terça-feira, 23 de agosto de 2011

Zé Sarney usa helicóptero da PM do Maranhão para passear

O senador vitalício pelo Amapá, o maranhense Zé Sarney (PMDB), presidente do Senado, usou um helicóptero da Polícia Militar do Maranhão para passear na sua ilha particular, Curupu, duas vezes neste ano - dois domingos, 26 de junho e 10 de julho. A aeronave foi comprada no ano passado para combater o crime e para emergências médicas por R$ 16,5 milhões, pagos pelo governo estadual e o Ministério da Justiça. Num dos passeios de Zé Sarney ele levava a tiracolo um empresário que tem contratos milionários no Maranhão, estado que por acaso é governado por Roseana Sarney (PMDB), a filha. Esse passeio quase custou a vida de um homem. Com traumatismo craniano e clavícula quebrada, ele precisava do helicóptero para se salvar. Quanto a Zé Sarney, disse que viajou no helicóptero a convite da "governadora do Estado".

Se aplicada, a Lei de Improbidade Administrativa pune esses casos com perda da função e suspensão de direitos políticos. Não Sarney, ungido por Lula acima do bem e do mal. Ao discursar na entrega da aeronave, em 2010, a governadora Roseana Sarney disse que a aquisição era "uma demonstração de que estamos investindo em uma polícia moderna, afastando de vez a bandidagem" do Maranhão. (Com informações da Folha)
Segue-se comentário do jornalista Augusto Nunes, publicado na sua coluna, Direto ao Ponto, na Veja.com.

Na capitania hereditária, casos de polícia passeiam no helicóptero da polícia

AUGUSTO NUNES
Veja.com

O artigo 5° da Constituição informa que todos são iguais perante a lei. Menos os brasileiros mais iguais que os outros e o Homem Incomum José Sarney, precisa ressalvar algum parágrafo. Os mais iguais podem, por exemplo, viajar de graça em helicópteros cedidos por empresários amigos, que pagam a conta com o lucro dos contratos sem licitação. É o caso do governador Sérgio Cabral, passageiro preferencial da EikAir. Ou do ministro Paulo Bernardo, premiado com um vale-transporte perpétuo na frota da construtora Sanches Tripoloni. (Tripoloni. Lembra tripulação, tripulante. O Brasil é mesmo o país da piada pronta).
Privilégios aéreos ainda mais impressionantes são os conferidos à singularidade que o ex-presidente Lula promoveu a Homem Incomum. Como se soube neste começo de semana, Sarney pode até fazer uma visita à casa de veraneio na ilha de Curupu a bordo do único helicóptero da Polícia Militar do Maranhão - e levando de carona um empreiteiro de estimação. Se a Justiça funcionasse como deveria, Madre Superiora já teria embarcado numa aeronave da PM para a viagem só de ida rumo a uma ilha-presídio. Como na capitania hereditária o vilão virou xerife, um caso de polícia passeia no helicóptero da polícia.
“Viajei a convite da governadora do Maranhão”, disse o pai da governadora do Maranhão. “Como chefe do Poder Legislativo, tenho direito a transporte e segurança em todo o Brasil.” Levou o troco de José Vicente da Silva Filho, coronel da reserva da PM paulista: “O senador tem estruturas próprias de segurança e apoio, inclusive pela condição de ex-presidente, com veículos e pessoal federal”, corrigiu o ex-secretário nacional de Segurança Pública. “O Ministério Público deve instaurar procedimento para apurar o fato, já que sobram evidências de crime de responsabilidade.”
Por enquanto, Sarney só não se livrou dos códigos morais em vigor no país que presta. Castigado pelo desprezo dos brasileiros decentes, tornou-se um colunista sem coluna, um escritor sem leitores, um ex-chefe de governo que cabe num asterisco e um homem público proibido de aparecer em público sem a proteção de cordões humanos. Ao completar 80 anos, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi homenageado até por adversários políticos. O 80° aniversário do Homem Incomum não mereceu mais que uma festa reunindo a Famiglia.
Tampouco escapará de ser castigado pela História. Daqui a poucos anos, o Brasil nem saberá quem foi José Sarney.

Um comentário:

  1. Ray,

    Curiosamente o melhor "flash" dessa relação promiscua e de décadas entre o Maranhão e Sarney foi feita por Glauber Rocha em um documentário de dez minutos encomendado por Sarney em 66, por ocasião da sua posse.

    Glauber, marotamente, intercalou imagens da posse com imagens do verdadeiro (e oculto) Maranhão. Óbvio que o político acabou por vetar o filme.

    Vale muito a pen adar uma conferida no youtube:

    http://www.youtube.com/watch?v=t0JJPFruhAA

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