domingo, 28 de agosto de 2011

Josiane, Tereza, Leila, Sílvia, Telma, Myrta, Graciete, Eliana, Tiana, Roberta, Mara, Célia, Bethania, Elijanete, Tharcilla...

Há dias que não sou visitado por ninguém na França, e na França tenho leitores, como o embaixador português Francisco Seixas da Costa, autor de Tanto Mar? Portugal, o Brasil e a Europa, e que representou seu país em Brasília e agora serve em Paris. Contudo, a maioria dos meus leitores na França é de mulheres, como a minha amiga Yara, cantora, ex-mulher do meu querido amigo, o compositor Luiz Tadeu Magalhães, ambos meus conterrâneos, naturais de Macapá, a cidade que se debruça para a boca do maior rio do mundo, o Amazonas, ao cruzar a Linha Imaginária do Equador. Também de Macapá tenho uma amiga da adolescência. Ela recebeu seu primeiro beijo de mim.

Naquela época, eu frequentava a casa da Leila e da Sílvia, no Igarapé das Mulheres. Eu tinha 14 anos. Era 1968. Os Beatles estavam no auge. Às vezes, na casa do poeta Isnard Lima Filho, eu o ouvia declamar Rosas para a madrugada. As noites, então, eram imortais e tresandavam a perfume. A casa da Leila e da Sílvia era o portal mágico para o jardim secreto da adolescência. As duas irmãs se transformaram, para sempre, em flores que guardo no relicário do meu coração.

Tereza era um santuário que desabrochava da infância quando ofereceu seus lábios virgens para o roçar da minha boca, e o beijo se fez, puro como luz. Se um terremoto me abalou, ela, que é uma flor, sentiu a velocidade vertiginosa da Terra no espaço sideral, e, por toda a eternidade, seguirá com a luz que acendi.

E é sempre com a pureza deste primeiro beijo que me aproximo das mulheres. Na verdade, elas é que me iluminam. Sempre estive cercado de mulheres. Além da minha mãe, que tinha o belo nome de Marina e que era linda como as manhãs de julho na Amazônia, há ainda minha irmã mais velha, Lindomar, a quem chamo de mãe. Minhas companheiras, todas elas, foram luzes que me orientaram em certos pontos obscuros da vinha vida, até eu emergir para as manhãs amazônicas de agosto. Todas as minhas companheiras se entregaram inteiras, sem reservas, ao meu bisturi de poeta, porque sabiam que, com minhas mãos de jardineiro, eu as fazia desabrochar como rosas colombianas, vermelhas, num mergulho conduzido por elas mesmo.

Sou para sempre grato às mulheres da minha vida, pois elas me conduziram ao que eu sou hoje, um espectador maravilhado, um mergulhador nos abismos mais profundos da natureza feminina. Se Deus tivesse sexo, Ele seria Mulher.

Tereza é, hoje, francesa. Bela sempre foi. É amada e tem as joias que Deus nos oferta: filhos. Ela é uma riqueza que vem da França, porque, para o escritor, ser lido gera uma alegria imensa, pois esta é a missão do escritor: escrever. E o texto só é vivificado quando lido. É também para ti que escrevo, Teresa, da mesma forma que escrevo sempre para a metade da minha alma, Josiane.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Muito além de mim

Ver-O-Peso, por Olivar Cunha. É um dos locais que eu mais amo

Tenho me esforçado em escrever ficção. A gente não precisa de muito para produzir. Basta comer o suficiente para não adoecer. Vinha tendo bem mais que isso, mas tudo acabou como num passe de mágica. No mesmo dia, perdi emprego, mulher, casa, comida e roupa lavada. Conheci Celina Madeira Machado Silva e Silva no Bar do Parque, defronte ao Hotel Hilton Belém, na Praça da República. Ela estava na companhia de uma tipa grande como uma elefanta e de uma outra que era todinha uma enguia. Naquela época, andei publicando umas resenhas sobre cinema em O Liberal e Celina era cinéfila. O papo foi longe. Ela me convidou para ir à sua casa no dia seguinte. Morava num casarão em Nazaré. O pai, com o estômago estourando de câncer, vivia recluso esperando a hora de bater as botas. Para não me estender muito, o caso é o seguinte: Celina e eu nos casamos dias depois. Eu fui seu quarto marido. Celina andara à procura de um marido que fosse assim como um pai camarada. A mãe de Celina, uma índia que seu pai comprara em Santarém, fora escravizada a vida toda, mas não morrera sem gerar a filha rebelde. Ao chegar de Portugal, o pai de Celina começou como padeiro em Belém. Anos de economia, comendo restos estragados de frutas e se vestindo com duas mudas de roupa, fizeram dele um magnata do pão. Celina vivia esbanjando a fortuna e batendo perna com suas amigas aliá e peixe-elétrico. Era a cadela do trio. Pôs-me um par de cornos de alce. Mas nosso jogo era tácito. Ela me tirara da sarjeta e me usava como atleta sexual. Naquela manhã, peguei o carro que Celina me dera e fui para o trabalho, uma revista picareta que só me pagava com vales, embora, antes de conhecer Celina, era lá que eu repousava a carcaça, num quartinho decrépito, nos fundos do prédio. Cheguei a tempo de ver o pessoal da Justiça do Trabalho levando tudo. Depois soube que o editor tinha vencido uma causa trabalhista contra o dono da empresa. Voltei para casa. Flagrei minha mulher gemendo, empalada no vergalho do jardineiro em nossa santa cama. Não quis fazer drama. Sentia-me vulnerável e cansado. Fui à cozinha beber água e saí para o quintal. Fiquei bastante tempo sentado num banco debaixo de uma mangueira. “A vida é um jogo perdido; o melhor que podemos fazer é jogar bem” - pensei. “A criação literária é minha igreja; e eu, o padre que oficia a missa. A razão da minha vida é escrever ficção. Se não escrevo, sinto-me vazio, despencando na fossa, no nada. Por isso, necessito criar. E quando estou no lugar ideal nada pode me atingir. Nada! Eu sempre soube que esse casamento é apenas uma passagem de chuva.” Mais tarde voltei ao quarto, peguei minhas coisas. Na sala, encontrei Celina.

- Estou indo embora - disse-lhe. Quase não acreditei no que ela respondeu.

- Tu pegaste a roupa na lavanderia? - eram uns casacos que ela usava quando viajava e que eu levara à lavanderia.

Nessas alturas, tinha feito novas amizades, e um amigo, um verdadeiro irmão, me acolheu na casa dele. Minha passagem pela casa de Celina me proporcionou a oportunidade de me preparar para o vestibular. Ela pagara o cursinho e eu consegui entrar na Universidade Federal do Pará, para fazer o curso de jornalismo. Foi desse modo que obtive uma vaga na Casa do Estudante Universitário do Pará (Ceup).

Naquela manhã lamacenta de abril a Ceup dormia ainda, por trás do alto muro na Rua São Francisco, bairro da Campina. Era um conjunto de três prédios: a Casa Nova, já com sinais de decrepitude; a Vila Sapo, com quatro quartos geminados; e a Casa Velha, um casarão do século dezenove, em ruínas.
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- Gostaria de falar com o presidente - disse a um ancião escaveirado que surgiu no vão da porta, imaterial como um fantasma.

Fui conduzido a um quarto no terceiro andar da Casa Nova. Bati na porta. Apareceram dois olhos negros, famintos. Pertencia a um camponês de cabeça excessivamente chata. Estendi-lhe a carta da reitoria da Universidade Federal do Pará. Ele a leu.

- Meu nome é Ribamar - disse, e me convidou para entrar no quarto.

O quarto fedia a mofo, roupa suja e gordura. Encostada à parede havia uma bicicleta toda enfeitada. “Parece chapéu de vaqueiro nordestino” - pensei.

- Você vai para o quarto do Rei Momo - disse o presidente.

O quarto do Rei Momo ficava na Vila Sapo. Era o primeiro de quem ia da Casa Nova para a Casa Velha. Estava todo fechado. Ribamar bateu na porta. Ouviu-se movimento lá dentro e depois a porta foi aberta. Vi uma aparição de olhos esbugalhados, um homem de meia idade, barrigudo e assustado.

- Este aqui é o João. Ele vai morar aí - disse o presidente.

- Aqui? - Rei Momo não acreditou no que ouviu. Desde que viera de Santarém, há dez anos, que não dividia o quarto. Agora, o subversivo do Piauí vinha com aquela conversa. - Um momento - disse Rei Momo, fechando a porta. Daí a alguns minutos reapareceu. Vestira uma camisa e escovara os cabelos. - Podem entrar - convidou-nos.

O fedor de mofo era sufocante. Em um dos lados do quarto havia uma cama com um bom colchão, com trapos espalhados sobre ele. No outro lado, encostada à parede, vi uma dessas camas de armar e desarmar. Na parede dos fundos erguia-se uma respeitável pilha de livros, ao lado de um guarda-roupa em ruínas, e no centro do quarto jazia uma mesinha atulhada de tudo quando se possa imaginar. Rei Momo sentara-se sobre a cama e o presidente e eu ficamos em pé.

- Eu sempre morei sozinho - disse Rei Momo, zangado.

- Isto aqui está precisando de uma limpeza. Vou convocar um mutirão para pôr em ordem este quarto - disse o presidente, que era recém-empossado. Eu soube mais tarde que o presidente anterior permanecera no cargo durante dez anos.

Rei Momo olhou-o apavorado.

- Não será preciso um mutirão. Nós dois nos daremos bem - eu disse, estendendo a mão para Rei Momo. Ele pareceu não ter visto meu gesto. - Parece-me que ambos gostamos de Fellini - apontei para uma lombada que se salientava na pilha de livros. - E não te preocupes com barulho; gosto também de silêncio.

Nasci em 22 de abril de 1939. Estamos em 22 de abril de 1972. Tenho, portanto, 33 anos de idade. Sinto que já comecei a descer o morro da vida. Para um escritor permanecer no embalo dos 21 anos, só com muita dedicação - dedicação religiosa - a tudo o que diz respeito à criação literária, como: disciplina espartana e trabalho duro como um assalto de boxe, sem trégua, contínuo, árduo e nunca desestimulado. E é assim que venho fazendo na Ceup, aproveitando essa oportunidade que Deus me deu. O fim do meu casamento serviu para que descobrisse o quanto realmente as coisas valem. A Ceup foi o gatilho que eu precisava disparar para me tornar escritor; antes dela, Celina.

As melhores horas eram as da madrugada, quando o silêncio se impunha à horda piolhenta que ali se escondia. Às vezes, me deixava sentar em frente à televisão para ver um resto de filme, ou simplesmente ficava ali, no hall de entrada da Casa Nova, mais pela claridade das inúmeras lâmpadas fluorescentes. Nas férias, quando todos iam para suas cidades natais e a Ceup ficava quase abandonada, eu varava as noites escrevendo, absolutamente fiel a mim mesmo. Escrevia todos os dias, mesmo que fosse por alguns minutos apenas. Se não dava, tentava no dia seguinte. E dormia bastante. Lia tudo e atentamente. Rezava, meditava, via, ouvia, sentia, cheirava, degustava, bebia, comia, vagabundava, batia papo e escrevia cartas. Escrever não me saciava nunca. Atingia picos de concentração, lucidez e produção que pareciam a embriaguez do primeiro gim fizz. Vivia o agora e o agora, o momento mesmo da vida. Nada de nostalgia, nada de remorso, o passado era feito do que havia de melhor; nada de sonho, pois a realidade proporcionava prazer intenso; nada de preocupação, pois não havia futuro; nada de raivas, pois a raiva, acionada, só a morte pode detê-la, é tão devastadora que atinge tudo ao seu redor, incluindo objeto e sujeito; nada de reclamações; nada de se meter na vida dos outros, nem deixar que os outros se metessem na minha vida. Eu era, apenas, um mero observador da realidade, embora, sempre que achasse necessário, interviesse na realidade. Hoje, sei que não se pode intervir na realidade, pois a realidade é. Nossa vida é apenas o caminho que leva à realidade. Até as mulheres se tornaram para mim, naquela época, abstrações, e somente pensando nelas é que ousava sonhar. Sonhava com uma companheira, amiga, amante, o colo onde repousava minha cabeça, ainda dolorida devido aos cornos. A luz do seu amor me conduzindo naquelas encruzilhadas da vida mergulhadas nas trevas, guiando-me pela mão, com segurança, emergindo comigo na claridade e na trilha segura. Nos meus mergulhos interiores eu me via também como protetor das crianças, gentil e caridoso, senhor de mim, poderoso como um anjo, pedindo perdão a todos quanto ofendi, ou causei mal.

Geralmente me alimentava de pão dormido, que o padeiro da esquina me arranjava sempre. Fiz amizade também com o açougueiro, que me dava ossos ainda munidos de excelentes nacos de carne, que eu cozinhava e comia com a boa farinha d’água que minha família me mandava de Oiapoque, cidade do Território Federal do Amapá. Às vezes, eu faturava alguma coisa na mídia. Aí, almoçava no Ver-O-Peso. Meio litro de pirão de açaí com dourada, e adormecia nocauteado pela canícula, até o anoitecer, quando tomava banho, vestia a melhor muda de roupa de que dispunha e ia para o Cosa Nostra bater papo com o barman, meu amigo. Mas, a maior parte do tempo, vivia a minha vida de modo quase recluso, quase sem participar da agitação que havia sempre na Ceup. Minha participação no dia-a-dia da casa era mais a de expectador. Os acontecimentos sucediam-se como os bancos de uma roda-gigante em movimento. Embora eu não me importasse com eles. Simplesmente não influíam na minha vida. Eu estava ali com um objetivo e até alcançá-lo vivia intensamente minha vida interior. O dia-a-dia da Ceup não alterava o fluxo do meu rio interior. Mas eu dissecava os protagonistas desses episódios e, às vezes, tomava nota deles. Uma madrugada, acordei com gritos medonhos à porta do quarto. Abri-a e me deparei com uma mulher enrolada em um cobertor imundo, cheio de nódoas de gozos antigos, suplicando que a socorressem. Mão de Sucuri, um vaqueiro, nosso vizinho, havia levado aquela mulher para o quarto dele, onde morava com Punheteiro, que se masturbava a noite inteira enquanto Mão de Sucuri trabalhava nas putas que levava para lá. Naquela noite, Mão de Sucuri, que tinha esse apelido de tanto ordenhar vaca e ficara com uma força descomunal nas mãos, queria que a mulher desse uma chupada nele. Ela ficou com vergonha de fazer aquilo na frente de Punheteiro. Apesar de não se aguentar em pé de tão porre, Mão de Sucuri imobilizou-a na sua rede tão limpa quando o cobertor e lhe ferroou uma dentada na bunda. Depois pô-la nua, a bofetadas, ao relento. Ela conseguira segurar o cobertor e ao se ver ao relento pôs-se a berrar. Mão de Sucuri caiu na rede em coma e Punheteiro batia uma feroz punheta para aquela égua nua que passou roçando seu nariz. Outra madrugada, na Casa Nova, o Doutor, conhecido também como Distribuidor de Esperma, começou a berrar. Ele queria ser cirurgião plástico. Logrou ingressar na universidade após doze vestibulares bem contados. Jamais tomava banho e lembrava um pedaço de sebo. Dizia a todos que vendia esperma para inseminação artificial. Recebia carne seca do Maranhão e a guardava sobre uma sucata de geladeira. Todo dia tirava dali alguns pedaços, que cozinhava e comia com farinha d’água. Um dia, ratos começaram a brigar sobre a carne seca e um caiu no Distribuidor de Esperma, que acordou com uma ratazana na cara. Em agosto, houve o caso do Padre. Uma manhã, eu me encontrava no salão da Casa Velha. Duende estava encostado à janela. Era meio-dia e o sol dava até para fritar ovo.

- Não dou uma semana para que o Padre seja levado para o hospício - disse Duende, um goiano vermelho e miúdo, que só usava camisas de mangas compridas abotoadas nos punhos e no colarinho, mesmo sob o calor de quarenta e cinco graus. Três dias depois, houve um corre-corre na Casa Velha. Apareceram quatro enfermeiros, meteram o Padre numa camisa de força e sumiram. Naquela noite, encontrei-me com Duende e lhe perguntei como é que ele sabia do internamento de Padre.

- Ele andava de camisas de mangas compridas abotoadas nos punhos e no colarinho em pleno sol de meio-dia - disse.

Fui a última pessoa a falar com Duende, que vivia sozinho em um quarto grande da Casa Velha. Como tivesse perdido a chave da porta, entrava no quarto por meio de um buraco na janela, vedado com um pedaço de compensado. Duende desaparecera já há três dias. Naquela manhã, seu Miguer, o faxineiro esquálido, vislumbrou por uma brecha na janela um movimento qualquer no quarto de Duende. Olhou melhor e viu uma ratazana agarrada a uma perna. Apurou o olhar e distinguiu um homem enforcado, com ratazanas aqui e ali no corpo, especialmente na cara. Seu Miguer emitiu um guincho semelhante ao de seus irmãos roedores e deu o alarme. Foi uma perda para Rei Momo, já que Duende costumava manter discussões quilométricas com Rei Momo sobre Khrisnamurt, de quem lera todos os livros. Ironicamente, Khrisnamurt era sua ansiedade.

Quando eu não estava na Ceup, estava na universidade. Tive uma professora gorda como uma vaca que promovia debates sobre marxismo sem jamais ter lido O Capital. Vivia com uma aluna magrinha, que a gorda agarrava nos corredores da faculdade e lhe aplicava beijos escandalosos. Durante três semestres vi-me perseguido por um professor de técnica de alguma coisa, homossexual, coxo, com uma nádega seca e analfabeto. Um dia, no banheiro, segurei-o pelo cabelo e o fiz beber água do vaso sanitário. Um santo remédio. Outro mestre inesquecível foi um idiota nascido no Piauí, educado em Goiás e doutorado numa dessas universidades perdidas nas estradas dos Estados Unidos. O tipo lecionava uma disciplina chamada Estudos de Problemas Brasileiros. Suas aulas eram, invariavelmente, um elogio às obras faraônicas dos ditadores militares. À noite, livrava-me de tudo aquilo com um bom gole de gim-fizz no Cosa Nostra, por conta da casa.

Rei Momo morreu no Natal daquele derradeiro ano de minha permanência na Ceup. Caiu como um passarinho baleado diante da parede nua do quarto, onde sempre estivera seu tesouro. Rei Momo era um ladrão de livro. Possuía uma pilha de dois mil volumes. Ao mudar-me para o quarto dele, tive de colocar Sequóia em ordem. Sequóia chegou a dar uma surra de cinto em Rei Momo. Mas eu ainda não morava na Ceup. Eu era pugilista amador e sempre que podia estava lá com a turma da Joe Louis. Acabei com Sequóia apenas com um tabefe na cara. Ele não revidou. Ficou se cagando de medo. Então, deixou Rei Momo em paz. Eu gostava de conversar com Rei Momo, que levava uma vida de rei, mesmo. Matriculava-se numa única disciplina na universidade e fazia de conta que estava estudando. Sua família o mantinha ali porque o considerava retardado mental. Ele não se importava. Recebia uma mesada relativamente gorda. Consumia suas tardes conversando fiado nas bancas de tacacá e com os vigias das redondezas. Pois bem, Sequóia mudou-se. Aproveitou para dar um golpe fatal em Rei Momo. Na madrugada daquele Natal, ao entrar no tugúrio onde nos enterrávamos, Rei Momo encontrou um bilhete pregado com fita Durex na parede nua onde sempre estiveram os livros, a primeira coisa que Rei Momo checava ao entrar no quarto. “Agradecido pelo livros, bicha louca” - dizia o bilhete.

Vocês sabem como Ernest Hemingway morreu? Segundo Milt Machlin, no livro O Inferno Privado de Hemingway, era cedo da manhã. “Desceu à sala de armas e tirou do armário uma de suas espingardas favoritas, uma Angelini e Bernardon calibre doze, fabricada especialmente para ele. Era uma bela arma, e ele sempre a tratava com a reverência de um objeto religioso. Carregou-a com dois cartuchos, depois meteu os dois canos na boca e puxou os gatilhos ao mesmo tempo.” Houve um tempo em que pensei matar-me. Possuía - e isto era uma das minhas pequenas riquezas - uma pistola, a PT 58, da Taurus. Se eu quisesse me suicidar como Hemingway teria de pôr a boca do cano no céu da boca, de modo que a bala atravessasse o cérebro. A gente não sente nada. Os que ficassem, logo me esqueceriam. Como minha família é de Oiapoque e muito pobre, eu seria enterrado como indigente e, assim, desapareceria sem deixar rastro. Cheguei a cogitar isso na época em que aquela cadela, aquela índia duma figa, galinha do caralho, me empurrou de volta para a sarjeta, depois de quase um ano principesco. Mas agora sou grato a ela. Ajudou bastante. E depois somente nós temos a responsabilidade pelo que passamos. Antes de conhecer Celina, estivera sentado numa cadeira olhando para uma parede. A sorte é que ouvia Wolfgang Amadeus Mozart. Concerto para Piano e Orquestra em Ré Menor. Para além da parede há um anoitecer azul. Azul escuro. Peguei meu canivete italiano, outra joia que possuo, e vibrei contra o céu. O sangue escorreu pelo corte. E o azul intenso respingou em mim. Atravessei o portão da Ceup e tomei pela Rua São Francisco e depois pela Avenida Almirante Tamandaré até a Avenida Presidente Vargas. Sentei-me num banquinho do Milano e pedi uma Antarctica pequena. “Como vou desforrar!” – pensei, pois acabara de conseguir uma vaga em O Liberal. Já tinha renda garantida, agora. Só precisava escrever um romance que vendesse como Cem anos de solidão, como pão francês. Então compraria um iate para vagabundar por toda a Amazônia e o Caribe.

Taguatinga-DF, agosto de 2011

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Octávio Ribeiro, Pena Branca

Em julho de 1978, eu trabalhava como repórter em O Liberal, no belo prédio assinado por Francisco Bolonha, antiga sede da Folha do Norte, na Rua Gaspar Viana, no centro de Belém do Pará, numa época em que o bas-fond ainda arquejava. Um dia, recebi pauta para entrevistar o lendário Octávio Ribeiro, conhecido como Pena Branca, que estava na cidade para autografar seu Barra Pesada, livro de reportagens. Ele e sua companheira - na época, uma jovem paulistana, herdeira de uma indústria de vidraça – estavam hospedados em um pequeno hotel no centro de Belém. Era uma manhã ensolarada, pois julho é o auge do verão amazônico. Diga-se que verão na Amazônia é estiagem, ou é quando chove menos, estação que vai de maio a outubro; pressupõe-se que chove mais de novembro a abril, o que chamamos (sou amazônida) de inverno. Pena Branca recebeu esse apelido porque tinha uma mexa branca de cabelo no alto da testa, mas, em 1978, seu cabelo começava a ficar grisalho. Ele era grandalhão, tinha a voz grossa e emanava vitalidade. Quando leu a entrevista, comentou que era a melhor da imprensa local.

Naquela época, eu frequentava a casa do Walmir Botelho, hoje diretor de redação de O Liberal. Ele se casara com minha amiga de infância, Deury Farias, de Macapá. O Walmir comandava, juntamente com Oliveira Bastos, O Estado do Pará, um dos melhores jornais já feitos em Belém, e o Oliveira acabara de convidar o Pena Branca para dar uma sacudida na editoria de polícia do jornal. Quando o Pena me viu na sala do Walmir me convidou na hora para eu assumir como redator, recebendo mais do que o dobro do que eu ganhava em O Liberal. Aceitei de pronto.

Trabalhei um mês e meio com Pena Branca. Aprendi muito com ele, como armar frases claras e curtas, usar as palavras com propriedade, rigor gramatical e criar um tom coloquial nos textos, além de desenvolver feeling para a notícia jornalística. Aprendi também que em jornalismo é preciso investigar, investigar, investigar, para não cometer injustiça. De madrugada, quase sempre saíamos juntos, Walmir, Pena e eu, além de outros colegas. Íamos para a noite belenense. Uma noite, ele me convidou para dormir no apartamento dele e da sua mulher, no prédio da Assembleia Paraense, na Avenida Presidente Vargas. Estávamos lá quando rebentou uma discussão entre os dois. Parecia que iam quebrar o apartamento todo. Depois ficaram mansos. Soube depois que aquilo era normal entre eles. De qualquer forma só não fui embora porque Pena me pôs em cárcere privado. Não queria que eu fosse embora. Era um sujeito que precisava de companhia e movimento o tempo todo.

Além de redigir a manchete e outras matérias importantes de polícia, eu escrevia contos engraçados que eram publicados no jornal, e ainda ajudava, às vezes, o Walmir na capa. O Pena me adorava, porque gostava do meu texto e, creio, porque lhe transmitisse serenidade. Eu também gostava bastante dele. Mas em pouco tempo fui me enchendo da editora de polícia. Comecei minha carreira de jornalista como repórter policial no Jornal do Comércio, de Manaus, em outubro de 1975, em plena ditadura militar. O Casarão, a central de polícia, fedia a urina, a sangue seco, a tortura, a sebo. Os dois meses que trabalhei como repórter policial foram a travessia de um pântano de baixezas humanas, onde a morte trágica era rotina. De lá, fui para a reportagem geral de A Notícia.

Em O Estado do Pará, comecei a me encher daquele mundo de horrores, que era o mundo policial na época da ditadura, e também da falta de preparo, de sensibilidade, dos repórteres policiais. Na verdade, eu sempre quis escrever literatura; apenas ganhava a vida como jornalista. Aliás, eu não tinha sequer o ensino básico completo, e só entrei na universidade depois de fazer o supletivo dos antigos cursos ginasial e segundo grau, em 1982, terminando o curso de Comunicação Social na Universidade Federal do Pará (UFPA), em 1987. Um mês e meio depois, pedi ao Pena para sair da polícia e ir para a editoria de cidade. A reação do Pena foi possessiva: disse ao Oliveira Bastos, que era dono do jornal, juntamente com Avertano Rocha, que se eu não fosse demitido ele sairia. O resultado é que eu me mandei.

Fui para Rio Branco, trabalhar com Elson Martins na Gazeta do Acre. De lá, voltei para Manaus e para Belém. Em 1987, vim para Brasília, e fui trabalhar novamente com o Walmir Botelho, então diretor de redação do Correio do Brasil. O Octávio Ribeiro andou também por Brasília, sempre brilhando. Daqui, foi para Manaus, onde morreu.

Em um mês e meio de convivência com ele foi como se o conhecesse há décadas, tal a intensidade com que vivia, e vivia intensamente a investigação, o deslindamento do mistério, a própria vida. Era também afetuoso, justo, e possessivo. Acho que se sentia só porque, como uma estrela cadente, se consumiu rapidamente num voo fulgurante. Resta a lenda.

sábado, 20 de agosto de 2011

Sonhos de uma noite de verão

Rolos de fumo elevavam-se do braseiro, onde, enfileirados, havia espetos de alcatra, de porco, de frango, de linguiça, de coração de galinha, de provolone, e mistos. Em meio aos pedaços vermelhos de carne, havia nacos de gordura, amarelos, contrastando com o tom escuro da carne, à medida que ia assando. Havia também churrasquinho de maminha. Mas qualquer um custava apenas um real, e era servido com farofa de farinha paraense, mandioca e vinagrete, de modo a se constituir em um perfeito jantar. A churrasqueira era enorme. A fumaça elevava-se e perdia-se além da claridade das lâmpadas dos postes. O dono do negócio andava feito uma formiga, para lá e para cá, de camiseta, bermuda e sandálias japonesas, servindo cerveja e churrasquinho. A cerveja de maior saída era Skol, seguida de Antarctica e Bavária. Mas havia também Boemia e Budweiser. E Bhrama, que quase não saía.

- Brasília está cheia de gente que fracassou nas suas cidades natais. Pergunte, por exemplo, a um carioca o que ele faz aqui. Virá com aquela conversa de que o Rio está violento. Mas o Rio está cheio de gente de sucesso - disse Lucas, que nascera em Juiz de Fora, mas fora educado no Rio de Janeiro.

- Para mim, basta uma assessoria num posto qualquer, mesmo que seja em Santo Antônio do Descoberto. Mas tenho fé em Deus que o deputado vai me arranjar a assessoria de imprensa do Hospital Regional de Taguatinga - disse Eduardo, de Belém do Pará, mastigando um naco de provolone.

- Santo Antônio do Descoberto fica em Goiás e o deputado não arranja nada para ninguém. Só pensa nele mesmo. Quando chegou em Brasília não sabia nem andar. Agora já sabe até vestir terno. Ele não arranjou emprego nem para o Gordo. Na última edição do jornal do Gordo havia pelo menos seis fotos do deputado. Ele só diz venha a nós... - disse Lucas.

- Mas também o Gordo é um picareta - disse Mino, de São Paulo.

- Mais do que o deputado? - Lucas perguntou.

- Todos nós trabalhamos na campanha do deputado: o Eduardo, no jornal do Gordo; o Lucas, na Gazeta de Taguatinga; e eu, no Gogó da Ema. Agora, é hora, bicho, de a gente ganhar uma assessoria - disse Mino.

Era mais de uma da manhã quando Eduardo voltou, devagar, para casa, perto da Rua das Palmeiras, no centro de Taguatinga. O encontro com o deputado fora marcado para a meia-noite do dia seguinte. “Por que será que o deputado só se reúne assim tão tarde da noite?” - Eduardo perguntou a seus botões. “A reunião será no sindicato dos donos de postos de gasolina.”

Taguatinga, 11 de abril de 1999


Este conto integra o livro O casulo exposto, à venda nos sites das livrarias Saraiva, Cultura e Leitura. Em Brasília, está à venda nas livrarias Leitura do Conjunto Nacional e do Pátio Brasil.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O primeiro beijo


No primeiro beijo, na noite de 15 de maio de 1988, quando ignorávamos O último imperador da china, de Bernardo Bertolucci, no antigo cinema do Conjunto Nacional, soube que eu era teu para sempre, e que todas as minhas fugas, mesmo aquelas em que eu seria atraído por uma sereia, acabariam nos teus braços. E quando deste à luz nossa princesinha, nasceu em mim um leão no auge da sua força, que brame na praia quando o sol se põe, para o mar azul. Quando eu fui insano, nós três corremos muito perigo, porque minha fúria destruía tudo ao nosso redor, mas Deus, que é meu Pai, destinou um anjo de luz, alto como Hemingway, de olhos grandes como os do ET de Spielberg e fulminante como uma Glock 9 mm, para iluminar meu caminho. Assim, escapamos de todas. Além do mais, Josiane, eu te ofertei minha biblioteca e, para a Iasmim, dei um portal que lhe permite ver as coisas verdadeiras, invisíveis aos olhos, mas tangíveis ao coração: O pequeno príncipe, que Antoine de Saint-Exupéry criou, quiçá durante um voo para o norte da África.

Teu primeiro beijo foi como todos os beijos que recebi de outras princesas. Mesmo que sejam o roçar de lábios, têm o efeito de um cataclismo de rosas vermelhas na vertigem do abismo em que despencamos como num sonho. Tenho um sonho recorrente em que voo, voos sempre altos, porque sei que voos baixos levam perigo. Também sonho em Copacabana, que é sensual como Goiânia e como a Avenida Presidente Vargas, em Belém, no fim da tarde. E sonho contigo, minha cafuza amada. Teus olhos são sempre doces como os das mulatas de Di Cavalcanti. Agora, sou como um velho soldado, manco e com artrite nas mãos, mas atento como o apanhador no campo de centeio. Para socorrê-las, tomo de um trago uma taça de adrenalina e o leão, jovem como quando nasceu em mim, está pronto para o bote.

Todas as mulheres que me amaram inocularam para sempre em mim a capacidade de sentir a Terra girar, não na velocidade física, mas na dimensão de uma sinfonia azul de Raimundo Peixe, quando eu tinha 14 anos de idade e havia bebido um quarto de litro de rum. O beijo da Leila me levou à Lua, nos idos de 1969, um ano antes de os Beatles se separarem (como se fossem casados!), e os da Mara me iluminaram para sempre. Ela tinha os olhos verdes nas tardes quentes; em certas manhãs eram azuis como o mar, e, às vezes, eram felinos. Tinha cheiro de madrugada, um leve sabor de vinho e qualquer coisa espanhola. Os beijos da Josiane são doces como um terremoto, e eu sinto a Terra girar quando ouço os murmúrios dos seus sonhos no acme.

Tenho já 57 anos de idade, mas continuo sentindo a mesma vertigem dos primeiros beijos, leves como a brisa, vendaval de 7 mil rosas colombianas. Acho que porque sinto, além do corpo feminino, o perfume das virgens ruivas, em cada mulher, sei que todas elas são santuários que não devem ser corrompidos, nunca, pois as mulheres guardam a marca do Criador na sua beleza de jato prestes a pousar. Devemos imobilizar as mulheres que amamos com pegadas fortes, mas nunca de carrasco e sempre de artista, porque cada mulher merece nossa melhor criação, especialmente a mulher amada.

O leite da mulher amada, que jorra como água cristalina na boca do viajor sedento, é como uma garrafa de Dom Pérignon, safra de 1954, após um dia de labuta na vida de um escritor que conseguiu dar vida a uma personagem de parto difícil. É como um homem que não espera senão uma rotina mortificante e que, de repente, salva uma princesa em perigo e recebe um sorriso dela. Haverá algo mais precioso do que o sorriso de uma mulher? Os sorrisos nascem numa região secreta do santuário feminino. Graças a Deus, bebi suficiente leite extraído de criaturas tão lindas como virgens ruivas, por isto sei que meu caminho é seguro, acaba sempre nos braços da mulher amada, que é, ela mesma, o próprio primeiro beijo.


Brasília, 18 de agosto de 2011

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Belém do Pará vista da janela do sétimo andar de um hotel, no início da madrugada


A noite mais azul é quando
Assassinos me perseguem, derroto-os
E durmo com a princesa.
Isto só acontece nas noites tão azuis
Que um Boeing 777 ferem-nas
E sangue verte sobre as rosas,
Que o acme da princesa
Transforma em rosas colombianas.
A noite mais azul é tórrida e os jasmineiros choram,
O mundo recende a maresia
E a gordura do meu corpo
Volta a ser rija como os punhos de Muhammad Ali
Quando ele acabou com George Foreman, no Zaire.
Transformo-me em luz
Na noite excessivamente azul.

Brasília, 15 de agosto de 2011

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

57 anos

Ray Cunha, 2011, em flagrante de Iasmim Moreira Cunha

Nesta época, em Brasília, as manhãs são geladas, com a temperatura caindo até abaixo de 10 graus. É muito frio para quem passa a maior parte do ano com temperaturas em torno dos 30 graus. Este ano, o sabiá da minha quadra começou a cantar dia 3 de agosto, às 6 horas. Os sabiás habitam todo o Brasil e cada um tem o canto diferente do outro. As notas são as mesmas, mas o timbre e as variações são diferentes. É como a urina dos cães, que demarcam seu território por meio de ácido úrico. Os sabiás demarcam sua área com seu canto. Eles aparecem em agosto e vão até o início do ano seguinte, atraindo as fêmeas e expulsando rivais com seu canto. É a festa da procriação. Em Brasília, em cada quadra, há um sabiá reinando na primavera, que se aproxima, e no verão.

Levanto antes que os sabiás comecem a cantar, às 5, faço as abluções e preparo café, Três Corações, gourmet. Bebo três xícaras médias do bom arábica, com duas fatias de pão de passas. Às vezes, saio antes das 7 horas. Nesta época do ano, de manhã cedo, está sempre frio, mas é frio tropical, basta um casaco de lã para me sentir confortável ao atravessar o Setor Comercial Sul, numa caminhada redentora em meio a tantas mulheres bonitas e perfumadas, algumas com os cabelos ainda molhados, até a rodoviária do Plano Piloto, onde tomo ônibus metropolitano para o jornal DF-Goiás, em Luziânia, no Entorno Sul e distante 58 quilômetros de Brasília. Quando não medito em casa, no oratório, conecto-me no ônibus mesmo com Deus.

O cientista mais brilhante da era moderna, o judeu-alemão Albert Einstein, disse que acreditava no Deus do filósofo holandês Baruch Spinoza, “que se revela na harmonia de tudo o que existe”, manifesta-se apenas em a natureza ordenada do Cosmos. Deus jamais será medido por recursos físicos, ou pelos cinco sentidos. Sentimo-Lo pela intuição. Alguns de nós têm a percepção altamente desenvolvida, como o príncipe nepalês Siddhartha Gautama Buda, o carpinteiro judeu Jesus Cristo e o filósofo japonês Masaharu Taniguchi. Então, sua Luz bendita inunda nossas células, a alma.

Há também artistas que manifestam Luz. Quando ouço o Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor (número 20, K 466), do austríaco Wolfgang Amadeus Mozart, sinto a Terra roçar o espaço, da mesma forma que ao me desfazer no acme e me transformar em luz. Cientistas comprovaram que a Quinta Sinfonia do alemão Ludwig van Beethoven mata células cancerígenas, assim como Atmosphères, do húngaro György Sándor Ligeti.

Domingo, completo 57 anos. Nasci às 5 horas de 7 de agosto de 1954, numa cidade localizada na esquina da Linha Imaginária do Equador com a boca do maior rio do mundo, o Amazonas. Macapá é o nome da minha cidade natal. Além da sua singularidade, se debruçar para a boca do rio Amazonas, que despeja 220 mil metros cúbicos de água por segundo no oceano Atlântico, suas noites, tórridas, cheiram a jasmim. Há, portanto, no meu DNA, a Amazônia.

Hoje, já não sinto a gana de quando tinha 21 anos. Naquela época, eu amava como leão e bebia como Hemingway, e me internava na noite, essa grande amante, armado apenas da beleza suprema da juventude. Já não tenho arma, porém arranco gemidos ainda mais altos da mulher amada, porque nas minhas mãos há luz. Também não dilacero mais carne, embora minhas mãos tenham se transformado em tenazes de nióbio, mas que roçam a pele da mulher amada com a leveza de uma pétala de rosa colombiana.

Completo 57 anos domingo 7, contudo não sinto mais o fluir da vida no tempo, mas como o grande rio, que escorre, ininterruptamente, para o Atlântico. A Terra, a lei da gravidade, aos poucos dá lugar à luz, portal entre o mundo fenomênico e a dimensão espiritual. Ouço murmúrios na tarde, Mozart, e caminho para a noite. O perfume noturno é intenso – Chanel número 5, noites tórridas sob o choro dos jasmineiros, mar, Don Pérignon, safra de 1954, leite da mulher amada, são os cheiros que sinto agora e agora, o momento mesmo da vida.

Meus cabelos ainda são negros - há quem pense que os pinto -, mas são cada vez mais ralos. Minha pele, aos poucos, vai sofrendo a oxidação de maracujá de gaveta e os desconhecidos já me olham desconfiados, pois normalmente confiamos em pessoas de até 30 anos. Já não bebo mais, nem vinho, depois de 43 anos mergulhado no álcool, como uma poça que se avolumou e começa a secar. Ouço, agora, o silencioso som da madrugada, emociono-me ao ver crianças, choro de alegria no jardim prenhe de rosas, e voo no riso da minha filha e da mulher amada, e de todos que eu amo.

Já não tenho mais apego e não quero nada que não seja meu, e tudo o que é meu está guardado num relicário, no meu coração. Minha riqueza é imensa, pois à minha passagem os jardins florescem, as crianças riem e a Luz triunfa.