sábado, 24 de setembro de 2011

Como cassar/caç​ar os políticos corruptos e seus corrompido​s

A nova ordem começava naquela manhã. Todos os políticos corruptos, e os níveis dos seus crimes, foram identificados, checados, para que não houvesse possibilidade de erro, e listados, e a constituinte, composta de legítimos representantes da sociedade organizada, seria instalada naquela manhã no Congresso Nacional. Quanto às penas aplicadas aos corruptos, seriam as seguintes:

1 – Assessores puxa-sacos de políticos corruptos serão caçados, arrastados nus para uma praça pública sem árvore, meio-dia, em Macapá, amarrados a um poste e receberão 10 vergastadas de galho de goiabeira nas costas. Com TV. Em Macapá porque fica na Linha Imaginária do Equador.
2 – Os que soltam a franga quando ouvem falar em censura da imprensa serão presos incomunicáveis durante 4 anos.
3 – Políticos que ficam com parte do salário dos seus assessores devolverão o dinheiro tungado até o último centavo e receberão meia dúzia de bolos com palmatória furada.
4 – Políticos-vampiros irão para uma penitenciária-indústria onde trabalharão até pagar o último centavo roubado. No caso de grandes ladrões, seus bens serão arrestados até o pagamento de todo o dinheiro roubado.
5 – Políticos ladrões de material hospitalar e seus asseclas passarão todo o tempo em que se dedicaram ao roubo limpando hospitais, sob severa vigilância.
6 – Políticos ladrões de merenda escolar passarão todo o tempo em que se dedicaram ao roubo trabalhando no eito, sob severa vigilância.
7 – Políticos pedófilos e estupradores serão presos o equivalente ao tempo em que se dedicaram a seus crimes, em prisão do estado do Pará, com direito a levar apenas uma lata de vaselina.
8 – Políticos que mandam matar e os respectivos matadores serão caçados por caçadores profissionais e varridos a tiro.
9 – Políticos que aspiram ser Hugo Chávez serão...
Acordou.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Cheiro de mulher nua

Estou sentado em um quiosque defronte ao Macapá Hotel,
Só, mas há muita luz e mulheres tão lindas que só as vemos em grandes aeroportos internacionais.
Estou só, mas o rio Amazonas, o maior do mundo, ruge como o mar em Copacabana, na maré cheia, e salpica meu rosto, escanhoado para esta noite.
Ouço merengue.
Estou aparentemente só, pois meu Pai enviou uma legião que me acompanha por todo o sempre, meus amigos logo chegarão e sinto o perfume das virgens ruivas.
Estou só com meu coração, relicário de pedras preciosas como acme da mulher amada e o choro dos jasmineiros nas noites tórridas da Linha Imaginária do Equador.
Estou só, mas estão comigo Belém, Manaus e Rio de Janeiro.
Minha solidão é como a dos pugilistas e dos escritores: quando começa o assalto, ninguém os pode socorrer e eles só contam com o talento, por isso nunca estão sós.
Nunca estou só, porque meu carisma é feito de pura luz
E minha lucidez é o Concerto para Piano e Orquestra, em ré Menor, de Mozart.
Estou só, mas o céu é tão azul que chove rosas colombianas vermelhas
E o ar é prenhe do cheiro de mulher nua.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

No Amapá, Amazônia, políticos desviam dinheiro público e debocham da população, certos da impunidade

No estado do Amapá, na Amazônia Oriental, a bandalheira foi institucionalizada. Matéria da revista Época desta semana mostra a sacanagem de políticos com o dinheiro público, num deboche para com a miséria que assola a província dominada pelo maranhense Zé Sarney. Segue a matéria de Época, Extravagância amazônica

DANILO THOMAS
Época

19 de setembro de 2011 - O Amapá está na lanterna entre os Estados brasileiros no ranking da produção de riqueza – a soma de tudo o que lá se produz equivale a apenas 0,2% do PIB nacional, o pior resultado do país. Essa pobreza contrasta com a generosidade dos políticos do Estado em se concederem regalias. Até junho do ano passado, os 24 deputados da Assembleia Legislativa do Amapá recebiam R$ 15 mil por mês a título de verba indenizatória – uma espécie de salário indireto, criado há dez anos em Brasília em resposta à pressão de deputados e senadores por aumento salarial e, depois, adotado pelas assembleias estaduais em todo o país. Em um ano, os deputados do Amapá elevaram a verba de indenização de R$ 15 mil para R$ 100 mil por mês, mais de três vezes o que recebem deputados e senadores para gastar em Brasília e nas despesas com viagens para seus Estados.
O mais recente reajuste no Amapá ocorreu em julho. Por proposta do presidente da Assembleia, deputado Moisés de Souza (PSC), a verba deu um salto de R$ 50 mil, que já era a maior do país, para R$ 100 mil. Foi aprovada por unanimidade pelos deputados. Para ter uma ideia da generosidade absurda desse aumento, a segunda maior verba indenizatória, no valor de R$ 39 mil, é paga pela Assembleia Legislativa de Alagoas. A terceira é paga no Maranhão, R$ 32 mil por mês.
Em agosto, o Ministério Público estadual tentou anular a decisão da Assembleia Legislativa do Amapá. Em ofício enviado ao deputado Moisés de Souza, a procuradora-geral de Justiça, Ivana Lúcia Franco, recomendou o cancelamento do reajuste da verba indenizatória e a redução do valor para cerca de R$ 23 mil. A proposta do Ministério Público não sensibilizou os deputados. Pelo contrário, os 24 deputados abriram processo contra o promotor Adauto Barbosa, responsável pela Defesa do Patrimônio Público, por ele ter declarado a uma emissora de rádio que os deputados aumentaram a verba para atender a "seus interesses eleitoreiros e pessoais". Na semana passada, também por ofício, o presidente da Assembleia, Moisés de Souza, descartou qualquer redução da verba indenizatória. Afirmou que não existe lei estadual ou federal que "estabeleça critérios objetivos para a fixação dos valores máximos da referida verba". Portanto, o limite fica a critério apenas deles. Para Moisés de Souza, a verba indenizatória, por ter substituído cotas como a de combustível, deu mais transparência ao uso do dinheiro público. Souza, que lidera os colegas na farra com dinheiro público, é aliado do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Em julho, depois de Sarney dizer que se aposentaria ao final de seu mandato, em 2014, Souza lançou no Amapá o movimento "Fica, Sarney".
Diferentemente do Amapá, em alguns Estados a divulgação dos gastos com a tal verba indenizatória inibiu reajustes ou simplesmente causou sua revogação. Esse foi o caso de Santa Catarina. Em 2009, o Estado destinava R$ 38 mil para cada deputado gastar com combustíveis, hospedagem, viagens, alimentação e telefones, entre outras despesas no exercício do mandato. Pressionada, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina acabou com a verba. Passou a reembolsar as despesas dos deputados mediante a apresentação de notas fiscais para gastos autorizados pela Mesa Diretora.

sábado, 17 de setembro de 2011

Israel tem dois caminhos: ou reconhece o estado palestino e se recolhe ao seu território, ou mata todos os palestinos

Judeus estão matando árabe adoidado, com apoio dos Estados Unidos. Será que pensam que são superiores porque Jesus Cristo nasceu em Israel? O psicopata mais sanguinário da História, o austríaco Adolf Hitler, achava que quem tem pele branca (do tipo que dá para ver o contraste das veias), olhos claros ou é loiro é superior às demais etnias (o que é de uma ignorância colossal), e comandou o massacre de cerca de 6 milhões de judeus. O caso de judeus massacrando palestinos é semelhante: Hitler queria que os alemães dominassem a Europa; Israel, que é um posto avançado dos Estados Unidos, funciona como uma espécie de barreira para frear o que George W. Bush denominou de Eixo do Mal. É a doutrina do jacaré. Os olhinhos de Bush parecem de jacaré. Assim, Israel é semelhante a Zé Sarney, ungido por Lula um maranhense acima do bem e do mal, que pode fazer o que quiser, como atos secretos no Senado da República (será da República, mesmo?).

Israel, ou Palestina, é uma noz encravada na margem oriental do mar Mediterrâneo, cercada pelo Líbano, Síria, Jordânia e Egito, com cerca de 7,5 milhões de habitantes, 5,62 milhões dos quais, judeus. Depois da Primeira Guerra Mundial, o Reino Unido tomou conta da Palestina, até depois da Segunda Grande Guerra, quando, em 1947, as Nações Unidas recomendaram a divisão da Palestina em um estado judeu e um árabe. Os líderes judeus pegaram na hora, mas os árabes, não. Israel declarou independência em 14 de maio de 1948 e os estados árabes vizinhos atacaram o país no dia seguinte. A guerra continua até hoje.
Hoje, há um fato novo. Os árabes aceitam Israel, mas querem criar o estado palestino. Israel não quer, e de vez em quando despeja fogo sobre os palestinos. Sabe-se que esse negócio não dá certo. Veja-se o caso do Vietnã. Os Estados Unidos despejaram milhares de toneladas de fogo sobre os vietnamitas, mas tiveram que fugir do país com fogo no traseiro. De 11 de setembro de 2001 até 2 de maio deste ano, a caça ao terrorista Osama bin Laden custou cerca de 160 mil mortos e 1,2 trilhão de dólares. George W. Bush não invadiu o Iraque por petróleo, mas pela doutrina do jacaré, assim como invadiu o Afeganistão. Jacaré não pensa em petróleo. Aliás, jacaré não pensa. Da mesma forma, Israel pensa que poderá massacrar palestinos o tempo todo. Ainda não sentiu o efeito Iraque. Imaginando que podia transformar os iraquianos em americanos de segunda categoria, Bush acabou se sujando no atoleiro de Saddam Hussein.
Segundo a Wikipédia, a área correspondente à Palestina até 1948 foi dividida em três partes: o estado de Israel, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, as duas últimas ocupada por Israel, que de vez em quando despeja fogo nelas, assando crianças, mulheres e velhos. O estado palestino foi proclamado no dia 15 de novembro de 1988, em Argel, pelo Conselho Nacional Palestiniano, organismo legislativo da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), e administrado, desde 1994, pela Autoridade Nacional Palestiniana, reconhecido como estado soberano por 109 países. Os judeus não dão a mínima para isso, mas a Autoridade Palestina busca a admissão do estado palestino como membro pleno da Organização das Nações Unidas (ONU). Para ser membro pleno da ONU é preciso a aprovação do Conselho de Segurança e de dois terços dos votos dos 193 países da Assembleia-Geral. Barack Obama já avisou que vetará a aspiração dos árabes.
Não há outra saída senão Israel reconhecer a soberania do estado palestino e se recolher ao pedaço de terra que já conseguiu no Mediterrâneo, a menos que pretenda fazer como Hitler: matar todo um povo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Morte na Bolívia

Angústia foi o que começara a sentir depois da deserção do cholo Juan. Já vinha sentindo solidão há muito tempo. Os cholos e índios estranhavam aquele cubano - ou argentino - magro, em andrajos, de longos cabelos desgrenhados e barba de mendigo, a pele encardida, embora nada disso reduzira a aura de Ramón, ou Che Guevara, diante dos dezesseis homens. No olhar daquele Dom Quixote rugia um vulcão. O vulcão do delírio. À sombra, sobre uma pedra, Che se lembrava, não sabia por que, do começo de tudo. Simpatizara com o general-presidente guatemalteco Jacobo Arbens, que resolvera enfrentar a United Fruits Co., e a CIA o derrubou. Foi na cidade da Guatemala que começou a ler Marx e Lênin, e a entender que a Ibero-América é o quintal dos Estados Unidos.

- Ramón, fico pensando sobre quando chegarmos ao poder – disse Pablo, um dos poucos bolivianos do grupo, ciscando com um garrancho e olhando para o comandante. – Conte-nos como foi em Cuba – pediu, pela enésima vez. Che não se furtava a repetir a mesma história; às vezes, em detalhes; outras vezes, ligeiramente.

- Promovemos uma reforma agrária. Depois, começamos a importar petróleo da União Soviética e expropriamos as refinarias americanas. Então, a CIA invadiu Cuba, mas a derrotamos. A mesma coisa acontecerá aqui. Primeiramente, derrubaremos o governo, por meio de uma guerra de guerrilhas; depois, todos deverão trabalhar pela coletividade. É assim que surgirá a sociedade que derrotará os norte-americanos, não no campo de batalha, propriamente dito, mas porque será desprendida de interesse material. Para isso, a sociedade, em seu conjunto, deverá se converter numa grande escola – disse Che.

Os homens que o estavam escutando pareciam se esforçar para entender o que Che dizia.

- E na África? – perguntou um deles, Catito, que parecia sempre mais informado do que os outros.

“A África” – pensou Che Guevara. A África fora um equívoco. Tentou lutar contra belgas e americanos no Congo, o coração das trevas. Acreditava que o socialismo pudesse ser instalado em qualquer recanto do globo, porém jamais entendeu os africanos. Como não entendia os bolivianos. Que importava! Só importava a revolução internacional. O delírio. O fato é que, em novembro de 1966, Che se instalara em um hotel em La Paz com o codinome Adolfo Mena Gonzáles, economista uruguaio. O chefe do Partido Comunista boliviano, Mário Monje, comprou uma propriedade ao sul, em Ñacahuazú, onde Che e seu grupo se instalaram e de onde Che planejava iniciar uma revolução socialista em toda a América do Sul. Mário Monje exigiu que o comando supremo da guerrilha ficasse com um boliviano. Che disse não. Queria ele mesmo liderar a revolução internacional.

A conversa estava boa, mas haveriam de partir, em direção ao povoado de La Higuera.

- Ramón, ouvi dizer que temos tanto gás quanto já tivemos prata – disse Catito, que não obtivera resposta sobre a África.

Dessa vez Che respondeu.

- Sim, há gás, e será exportado pelo porto que o Chile tomou da Bolívia – disse. – A prata também era boliviana, e o salitre, o estanho – disse. – A cidade de Potosí já foi mais movimentada do que Nova York; tinha metade da prata do mundo...

- Depois da tomada de La Paz e da recuperação da saída para o Pacífico, vamos também recuperar o Acre – disse o cubano Alamiro.

- Sim – Che voltou a falar. - A Bolívia perdeu território para o Chile e para o Brasil – disse. – E o Chaco para o Paraguai – lembrou. – A Bolívia é onde mais há golpes militares e mais se mata índios; tornaram-na apenas uma cordilheira.

- A prata matou muitos índios – observou Alamiro. – Agora, pelo que soube, a prata está na Europa. Como vamos recuperar a prata, comandante?

- Primeiramente, temos que levantar o povo – disse Che.

- Mas o povo, aonde quer que vamos, parece que tem medo de nós – disse Catito.

- Os europeus só deixaram buracos, como se fôssemos tatus. Cago-me no leite da puta mãe dos europeus – Alamiro resmungou.

Che calara-se. Havana calara-se. Os trotskistas o abandonaram. Regis Debray fora pego. Sentia-se cansado e isolado, após onze meses embrenhado naqueles confins. “O homem é o homem e suas circunstâncias” – gostava de pensar. Precisavam alcançar o rio Grande, a caminho de La Riguera. “A América é uma só, bolivariana; depois que unirmos índios e negros numa revolução que varrerá o continente, da Argentina ao México, cobraremos a prata e o ouro que espanhóis e portugueses levaram do Eldorado. Enriquecemos a Europa, principalmente a Espanha e Portugal, à custa de todo tipo de riqueza extraída do subsolo e do sangue de índios e negros. É preciso resgatar definitivamente o solo ibero-americano dos europeus e dos norte-americanos, como Fidel Castro fez com Cuba” – pensou. “Acho que a Bolívia é o país que melhor resume a Ibero-América.”

O desfiladeiro na Quebrada de Yuro perdia-se entre dois mundos - a Amazônia e os Andes -, invisível ao sol que derretia as pedras, naquela manhã de 9 de outubro de 1967. Che Guevara se sentia cansado, frustrado e doente. A asma, que o atormentara a vida toda, voltara, ocupando o lugar do velho entusiasmo com que lutara ao lado de Fidel Castro. Apenas seu sexto sentido, desenvolvido em Sierra Maestra, se conservava, e atingira precisão irracional. Só não sabia o porquê daquela aflição que o sufocava, o miasma que recendia da população de cadáveres e das casas podres de Potosí, e entrava como injeção de veneno nas veias estouradas da Ibero-América.


Brasília, 2007

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O Círio de Nossa Senhora de Nazaré e a divisão do Pará

A Amazônia é a maior província biológica e mineral da Terra. É o trópico elevado ao quadrado. O cúmulo do realismo fantástico. Neste continente, onde o cadinho étnico e cultural brasileiro ferve, Belém do Pará é sua cidade mais importante (por diversas razões, que podem ser abordadas em outro artigo). E em Belém acontece a maior festa religiosa do planeta, o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, que faz 219 anos em 2011 e que tem seu momento culminante no segundo domingo de outubro, quando cerca de 2,2 milhões de romeiros seguem da Catedral à Basílica, numa procissão que se arrasta ao longo de 6 horas. O Círio Fluvial, na manhã do sábado que antecede a procissão, é outro espetáculo, com centenas de embarcações saindo da Vila Sorriso, Icoaraci, rumo ao porto de Belém.

Este ano, são esperados 73 mil turistas, principalmente dos Estados Unidos e França, que deverão gastar U$ 26 milhões, segundo cálculos da Companhia Paraense de Turismo (Paratur) e do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Como os paraenses gostam de pato no tucupi, na época do Círio importam toneladas da ave do Canadá, o maior produtor de pato do mundo. Entre inumeráveis paixões, os paraenses têm três irremediáveis: açaí, farinha de mandioca e o Círio. Mas não é o bastante para garantir que o território paraense siga incólume.
O Pará já foi Grão Pará, um país apartado do Brasil. A Província do Grão Pará abarcava toda a Amazônia Clássica. Hoje, o Grão Pará está dividido em Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima. Mesmo assim, o Pará atual é uma síntese da Amazônia, tão grande que será submetido a plebiscito, em dezembro, para se saber se será ou não dividido por três. É o segundo maior estado do país, atrás apenas do Amazonas, medindo 1.247.689,515 quilômetros quadrados, maior, por exemplo, do que Angola. Dividido em 144 municípios, é o mundo das águas, com alguns dos maiores rios do planeta, como Amazonas, Tapajós, Tocantins, Xingu, Jari e Pará, e o Atlântico. É o maior produtor de peixe, em quantidade e variedade, do país. É o mais rico e populoso estado (ou província?) da Região Norte, com 7.321.493 habitantes. O Congresso Nacional já aprovou o plebiscito que vai decidir pela criação dos estados de Carajás e Tapajós. Por que querem dividir esse colosso?
Por várias razões. A principal é que os governadores do Pará, todos eles, governam de costas para o interior. Até 1943, o Amapá pertencia ao Pará. Foi desmembrado e conseguiu algum desenvolvimento, embora esteja nas mãos das famílias Capiberibe e Sarney. Os Capiberibe são paraenses e os Sarney, que todos no Brasil conhecem como donos do Maranhão, resolveram expandir seus domínios e tomar conta também do Amapá. Deu certo, para os Sarney: os amapaenses garantiram a Zé Sarney emprego vitalício no Senado. Os Capiberibe e os Sarney não se cheiram, mas dividem fraternalmente o Amapá. Dá para todos. Voltemos ao Pará. É um dos maiores produtores de energia elétrica do país, mas nem metade dos seus municípios conta com energia elétrica firme. Na ilha do Marajó, por exemplo, que nem precisa de votação pela internet para ser uma das sete maravilhas do planeta, crianças são estupradas rotineiramente a troco de comida. É miséria só vista na ilha do carniceiro Fidel Castro.

Quanto a Santarém, há um século que uma elite santarena quer se separar do Pará. Eles já têm bandeira, hino, brasão, tudo. Em Carajás, há mais nordestinos, sulistas e nativos do Centro-Oeste, e certamente sudestinos, do que paraenses. Os belenenses não querem nem ouvir falar em separação.

Há quem diga que criar estados custa caro. Acho que é melhor investir na criação de novos estados do que cevar a máfia instalada em Brasília e os mamadores em Belém. Mas esse assunto é para paraense resolver. Sou apenas metade paraense - do Amapá.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O tempo do coração

Masaharu Taniguchi, no livro Mistérios da vida (Seicho-No-Ie do Brasil, São Paulo, 2003, 303 páginas), afirma que o tempo nada mais é que movimento. Ao declarar isso, o filósofo japonês confirma o que os artistas fazem desde sempre: viajar no tempo, por meio da mente. Woody Allen utiliza esse... truque?, com genialidade, em Meia-noite em Paris (Midnight in Paris, Espanha/Estados Unidos, 2011, 100 minutos).

O cineasta nova-iorquino faz um poema a Paris, exibindo-a sob todas as suas luzes, especialmente a da meia-noite, quando, na Paris de agora, um escritor, personagem central do filme, embarca no túnel do tempo rumo aos anos de 1920, e se encontra com Ernest Hemingway, de Paris é uma festa, Francis Scott Fitzgerald, de Suave é a noite, Pablo Picasso, e turma. De volta a 2011, descobre a intensidade do momento mesmo da vida, pois agora tem certeza de que a verdade está sob a chuva, à meia-noite, em Paris.
A verdade está dentro de nós mesmos. “Aonde quer que a gente vá, levamos sempre conosco nós mesmos” – disse o autor de O sol também se levanta. Com efeito, mudanças de ares não solucionam problema algum, pois se passa no plano físico, embora possam significar uma pista para a resolução do conflito, que ocorre na mente.
Lembro-me que, em 1971, aos 17 anos, em Macapá, minha cidade natal, uma cidadela ribeirinha, eu me sentia acossado pelo preconceito gratuito contra o ser artista. Escafedi-me. Fui de carona para o Rio de Janeiro. Já havia lido Paris é uma festa. Na casa do teatrólogo Paschoal Carlos Magno, em Santa Teresa, Rio, disse a ele que queria ir para Paris. Ele me perguntou para que. Disse-lhe que era para escrever um romance. “Mas você pode escrevê-lo aqui” – disse-me. “Se ao menos ainda estivéssemos no governo de Juscelino Kubitscheck.”
Nunca fui a Paris, nem escrevi romance algum no Rio de Janeiro, mas foi lá que eu renasci, da mesma forma que renasci em Buenos Aires, em Manaus, em Belém do Pará, em Brasília, em Goiânia, em Luziânia. Qualquer cidade é boa para renascermos, basta que descubramos, nela, o portal do tempo, que nos leva ao agora e o agora.
Assim como Woody Allen fez em Meia-noite em Paris, fiz em A Casa Amarela (Editora Cejup, Belém do Pará, 2004, 158 páginas). A turma toda está lá, em Macapá, sob o perfume dos jasmineiros que choram nas noites tórridas, que são todas as noites, exceto as muitas noites em que sentimos cheiro de água, de tanta chuva. Mas, em agosto, o céu de Macapá parece Paris à meia-noite, e a boca do rio Amazonas arranca o cheiro do Atlântico e o leva até os quiosques na frente do Macapá Hotel, misturando-se a Cerpinha enevoada e a boca de mulher.
O tempo cronológico é físico; o tempo mental, ou poético, não existe. Os artistas sabem disso. Por isso, não importa onde estiverem, estarão sempre viajando, às vezes, muito alto, num avião, batendo papo com Antoine de Saint-Exupéry.