sábado, 19 de novembro de 2011

É preciso passar a limpo o Brasil, com urgência!

RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

Brasília, 19 de novembro de 2011 - Toda a cultura humana está registrada nos livros, ou na escrita, incluindo os parcos conhecimentos que temos do mundo espiritual, conhecimentos que nos foram passados por mestres como Jesus Cristo e registrados por seguidores. Jesus Cristo, por exemplo, falava em aramaico. Por meio da engenharia da tradução, suas palavras foram grafadas, na Idade Clássica, em grego e em latim, e ganhou o Ocidente por meio da língua inglesa, chegando a nós, brasileiros, pela língua portuguesa. A propósito, cabalistas e alguns evangélicos procuram viver de acordo com a Bíblia, no nosso tempo pós-moderno, isto é, tecnológico.

As nações mais desenvolvidas do planeta, como Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Japão, não mexem na etimologia do seu idioma. No nosso caso, viemos de um dos idiomas mais sofisticados da história da humanidade, que é o latim, que, em Portugal, sofreu misturas do gótico e do árabe, desembocando na língua brasileira, oriunda do português de Portugal, tupi-guarani, línguas africanas, palavras estrangeiras incorporadas ao nosso idioma, verbetes pós-modernos, neologismos e nossa maravilhosa cultura mestiça e tropical.

Recentemente, a república peteemedebista de Lula, embarcou em mais uma canoa furada (para o povo): o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, sustentado pelo discurso de que precisamos ter o texto igual ao de Portugal na Organização das Nações Unidas (ONU). Uma falácia! Se isso fosse preciso mesmo, bastaria adotar-se, naquele organismo internacional, a língua brasileira. Se Portugal já foi, com a Escola de Sagres, o que os Estados Unidos e a Nasa representam agora, é hoje um dos países menos avançados da Europa, enquanto que o Brasil é, e todos sabemos disso, a nação mais rica do planeta, embora ainda em estágio potencial. Creio que, assim que a esclerose política for varrida deste imenso Portugal, ombrearemos os Estados Unidos.

Se Portugal já foi o que hoje são os Estados Unidos, em tecnologia e império, os portugueses não agiram como os ingleses, que foram donos do maior império que já houve no nosso planeta. Portugal sugou, como um vampiro, ouro, diamantes e outras pedras preciosas, prata, estanho, madeira (a Mata Atlântica junto), a vida dos escravos, tudo o que representasse riqueza, para dourar sua aristocracia, inclusive pagando a Inglaterra para proteger o sangue azul português, que vivia em berço esplêndido. A Inglaterra inaugurou a era moderna com a industrialização, no século XVIII, e os portugueses ficaram a ver navio.

Agora, no pós-modernismo, a era da tecnologia de ponta, com robôs realizando cirurgias, Portugal, e sua língua esgotada, mergulha cada vez mais no passado, que, a rigor, não existe, enquanto que o Brasil, com sua maravilhosa riqueza étnica e cultural, emerge, cada vez mais, para o trópico, a que os europeus chamam de realismo-fantástico, pois a velha Europa nunca entendeu o trópico.
O Novo Acordo Ortográfico só serviu para os apaniguados do Ministério da Educação do PTMDB encherem mais ainda a burra, vendendo milhões de novos dicionários, gramáticas normativas e livros em geral ajustados nas novas regras, uma das quais extinguiu a palavra “acreano” e criou “acriano”. Os acreanos ficaram furiosos. Mas o que se há de fazer num momento de tanta mediocridade política e intelectual?

O Brasil não precisa de mudanças na língua. Nenhum povo precisa. O que potencializa a utilização de um idioma é o avanço do seu país, ou países. Fala-se inglês no mundo todo por causa do Império Inglês e, depois, por causa dos Estados Unidos. Aos 5 anos de idade, quando aprendi a ler, já lia Walter Disney, Edgar Rice Burroughs, Al Capp, e, a partir de 14 anos, Ernest Hemingway, Franz Scott Fitzgerald, John Steinbeck, Somerset Maugham, via John Ford, Francis Ford Coppola, ouvia os Beatles e, atualmente, utilizo-me da informática.

Pois bem, o Brasil não precisa de mudanças ortográficas. Precisa investir maciça e continuamente, de forma nunca desestimulada, em educação, pesquisa e tecnologia. O Brasil não precisa de mudanças tecnológicas, precisa reduzir o fosso social: de um lado, pessoas ganham anualmente bilhões de reais de lucro, enquanto outros morrem de fome, ou comidos por vermes, giárdia, ameba, protozoário, bactéria e vírus. Indiozinhos morrem de fome. Muito dirão: são apenas indiozinhos. Pois o Brasil só é rico porque tem, também, basicamente, riqueza cultural continental. E se não cultivarmos a luz da espiritualidade, qualquer riqueza será apenas pó.

Dinheiro tem valor mental. R$ 1 trilhão, por si só, não valem nada. Lembro-me de um caso emblemático. Uma senhora ganhou uma soma vultosa e deu, para um sobrinho, R$ 100 mil. Ele comprou um carro novo e remobiliou sua casa, endividando-se para isso, pois os R$ 100 mil não cobriam os gastos feitos. Bateu com seu carro novo em outro automóvel e quase mata seu condutor. Seu carro não prestou para mais nada, teve que pagar os custos médicos com o outro condutor, pois fora culpado no acidente, e também pagar o outro carro. Assim, R$ 100 mil representaram, na verdade, menos algumas centenas de milhares de reais, mais o desgaste imenso.

O Brasil não precisa gastar dinheiro com reforma ortográfica. O Brasil precisa tirar das ruas crianças que estão morrendo de fome, de estupro, de drogas, à faca e à bala, o tempo todo. Enquanto essas crianças vagarem nas ruas brasileiras, como pedrada na cara, falastrões como Lula, e os “grandes quadros oposicionistas” dos vistosos tucanos, serão apenas palhaços stalinistas, como Hugo Chávez e Fidel Castro.

O Acordo Ortográfico é mais uma peça de marketing do governo lulapeteemedebista, em um país de esmagadora maioria de alfabetizados funcionais - que leem mas não entendem o que leem -, com pelo menos 20 milhões de pessoas que vivem na Idade da Pedra – não sabem ler e, muitíssimos deles, não têm sequer certidão de nascimento; outros, são escravos mesmo, principalmente nos medievais estados da Amazônia.

No Brasil, nós não precisávamos de reforma ortográfica. Precisamos de reforma política, de reforma fiscal, de reforma educacional, de reforma do Judiciário, de reforma administrativa, de reforma previdenciária, de pacto federativo, e, sobretudo, de jogar os ladrões de colarinho branco na cadeia e fazê-los pagar tudo o que roubaram. É preciso acabar com a indecência da imunidade parlamentar. Faz-se necessário passar a limpo este Brasil corrupto.


A curta história da língua brasileira, que leva ao mundo, por meio da sua literatura, as cores do trópico

Originada em Portugal, a língua brasileira cada vez mais se impõe no planeta, levando para as regiões frias, que antes sediavam a metrópole, a riqueza cultural e a alegria dos trópicos, por meio da literatura, da tecnologia e do trabalho


RAY CUNHA
ray.cunha@uol.com.br
Para a revista Século 21


Brasília, 21 de julho de 2009 - Esta curta história da língua portuguesa é baseada em relatos de arqueólogos e historiadores. Tudo começou na região ocidental da Península Ibérica, há 300 anos Antes de Cristo, com soldados romanos e seu latim vulgar. Oitocentos anos depois, o Império Romano começou a desabar, mas deixava, firmes, várias línguas, variantes do latim. O português escrito começou a ser utilizado, em documentos, no século IX, e, no século XV, já se tornara língua literária. Desde os romanos, havia duas províncias na região em que se formou a língua portuguesa: Lusitânia, hoje Portugal, e Galécia, ou Galícia para nós, brasileiros, ao norte.

O Império Romano conquistara a região ocidental da Península Ibérica, criando as províncias da Lusitânia e da Galécia, equivalentes, hoje, ao centro-norte de Portugal e à província espanhola da Galícia, a noroeste da Espanha, nas quais se começou a falar latim vulgar, do qual nasceram as línguas neolatinas e 90% do léxico, ou dicionário, do português. Os únicos vestígios das línguas nativas dessa região dormem na toponímia da Galícia e de Portugal.

Entre 409 e 711, depois de Cristo, o Império Romano entrava em colapso e a Península Ibérica era novamente invadida, agora por povos de origem alemã – suevos e visigodos -, que os romanos chamavam de bárbaros. Entretanto, os novos invasores absorveram a língua romana da península. Como cada tribo bárbara falava latim à sua maneira, o resultado foi a formação do galaico-português ou português medieval, espanhol e catalão.

Os estudiosos acreditam que foram os suevos os responsáveis pela diferenciação linguística dos portugueses e galegos quando comparados aos castelhanos. Durante o reinado suevo, proibiu-se nominar os dias da semana em latim e as palavras guerreiras foram impostas em línguas germânicas, tal como “guerra”.

Em 711, depois de Cristo, a península foi invadida pelos mouros, de língua árabe, oriundos do norte da África. O árabe foi utilizado, nessa época, como língua administrativa nas regiões conquistadas, mas a população continuou a falar latim vulgar. Em 1249, os mouros foram expulsos, mas deixaram grande número de palavras árabes, especialmente relacionadas à culinária e à agricultura, sem equivalente nas demais línguas neolatinas, além de nomes de locais no sul de Portugal, como Algarve e Alcácer do Sal. Muitas palavras portuguesas que começam por “al” são de origem árabe.

O mais antigo documento latino-português de que se tem conhecimento é a Carta de Fundação e Dotação da Igreja de S. Miguel de Lardosa, datada de 882, depois de Cristo. O Testamento de Afonso II, de 1214, é o texto em escrita portuguesa considerado mais antigo. Esses documentos estão guardados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa.

O vernáculo escrito passou, gradualmente, para uso geral a partir do fim do século XIII. Portugal se tornou país independente em 1143, com o rei Dom Afonso I. Em 1290, o rei Dom Dinis criava a primeira universidade portuguesa em Lisboa - Estudo Geral - e decretou que o português, então chamado “linguagem”, substituísse o latim no contexto administrativo.

Em 1296, o português foi adotado pela Chancelaria Real. A partir daí, a língua galego-portuguesa passou a ser utilizada também na poesia. Já em meados do século XIV, o português alcançara tradição literária. Nessa época, os nativos da Galícia começaram a ser influenciados pelo castelhano, base do espanhol moderno. Entre os séculos XIV e XVI, com as grandes navegações, a língua portuguesa é difundida na Ásia, África e América.

Na Renascença, aumenta o número de palavras eruditas do latim clássico e do grego arcaico, ampliando a complexidade do português. O fim do português arcaico é marcado pela publicação do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, em 1516.

A língua portuguesa no mundo - Fala-se oficialmente português nos oito países que integram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP): Angola (África), Brasil (América do Sul), Cabo Verde (África), Guiné-Bissau (África), Moçambique (África), Portugal (Europa), São Tomé e Príncipe (África), e Timor- Leste (Ásia). Mas em cada uma das ex-colônias portuguesas falam-se, na verdade, variantes do português de Portugal.

Também falam-se variantes de português nas seguintes regiões: Galícia (província da Espanha, Europa); Goa, Diu e Damão (Índia, Ásia); Macau (China, Ásia), Málaca (Malásia, Ásia) e Zanzibar (Tanzânia, África).

A escrita da língua portuguesa é semelhante em todos os países da CPLP, com poucas variações gramaticais. O que muda, de forma mais evidente, além da grafia de um certo número de palavras, é o significado de outras tantas palavras, com conotações diferentes de região para região; o modo de se utilizar formas verbais; e o estilo erudito, isto é, o modo de se construir frases e contextos literários.

Quanto ao falar, um brasiliense só se entenderá com um lisboeta, por exemplo, se ambos conversarem vagarosamente e pronunciarem claramente as sílabas das palavras.

Contudo, trata-se da quinta língua mais falada no planeta, por cerca de 240 milhões de pessoas, em quatro continentes. Se Portugal é o portão de entrada da lusofonia no Velho Continente - a Europa -, o Brasil é o gigante do bloco. No Brasil, a língua portuguesa sofreu influências do tupi-guarani - tronco linguístico dos índios da América do Sul - e de várias línguas africanas.

Desde o início do século XX, Portugal e Brasil buscam a unificação da língua portuguesa escrita em ambos os países, para chegar, pelo menos, ao consenso de um texto burocrático, que possa reforçar o idioma na Organização das Nações Unidas (ONU). Mas a verdade não pode ser mudada. O português de Portugal se esgotou, enquanto o português do Brasil foi enriquecido pelo índio, pela África e pelo trópico, e é aberto.

A reforma ortográfica tudo muda para nada mudar, como diz uma personagem do romance O Leopardo, de Giuseppe Tomasi Di Lampedusa, referindo-se à monarquia italiana, então com as ventosas no erário, como ocorre hoje e sempre no Brasil chavista de Lula e patrimonialista de Sarney. A célebre frase literária se ajusta à nomenklatura lulapetista, embora o destino do Brasil, a província agrícola, florestal e mineral mais rica do planeta, é o de ser uma potência mundial, o que só poderá conquistar por meio da democracia. E a democracia dorme no idioma. Só então, a língua brasileira será respeitada, procurada e aprendida.

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