sábado, 29 de outubro de 2011

Sarney consegue pelo menos R$ 1,1 milhão por ano para sua fundação, em meio à miséria do heroico povo maranhense

Este livro do jornalista Palmério Dória traça um perfil devastador de Zé Sarney; pode ser encontrado em quase todas as livrarias brasileiras

RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

Brasília, 29 de outubro de 2011 - A Assembleia Legislativa do Maranhão aprovou em regime de urgência, dia 21 de outubro, e a governadora Roseana Sarney (PTMDB), filha do Imperador da Província do Maranhão e Amapá, Zé Sarney (PTMDB), sancionou lei que garante pelo menos R$ 1,1 milhão por ano da burra do Maranhão para a Fundação da Memória Republicana Brasileira, que receberá os despojos da Fundação José Sarney.
Entre os bens que serão transferidos está a sede da Fundação José Sarney, um prédio do século 17, em São Luís, que o governo do Maranhão doou para a fundação, a qual Zé Sarney planeja tornar seu mausoléu. Trata-se do soberbo Convento das Mercês, inaugurado nada menos que pelo padre Antônio Vieira, em 1654. Em meados do século 20, abrigou o Comando Geral da Polícia Militar do Maranhão e em 1990 foi incorporado ao patrimônio da Fundação José Sarney, doado pelo então governado João Alberto de Sousa, que comia na mão da família Sarney.
A doação, no entanto, foi cancelada após ação do Ministério Público Federal. Era escandalosa demais. Contudo os Sarney voltaram à carga. A lei sancionada coloca o Imperador como patrono da nova fundação, com direito de indicar 2 de seus 11 conselheiros. Após sua morte, esse direito será transferido para seus herdeiros. Aristocrático!
Zé Sarney é presidente do Poder Legislativo do país (graças aos tucujus) e o ex-presidente Lula (PTMDB), que lhe beija a mão, afirmou que Sarney está acima do bem e do mal, pode fazer o que quiser. Mas a Ordem dos Advogados do Brasil, seccional do Maranhão, vai entrar na Justiça contra a estatização da Fundação José Sarney. Se for o caso, o Conselho Nacional da Ordem apresentará uma Ação Direta de Inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF). A lei fere os princípios da impessoalidade e da moralidade previstos na Constituição Federal, além de ferir o princípio da licitação.
Afinal, nem todo mundo é cego neste país de Lula. No Maranhão, sob o jugo da família Sarney há mais de meio século, crianças são devoradas por vermes, giárdia, ameba, quando não morrem logo de fome.
Em 2009, antes que começassem a pipocar denúncias de desvios de recursos públicos, a Fundação José Sarney empregava 27 funcionários. Em janeiro deste ano, o Tribunal de Contas da União (TCU) acatou denúncia por suposto desvio de recursos da Petrobras por gestores da fundação. Pelo menos R$ 500 mil de convênios, da ordem de R$ 1,3 milhão, teriam sido desviados para empresas de fachada em São Luís. (Com Agências)

sábado, 22 de outubro de 2011

O prazer de ser lido

Este blog completa um ano, hoje, 22 de outubro de 2011. Foi criado graças à insistência do artista plástico brasiliense André Cerino, um dos que, em todo o planeta, melhor utilizam os recursos da Web. Antes de 22 de outubro de 2010, eu já havia publicado sete livros, de poesia e ficção, e, desde 1975, venho assinando artigos, crônicas e contos em jornais impressos da Amazônia e de Brasília, mas nunca fui tão lido como nesse último ano.

Creio que isso aconteceu por dois motivos: meus livros sempre tiveram edições não comerciais, pequenas tiragens, e contaram com distribuição rarefeita; também os jornais em que trabalhei eram de circulação local, sendo que os mais expressivos foram A Crítica, de Manaus; O Liberal, de Belém do Pará; e Correio Braziliense, de Brasília. Assim, meus trabalhos de criação e jornalísticos jamais saíram de um pequeno círculo.
A segunda razão é a Web. A Wikipédia explica didaticamente o que é a Web: “World Wide Web (que em português significa Rede de Alcance Mundial; também conhecida como Web e www), é um sistema de documentos em hipermídia que são interligados e executados na internet. Os documentos podem estar na forma de vídeos, sons, hipertextos e figuras. Para visualizar a informação, pode-se usar um programa de computador chamado navegador para descarregar informações (chamadas "documentos" ou "páginas") de servidores web (ou "sítios") e mostrá-los na tela do usuário. O usuário pode então seguir as hiperligações na página para outros documentos ou mesmo enviar informações de volta para o servidor para interagir com ele. O ato de seguir hiperligações é, comumente, chamado de "navegar" ou "surfar" na Web”.
Pois bem, desde que inaugurei meu blog, até as 9h30 de hoje, já fui lido 8.553 vezes, o que equivale à média de mais de 23 leituras por dia, em países da América do Sul, América do Norte, Europa, Ásia e África. Os dez países onde tive mais leitores são: Brasil, 7.381; Estados Unidos, 472; Alemanha, 135; Portugal, 102; Espanha, 91; França, 67; Reino Unido, 38; Rússia, 21; Cingapura, 19; e Paraguai, 18.
Meus trabalhos mais lidos são: a crônica Terno de linho, publicada em 11 de dezembro de 2010, com 254 leituras (creio que devido ao fato de que a poeta e jornalista Alcinéa Cavalcante publicou-a no seu site - www.alcinea.com -, o mais lido do estado do Amapá, aquele que Zé Sarney anexou ao Maranhão); o artigo Jovem espetada num gancho de açougue, nua, estuprada e ainda viva, publicado em 16 de abril de 2011, sobre exposição, em Brasília, do genial Fernando Botero, com 102 leituras; o poema Belém do Pará vista da janela do sétimo andar de um hotel, no início da madrugada, publicado em 15 de agosto de 2011, um buquê de rosas colombianas vermelhas que oferto a um dos meus grandes amores: Belém do Pará, com 79 leituras; e a crônica Mulher no chuveiro, que escrevi para minha esposa, em 15 de outubro de 2009 e publiquei no blog em 1 de dezembro de 2010, com 68 leituras.
O maior prazer do escritor é ser lido. Mesmo que um escritor crie e engavete sua criação, paira sempre no ar tênue corrente nervosa - a perspectiva de ser lido. É como o prazer do pintor em que suas telas sejam objetos de longo olhar; quase como a caminhada dos amantes no infindável labirinto do sexo. Assim, oferto aos meus leitores estes átomos acelerados de vida, esta Declaração de amor:
Ela nasceu para o esplendor, povoa um mundo em que só há perfume das virgens ruivas, o Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart, e azul, tão azul que sangra.
Namoro com ela em todas as oportunidades, quando saio e quando chego em casa. Desde que ela nasceu, acompanho seu embelezamento, seus banhos de sol e sua nudez, cada vez mais esplendorosa, entregue aos carinhos da brisa, das borboletas e dos beija-flores.
Nasceu sozinha, sobre longo caule, que escorei firmemente para que o vento não a perturbe. Consciente de que as rosas não vivem muito tempo, procuro apreciá-la em todos os momentos que posso, namorando-a intensamente. Ela não me dá importância, é claro, pois as rosas só se importam com o sol, mas deixa que a olhe e que cuide do caule que a sustenta. E depois, desconfio que ela saiba dos meus sentimentos, pois, quando a olho, se torna ainda mais bela.
Já comecei a me preparar para quando ela se for. Procuro me convencer de que as roseiras do meu jardim ainda me proporcionarão um sem número de emoções. Mas ela é tão esplendorosa! Na sua juventude, era amarela. Gabriel García Márquez ficaria apaixonado se a visse. Agora, madura, se vestiu completamente de rosa.
Sempre que a vejo é como se fosse pela primeira vez, por isso, ela nunca murchará na minha lembrança, já que os sentimentos verdadeiros não murcham, nunca, e só eu sei o quanto a amo, como amo tudo o que é das rosas. Acredito, com fé, que as rosas são portais para a dimensão de Deus. São, misteriosamente, inexpugnáveis na sua fragilidade, e eternas na sua fugacidade.
Quando penso que essas criaturas nascem no meu jardim vibro de alegria, pois sinto como se o Universo pousasse ao meu lado, me deixando montá-lo, como se monta no dorso de uma libélula, voando sem fim.

domingo, 16 de outubro de 2011

Sem querer, Lula deu início à amputação das mãos dos ladrões de colarinho branco

Não há oposição política no Congresso Nacional desde 2003. O PSDB é um saco de gatos presumidos. Acham que são os donos da verdade. Já os peteemedebistas sabem que não são os donos da verdade, mas garantem à manada que são. Quanto aos democratas, o DEM é o PMDB em escala reduzida. Por ironia, a derrocada do chavizmo no Brasil partiu do próprio mentor do peteemedebismo: Lula.

Luiz Inácio Lula da Silva se empenhou por duas coisas que puseram por águas abaixo sua ambição de se tornar o Hugo Chávez do Brasil: Dilma Rousseff e a Copa do Mundo de 2014. Dilma Rousseff - também, é claro, do PTMDB - pode até, segundo o jornalista Augusto Nunes, ter só um neurônio (reparem quando Dilma responde em entrevistas ao vivo; não diz coisa com coisa e a sintaxe vai para o ralo), mas ela parece que é honesta. Já mandou de volta para o esconderijo várias ratazanas, que, em outros tempos, seriam defendidas como Zé Sarney o foi por Lula, quando foi descoberto que Zé Sarney mergulhou o Senado Federal na clandestinidade. Lula disse que seu padrinho era especial, estava acima do bem e do mal.
Bem, agora é diferente. Com mais um pouco e os caranguejos gordos podem ser jogados em penitenciárias de segurança máxima, e a inteligência policial investigar onde os crustáceos esconderam o dinheiro no exterior, para que entre a diplomacia no caso para recuperá-lo.
A ideia, ou o plano, ou o esquema do PTMDB, é Lula voltar em 2015. Só que, pela lei da causalidade, a esperteza se volta contra o esperto. É que a esperteza se fundamente, ou se afunda, na mentira, e a mentira, como se diz, tem pernas curtas. Dilma Rousseff já deixou claro que tem personalidade, e depois o tabuleiro partidário no Brasil é movediço. Até 2014, o PTMDB não será mais o PTMDB.
Quanto à Copa do Mundo, instalou no Brasil um imenso telhado de vidro internacional. Está cada vez mais difícil para a vampiragem nacional agir. A Copa foi a melhor coisa, que, sem querer, Lula fez para o Brasil. Não sei de nenhuma outra. A melhor coisa porque o governo é obrigado a investir em obras públicas. O Brasil tem dinheiro para abrigar uma Copa por ano. Basta amputar-se as mãos dos ladrões de colarinho branco.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Santuários corrompidos

Os santuários da Amazônia são as regiões da Hileia onde o colono europeu não ousou pôr suas botas, desembainhar suas espadas, lançar pestes e a Inquisição. O Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque é uma delas. “Estive onde o homem jamais pisara” – comentou o taxidermista do Instituto de Pesquisas Científicas do Amapá (Iepa), João Cunha, depois de participar, juntamente com o taxidermista Manoel Santa-Brígida, do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), de expedição levada ao ar pelo Globo Repórter em 11 de fevereiro de 2005.

Pesquisadores e jornalistas estiveram no extremo oeste do parque, próximo à tríplice fronteira entre Brasil, Suriname e a colônia francesa da Guiana, a 450 quilômetros de Macapá, acessível somente por helicóptero. A expedição recebeu apoio do Primeiro Comando Militar da Aeronáutica (Comar) e dos Segundo e Trigésimo Quarto batalhões de Infantaria de Selva (BIS).
Com 38.821,20 quilômetros quadrados, 26,5% do estado do Amapá, o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), é a maior unidade de conservação do país e a mais extensa área protegida de floresta tropical do planeta. É integrado pelos municípios de Calçoene, Laranjal do Jari, Oiapoque, Pedra Branca e Serra do Navio.
O Amapá é uma das regiões mais belas da Terra. Com 142.814,585 quilômetros quadrados, desmembrados do estado do Pará, debruça-se, no setentrião brasileiro, para o Atlântico, na boca que se abre para o Caribe, limitando-se ao norte com a colônia francesa da Guiana; ao sul com o maior rio do mundo, o Amazonas; a oeste com o Pará; a noroeste com o Suriname; e a leste com o mar. Cortado na altura de Macapá, sua capital, pela Linha Imaginária do Equador, esquina com o Amazonas, longitudinalmente, é atravessado pela sua única rodovia federal, a BR-156, que já enriqueceu muita gente, em todos os governos, desde 1943, numa farra permanente, e que nunca foi concluída.
A França já construiu uma ponte ligando sua colônia a Oiapoque, no Amapá, de modo que, ao ser, algum dia, concluída, a BR-156 ligará Macapá ao Canadá, via América Central. Por enquanto, Oiapoque só aparece na mídia nacional como vitrine de carne infantil, que europeus ávidos por crianças atravessam o rio Oiapoque para degustar na segurança da corrupção tupiniquim.
Estado potencialmente rico, sua costa é a mais piscosa do planeta, infestada de piratas e ignorada pela Marinha de Guerra do Brasil. Com vocação para a indústria de navios, seus governadores jamais incentivaram a instalação de estaleiros e a criação de cursos de engenharia naval e de oceanografia na sua universidade federal. O Amapá conta com a doca mais estratégica da Amazônia, o Porto de Santana, o mais próximo simultaneamente dos mercados americano, europeu e asiático, mas que precisa ser federalizado, pois está sob jurisdição da Prefeitura de Santana, na zona metropolitana de Macapá, operando como porto de uma pequena cidade ribeirinha, quando pode ser o destino de produtos de toda a Amazônia e do Centro-Oeste para exportação.
Em Macapá, na margem esquerda do Amazonas, falta água encanada e a cidade não tem esgoto. Também falta energia elétrica na capital amapaense - imagine-se no restante do Amapá -, apesar de Tucuruí.
Agora, a tragédia: além de Zé Sarney, o potentado do Maranhão, ter anexado o Amapá, que o ungiu senador vitalício, o padrinho de Lula agora divide o estado com a família Capiberibe: o governador, Camilo Capiberibe; o pai do governador, ex-governador João Capiberibe; e a deputada federal Janete Capiberibe, todos do PSB.
A roubalheira no Amapá é bilionária.
A Amazônia precisa de santuários, mas se as máfias que a estão comendo, não mais a ferro e fogo, e sim com a caneta, não foram varridas para o esgoto, ela se tornará apenas o continente da escravidão sexual de crianças.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

As rosas falam

Chove na minha memória
Barcos deslizam na boca do rio Amazonas e despencam no Atlântico
Na latitude da Linha Imaginária
Espero as chuvas com a mesma sofreguidão com que aguardo
O outono, o inverno e a primavera
O verão, como ocorre em todas as estações da vida,
Inunda o continente do meu coração
De rosas tão azuis que sangram
E mangas doces como seios de mulheres de olhos verdes como esmeraldas
E, se é madrugada, a chuva se confunde ao som ininterrupto do mar
E o atrito da Terra no espaço invade minha alma
E se mistura ao perfume das virgens ruivas, misterioso como mulher nua
Como a luz, como o éter, como o triunfo das rosas

Brasília, 11 de outubro de 2011

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Fim de semana

RAY CUNHA

A embarcação mergulhava a proa e dava a sensação de um dorso de cavalo a galope. Durante toda a manhã foi assim. À tarde, o sol amarelava a baía; não havia vento e o calor estava sufocante. E assim passou-se o dia até a noite, quando chegaram à ilha ao largo de Marajó.
Cedo, no dia seguinte, contornaram a ilha, desembarcaram e se internaram no mato em busca de porcos, que tinham sido vistos naquele ponto. Os rapazes avistaram uma clareira, onde erguia-se um taperebazeiro, e ouviram os porcos. Jiparaná se abaixou para ver as pegadas e um porco passou desembestado por eles. Isaías engatilhou a doze, mas o porco sumira no mato. Jiparaná pediu a doze e quando pegou a arma ela disparou para o ar.
- Bando de filhos da puta! Como é, seu sacana, que tu me dás esta porra engatilhada, em, seu filho da puta?
- Lá está ele! – gritou um dos caboclos, apontado para o porco, que estacionara adiante e procurava orientar-se. Entraram no mato atrás dele e conseguiram-no encurralar numa capoeira impenetrável. Jiparaná disparou. O animal deu um grunhido e caiu. Fora atingido na cabeça.
À tarde, a ilha pareceu inflar. Surgiram praias até onde alcançavam os olhos.
- Vamos levantar, cambada de vagabundos – disse Jiparaná, sob o protesto dos rapazes. Jiparaná ergueu Carlos da rede e foi atirá-lo no rio, do extremo do trapiche. – Vou fazer uma operação daqui a pouco – disse, enquanto tomava um gole de café. – Alguém quer ir comigo?
Só João quis ir e Jiparaná largou-se com ele e um caboclo.
- Outro dia peguei uma criança. Estava morta. Quase podre já.
- E agora, o que é?
- Gangrena.
A casa havia surgido ao longe. Na frente havia meia dúzia de crianças. Quando os avistaram as crianças entraram correndo.
O doente gemia numa rede atada na parte central da casa.
Jiparaná olhou a mão gangrenada e fez uma careta, e pediu que fervessem água.
- João, me dá a maleta. – Tirou um bisturi, Quelene e álcool. João guardou para si uma caixa de Quelene, sem que Jiparaná notasse.
Não havia muito o que fazer. O doente teria que ser removido para Macapá na madrugada seguinte. Jiparaná fez suas recomendações e disse que passaria, com a maré, para pegar o doente. De volta à ilha aproveitariam o que sobrava do dia para pescar.
- Vou dar uma cagada enquanto isso... – disse João, apanhando uma Bíblia. Então mostrou um frasco de Quelene para os outros rapazes. Tomaram um caminho que dava para o mato. Sentaram-se e puseram-se a cheirar Quelene. João sacou meia página da Bíblia e preparou um cigarro.
- Só falta agora Abbey Road e a Telma – disse Isaías.
- E vodca também – lembrou João.
- Com laranja – Carlos completou.
- A Telma é uma delícia...
- Ela deve estar banhadinha uma hora dessas, escutando os Beatles.
Jiparaná os chamou. Foram pescar nos poços ao longo da praia. Os peixes não morriam imediatamente, envenenados pelo timbó, e uma grande piramutaba saltou de dentro da rede, caindo no poço, para logo depois flutuar.
A noite caiu. E tudo pareceu imerso dentro da noite. A ilha era a casa. Quem se aproximasse da casa veria a brasa dos cigarros, que se alumiavam, de vez em quando, pousados no piche da noite.

Do livro de contos A grande farra (edição do autor, Brasília, 1992, 153 páginas, esgotado)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Criação do estado do Planalto Central seria a saída para os moradores do Entorno do Distrito Federal, uma das regiões mais violentas do planeta?

A tragédia do Brasil, além do PT, é o sentimento de colonizado que perpassa o inconsciente coletivo. Esse sentimento foi implantado pelos portugueses a ferro e a fogo no DNA dos mulatos, cafuzos e mamelucos, e a ideia de que stalinistas são superiores, quem, por exemplo, deve decidir o que a imprensa publica ou não etc. Essa ideia aristocrática vige até hoje. Brasília é a sede do império e os estados são as colônias. Os estados brasileiros são mesmo grandes como países. Mas isso vai acabar, por uma razão clara, que os coronéis de barranco, que também estão acabando, não conseguem enxergar: o imperador, ou imperatriz, e os governadores estão de costas para a hinterlândia.

Vejam o caso do Pará, que será submetido a plebiscito, em dezembro, para a população decidir se quer dividi-lo em três ou se continua um estado de 1.247.689,515 quilômetros quadrados. Com o desgoverno da petista Ana Júlia Carepa, de 2007 a 2010, um caso histórico de incompetência, as coisas no Pará se acirraram. O Pará, que é um paraíso geográfico e uma potência pela natureza, está na frente em violência no campo, escravidão – inclusive de crianças para o mercado sexual –, desmatamento, poluição e, naturalmente, corrupção. Um dos maiores produtores de energia hidroelétrica do país, pelo menos metade dos seus 144 municípios não conta com energia firme. Mas o governo não quer ver de jeito algum o estado dividido.
Muitos acham que sai caro criar um novo estado, mas sai a um custo bem mais baixo do que simplesmente políticos se esbaldarem na bacanal que acontece diuturnamente na burra da União, num patrimonialismo sem fim, que tem origem exatamente na ideia de socializar o alheio. Por exemplo: o estado de Tocantins. Se não fosse criado, continuaria sendo o monturo de Goiás. Hoje, o monturo de Goiás é o Entorno do Distrito Federal.
Região violenta, uma das mais violentas do planeta, abandonada pelos governos que se sucedem em Goiás, a saída para o Entorno é virar estado. A saída verdadeira seria a inclusão social das famílias que moram na região, mas isso é uma utopia num país como este. Assim, a saída é transformar o Entorno em estado. Estado do Planalto Central.
Em 14 de junho de 2002, o então suplente de senador Francisco Escórcio, maranhense residente em Taguatinga (DF), apresentou projeto de decreto legislativo, número 298, criando o Estado do Planalto Central, composto por municípios de Goiás e de Minas Gerais, e cidades-satélites do Distrito Federal, com capital em Taguatinga, a mais rica satélite de Brasília, integrando área de 75.470 quilômetros quadrados. Em 30 de novembro de 2010 o projeto foi arquivado. Francisco Escórcio, atualmente suplente de deputado federal, pelo PMDB do Maranhão, está pronto para reapresentar o projeto. Agora, além de, como Lula, beijar a mão do todo poderoso Zé Sarney, Escórcio sabe que chegou o momento: nem as Forças Armadas pacificariam o Entorno, exceto investimentos maciços, continuados, nunca desestimulados, na educação, na inclusão social e na industrialização da região.
Zé Sarney é um poderoso aliado de Escórcio. Imperador do Maranhão, anexou o estado do Amapá, criando a província do Maranhão e Amapá. Sarney fará tudo pelo seu amigo Escórcio para que seja criado o estado do Planalto Central.
O Entorno do Distrito Federal pode ser visto sob três ângulos. O mais agudo deles é o do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), abarcando 12 municípios de Goiás: Abadiânia, Alexânia, Cabeceiras, Corumbá de Goiás, Cristalina, Formosa, Luziânia, Mimoso de Goiás, Padre Bernardo, Pirenópolis, Planaltina de Goiás e Santo Antônio do Descoberto.
A Região Integrada do Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (Ride), criada por meio da Lei Complementar 94 e sancionada em 19 de fevereiro de 1998, é integrada, além do Distrito Federal, por 19 municípios de Goiás e 3 de Minas Gerais: Abadiânia, Águas Lindas de Goiás, Água Fria de Goiás, Alexânia, Cabeceiras, Cidade Ocidental, Cocalzinho de Goiás, Corumbá de Goiás, Cristalina, Formosa, Luziânia, Mimoso de Goiás, Novo Gama, Padre Bernardo, Pirenópolis, Planaltina de Goiás, Santo Antônio do Descoberto, Valparaíso de Goiás e Vila Boa, em Goiás; Unaí, Cabeceira Grande e Buritis, em Minas Gerais.
A Associação dos Municípios Adjacentes à Brasília (Amab) congrega 42 municípios, 29 de Goiás e 13 de Minas Gerais, ocupando área de 93.212,66 quilômetros quadrados.
Terra é o que não falta para o estado do Planalto Central.