casa da Leila e da Sílvia, no Igarapé das Mulheres. Eu tinha 14 anos. Era 1968. Os Beatles estavam no auge. Às vezes, na casa do poeta Isnard Lima Filho, eu o ouvia declamar Rosas para a madrugada. As noites, então, eram imortais e tresandavam a perfume. A casa da Leila e da Sílvia era o portal mágico para o jardim secreto da adolescência. As duas irmãs se transformaram, para sempre, em flores que guardo no relicário do meu coração.

Tereza era um santuário que desabrochava da infância quando ofereceu seus lábios virgens para o roçar da minha boca, e o beijo se fez, puro como luz. Se um terremoto me abalou, ela, que é uma flor, sentiu a velocidade vertiginosa da Terra no espaço sideral, e, por toda a eternidade, seguirá com a luz que acendi.

E é sempre com a pureza deste primeiro beijo que me aproximo das mulheres. Na verdade, elas é que me iluminam. Sempre estive cercado de mulheres. Além da minha mãe, que tinha o belo nome de Marina e que era linda como as manhãs de julho na Amazônia, há ainda minha irmã mais velha, Lindomar, a quem chamo de mãe. Minhas companheiras, todas elas, foram luzes que me orientaram em certos pontos obscuros da vinha vida, até eu emergir para as manhãs amazônicas de agosto. Todas as minhas companheiras se entregaram inteiras, sem reservas, ao meu bisturi de poeta, porque sabiam que, com minhas mãos de jardineiro, eu as fazia desabrochar como rosas colombianas, vermelhas, num mergulho conduzido por elas mesmo.

Sou para sempre grato às mulheres da minha vida, pois elas me conduziram ao que eu sou hoje, um espectador maravilhado, um mergulhador nos abismos mais profundos da natureza feminina. Se Deus tivesse sexo, Ele seria Mulher.

Tereza é, hoje, francesa. Bela sempre foi. É amada e tem as joias que Deus nos oferta: filhos. Ela é uma riqueza que vem da França, porque, para o escritor, ser lido gera uma alegria imensa, pois esta é a missão do escritor: escrever. E o texto só é vivificado quando lido. É também para ti que escrevo, Teresa, da mesma forma que escrevo sempre para a metade da minha alma, Josiane.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Muito além de mim

Ver-O-Peso, por Olivar Cunha. É um dos locais que eu mais amo

Tenho me esforçado em escrever ficção. A gente não precisa de muito para produzir. Basta comer o suficiente para não adoecer. Vinha tendo bem mais que isso, mas tudo acabou como num passe de mágica. No mesmo dia, perdi emprego, mulher, casa, comida e roupa lavada. Conheci Celina Madeira Machado Silva e Silva no Bar do Parque, defronte ao Hotel Hilton Belém, na Praça da República. Ela estava na companhia de uma tipa grande como uma elefanta e de uma outra que era todinha uma enguia. Naquela época, andei publicando umas resenhas sobre cinema em O Liberal e Celina era cinéfila. O papo foi longe. Ela me convidou para ir à sua casa no dia seguinte. Morava num casarão em Nazaré. O pai, com o estômago estourando de câncer, vivia recluso esperando a hora de bater as botas. Para não me estender muito, o caso é o seguinte: Celina e eu nos casamos dias depois. Eu fui seu quarto marido. Celina andara à procura de um marido que fosse assim como um pai camarada. A mãe de Celina, uma índia que seu pai comprara em Santarém, fora escravizada a vida toda, mas não morrera sem gerar a filha rebelde. Ao chegar de Portugal, o pai de Celina começou como padeiro em Belém. Anos de economia, comendo restos estragados de frutas e se vestindo com duas mudas de roupa, fizeram dele um magnata do pão. Celina vivia esbanjando a fortuna e batendo perna com suas amigas aliá e peixe-elétrico. Era a cadela do trio. Pôs-me um par de cornos de alce. Mas nosso jogo era tácito. Ela me tirara da sarjeta e me usava como atleta sexual. Naquela manhã, peguei o carro que Celina me dera e fui para o trabalho, uma revista picareta que só me pagava com vales, embora, antes de conhecer Celina, era lá que eu repousava a carcaça, num quartinho decrépito, nos fundos do prédio. Cheguei a tempo de ver o pessoal da Justiça do Trabalho levando tudo. Depois soube que o editor tinha vencido uma causa trabalhista contra o dono da empresa. Voltei para casa. Flagrei minha mulher gemendo, empalada no vergalho do jardineiro em nossa santa cama. Não quis fazer drama. Sentia-me vulnerável e cansado. Fui à cozinha beber água e saí para o quintal. Fiquei bastante tempo sentado num banco debaixo de uma mangueira. “A vida é um jogo perdido; o melhor que podemos fazer é jogar bem” - pensei. “A criação literária é minha igreja; e eu, o padre que oficia a missa. A razão da minha vida é escrever ficção. Se não escrevo, sinto-me vazio, despencando na fossa, no nada. Por isso, necessito criar. E quando estou no lugar ideal nada pode me atingir. Nada! Eu sempre soube que esse casamento é apenas uma passagem de chuva.” Mais tarde voltei ao quarto, peguei minhas coisas. Na sala, encontrei Celina.

- Estou indo embora - disse-lhe. Quase não acreditei no que ela respondeu.

- Tu pegaste a roupa na lavanderia? - eram uns casacos que ela usava quando viajava e que eu levara à lavanderia.

Nessas alturas, tinha feito novas amizades, e um amigo, um verdadeiro irmão, me acolheu na casa dele. Minha passagem pela casa de Celina me proporcionou a oportunidade de me preparar para o vestibular. Ela pagara o cursinho e eu consegui entrar na Universidade Federal do Pará, para fazer o curso de jornalismo. Foi desse modo que obtive uma vaga na Casa do Estudante Universitário do Pará (Ceup).

Naquela manhã lamacenta de abril a Ceup dormia ainda, por trás do alto muro na Rua São Francisco, bairro da Campina. Era um conjunto de três prédios: a Casa Nova, já com sinais de decrepitude; a Vila Sapo, com quatro quartos geminados; e a Casa Velha, um casarão do século dezenove, em ruínas.
.
- Gostaria de falar com o presidente - disse a um ancião escaveirado que surgiu no vão da porta, imaterial como um fantasma.

Fui conduzido a um quarto no terceiro andar da Casa Nova. Bati na porta. Apareceram dois olhos negros, famintos. Pertencia a um camponês de cabeça excessivamente chata. Estendi-lhe a carta da reitoria da Universidade Federal do Pará. Ele a leu.

- Meu nome é Ribamar - disse, e me convidou para entrar no quarto.

O quarto fedia a mofo, roupa suja e gordura. Encostada à parede havia uma bicicleta toda enfeitada. “Parece chapéu de vaqueiro nordestino” - pensei.

- Você vai para o quarto do Rei Momo - disse o presidente.

O quarto do Rei Momo ficava na Vila Sapo. Era o primeiro de quem ia da Casa Nova para a Casa Velha. Estava todo fechado. Ribamar bateu na porta. Ouviu-se movimento lá dentro e depois a porta foi aberta. Vi uma aparição de olhos esbugalhados, um homem de meia idade, barrigudo e assustado.

- Este aqui é o João. Ele vai morar aí - disse o presidente.

- Aqui? - Rei Momo não acreditou no que ouviu. Desde que viera de Santarém, há dez anos, que não dividia o quarto. Agora, o subversivo do Piauí vinha com aquela conversa. - Um momento - disse Rei Momo, fechando a porta. Daí a alguns minutos reapareceu. Vestira uma camisa e escovara os cabelos. - Podem entrar - convidou-nos.

O fedor de mofo era sufocante. Em um dos lados do quarto havia uma cama com um bom colchão, com trapos espalhados sobre ele. No outro lado, encostada à parede, vi uma dessas camas de armar e desarmar. Na parede dos fundos erguia-se uma respeitável pilha de livros, ao lado de um guarda-roupa em ruínas, e no centro do quarto jazia uma mesinha atulhada de tudo quando se possa imaginar. Rei Momo sentara-se sobre a cama e o presidente e eu ficamos em pé.

- Eu sempre morei sozinho - disse Rei Momo, zangado.

- Isto aqui está precisando de uma limpeza. Vou convocar um mutirão para pôr em ordem este quarto - disse o presidente, que era recém-empossado. Eu soube mais tarde que o presidente anterior permanecera no cargo durante dez anos.

Rei Momo olhou-o apavorado.

- Não será preciso um mutirão. Nós dois nos daremos bem - eu disse, estendendo a mão para Rei Momo. Ele pareceu não ter visto meu gesto. - Parece-me que ambos gostamos de Fellini - apontei para uma lombada que se salientava na pilha de livros. - E não te preocupes com barulho; gosto também de silêncio.

Nasci em 22 de abril de 1939. Estamos em 22 de abril de 1972. Tenho, portanto, 33 anos de idade. Sinto que já comecei a descer o morro da vida. Para um escritor permanecer no embalo dos 21 anos, só com muita dedicação - dedicação religiosa - a tudo o que diz respeito à criação literária, como: disciplina espartana e trabalho duro como um assalto de boxe, sem trégua, contínuo, árduo e nunca desestimulado. E é assim que venho fazendo na Ceup, aproveitando essa oportunidade que Deus me deu. O fim do meu casamento serviu para que descobrisse o quanto realmente as coisas valem. A Ceup foi o gatilho que eu precisava disparar para me tornar escritor; antes dela, Celina.

As melhores horas eram as da madrugada, quando o silêncio se impunha à horda piolhenta que ali se escondia. Às vezes, me deixava sentar em frente à televisão para ver um resto de filme, ou simplesmente ficava ali, no hall de entrada da Casa Nova, mais pela claridade das inúmeras lâmpadas fluorescentes. Nas férias, quando todos iam para suas cidades natais e a Ceup ficava quase abandonada, eu varava as noites escrevendo, absolutamente fiel a mim mesmo. Escrevia todos os dias, mesmo que fosse por alguns minutos apenas. Se não dava, tentava no dia seguinte. E dormia bastante. Lia tudo e atentamente. Rezava, meditava, via, ouvia, sentia, cheirava, degustava, bebia, comia, vagabundava, batia papo e escrevia cartas. Escrever não me saciava nunca. Atingia picos de concentração, lucidez e produção que pareciam a embriaguez do primeiro gim fizz. Vivia o agora e o agora, o momento mesmo da vida. Nada de nostalgia, nada de remorso, o passado era feito do que havia de melhor; nada de sonho, pois a realidade proporcionava prazer intenso; nada de preocupação, pois não havia futuro; nada de raivas, pois a raiva, acionada, só a morte pode detê-la, é tão devastadora que atinge tudo ao seu redor, incluindo objeto e sujeito; nada de reclamações; nada de se meter na vida dos outros, nem deixar que os outros se metessem na minha vida. Eu era, apenas, um mero observador da realidade, embora, sempre que achasse necessário, interviesse na realidade. Hoje, sei que não se pode intervir na realidade, pois a realidade é. Nossa vida é apenas o caminho que leva à realidade. Até as mulheres se tornaram para mim, naquela época, abstrações, e somente pensando nelas é que ousava sonhar. Sonhava com uma companheira, amiga, amante, o colo onde repousava minha cabeça, ainda dolorida devido aos cornos. A luz do seu amor me conduzindo naquelas encruzilhadas da vida mergulhadas nas trevas, guiando-me pela mão, com segurança, emergindo comigo na claridade e na trilha segura. Nos meus mergulhos interiores eu me via também como protetor das crianças, gentil e caridoso, senhor de mim, poderoso como um anjo, pedindo perdão a todos quanto ofendi, ou causei mal.

Geralmente me alimentava de pão dormido, que o padeiro da esquina me arranjava sempre. Fiz amizade também com o açougueiro, que me dava ossos ainda munidos de excelentes nacos de carne, que eu cozinhava e comia com a boa farinha d’água que minha família me mandava de Oiapoque, cidade do Território Federal do Amapá. Às vezes, eu faturava alguma coisa na mídia. Aí, almoçava no Ver-O-Peso. Meio litro de pirão de açaí com dourada, e adormecia nocauteado pela canícula, até o anoitecer, quando tomava banho, vestia a melhor muda de roupa de que dispunha e ia para o Cosa Nostra bater papo com o barman, meu amigo. Mas, a maior parte do tempo, vivia a minha vida de modo quase recluso, quase sem participar da agitação que havia sempre na Ceup. Minha participação no dia-a-dia da casa era mais a de expectador. Os acontecimentos sucediam-se como os bancos de uma roda-gigante em movimento. Embora eu não me importasse com eles. Simplesmente não influíam na minha vida. Eu estava ali com um objetivo e até alcançá-lo vivia intensamente minha vida interior. O dia-a-dia da Ceup não alterava o fluxo do meu rio interior. Mas eu dissecava os protagonistas desses episódios e, às vezes, tomava nota deles. Uma madrugada, acordei com gritos medonhos à porta do quarto. Abri-a e me deparei com uma mulher enrolada em um cobertor imundo, cheio de nódoas de gozos antigos, suplicando que a socorressem. Mão de Sucuri, um vaqueiro, nosso vizinho, havia levado aquela mulher para o quarto dele, onde morava com Punheteiro, que se masturbava a noite inteira enquanto Mão de Sucuri trabalhava nas putas que levava para lá. Naquela noite, Mão de Sucuri, que tinha esse apelido de tanto ordenhar vaca e ficara com uma força descomunal nas mãos, queria que a mulher desse uma chupada nele. Ela ficou com vergonha de fazer aquilo na frente de Punheteiro. Apesar de não se aguentar em pé de tão porre, Mão de Sucuri imobilizou-a na sua rede tão limpa quando o cobertor e lhe ferroou uma dentada na bunda. Depois pô-la nua, a bofetadas, ao relento. Ela conseguira segurar o cobertor e ao se ver ao relento pôs-se a berrar. Mão de Sucuri caiu na rede em coma e Punheteiro batia uma feroz punheta para aquela égua nua que passou roçando seu nariz. Outra madrugada, na Casa Nova, o Doutor, conhecido também como Distribuidor de Esperma, começou a berrar. Ele queria ser cirurgião plástico. Logrou ingressar na universidade após doze vestibulares bem contados. Jamais tomava banho e lembrava um pedaço de sebo. Dizia a todos que vendia esperma para inseminação artificial. Recebia carne seca do Maranhão e a guardava sobre uma sucata de geladeira. Todo dia tirava dali alguns pedaços, que cozinhava e comia com farinha d’água. Um dia, ratos começaram a brigar sobre a carne seca e um caiu no Distribuidor de Esperma, que acordou com uma ratazana na cara. Em agosto, houve o caso do Padre. Uma manhã, eu me encontrava no salão da Casa Velha. Duende estava encostado à janela. Era meio-dia e o sol dava até para fritar ovo.

- Não dou uma semana para que o Padre seja levado para o hospício - disse Duende, um goiano vermelho e miúdo, que só usava camisas de mangas compridas abotoadas nos punhos e no colarinho, mesmo sob o calor de quarenta e cinco graus. Três dias depois, houve um corre-corre na Casa Velha. Apareceram quatro enfermeiros, meteram o Padre numa camisa de força e sumiram. Naquela noite, encontrei-me com Duende e lhe perguntei como é que ele sabia do internamento de Padre.

- Ele andava de camisas de mangas compridas abotoadas nos punhos e no colarinho em pleno sol de meio-dia - disse.

Fui a última pessoa a falar com Duende, que vivia sozinho em um quarto grande da Casa Velha. Como tivesse perdido a chave da porta, entrava no quarto por meio de um buraco na janela, vedado com um pedaço de compensado. Duende desaparecera já há três dias. Naquela manhã, seu Miguer, o faxineiro esquálido, vislumbrou por uma brecha na janela um movimento qualquer no quarto de Duende. Olhou melhor e viu uma ratazana agarrada a uma perna. Apurou o olhar e distinguiu um homem enforcado, com ratazanas aqui e ali no corpo, especialmente na cara. Seu Miguer emitiu um guincho semelhante ao de seus irmãos roedores e deu o alarme. Foi uma perda para Rei Momo, já que Duende costumava manter discussões quilométricas com Rei Momo sobre Khrisnamurt, de quem lera todos os livros. Ironicamente, Khrisnamurt era sua ansiedade.

Quando eu não estava na Ceup, estava na universidade. Tive uma professora gorda como uma vaca que promovia debates sobre marxismo sem jamais ter lido O Capital. Vivia com uma aluna magrinha, que a gorda agarrava nos corredores da faculdade e lhe aplicava beijos escandalosos. Durante três semestres vi-me perseguido por um professor de técnica de alguma coisa, homossexual, coxo, com uma nádega seca e analfabeto. Um dia, no banheiro, segurei-o pelo cabelo e o fiz beber água do vaso sanitário. Um santo remédio. Outro mestre inesquecível foi um idiota nascido no Piauí, educado em Goiás e doutorado numa dessas universidades perdidas nas estradas dos Estados Unidos. O tipo lecionava uma disciplina chamada Estudos de Problemas Brasileiros. Suas aulas eram, invariavelmente, um elogio às obras faraônicas dos ditadores militares. À noite, livrava-me de tudo aquilo com um bom gole de gim-fizz no Cosa Nostra, por conta da casa.

Rei Momo morreu no Natal daquele derradeiro ano de minha permanência na Ceup. Caiu como um passarinho baleado diante da parede nua do quarto, onde sempre estivera seu tesouro. Rei Momo era um ladrão de livro. Possuía uma pilha de dois mil volumes. Ao mudar-me para o quarto dele, tive de colocar Sequóia em ordem. Sequóia chegou a dar uma surra de cinto em Rei Momo. Mas eu ainda não morava na Ceup. Eu era pugilista amador e sempre que podia estava lá com a turma da Joe Louis. Acabei com Sequóia apenas com um tabefe na cara. Ele não revidou. Ficou se cagando de medo. Então, deixou Rei Momo em paz. Eu gostava de conversar com Rei Momo, que levava uma vida de rei, mesmo. Matriculava-se numa única disciplina na universidade e fazia de conta que estava estudando. Sua família o mantinha ali porque o considerava retardado mental. Ele não se importava. Recebia uma mesada relativamente gorda. Consumia suas tardes conversando fiado nas bancas de tacacá e com os vigias das redondezas. Pois bem, Sequóia mudou-se. Aproveitou para dar um golpe fatal em Rei Momo. Na madrugada daquele Natal, ao entrar no tugúrio onde nos enterrávamos, Rei Momo encontrou um bilhete pregado com fita Durex na parede nua onde sempre estiveram os livros, a primeira coisa que Rei Momo checava ao entrar no quarto. “Agradecido pelo livros, bicha louca” - dizia o bilhete.

Vocês sabem como Ernest Hemingway morreu? Segundo Milt Machlin, no livro O Inferno Privado de Hemingway, era cedo da manhã. “Desceu à sala de armas e tirou do armário uma de suas espingardas favoritas, uma Angelini e Bernardon calibre doze, fabricada especialmente para ele. Era uma bela arma, e ele sempre a tratava com a reverência de um objeto religioso. Carregou-a com dois cartuchos, depois meteu os dois canos na boca e puxou os gatilhos ao mesmo tempo.” Houve um tempo em que pensei matar-me. Possuía - e isto era uma das minhas pequenas riquezas - uma pistola, a PT 58, da Taurus. Se eu quisesse me suicidar como Hemingway teria de pôr a boca do cano no céu da boca, de modo que a bala atravessasse o cérebro. A gente não sente nada. Os que ficassem, logo me esqueceriam. Como minha família é de Oiapoque e muito pobre, eu seria enterrado como indigente e, assim, desapareceria sem deixar rastro. Cheguei a cogitar isso na época em que aquela cadela, aquela índia duma figa, galinha do caralho, me empurrou de volta para a sarjeta, depois de quase um ano principesco. Mas agora sou grato a ela. Ajudou bastante. E depois somente nós temos a responsabilidade pelo que passamos. Antes de conhecer Celina, estivera sentado numa cadeira olhando para uma parede. A sorte é que ouvia Wolfgang Amadeus Mozart. Concerto para Piano e Orquestra em Ré Menor. Para além da parede há um anoitecer azul. Azul escuro. Peguei meu canivete italiano, outra joia que possuo, e vibrei contra o céu. O sangue escorreu pelo corte. E o azul intenso respingou em mim. Atravessei o portão da Ceup e tomei pela Rua São Francisco e depois pela Avenida Almirante Tamandaré até a Avenida Presidente Vargas. Sentei-me num banquinho do Milano e pedi uma Antarctica pequena. “Como vou desforrar!” – pensei, pois acabara de conseguir uma vaga em O Liberal. Já tinha renda garantida, agora. Só precisava escrever um romance que vendesse como Cem anos de solidão, como pão francês. Então compraria um iate para vagabundar por toda a Amazônia e o Caribe.

Taguatinga-DF, agosto de 2011

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Zé Sarney usa helicóptero da PM do Maranhão para passear

O senador vitalício pelo Amapá, o maranhense Zé Sarney (PMDB), presidente do Senado, usou um helicóptero da Polícia Militar do Maranhão para passear na sua ilha particular, Curupu, duas vezes neste ano - dois domingos, 26 de junho e 10 de julho. A aeronave foi comprada no ano passado para combater o crime e para emergências médicas por R$ 16,5 milhões, pagos pelo governo estadual e o Ministério da Justiça. Num dos passeios de Zé Sarney ele levava a tiracolo um empresário que tem contratos milionários no Maranhão, estado que por acaso é governado por Roseana Sarney (PMDB), a filha. Esse passeio quase custou a vida de um homem. Com traumatismo craniano e clavícula quebrada, ele precisava do helicóptero para se salvar. Quanto a Zé Sarney, disse que viajou no helicóptero a convite da "governadora do Estado".

Se aplicada, a Lei de Improbidade Administrativa pune esses casos com perda da função e suspensão de direitos políticos. Não Sarney, ungido por Lula acima do bem e do mal. Ao discursar na entrega da aeronave, em 2010, a governadora Roseana Sarney disse que a aquisição era "uma demonstração de que estamos investindo em uma polícia moderna, afastando de vez a bandidagem" do Maranhão. (Com informações da Folha)
Segue-se comentário do jornalista Augusto Nunes, publicado na sua coluna, Direto ao Ponto, na Veja.com.

Na capitania hereditária, casos de polícia passeiam no helicóptero da polícia

AUGUSTO NUNES
Veja.com

O artigo 5° da Constituição informa que todos são iguais perante a lei. Menos os brasileiros mais iguais que os outros e o Homem Incomum José Sarney, precisa ressalvar algum parágrafo. Os mais iguais podem, por exemplo, viajar de graça em helicópteros cedidos por empresários amigos, que pagam a conta com o lucro dos contratos sem licitação. É o caso do governador Sérgio Cabral, passageiro preferencial da EikAir. Ou do ministro Paulo Bernardo, premiado com um vale-transporte perpétuo na frota da construtora Sanches Tripoloni. (Tripoloni. Lembra tripulação, tripulante. O Brasil é mesmo o país da piada pronta).
Privilégios aéreos ainda mais impressionantes são os conferidos à singularidade que o ex-presidente Lula promoveu a Homem Incomum. Como se soube neste começo de semana, Sarney pode até fazer uma visita à casa de veraneio na ilha de Curupu a bordo do único helicóptero da Polícia Militar do Maranhão - e levando de carona um empreiteiro de estimação. Se a Justiça funcionasse como deveria, Madre Superiora já teria embarcado numa aeronave da PM para a viagem só de ida rumo a uma ilha-presídio. Como na capitania hereditária o vilão virou xerife, um caso de polícia passeia no helicóptero da polícia.
“Viajei a convite da governadora do Maranhão”, disse o pai da governadora do Maranhão. “Como chefe do Poder Legislativo, tenho direito a transporte e segurança em todo o Brasil.” Levou o troco de José Vicente da Silva Filho, coronel da reserva da PM paulista: “O senador tem estruturas próprias de segurança e apoio, inclusive pela condição de ex-presidente, com veículos e pessoal federal”, corrigiu o ex-secretário nacional de Segurança Pública. “O Ministério Público deve instaurar procedimento para apurar o fato, já que sobram evidências de crime de responsabilidade.”
Por enquanto, Sarney só não se livrou dos códigos morais em vigor no país que presta. Castigado pelo desprezo dos brasileiros decentes, tornou-se um colunista sem coluna, um escritor sem leitores, um ex-chefe de governo que cabe num asterisco e um homem público proibido de aparecer em público sem a proteção de cordões humanos. Ao completar 80 anos, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi homenageado até por adversários políticos. O 80° aniversário do Homem Incomum não mereceu mais que uma festa reunindo a Famiglia.
Tampouco escapará de ser castigado pela História. Daqui a poucos anos, o Brasil nem saberá quem foi José Sarney.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Octávio Ribeiro, Pena Branca

Em julho de 1978, eu trabalhava como repórter em O Liberal, no belo prédio assinado por Francisco Bolonha, antiga sede da Folha do Norte, na Rua Gaspar Viana, no centro de Belém do Pará, numa época em que o bas-fond ainda arquejava. Um dia, recebi pauta para entrevistar o lendário Octávio Ribeiro, conhecido como Pena Branca, que estava na cidade para autografar seu Barra Pesada, livro de reportagens. Ele e sua companheira - na época, uma jovem paulistana, herdeira de uma indústria de vidraça – estavam hospedados em um pequeno hotel no centro de Belém. Era uma manhã ensolarada, pois julho é o auge do verão amazônico. Diga-se que verão na Amazônia é estiagem, ou é quando chove menos, estação que vai de maio a outubro; pressupõe-se que chove mais de novembro a abril, o que chamamos (sou amazônida) de inverno. Pena Branca recebeu esse apelido porque tinha uma mexa branca de cabelo no alto da testa, mas, em 1978, seu cabelo começava a ficar grisalho. Ele era grandalhão, tinha a voz grossa e emanava vitalidade. Quando leu a entrevista, comentou que era a melhor da imprensa local.

Naquela época, eu frequentava a casa do Walmir Botelho, hoje diretor de redação de O Liberal. Ele se casara com minha amiga de infância, Deury Farias, de Macapá. O Walmir comandava, juntamente com Oliveira Bastos, O Estado do Pará, um dos melhores jornais já feitos em Belém, e o Oliveira acabara de convidar o Pena Branca para dar uma sacudida na editoria de polícia do jornal. Quando o Pena me viu na sala do Walmir me convidou na hora para eu assumir como redator, recebendo mais do que o dobro do que eu ganhava em O Liberal. Aceitei de pronto.

Trabalhei um mês e meio com Pena Branca. Aprendi muito com ele, como armar frases claras e curtas, usar as palavras com propriedade, rigor gramatical e criar um tom coloquial nos textos, além de desenvolver feeling para a notícia jornalística. Aprendi também que em jornalismo é preciso investigar, investigar, investigar, para não cometer injustiça. De madrugada, quase sempre saíamos juntos, Walmir, Pena e eu, além de outros colegas. Íamos para a noite belenense. Uma noite, ele me convidou para dormir no apartamento dele e da sua mulher, no prédio da Assembleia Paraense, na Avenida Presidente Vargas. Estávamos lá quando rebentou uma discussão entre os dois. Parecia que iam quebrar o apartamento todo. Depois ficaram mansos. Soube depois que aquilo era normal entre eles. De qualquer forma só não fui embora porque Pena me pôs em cárcere privado. Não queria que eu fosse embora. Era um sujeito que precisava de companhia e movimento o tempo todo.

Além de redigir a manchete e outras matérias importantes de polícia, eu escrevia contos engraçados que eram publicados no jornal, e ainda ajudava, às vezes, o Walmir na capa. O Pena me adorava, porque gostava do meu texto e, creio, porque lhe transmitisse serenidade. Eu também gostava bastante dele. Mas em pouco tempo fui me enchendo da editora de polícia. Comecei minha carreira de jornalista como repórter policial no Jornal do Comércio, de Manaus, em outubro de 1975, em plena ditadura militar. O Casarão, a central de polícia, fedia a urina, a sangue seco, a tortura, a sebo. Os dois meses que trabalhei como repórter policial foram a travessia de um pântano de baixezas humanas, onde a morte trágica era rotina. De lá, fui para a reportagem geral de A Notícia.

Em O Estado do Pará, comecei a me encher daquele mundo de horrores, que era o mundo policial na época da ditadura, e também da falta de preparo, de sensibilidade, dos repórteres policiais. Na verdade, eu sempre quis escrever literatura; apenas ganhava a vida como jornalista. Aliás, eu não tinha sequer o ensino básico completo, e só entrei na universidade depois de fazer o supletivo dos antigos cursos ginasial e segundo grau, em 1982, terminando o curso de Comunicação Social na Universidade Federal do Pará (UFPA), em 1987. Um mês e meio depois, pedi ao Pena para sair da polícia e ir para a editoria de cidade. A reação do Pena foi possessiva: disse ao Oliveira Bastos, que era dono do jornal, juntamente com Avertano Rocha, que se eu não fosse demitido ele sairia. O resultado é que eu me mandei.

Fui para Rio Branco, trabalhar com Elson Martins na Gazeta do Acre. De lá, voltei para Manaus e para Belém. Em 1987, vim para Brasília, e fui trabalhar novamente com o Walmir Botelho, então diretor de redação do Correio do Brasil. O Octávio Ribeiro andou também por Brasília, sempre brilhando. Daqui, foi para Manaus, onde morreu.

Em um mês e meio de convivência com ele foi como se o conhecesse há décadas, tal a intensidade com que vivia, e vivia intensamente a investigação, o deslindamento do mistério, a própria vida. Era também afetuoso, justo, e possessivo. Acho que se sentia só porque, como uma estrela cadente, se consumiu rapidamente num voo fulgurante. Resta a lenda.

sábado, 20 de agosto de 2011

Sonhos de uma noite de verão

Rolos de fumo elevavam-se do braseiro, onde, enfileirados, havia espetos de alcatra, de porco, de frango, de linguiça, de coração de galinha, de provolone, e mistos. Em meio aos pedaços vermelhos de carne, havia nacos de gordura, amarelos, contrastando com o tom escuro da carne, à medida que ia assando. Havia também churrasquinho de maminha. Mas qualquer um custava apenas um real, e era servido com farofa de farinha paraense, mandioca e vinagrete, de modo a se constituir em um perfeito jantar. A churrasqueira era enorme. A fumaça elevava-se e perdia-se além da claridade das lâmpadas dos postes. O dono do negócio andava feito uma formiga, para lá e para cá, de camiseta, bermuda e sandálias japonesas, servindo cerveja e churrasquinho. A cerveja de maior saída era Skol, seguida de Antarctica e Bavária. Mas havia também Boemia e Budweiser. E Bhrama, que quase não saía.

- Brasília está cheia de gente que fracassou nas suas cidades natais. Pergunte, por exemplo, a um carioca o que ele faz aqui. Virá com aquela conversa de que o Rio está violento. Mas o Rio está cheio de gente de sucesso - disse Lucas, que nascera em Juiz de Fora, mas fora educado no Rio de Janeiro.

- Para mim, basta uma assessoria num posto qualquer, mesmo que seja em Santo Antônio do Descoberto. Mas tenho fé em Deus que o deputado vai me arranjar a assessoria de imprensa do Hospital Regional de Taguatinga - disse Eduardo, de Belém do Pará, mastigando um naco de provolone.

- Santo Antônio do Descoberto fica em Goiás e o deputado não arranja nada para ninguém. Só pensa nele mesmo. Quando chegou em Brasília não sabia nem andar. Agora já sabe até vestir terno. Ele não arranjou emprego nem para o Gordo. Na última edição do jornal do Gordo havia pelo menos seis fotos do deputado. Ele só diz venha a nós... - disse Lucas.

- Mas também o Gordo é um picareta - disse Mino, de São Paulo.

- Mais do que o deputado? - Lucas perguntou.

- Todos nós trabalhamos na campanha do deputado: o Eduardo, no jornal do Gordo; o Lucas, na Gazeta de Taguatinga; e eu, no Gogó da Ema. Agora, é hora, bicho, de a gente ganhar uma assessoria - disse Mino.

Era mais de uma da manhã quando Eduardo voltou, devagar, para casa, perto da Rua das Palmeiras, no centro de Taguatinga. O encontro com o deputado fora marcado para a meia-noite do dia seguinte. “Por que será que o deputado só se reúne assim tão tarde da noite?” - Eduardo perguntou a seus botões. “A reunião será no sindicato dos donos de postos de gasolina.”

Taguatinga, 11 de abril de 1999


Este conto integra o livro O casulo exposto, à venda nos sites das livrarias Saraiva, Cultura e Leitura. Em Brasília, está à venda nas livrarias Leitura do Conjunto Nacional e do Pátio Brasil.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O primeiro beijo


No primeiro beijo, na noite de 15 de maio de 1988, quando ignorávamos O último imperador da china, de Bernardo Bertolucci, no antigo cinema do Conjunto Nacional, soube que eu era teu para sempre, e que todas as minhas fugas, mesmo aquelas em que eu seria atraído por uma sereia, acabariam nos teus braços. E quando deste à luz nossa princesinha, nasceu em mim um leão no auge da sua força, que brame na praia quando o sol se põe, para o mar azul. Quando eu fui insano, nós três corremos muito perigo, porque minha fúria destruía tudo ao nosso redor, mas Deus, que é meu Pai, destinou um anjo de luz, alto como Hemingway, de olhos grandes como os do ET de Spielberg e fulminante como uma Glock 9 mm, para iluminar meu caminho. Assim, escapamos de todas. Além do mais, Josiane, eu te ofertei minha biblioteca e, para a Iasmim, dei um portal que lhe permite ver as coisas verdadeiras, invisíveis aos olhos, mas tangíveis ao coração: O pequeno príncipe, que Antoine de Saint-Exupéry criou, quiçá durante um voo para o norte da África.

Teu primeiro beijo foi como todos os beijos que recebi de outras princesas. Mesmo que sejam o roçar de lábios, têm o efeito de um cataclismo de rosas vermelhas na vertigem do abismo em que despencamos como num sonho. Tenho um sonho recorrente em que voo, voos sempre altos, porque sei que voos baixos levam perigo. Também sonho em Copacabana, que é sensual como Goiânia e como a Avenida Presidente Vargas, em Belém, no fim da tarde. E sonho contigo, minha cafuza amada. Teus olhos são sempre doces como os das mulatas de Di Cavalcanti. Agora, sou como um velho soldado, manco e com artrite nas mãos, mas atento como o apanhador no campo de centeio. Para socorrê-las, tomo de um trago uma taça de adrenalina e o leão, jovem como quando nasceu em mim, está pronto para o bote.

Todas as mulheres que me amaram inocularam para sempre em mim a capacidade de sentir a Terra girar, não na velocidade física, mas na dimensão de uma sinfonia azul de Raimundo Peixe, quando eu tinha 14 anos de idade e havia bebido um quarto de litro de rum. O beijo da Leila me levou à Lua, nos idos de 1969, um ano antes de os Beatles se separarem (como se fossem casados!), e os da Mara me iluminaram para sempre. Ela tinha os olhos verdes nas tardes quentes; em certas manhãs eram azuis como o mar, e, às vezes, eram felinos. Tinha cheiro de madrugada, um leve sabor de vinho e qualquer coisa espanhola. Os beijos da Josiane são doces como um terremoto, e eu sinto a Terra girar quando ouço os murmúrios dos seus sonhos no acme.

Tenho já 57 anos de idade, mas continuo sentindo a mesma vertigem dos primeiros beijos, leves como a brisa, vendaval de 7 mil rosas colombianas. Acho que porque sinto, além do corpo feminino, o perfume das virgens ruivas, em cada mulher, sei que todas elas são santuários que não devem ser corrompidos, nunca, pois as mulheres guardam a marca do Criador na sua beleza de jato prestes a pousar. Devemos imobilizar as mulheres que amamos com pegadas fortes, mas nunca de carrasco e sempre de artista, porque cada mulher merece nossa melhor criação, especialmente a mulher amada.

O leite da mulher amada, que jorra como água cristalina na boca do viajor sedento, é como uma garrafa de Dom Pérignon, safra de 1954, após um dia de labuta na vida de um escritor que conseguiu dar vida a uma personagem de parto difícil. É como um homem que não espera senão uma rotina mortificante e que, de repente, salva uma princesa em perigo e recebe um sorriso dela. Haverá algo mais precioso do que o sorriso de uma mulher? Os sorrisos nascem numa região secreta do santuário feminino. Graças a Deus, bebi suficiente leite extraído de criaturas tão lindas como virgens ruivas, por isto sei que meu caminho é seguro, acaba sempre nos braços da mulher amada, que é, ela mesma, o próprio primeiro beijo.


Brasília, 18 de agosto de 2011

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Belém do Pará vista da janela do sétimo andar de um hotel, no início da madrugada


A noite mais azul é quando
Assassinos me perseguem, derroto-os
E durmo com a princesa.
Isto só acontece nas noites tão azuis
Que um Boeing 777 ferem-nas
E sangue verte sobre as rosas,
Que o acme da princesa
Transforma em rosas colombianas.
A noite mais azul é tórrida e os jasmineiros choram,
O mundo recende a maresia
E a gordura do meu corpo
Volta a ser rija como os punhos de Muhammad Ali
Quando ele acabou com George Foreman, no Zaire.
Transformo-me em luz
Na noite excessivamente azul.

Brasília, 15 de agosto de 2011

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Herança maldita de Lula começa a fazer efeito. No Amapá, povo está fumado

A herança maldita que o ex-presidente Lula deixou para sua invenção, a “presidenta” Dilma Rousseff (a quadrilha instalada na Esplanada dos Ministérios, a infraestrutura do país sucateada, rombo no caixa e o “apoio” do Partido dos Trabalhados do Movimento Democrático Brasileiro – PTMDB), já começou a fazer efeito. O PMDB está jogando pesado contra a “presidenta”, como Dilma gosta de ser chamada. Quer derrubá-la para que o vice, Michel Temer, assuma. Assim é que as revistas semanais e os jornalões estão recebendo denúncias bem documentadas da quadrilha de colarinho branco que vêm saqueando o erário, com desespero hienídeo.

Depois da queda dos capos (que não são capo de tutti i capi) Antonio Palocci e Alfredo Nascimento, a Polícia Federal deflagrou a operação Voucher e algemou, dia 9, 35 suspeitos de agir no Ministério do Turismo, incluindo o secretário executivo, Frederico Silva da Costa, acusados de desviar dinheiro de convênio de R$ 4,4 milhões, firmado pelo ministério com o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento de Infraestrutura Sustentável (Ibrasi), assinado em 2009, com recursos da União, repassados ao Ministério do Turismo via emenda da deputada federal Fátima Pelaes (PMDB/AP). A turma, em Macapá, deitou e rolou.
O presidente do Senado, o maranhense Zé Sarney (PMDB/AP), correu para se isentar de responsabilidade pela sua indicação do ministro Pedro Novais, do Turismo: “Tem reputação ilibada”, e disse que não conhece Frederico Costa, indicado por Novais. Zé Sarney adotou uma postura severa: "Onde tiver irregularidade, o governo deve agir com energia para que realmente ele possa cumprir com a missão de que a administração pública tenha um nível de honestidade ao que necessita e deseja o povo e a própria administração".
Quanto ao Amapá, está mais lascado do que nunca: refém da família Capiberibe e de Zé Sarney, eleito senador vitalício pelos amapaenses, mas que só sai de Brasília para ir ao Maranhão; ou a São Paulo, para auscultar seu coração. No Amapá, o povo está fumado, como se diz lá: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.