sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Morte na Bolívia

Angústia foi o que começara a sentir depois da deserção do cholo Juan. Já vinha sentindo solidão há muito tempo. Os cholos e índios estranhavam aquele cubano - ou argentino - magro, em andrajos, de longos cabelos desgrenhados e barba de mendigo, a pele encardida, embora nada disso reduzira a aura de Ramón, ou Che Guevara, diante dos dezesseis homens. No olhar daquele Dom Quixote rugia um vulcão. O vulcão do delírio. À sombra, sobre uma pedra, Che se lembrava, não sabia por que, do começo de tudo. Simpatizara com o general-presidente guatemalteco Jacobo Arbens, que resolvera enfrentar a United Fruits Co., e a CIA o derrubou. Foi na cidade da Guatemala que começou a ler Marx e Lênin, e a entender que a Ibero-América é o quintal dos Estados Unidos.

- Ramón, fico pensando sobre quando chegarmos ao poder – disse Pablo, um dos poucos bolivianos do grupo, ciscando com um garrancho e olhando para o comandante. – Conte-nos como foi em Cuba – pediu, pela enésima vez. Che não se furtava a repetir a mesma história; às vezes, em detalhes; outras vezes, ligeiramente.

- Promovemos uma reforma agrária. Depois, começamos a importar petróleo da União Soviética e expropriamos as refinarias americanas. Então, a CIA invadiu Cuba, mas a derrotamos. A mesma coisa acontecerá aqui. Primeiramente, derrubaremos o governo, por meio de uma guerra de guerrilhas; depois, todos deverão trabalhar pela coletividade. É assim que surgirá a sociedade que derrotará os norte-americanos, não no campo de batalha, propriamente dito, mas porque será desprendida de interesse material. Para isso, a sociedade, em seu conjunto, deverá se converter numa grande escola – disse Che.

Os homens que o estavam escutando pareciam se esforçar para entender o que Che dizia.

- E na África? – perguntou um deles, Catito, que parecia sempre mais informado do que os outros.

“A África” – pensou Che Guevara. A África fora um equívoco. Tentou lutar contra belgas e americanos no Congo, o coração das trevas. Acreditava que o socialismo pudesse ser instalado em qualquer recanto do globo, porém jamais entendeu os africanos. Como não entendia os bolivianos. Que importava! Só importava a revolução internacional. O delírio. O fato é que, em novembro de 1966, Che se instalara em um hotel em La Paz com o codinome Adolfo Mena Gonzáles, economista uruguaio. O chefe do Partido Comunista boliviano, Mário Monje, comprou uma propriedade ao sul, em Ñacahuazú, onde Che e seu grupo se instalaram e de onde Che planejava iniciar uma revolução socialista em toda a América do Sul. Mário Monje exigiu que o comando supremo da guerrilha ficasse com um boliviano. Che disse não. Queria ele mesmo liderar a revolução internacional.

A conversa estava boa, mas haveriam de partir, em direção ao povoado de La Higuera.

- Ramón, ouvi dizer que temos tanto gás quanto já tivemos prata – disse Catito, que não obtivera resposta sobre a África.

Dessa vez Che respondeu.

- Sim, há gás, e será exportado pelo porto que o Chile tomou da Bolívia – disse. – A prata também era boliviana, e o salitre, o estanho – disse. – A cidade de Potosí já foi mais movimentada do que Nova York; tinha metade da prata do mundo...

- Depois da tomada de La Paz e da recuperação da saída para o Pacífico, vamos também recuperar o Acre – disse o cubano Alamiro.

- Sim – Che voltou a falar. - A Bolívia perdeu território para o Chile e para o Brasil – disse. – E o Chaco para o Paraguai – lembrou. – A Bolívia é onde mais há golpes militares e mais se mata índios; tornaram-na apenas uma cordilheira.

- A prata matou muitos índios – observou Alamiro. – Agora, pelo que soube, a prata está na Europa. Como vamos recuperar a prata, comandante?

- Primeiramente, temos que levantar o povo – disse Che.

- Mas o povo, aonde quer que vamos, parece que tem medo de nós – disse Catito.

- Os europeus só deixaram buracos, como se fôssemos tatus. Cago-me no leite da puta mãe dos europeus – Alamiro resmungou.

Che calara-se. Havana calara-se. Os trotskistas o abandonaram. Regis Debray fora pego. Sentia-se cansado e isolado, após onze meses embrenhado naqueles confins. “O homem é o homem e suas circunstâncias” – gostava de pensar. Precisavam alcançar o rio Grande, a caminho de La Riguera. “A América é uma só, bolivariana; depois que unirmos índios e negros numa revolução que varrerá o continente, da Argentina ao México, cobraremos a prata e o ouro que espanhóis e portugueses levaram do Eldorado. Enriquecemos a Europa, principalmente a Espanha e Portugal, à custa de todo tipo de riqueza extraída do subsolo e do sangue de índios e negros. É preciso resgatar definitivamente o solo ibero-americano dos europeus e dos norte-americanos, como Fidel Castro fez com Cuba” – pensou. “Acho que a Bolívia é o país que melhor resume a Ibero-América.”

O desfiladeiro na Quebrada de Yuro perdia-se entre dois mundos - a Amazônia e os Andes -, invisível ao sol que derretia as pedras, naquela manhã de 9 de outubro de 1967. Che Guevara se sentia cansado, frustrado e doente. A asma, que o atormentara a vida toda, voltara, ocupando o lugar do velho entusiasmo com que lutara ao lado de Fidel Castro. Apenas seu sexto sentido, desenvolvido em Sierra Maestra, se conservava, e atingira precisão irracional. Só não sabia o porquê daquela aflição que o sufocava, o miasma que recendia da população de cadáveres e das casas podres de Potosí, e entrava como injeção de veneno nas veias estouradas da Ibero-América.


Brasília, 2007

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