sábado, 19 de novembro de 2011

É preciso passar a limpo o Brasil, com urgência!

RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

Brasília, 19 de novembro de 2011 - Toda a cultura humana está registrada nos livros, ou na escrita, incluindo os parcos conhecimentos que temos do mundo espiritual, conhecimentos que nos foram passados por mestres como Jesus Cristo e registrados por seguidores. Jesus Cristo, por exemplo, falava em aramaico. Por meio da engenharia da tradução, suas palavras foram grafadas, na Idade Clássica, em grego e em latim, e ganhou o Ocidente por meio da língua inglesa, chegando a nós, brasileiros, pela língua portuguesa. A propósito, cabalistas e alguns evangélicos procuram viver de acordo com a Bíblia, no nosso tempo pós-moderno, isto é, tecnológico.

As nações mais desenvolvidas do planeta, como Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Japão, não mexem na etimologia do seu idioma. No nosso caso, viemos de um dos idiomas mais sofisticados da história da humanidade, que é o latim, que, em Portugal, sofreu misturas do gótico e do árabe, desembocando na língua brasileira, oriunda do português de Portugal, tupi-guarani, línguas africanas, palavras estrangeiras incorporadas ao nosso idioma, verbetes pós-modernos, neologismos e nossa maravilhosa cultura mestiça e tropical.

Recentemente, a república peteemedebista de Lula, embarcou em mais uma canoa furada (para o povo): o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, sustentado pelo discurso de que precisamos ter o texto igual ao de Portugal na Organização das Nações Unidas (ONU). Uma falácia! Se isso fosse preciso mesmo, bastaria adotar-se, naquele organismo internacional, a língua brasileira. Se Portugal já foi, com a Escola de Sagres, o que os Estados Unidos e a Nasa representam agora, é hoje um dos países menos avançados da Europa, enquanto que o Brasil é, e todos sabemos disso, a nação mais rica do planeta, embora ainda em estágio potencial. Creio que, assim que a esclerose política for varrida deste imenso Portugal, ombrearemos os Estados Unidos.

Se Portugal já foi o que hoje são os Estados Unidos, em tecnologia e império, os portugueses não agiram como os ingleses, que foram donos do maior império que já houve no nosso planeta. Portugal sugou, como um vampiro, ouro, diamantes e outras pedras preciosas, prata, estanho, madeira (a Mata Atlântica junto), a vida dos escravos, tudo o que representasse riqueza, para dourar sua aristocracia, inclusive pagando a Inglaterra para proteger o sangue azul português, que vivia em berço esplêndido. A Inglaterra inaugurou a era moderna com a industrialização, no século XVIII, e os portugueses ficaram a ver navio.

Agora, no pós-modernismo, a era da tecnologia de ponta, com robôs realizando cirurgias, Portugal, e sua língua esgotada, mergulha cada vez mais no passado, que, a rigor, não existe, enquanto que o Brasil, com sua maravilhosa riqueza étnica e cultural, emerge, cada vez mais, para o trópico, a que os europeus chamam de realismo-fantástico, pois a velha Europa nunca entendeu o trópico.
O Novo Acordo Ortográfico só serviu para os apaniguados do Ministério da Educação do PTMDB encherem mais ainda a burra, vendendo milhões de novos dicionários, gramáticas normativas e livros em geral ajustados nas novas regras, uma das quais extinguiu a palavra “acreano” e criou “acriano”. Os acreanos ficaram furiosos. Mas o que se há de fazer num momento de tanta mediocridade política e intelectual?

O Brasil não precisa de mudanças na língua. Nenhum povo precisa. O que potencializa a utilização de um idioma é o avanço do seu país, ou países. Fala-se inglês no mundo todo por causa do Império Inglês e, depois, por causa dos Estados Unidos. Aos 5 anos de idade, quando aprendi a ler, já lia Walter Disney, Edgar Rice Burroughs, Al Capp, e, a partir de 14 anos, Ernest Hemingway, Franz Scott Fitzgerald, John Steinbeck, Somerset Maugham, via John Ford, Francis Ford Coppola, ouvia os Beatles e, atualmente, utilizo-me da informática.

Pois bem, o Brasil não precisa de mudanças ortográficas. Precisa investir maciça e continuamente, de forma nunca desestimulada, em educação, pesquisa e tecnologia. O Brasil não precisa de mudanças tecnológicas, precisa reduzir o fosso social: de um lado, pessoas ganham anualmente bilhões de reais de lucro, enquanto outros morrem de fome, ou comidos por vermes, giárdia, ameba, protozoário, bactéria e vírus. Indiozinhos morrem de fome. Muito dirão: são apenas indiozinhos. Pois o Brasil só é rico porque tem, também, basicamente, riqueza cultural continental. E se não cultivarmos a luz da espiritualidade, qualquer riqueza será apenas pó.

Dinheiro tem valor mental. R$ 1 trilhão, por si só, não valem nada. Lembro-me de um caso emblemático. Uma senhora ganhou uma soma vultosa e deu, para um sobrinho, R$ 100 mil. Ele comprou um carro novo e remobiliou sua casa, endividando-se para isso, pois os R$ 100 mil não cobriam os gastos feitos. Bateu com seu carro novo em outro automóvel e quase mata seu condutor. Seu carro não prestou para mais nada, teve que pagar os custos médicos com o outro condutor, pois fora culpado no acidente, e também pagar o outro carro. Assim, R$ 100 mil representaram, na verdade, menos algumas centenas de milhares de reais, mais o desgaste imenso.

O Brasil não precisa gastar dinheiro com reforma ortográfica. O Brasil precisa tirar das ruas crianças que estão morrendo de fome, de estupro, de drogas, à faca e à bala, o tempo todo. Enquanto essas crianças vagarem nas ruas brasileiras, como pedrada na cara, falastrões como Lula, e os “grandes quadros oposicionistas” dos vistosos tucanos, serão apenas palhaços stalinistas, como Hugo Chávez e Fidel Castro.

O Acordo Ortográfico é mais uma peça de marketing do governo lulapeteemedebista, em um país de esmagadora maioria de alfabetizados funcionais - que leem mas não entendem o que leem -, com pelo menos 20 milhões de pessoas que vivem na Idade da Pedra – não sabem ler e, muitíssimos deles, não têm sequer certidão de nascimento; outros, são escravos mesmo, principalmente nos medievais estados da Amazônia.

No Brasil, nós não precisávamos de reforma ortográfica. Precisamos de reforma política, de reforma fiscal, de reforma educacional, de reforma do Judiciário, de reforma administrativa, de reforma previdenciária, de pacto federativo, e, sobretudo, de jogar os ladrões de colarinho branco na cadeia e fazê-los pagar tudo o que roubaram. É preciso acabar com a indecência da imunidade parlamentar. Faz-se necessário passar a limpo este Brasil corrupto.


A curta história da língua brasileira, que leva ao mundo, por meio da sua literatura, as cores do trópico

Originada em Portugal, a língua brasileira cada vez mais se impõe no planeta, levando para as regiões frias, que antes sediavam a metrópole, a riqueza cultural e a alegria dos trópicos, por meio da literatura, da tecnologia e do trabalho


RAY CUNHA
ray.cunha@uol.com.br
Para a revista Século 21


Brasília, 21 de julho de 2009 - Esta curta história da língua portuguesa é baseada em relatos de arqueólogos e historiadores. Tudo começou na região ocidental da Península Ibérica, há 300 anos Antes de Cristo, com soldados romanos e seu latim vulgar. Oitocentos anos depois, o Império Romano começou a desabar, mas deixava, firmes, várias línguas, variantes do latim. O português escrito começou a ser utilizado, em documentos, no século IX, e, no século XV, já se tornara língua literária. Desde os romanos, havia duas províncias na região em que se formou a língua portuguesa: Lusitânia, hoje Portugal, e Galécia, ou Galícia para nós, brasileiros, ao norte.

O Império Romano conquistara a região ocidental da Península Ibérica, criando as províncias da Lusitânia e da Galécia, equivalentes, hoje, ao centro-norte de Portugal e à província espanhola da Galícia, a noroeste da Espanha, nas quais se começou a falar latim vulgar, do qual nasceram as línguas neolatinas e 90% do léxico, ou dicionário, do português. Os únicos vestígios das línguas nativas dessa região dormem na toponímia da Galícia e de Portugal.

Entre 409 e 711, depois de Cristo, o Império Romano entrava em colapso e a Península Ibérica era novamente invadida, agora por povos de origem alemã – suevos e visigodos -, que os romanos chamavam de bárbaros. Entretanto, os novos invasores absorveram a língua romana da península. Como cada tribo bárbara falava latim à sua maneira, o resultado foi a formação do galaico-português ou português medieval, espanhol e catalão.

Os estudiosos acreditam que foram os suevos os responsáveis pela diferenciação linguística dos portugueses e galegos quando comparados aos castelhanos. Durante o reinado suevo, proibiu-se nominar os dias da semana em latim e as palavras guerreiras foram impostas em línguas germânicas, tal como “guerra”.

Em 711, depois de Cristo, a península foi invadida pelos mouros, de língua árabe, oriundos do norte da África. O árabe foi utilizado, nessa época, como língua administrativa nas regiões conquistadas, mas a população continuou a falar latim vulgar. Em 1249, os mouros foram expulsos, mas deixaram grande número de palavras árabes, especialmente relacionadas à culinária e à agricultura, sem equivalente nas demais línguas neolatinas, além de nomes de locais no sul de Portugal, como Algarve e Alcácer do Sal. Muitas palavras portuguesas que começam por “al” são de origem árabe.

O mais antigo documento latino-português de que se tem conhecimento é a Carta de Fundação e Dotação da Igreja de S. Miguel de Lardosa, datada de 882, depois de Cristo. O Testamento de Afonso II, de 1214, é o texto em escrita portuguesa considerado mais antigo. Esses documentos estão guardados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa.

O vernáculo escrito passou, gradualmente, para uso geral a partir do fim do século XIII. Portugal se tornou país independente em 1143, com o rei Dom Afonso I. Em 1290, o rei Dom Dinis criava a primeira universidade portuguesa em Lisboa - Estudo Geral - e decretou que o português, então chamado “linguagem”, substituísse o latim no contexto administrativo.

Em 1296, o português foi adotado pela Chancelaria Real. A partir daí, a língua galego-portuguesa passou a ser utilizada também na poesia. Já em meados do século XIV, o português alcançara tradição literária. Nessa época, os nativos da Galícia começaram a ser influenciados pelo castelhano, base do espanhol moderno. Entre os séculos XIV e XVI, com as grandes navegações, a língua portuguesa é difundida na Ásia, África e América.

Na Renascença, aumenta o número de palavras eruditas do latim clássico e do grego arcaico, ampliando a complexidade do português. O fim do português arcaico é marcado pela publicação do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, em 1516.

A língua portuguesa no mundo - Fala-se oficialmente português nos oito países que integram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP): Angola (África), Brasil (América do Sul), Cabo Verde (África), Guiné-Bissau (África), Moçambique (África), Portugal (Europa), São Tomé e Príncipe (África), e Timor- Leste (Ásia). Mas em cada uma das ex-colônias portuguesas falam-se, na verdade, variantes do português de Portugal.

Também falam-se variantes de português nas seguintes regiões: Galícia (província da Espanha, Europa); Goa, Diu e Damão (Índia, Ásia); Macau (China, Ásia), Málaca (Malásia, Ásia) e Zanzibar (Tanzânia, África).

A escrita da língua portuguesa é semelhante em todos os países da CPLP, com poucas variações gramaticais. O que muda, de forma mais evidente, além da grafia de um certo número de palavras, é o significado de outras tantas palavras, com conotações diferentes de região para região; o modo de se utilizar formas verbais; e o estilo erudito, isto é, o modo de se construir frases e contextos literários.

Quanto ao falar, um brasiliense só se entenderá com um lisboeta, por exemplo, se ambos conversarem vagarosamente e pronunciarem claramente as sílabas das palavras.

Contudo, trata-se da quinta língua mais falada no planeta, por cerca de 240 milhões de pessoas, em quatro continentes. Se Portugal é o portão de entrada da lusofonia no Velho Continente - a Europa -, o Brasil é o gigante do bloco. No Brasil, a língua portuguesa sofreu influências do tupi-guarani - tronco linguístico dos índios da América do Sul - e de várias línguas africanas.

Desde o início do século XX, Portugal e Brasil buscam a unificação da língua portuguesa escrita em ambos os países, para chegar, pelo menos, ao consenso de um texto burocrático, que possa reforçar o idioma na Organização das Nações Unidas (ONU). Mas a verdade não pode ser mudada. O português de Portugal se esgotou, enquanto o português do Brasil foi enriquecido pelo índio, pela África e pelo trópico, e é aberto.

A reforma ortográfica tudo muda para nada mudar, como diz uma personagem do romance O Leopardo, de Giuseppe Tomasi Di Lampedusa, referindo-se à monarquia italiana, então com as ventosas no erário, como ocorre hoje e sempre no Brasil chavista de Lula e patrimonialista de Sarney. A célebre frase literária se ajusta à nomenklatura lulapetista, embora o destino do Brasil, a província agrícola, florestal e mineral mais rica do planeta, é o de ser uma potência mundial, o que só poderá conquistar por meio da democracia. E a democracia dorme no idioma. Só então, a língua brasileira será respeitada, procurada e aprendida.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Tu és minha

A noite caíra mais cedo. Úmida. Chovera à tarde. A chuva prolongava-se interminável, fininha, quase como névoa, despencando em gotas frias das folhas das mangueiras. Era fim de novembro e o outono apoderara-se de Belém, dos carros, das ruas, que pulsavam nas luzes vermelhas dos letreiros e nas traseiras dos automóveis nas esquinas. A vida manifestava-se na noite, nos bares, nos copos de bebida.

- Mais um! – Jorge pediu ao garçom. Tinha sempre de ir ali, a cada noite, quando estava na cidade, para tomar um ou dois Johnnie Walker. Havia três moças bonitas. “Nenhuma é tão bonita quanto Cátia” – pensou. “Não, nenhuma.”
- E as caçadas, como vão? – perguntou-lhe o garçom, que se chamava Julinho.
- Nesta época, agora, é ruim – disse Jorge.
- Ruim mesmo. Só chuva...
- Muita chuva até o começo de junho.
- Cruz, credo! – disse Julinho, que era novato na região.
- Pois sim! Mas em julho volta o sol e as praias ficam lotadas.
- E há praias por aqui?
- Há Salinas.
- Um momento... – disse Julinho, indo atender o pessoal do extremo do balcão. Quando voltou, Jorge já estava se retirando.
A chuva parara de vez e só quando o vento agitava as mangueiras é que se sentia pingos da água retida nas folhas. Gostava de andar e de ver a cidade quando voltava da selva. As luzes, as pessoas, os automóveis significavam a volta à civilização. Passou pela frente de um restaurante, uma dessas churrascarias apropriadas para receber famílias inteiras, e sentiu o aroma gostoso de iguarias gaúchas. Deu-lhe vontade de tomar chimarrão. Tomaria na casa de Cátia. Olhou para o relógio. Era cedo ainda. Mas não via a hora de rever Cátia. Pegou um táxi.
- Braz de Aguiar, por favor – disse ao motorista.
Gostava da Braz de Aguiar. Lembrava-lhe Copacabana, e Copacabana era um dos lugares que amava. Saltou a poucos metros do prédio onde Cátia morava. Era um prédio muito chique e ele se sentia mal ao cruzar o vestíbulo. O porteiro lançou-lhe um olhar desconfiado ao anuncia-lo pelo interfone. Ela subiu.
Cátia estava de camisola, linda, linda. Era uma camisola de seda branca, que se confundia com a pele da mulher. Seus cabelos caíam negros numa revolução sobre os ombros, em espasmos infinitos. Tinha olhos verdes, nariz arrebitado, lábios cheios, quase indecentes, e longos dedos. Tocava-a e deixava-lhe, a cada toque rude, um vergão vermelho, que lentamente desaparecia na alva pele acetinada. Ela estava ali, em pé, à sua espera, com seus olhos quase estrábicos, tornando-se insuportável sua ameaçadora sensualidade.
Lá fora, os rumores da noite viviam em outra dimensão e apenas um som indistinto, como que vindo do mar, de muito longe, chegava até eles, e diluía-se antes de tocá-los.
Jorge herdara de seu pai, que também fora caçador profissional, um sexto sentido quase feminino, e sentia a aproximação do perigo pelas narinas. Sentia literalmente o cheiro do perigo. O perigo fedia a frio e à falta de ar. Já estava com sua arma em punho quando viu o outro fazendo pontaria na sua cabeça. O disparo explodiu a delicadeza e a languidez do amo, e a tragédia entrou como gritos na sala. Lá estava o marido de Cátia, olhando pateticamente para nada, como se o olhar tivesse feito um esforço para ver o buraco de bala na própria testa. Cátia estava sentava num sofá. Chorava. Seus ombros se sacudiam de vez em quando. “Logo isto estará um inferno” – Jorge pensou, correndo ao quarto e trazendo um sobretudo, que jogou sobre Cátia. Era um apartamento que ocupava todo um pavimento e eles desceram pelas escadas. “Felizmente fica no terceiro andar” – Jorge pensou. Saíram diretamente da garagem para a rua. Ela estava descalça e tropeçou na calçada. Passou um táxi. Eles o pegaram.
- Vá! – disse ele ao motorista.
- Para onde?
- Vá! Vá para qualquer lugar! Vá!
Pouco adiante, Jorge mandou o motorista parar. Pagou-o. Logo passou outro táxi. Pegaram-no e desta vez Jorge disse a direção. Saltaram no Porto do Sal, onde os bêbedos riram ao ver a mulher descalça e manquejando. “A maré está cheia” – disse Jorge, baixinho.
O barco era confortável e rápido. Em poucos minutos estariam do outro lado do rio Guamá. A noite úmida abraçava o barco e o empurrava, espremendo-o na sua umidade e negrura. As chamas de um palito de fósforo iluminaram por pouco tempo a si mesmas, deixando uma brasa tênue no piche da noite. Às vezes, os gemidos de Cátia venciam estranhamente o barulho do motor, numa orquestração que só o vento dominava. Depois o vento apagava tudo e novamente, como que de propósito, ordenava aos metais que se imobilizassem subitamente; então, num crescendo, as cordas avançavam e avançavam, até que novamente a orquestra toda, enlouquecida, castigasse os ouvidos. Depois, quando aportaram, o vento morreu. Dentro da casa, agora, a noite era um som pianíssimo, murmúrios de Cátia, seus gemidos.
Atento, na varanda, de modo que pudesse ver pela janela a mulher no quarto, Jorge fumava. “É bom que ela chore bastante. Foi melhor assim” – pensava. E pensava também na próxima temporada de caça, na exibição aos turistas e também no longo inverno que ainda teriam de atravessar. “Por mais que viajemos para um país do sul, Cátia ainda terá seu inverno” – pensou. Entrou na casa e ficou parado a poucos passos da mulher, fumando. Cátia era uma mancha leitosa, evanescente, na penumbra. Às vezes, ele ouvia um gemido mais forte, mas logo o silêncio de antes voltava mais cavo, até que tudo imergiu na noite.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O estupro

A luz amarela do sol esvaía-se. Isaías levantou-se e foi à janela; ficou observando, por algum tempo, o trânsito lá embaixo. Tinha dormido doze horas e sentia-se muito bem. Foi ao banheiro, sentou-se no vaso e lá ficou durante um bom tempo. “Posso ir à casa de Babí” – pensou. Levantou-se. Saiu do banheiro e foi até o telefone. Ligou para Babí. Ninguém atendia. Voltou ao banheiro. “Porra!” – disse. A água estava boa.

Pouco depois, no balcão do La Bodega, batia papo com Tio. Vestira-se de branco, exceto os sapatos e as meias. Pusera seu melhor sapato. As meias eram cor da pele. As calças, de linho, eram folgadas, tanto quando a camisa de seda.
A noite, através da vidraça, caía mais lenta. Era fim de maio, e lá fora o sol ainda agonizava, entrando, finalmente, nos espasmos do crepúsculo. Mas de dentro do bar era como se víssemos de óculos escuros a tarde. Estava agradável. Tanto lá fora a tarde, quando dentro, no bar. O ar refrigerado batia na pele recém-lavada e produzia uma sensação de prazer, que aumentava com o silêncio envolto a fragmentos de conversas das poucas pessoas que se encontravam, àquela hora, ali. O som da buzina de um automóvel atravessou a porta do bar e foi morrer na penumbra, ao som de Thender Is the Night. Isaías olhou para fora, através da vidraça, e viu que era noite. Automóveis cruzavam as ruas, na esquina, e de vez em quando estacionavam em frente ao bar, com suas luzes vermelhas pigmentando a noite.
O bar, às sextas, lotava sempre. Às oito, o burburinho aumentara. Havia muitas mulheres bonitas, mas nenhuma como Babí. Viu aquela moça promíscua, que estudava medicina e que bebia muito e fumava também. Ali estava o tipo que uma vez saíra sem pagar, mas voltar – certamente não podia passar sem ir ali. Do outro lado, havia um pai e uma rechonchuda garotinha, ocupada ora em espetar com um garfo o sanduíche que o pai cortara, num prato, ora a fazer-lhe perguntas, que o pai ia respondendo sem tirar os olhos do Jornal do Brasil. Havia também três moças tão lindas que causavam sofrimento em quem as visse e nada pudesse fazer, além disso. Havia ainda um negro e um mongoloide, que agora estavam saindo. Quando chegaram, o negro ofereceu cachaça ao garoto, e ele riu muito da piada. Serviram-lhe meio abacaxi recheado de sorvete e frutas. Ele olhou maravilhado para aquilo e pôs-se a comer como quem desmonta, cuidadosamente, uma casa. O negro, ao seu lado, bebia chopp, satisfeito com a felicidade do garoto. As mesas, nos fundos, também estavam ocupadas. Isaías reconheceu, numa delas, um radialista em companhia de uma ninfeta, avistou um plantador de urucu e notou as presenças de um político, de um editor de jornal e de um piloto de avião, que conhecera no Aeroclube de Belém.
“Bem que o João podia estar aqui” – pensou. Só havia um problema, que era a dipsomania do João. Mas poderiam falar de Curzio Malaparte, Fiódor Dostoiévski e Fraz Scott Fitizgerald.
- Quem sabe ela já não chegou? – disse Tio, servindo-o de mais um gim-tônica duplo. Tio já estava ao telefone ligando para Babí. Desta vez ela atendeu.
- É o Isaías!
- Meu Deus! – disse ela, sem crer.
- Vem para o La Bodega – convidou-a. Mas ela não queria acreditar que fosse ele mesmo.
- Meu Deus! – voltou a dizer.
- Cheguei ontem.
- Ontem? E por que você não me ligou ontem? Só agora é que você me ligou?
- Vem logo. Estou à tua espera.
- Vou tomar banho e em uma hora estarei aí.
- Está certo.
Pôs-se a beber, devagar, mergulhado em fantasias. Babí, com seus olhos verdes, que pareciam soltar estrelinhas, o rosto ovalado, lábios carnudos, cabelos crespos e longos, olhando-o nos olhos, sorrindo, beijando-o, gozando, beijando-o quase com violência, tirando, inutilmente, os cabelos que lhe caíam no rosto e entravam na boca, debruçada sobre ele, a comê-lo.
Uma chuva fina e passageira caiu e molhou o asfalto, a calçada em frente ao bar e a capota dos carros estacionados no meio-fio.
Sentia-se bêbedo. “Cadela” – disse para si. “Devemos deixar que as mulheres nos escolham; assim, serão nossas sem reservas” – pensou, lembrando-se do quanto insistiu cortejando Babí. Viu, pelo espelho, quando ela entrou no bar.
- Deus! – disse para Tio. Ela estava muito linda mesmo. As três beldades tiveram de olhar para ela. Babí atravessou o salão completamente indiferente, os olhos verdes em Isaías. Eram os olhos verdes mais bonitos que pudesse haver. Grandes, grandes. Sentou-se, no tamborete, ao lado de Isaías.
- Muito bem! – disse. – Aqui está nosso caçador. Para a caça – disse, voltando-se para Tio -, um dry Martini.
Isaías beijou-a.
- Assim não! – ela protestou. – Está violento demais. – E beijou-o. Babí beijava e a sensação que se tinha era de que ela se esvaía, evanescente, nos nossos lábios, mas sabia-se que ela estava ali, nas nossas mãos.
- Deste vez quantos troféus trouxe o meu caçador?
- Meu grande troféu és tu.
- Você porá minha cabeça na sala?
- Vivo em quartos sórdidos de pequenos hotéis.
- Então case-se comigo.
Ele ficou um pouco triste.
- Ora, tu não viverias naqueles buracos miseráveis, na selva.
- Eu o aguardaria sempre na cidade.
- Traindo-me... Eu te amo, Babí, mas o mato é minha vida. Não saberia ganhar dinheiro senão levando esses alemães ricos para matar jacaré. Às vezes, ganho um bom dinheiro quando me exibo, matando onças.
- Receio que o IBDF o flagre.
Ele riu.
- Isto aqui é Cuba antes de Fidel Castro.
Os olhos de Babí estavam da cor do dry Martini. Ele  olhou-a suplicante.
- Vamos! – pediu-lhe. Quase ordenou.
O motel estava imerso no recolhimento. Motéis despertavam um sentimento ambíguo nele, um sentimento de recolhimento, mas, ao mesmo tempo, de vulgaridade. A ssíte era silenciosa e limpa, mas a penumbra sempre o afetava. Se não estava na selva, gostava de muita claridade. Pegou o aparelho de TV e o tirou do quarto. Depois, foi à cama e experimentou-a. O desgosto aflorou no seu rosto. O colchão d’água parecia-lhe demasiadamente vulgar. De qualquer modo já estava infeliz mesmo. Relembrou o que houvera. Misturara profissão com prazer. E de um modo imperdoável. Se ao menos tivesse apenas tido um caso com a alemã, estaria quase bem. Mas apaixonara-se por ela. E ela, agora, uma condesinha, devia estar se divertindo por aí.
Despiu-se e foi para o banheiro. Babí estava lá, nua, linda, sob a ducha. Ele entrou e beijou-a.
- Não, aqui não – Babí protestou.
- Aqui – disse-lhe.
Ela olhou-o. Estranhara-lhe a voz.
- Não, Isaías, aqui não!
- Aqui sim, e já!
- Você está me machucando, Isaías!
- Vamos, vaquinha!
Ela estava perplexa e pôs-se a chorar enquanto ele a tinha. Quando ele saiu do banheiro, deixou-se sentar no chão, e seus olhos verdes choravam; eram tudo quanto se podia ver naquele quarto.
Ele se deitou e dormiu.

Do livro de contos A grande farra, edição do autor, Brasília, 1992, 153 páginas, edição esgotada

sábado, 5 de novembro de 2011

Zé Sarney versus João Capiberibe: duelo final



O amazônida João Capiberibe quando jovem caboclo

Brasília, 5 de novembro de 2011 – O maranhense Zé Sarney, eleito pelos tucujus (macapaenses) senador vitalício pelo PTMDB e atual presidente (pela quarta vez) do Senado Federal, cargo abaixo somente do da imperatriz Dilma Rousseff (PTMDB), nesta nossa república capenga, vai ter que engolir um sapo: o senador João Capiberipe, do PSB do Amapá. Se pudessem, um comeria o fígado do outro. Por unanimidade, o Supremo Tribunal Federal (STF) bateu o martelo, quinta-feira 3, determinando a imediata diplomação de João Capiberibe, um verdadeiro sapo a assombrar o assombrado fim de carreira de Zé Sarney. “Ufa! Finalmente! Pela terceira vez, o STF mantém meu registro de candidato e manda me diplomar senador, conforme decisão do povo do Amapá” - comentou Capi, como é conhecido, pelo Twitter.
Os irmãos Borges, que ganharam no tapetão e se revezam ocupando a vaga de Capi já pressentiam isso e, desde outubro, vêm juntando as tralhas para desocupar o espaçoso complexo de salas que de direito é de Capi, o segundo mais votado na eleição em 2010 para o Senado, com 131.411 votos. Enquadrado na Lei da Ficha da Limpa, perdeu a vaga para Gilvam Borges (PMDB), que ficou em terceiro lugar. Com a decisão do STF de que a Lei da Ficha Limpa só começará a vigorar em 2012, Capiberibe recorreu, vitoriosamente.
João Alberto Rodrigues Capiberibe nasceu no Afuá, cidade da ilha do Marajó, no Pará, em 6 de maio de 1945. Foi prefeito de Macapá, entre 1989 e 1992; e governador do Amapá, de 1995 a 2002. Seu mandato de senador vai até 2018. Capi participou da resistência à Ditadura dos Generais (1964-1985). Em 1966, foi preso e torturado pelos militares, mas conseguiu fugir e se exilou em vários países, passando por mil e uma peripécias para sobreviver com a família, a deputada Janete Capiberibe e três filhos, um dos quais, Camilo Capiberibe, é o atual governador do Amapá. Retornou ao Brasil em 1979. No Amapá, sofreu perseguições políticas e se mudou para Pernambuco, onde se ligou a Miguel Arraes. Em seguida foi para o Acre, organizando ali sociedades agrícolas no Vale do Juruá.
Em 2005, Capiberibe teve seu mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por denúncia de compra de dois votos feita pelo senador e sua esposa, no valor de R$ 26 cada voto. João Capiberibe e sua mulher, Janete, que era deputada federal, foram absolvidos pelo TRE do Amapá no processo movido contra eles pelo PMDB do senador Zé Sarney, mas acabaram tendo o mandato cassados pelo TSE. No lugar de Capi assumiu Gilvam Borges (PMDB). O que ficou claro é que tanto a denúncia quanto o processo foram fajutos. Em 2006, Capi concorreu ao governo do Amapá pelo PSB, mas perdeu em primeiro turno para o notório Waldez Góes, do PDT. Em 2010, candidato ao Senado, teve sua candidatura impugnada por força da Lei da Ficha Limpa, causada pela cassação em 2005.
Se por um lado os amapaenses ganham alguém à altura para peitar o imperador da Província do Maranhão e Amapá, Zé Sarney, que só aparecia em Macapá em época de eleições, é preciso que fiquem atentos, pois a família Capiberibe tem agora o poder de mandar e desmandar na população: o jovem governador Camilo Capiberipe tem no seu pai, João Capiberibe, seu conselheiro; Janete Capiberibe, mãe de Camilo, é deputada federal; e Capi, agora, é senador.
JECA SARNEY – Zé Sarney tinha ódio do saudoso jornalista Paulo Francis porque Francis o chamava de Jeca Sarney. Mas é com seu jeito jeca que Sarney vem se agarrando ao poder, seja ele qual for, há mais de meio século. Nas eleições de 2006, estive no Café do Senado entrevistando o senador Cristovam Buarque, então candidato a presidente da República pelo PDT, e fiquei pertinho de Sarney, que estava numa mesa próxima, na companhia de três senadoras. Foi a primeira e única vez que o vi. À primeira vista, é um velhinho macilento, mas quando o olhamos mais detidamente começamos a ver, ver não, sentir, como se ele fosse um grande artrópode de terno.
José Ribamar Ferreira Araújo da Costa Sarney nasceu em Pinheiro, em 24 de abril de 1930. Foi governador do Maranhão, de 1966 a 1971; presidente da República, por acaso, de 1985 a 1990; e presidente do Senado Federal, de 1995 a 1997; 2003 a 2005; e de 2009 até hoje. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Maranhão, em 1953, ingressou no mesmo ano na Academia Maranhense de Letras. Em 1954, começou sua carreira política, pelo Partido Social Democrático (PSD), eleito suplente de deputado federal. Não conformado com a liderança partidária de Vitorino Freire, migrou para a União Democrática Nacional (UDN), sendo eleito deputado federal em 1958 e 1962 e, com o apoio do general-presidente Castelo Branco, elegeu-se governador do Maranhão, em 1965.
Pela Arena, partido dos militares durante a Ditadura dos Generais, foi eleito senador em 1970 e 1978. Presidiu a Arena e sua sucessora, o Partido Democrático Social (PDS), durante o governo do general-presidente João Figueiredo. Na eleição presidencial de 1985, descontente com a candidatura do já notório Paulo Maluf à presidência, Sarney se retirou da presidência do PDS para criar o Partido da Frente Liberal (PFL; hoje, DEM) e, assim, construir a Aliança Democrática com o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e concorrer à vice-presidência, junto à chapa de Tancredo Neves.
Tancredo foi eleito com 72,40% dos votos e sua posse seria em 15 de março, porém o presidente-eleito morreu em 21 de abril, vindo Sarney a assumir a Presidência do Brasil. Seu mandato se caracterizou pela consolidação da democracia brasileira, mas também por grave crise econômica, que evoluiu para um quadro de hiperinflação e moratória. Uma de suas medidas de maior destaque foi a criação do Plano Cruzado, em 1986, um fiasco. Em 1990, Sarney viu que não conseguiria se eleger senador pelo Maranhão e saltou de paraquedas no recém-criado estado do Amapá, transferindo para lá seu domicílio eleitoral. Em Macapá, os tucujus lhe deram mandato vitalício no Senado.
Zé Sarney é também escritor. Millôr Fernandes afirmou sobre o livro Brejal dos Guajas que se tratava de “uma obra-prima sem similar na literatura de todos os tempos, pois só um gênio poderia fazer um livro errado da primeira à última frase”. Ainda: “Em qualquer país civilizado Brejal dos Guajas seria motivo para impeachment”. Se Zé Sarney não conseguiu se firmar como escritor (mas conseguiu entrar para a Academia Brasileira de Letras, ABL), será lembrado, certamente, como o grande patrimonialista e nepotista brasileiro; pelo atos secretos, que afundaram a credibilidade do Senado Federal na lama; e por ter sua beijada por O Cara, Lula, que, antes de chegar ao poder, quando era oposição, apontava sua metralhadora de incontinência verbal para Zé Sarney e cuspia marimbondos de fogo. (Com informações da Wikipédia)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Até quando o governador do DF, Agnelo Queiroz (PTMDB), conseguirá se agarrar ao Buriti?

Brasília, 1 de novembro de 2011 – Em junho de 2010, quando o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) intervenção em Brasília, era a oportunidade de se fazer uma limpeza no Distrito Federal. Houve uma grita, de políticos, instituições e pessoas, e o Supremo recusou a intervenção. No fim de 2009, o então governador José Roberto Arruda, do DEM, e considerado o segundo melhor governador do país, atrás somente de Aécio Neves, do PSDB de Minas Gerais, foi flagrado montado na burra do DF. A bacanal era tão feia que ele foi preso. Mas o STF achou que estava tudo bem.

Sete ministros votaram contra o pedido: Antonio Dias Toffoli, Cármen Lúcia, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes, Marco Aurélio Mello e Celso de Mello, acompanhando o relator, ministro Cezar Peluso. Apenas um foi favorável, o vice-presidente da Corte, ministro Carlos Ayres Britto. Palavras dele: "O Distrito Federal padece de leucemia ética, democrática e cívica, pelas suas cúpulas no âmbito do Legislativo e no âmbito do Executivo".
A leucemia ética, a que se referiu Carlos Ayres Britto, é consequência de uma vampiragem antiga, origem de muitas fortunas brasilienses. Agora, é a vez do governador peteemedebista Agnelo Queiroz, ex-ministro dos Esportes de Lula - o ex-presidente dono do PTMDB. O que as revistas semanais já publicaram sobre Agnelo daria para derrubar até um presidente norte-americano.
Aliás, Agnelo Queiroz é um pato manco desde as eleições, ano passado. Ele só conseguiu ganhar porque seu principal concorrente, o quatro vezes governador do DF, Joaquim Roriz (PSC), foi alvejado pela Lei da Ficha Limpa (alvejado de fato). Roriz, então, jogou às feras sua esposa, dona Weslian, para enfrentar Agnelo. O povão brasiliense, aquela massa que decide as eleições, engole muita coisa, mas daí a achar que o Distrito Federal pode ser governado da cozinha da casa de Roriz era demais.
Além do lamaçal onde Agnelo navega numa canoa furada, há o agravante da sua incompetência. Se não fosse a Copa do Mundo de 2014, e a construção do novo Mané Garrincha, Agnelo já teria sumido. Médico, assumiu o governo dizendo que a Saúde seria a menina dos seus olhos. A Saúde no DF está cada vez pior. Uma calamidade. Um matadouro.
Agnelo - Agnulo, como o chama o poeta e jornalista Heitor Andrade - é uma tragédia. Se aguentar no governo até 2014, Brasília afundará. Talvez afunde já neste verão.