sábado, 29 de dezembro de 2012

O agora e o agora, o momento mesmo da vida

BRASÍLIA, 29 de dezembro de 2012 – Em 1975, em Manaus, o jornalista Isaias Oliveira me disse algo que remoí nos 25 anos seguintes: “O passado é feito do que há de melhor”. Tínhamos, então, 21 anos de idade, e Isaias Oliveira, ex guia de turistas na selva, começava, como eu, a carreira jornalística, ambos sem curso superior. Ele, contudo, já me impressionava, sobretudo pela sua serenidade, e pela cultura. A personagem central do meu conto Inferno Verde, o jornalista que duela com o psicopata Cara de Catarro, foi batizado de Isaias Oliveira, e tem os olhos grandes e expressivos do seu homônimo da vida real.
Criei, e utilizei em mais de um trabalho de ficção, uma frase que equaciona o que Isaias Oliveira me dissera décadas atrás: “O agora e o agora, o momento mesmo da vida”, no sentido de que não existe passado, nem futuro, mas somente a intensidade do agora. O passado e o futuro são vidas paralelas.
Mas se não existe, por que Isaias Oliveira teria me dito que “o passado é feito do que há de melhor?” E aquela zona escura da nossa personalidade, que não confessamos nem para nós mesmos? E os crimes que cometemos, inconfessáveis, e que somente nossa consciência pode punir, por meio da angústia, às vezes tão aguda que sangra a alma? Como fugir dessa zona sombria, se ela está alojada no subconsciente, indelével? Podemos até esquecer esse inferno, mas, sempre que a oportunidade se apresenta, ele se manifesta.
Minha esposa, Josiane, preletora da Seicho-no-Ie e psicóloga, vive me dizendo: “Tudo o que realizamos deve ser feito como a coisa mais importante da nossa vida, com amor, para que beneficie o mais amplamente o maior número de pessoas”. Ontem, li em voz alta o preceito do dia 28 do calendário de 2013 da Seicho-no-Ie, que diz: “Concentre-se no agora e viva plenamente. Você nasceu neste mundo para viver plenamente cada momento de sua vida. Aprimorou sua alma valorizando o passado e visualizando um futuro radioso. Concentre os esforços naquilo que deve ser feito agora. Só assim abrir-se-á a porta de seu futuro. É essencial cumprir bem a missão que lhe cabe no momento” (Seicho Taniguchi). Minha filha, Iasmim, que me ouvia, disse: “Pai, o passado nós vivificamos; o presente, vivemos; o futuro, a gente constrói”.
Com efeito, o passado não existe, mesmo. Nostalgia, voltar ao passado, tentar resgatá-lo, estacionar nele, é vida paralela; e voltar ao passado para castigar-nos é mergulhar na angústia, agonizar, morrer. Se temos algum ajuste com o passado, só precisamos arrepender-nos, ou seja, não cometer mais o que nos angustia tanto, e aceitar o resultado da colheita, por mais terrível que seja. De real, naquilo que já foi, só há os antepassados, as raízes, o riso mais cristalino de quando éramos criança. E o futuro, será sempre o reflexo do agora e o agora.
Já faz tempo que vivo cada dia. Ainda tenho muitos livros para escrever, mas não estou preocupado com isso. Quero ver telas novas de Olivar Cunha e ler o livro de contos de Joy Edson, quero sentir crianças rindo e rosas que não se importam em se desnudarem na minha presença. O momento mesmo da vida é o azul mais azul, intenso como a nudez das rosas vermelhas à luz de manhãs ensolaradas, como o primeiro beijo, e gemidos no silêncio da noite, ao mergulharmos no abismo da mulher amada, prenhe de mistério.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Pequeno poema de Natal

Existe um jardim prenhe de rosas colombianas vermelhas, zínias multicoloridas
Jasmineiros que espargem Chanel número 5 em tórridas noites de agosto, na Amazônia,
Quando o céu é só diamantes e, de tão azul, sangra.
Escorre, nas frestas deste jardim, ouro, nas manhãs ensolaradas
E há uma mina, onde brotam as roseiras mais vermelhas
E de onde retiro rubis e esmeraldas.
No jardim, todas as manhãs são arrumadas por Deus, e são eternas.
As crianças adoram brincar entre as flores
E seus risos são o Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor.
Sou o apanhador do jardim; quando a bola das crianças cai longe, na relva,
Corro para devolvê-la e continuar ouvindo-as,
Como ouço o sangue latejando nos tímpanos, o atrito da Terra no espaço,
O hálito de Deus.
O jardim é fovista como a paleta mais luminosa de Olivar Cunha
E os alimentos são doces como o sumo dos frutos mais desejados.
O cheiro de maresia
O sabor de leite materno
O azul das rosas vermelhas
Mozart
O cetim das pétalas
O voo vertiginoso no Éter
Guardo num relicário, na memória do meu coração,
Que é de vocês, Josiane e Iasmim,
Neste Natal, e para sempre.
 
Brasília, 24 de dezembro de 2012

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Feliz Natal e próspero Ano Novo!

BRASÍLIA, 24 de dezembro de 2012 - Sinto o Natal como um jardim imenso, prenhe de rosas colombianas vermelhas, zínias mulcoloridas e jasmineiros que choram, à noite, Chanel número 5, e nesse jardim, que viceja numa manhã eterna, há uma mina de pedras preciosas; é o jardim do coração que dou a todos que eu amo, e todos que me amam já o têm, naturalmente, como manhãs ensolaradas. Que o Éter natalino penetre no mais recôndito das nossas almas, e que 2013 abra a mina, inesgotável, para sempre!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Paulo Francis, a era da mediocridade e a caravana do Lula

BRASÍLIA, 21 de dezembro de 2012 – Recebi meu batismo de fogo como escritor ao participar de Xarda Misturada, volume de poemas que publiquei com José Montoril e Joy Edson (José Édson dos Santos), todos da minha idade, 17 anos, em dezembro de 1971, em Macapá. O livro serviu para revelar o Joy. Para mim, foi, como disse, meu batismo de fogo, como escreveu no prefácio o pai da minha geração, o poeta Isnard Brandão Lima Filho, autor de Rosas para a Madrugada.
No ano seguinte, 1972, antes de completar 18 anos, peguei a estrada e parti para o Rio de Janeiro, de carona, sem lenço e sem documento, literalmente, e depois para Buenos Aires. Nos três anos seguintes realizei as mais diversas tarefas para sobreviver, de distribuidor de impressos na rua, passando por carregador de carga, até balconista da White Martins, filial de São Cristóvão, Rio. De volta a Macapá, em 1975, tentei retornar aos estudos, o quarto ano ginasial (equivalente, hoje, a uma graduação de cinco anos), mas senti-me tão solitário que voltei à vagabundagem, desta vez pelo rio Amazonas.
Fui visitar meu irmão, Paulo Cunha, em Santarém, onde fui convidado para redigir o jornal da Rádio Difusora de Santarém. Trabalhei durante um mês, dei a vaga para o Souza Lélis, que estava precisando mais do que eu do emprego, e parti para Manaus, com a intenção de conhecer a família do meu pai, João Raimundo Cunha. No mesmo dia em que cheguei em Manaus passei pela frente do Jornal do Comércio, então na Avenida Eduardo Ribeiro, e li um anúncio de que estavam precisando de repórter policial. Subi, falei com o diretor de redação e saí de lá empregado. Comecei no dia seguinte. Era 1975.
Somente 7 anos depois é que ingressaria no curso de jornalismo da Universidade Federal do Pará, após fazer supletivos de primeiro e de segundo graus e, é claro, o vestibular. Antes disso, tive mestres estupendos, como o Esso José Marqueiz; Octávio Ribeiro, o Pena Branca; e Walmir Botelho... Temperei meu texto jornalístico lendo Euclides da Cunha, Ernest Hemingway, Norman Mailer, Gay Talese, Lúcio Flávio Pinto, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes e Paulo Francis... Outro dia, meu amigo Marcelo Larroyed me presenteou o Diário da Corte, de Paulo Francis, organizado por Nelson de Sá, com posfácio de Luiz Felipe Pondé, num volume de 407 páginas editado pela Três Estrelas, do Grupo Folha, São Paulo. Estou lendo-o.
Paulo Francis é uma dessas raridades que só aparecem de cem em cem anos. Morreu em 1997. Seis anos depois, teria início a era da mediocridade, com Lula e petelhos. Lula virou a anta do Diogo Mainardi e agora o é do Reinaldo Azevedo e do Augusto Nunes, os três entrincheirados no Grupo Abril. Há uma característica comum que perpassa esses jornalistas: são ex covardes, como Nelson Rodrigues se identificava, ao deixar, num certo momento da sua vida, de sentir medo da patrulha ideológica. Paulo Francis era uma metralhadora giratória num meio, o intelectual, cheio de “covardes, carreiristas e oportunistas de todos os tipos, que pensam mil vezes antes de escrever algo, com medo do totalitarismo dos bem-intencionados” – como observa Luiz Felipe Pondé.
Francis era – como Lúcio Flávio Pinto, o grande jornalista da Amazônia – um solitário, e sua solidão originava-se da sua cultura em meio à mediocridade, e do desmitificador, que acaba resultando no iconoclasta. Para que o leitor sinta o que estou escrevendo, pense na solidão indevassável que perpassa a era da mediocridade, “um mundo tomado pelo politicamente correto e pela jequice que marca a sensibilidade da classe média” – de novo Luiz Felipe Pondé –, além da ideologia, que funciona como viseira de cavalo de carga.
Comecei a ler Paulo Francis para valer nos anos de 1980. Ele me ensinou algo fundamental na profissão de jornalista: a desmitificação. Foi com Francis que aprendi que o autor de Marimbondos de Fogo será sempre Jeca Sarney. No Brasil, um Lula qualquer da vida que chegue a presidente da República passa a ser santificado, e fazer o que quiser. Vê-se isso no aparelhamento do estado: a máquina está inchada de gentalha incompetente e corrupta, recebendo altíssimos salários e tratada como doutora, embora portadores de títulos duvidosos.
O fato é que os Francis da vida são fundamentais para a democracia, que só viceja se for defendida por quem não sente medo, à maneira de Lúcio Flávio Pinto, que desmitificou a Amazônia (na Hileia, a coisa é da pesada; o cangaço impera). Francis desmitificou o Brasil; colocou a mediocridade, a jequice, o confete, no lugar deles. Se Sarney afirmar que Lula pode fazer o que quiser, “porque é um patrimônio do Brasil”, ou se Lula disser que Sarney tem direito a ser o maior patrimonialista brasileiro de todos os tempos, a massa acredita, incluindo a UNE. O Brasil da era da mediocridade dá couto a ladrões e assassinos. Só que o estado é constituído de instituições. O governo é apenas uma delas. Não temos mais Paulo Francis, mas temos pelo menos a banda não amestrada da imprensa, aquela que não arria a calça para os jumentos da era da mediocridade, e temos intelectuais como Joaquim Barbosa.
Lula ameaça percorrer o Brasil para mostrar que é dono da unanimidade. Dará certo desta vez?

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Com Minha Moldura é o Universo, Renato Cunha resgata o lugar do poeta e jornalista Heitor Andrade na história de Brasília

No alto, capa do livro Minha Moldura é o Universo.
Acima, o poeta e jornalista Heitor Andrade, que
tem lugar garantido na história de Brasília

BRASÍLIA, 18 de dezembro de 2012 - O poeta e jornalista Heitor Andrade autografa, após 18 anos de jejum, seu quinto livro de poemas, Minha Moldura é o Universo (Editora Sigla Viva, Brasília, 2012, R$ 25), sábado 22, das 19 às 23 horas, no Bar do Mercado, na W3 Sul, Quadra 509, Bloco C, Piso Superior. Heitor Andrade é autor de: Corpos de Concreto (1964), livro concretista, queimado na nascente Ditadura dos Generais (1964-1985); Sigla Viva (1971), Três X1 – A Matemática do Poema; e Nas Grades do Tempo, além de poemas em fôlderes.

Natural de Salvador, o escritor é pioneiro na vida cultural e jornalística de Brasília, onde vive há 44 anos. Agitador cultural, apresenta também na noite brasiliense o Teatro do Imprevisto, criação sua. Nas apresentações, improvisa e dialoga com a plateia, num texto de improviso e sempre instigante. O cineasta Renato Cunha, também editor de Minha Moldura é o Universo, trabalha atualmente num documentário longo sobre Heitor, com produção de Kim Andrade, que foi produtor de Glauber Rocha. Heitor e Kim são primos de Glauber.

Candidato derrotado à Câmara Legislativa do Distrito Federal, pelo PV, em 2010, Heitor Andrade afirmou que “o maior crime ecológico do país chama-se Águas Claras, construída pela corja da construção civil de Brasília, em cima do maior manancial hídrico do Brasil”. Sobre o Cerrado: “Está sendo destruído pelo pessoal da soja. É uma catástrofe, porque temos uma reserva hídrica gigantesca nesse bioma; as bacias hidrográficas do país nascem no Cerrado do Planalto Central”. E sobre o Entorno do DF: “O governo de Goiás acha que o Entorno é problema de Brasília e Brasília acha que é de Goiás. O governo federal, com sua majestosa incompetência, também ignora o Entorno, que enfrenta graves problemas de saúde, de educação, muita criminalidade. O Entorno, que é na verdade uma região rica, está abandonado”.

Heitor Andrade, um dos construtores dos alicerces da vida cultural de Brasília, como poeta e jornalista, nos anos de 1960, nos momentos heroicos da cidade, é uma mente aguda ao pensar Brasília e o país. Renato Cunha começou o resgate do artista, que, quer queiram, quer não, tem lugar garantido na história de Brasília.

sábado, 15 de dezembro de 2012

O Natal dos murídeos

BRASÍLIA, 15 de dezembro de 2012 – Outro dia fui ver O Quebra-Nozes, de Piotr Ilitch Tchaikovsky, com a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro, sob a regência do maestro Cláudio Cohen. O Quebra-Nozes é uma coreografia sobre um conto de Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann, e a menina Clara, protagonista do conto, foi interpretada pela graciosa Karina Dias, primeira solista do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. O Teatro Nacional, um dos mais belos do país, criado na prancheta genial de Oscar Niemeyer, está roto como Brasília, que, por sua vez, é um três por quatro do Brasil.
 
As ruas de Brasília, a capital da sexta economia mundial, são sujas, esburacadas e carecem de sinalização. Quando chove firme na cidade ela vai para o fundo, pois as galerias de águas pluviais são lixões. Os ônibus públicos também são imundos, principalmente na primeira viagem; quem estiver de branco numa dessas e sentar-se ficará marrom. Há fim de semana no Distrito Federal em que se mata, a chumbo quente, aço, paulada ou fogo, 15 pessoas, e os hospitais são corredores da morte, incluindo os privados, onde pacientes só sobrevivem enquanto suas famílias ainda possuírem bens. Vi na televisão, um dia desses, que o governador Agnelo Queiroz, petista, instalou na sala dele monitores para fiscalizar o atendimento hospitalar na cidade. Ridículo.
 
Na verdade, Brasília não é um três por quatro do Brasil, que é um continente, com bolsões de Primeiro Mundo, mas a capital da República é todinha o governo petista: incompetente (o país não crescerá nem 2% este ano), populista (o Programa de Aceleração do Crescimento é papo furado) e corrupto (o Mensalão).
 
O Quebra-Nozes é um conto fantástico, presente de Natal de Agnelo Queiroz para os amantes do balé. Brasília é também a ilha da fantasia, abrigo de diversas quadrilhas, uma das quais foi desbaratada principalmente pelo trabalho de dois dos mais valentes homens deste país: Roberto Gurgel e Joaquim Barbosa.
 
Agora, falta pegar as ratazanas, aquelas que se acham acima do bem e do mal, para quem a burra é apenas um galinheiro cheio de chester. As famílias dos murídeos mais gordos destepaiz estão nadando em reais; parecem a família do ladrão bolivariano.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Zenaldo Coutinho devolverá a Belém o status de cidade mais importante da Amazônia?

BRASÍLIA, 7 de dezembro de 2012 – Dados de 2011 da Transparência Internacional e projeções da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostram que o Brasil dá guarida a até 43% de todo o dinheiro movimentado no planeta pela corrupção. Enquanto as perdas médias giraram em torno de R$ 160 bilhões nos últimos sete anos, no mundo, o prejuízo nacional chega a R$ 70 bilhões, anualmente —2,3% do Produto Interno Bruto (PIB). Segundo a Fiesp, foram roubados, em 2008, no Brasil, R$ 41,5 bilhões, ou 1,38% do PIB. No mundo, entre 1990 e 2005, a roubalheira girou em torno de US$ 300 bilhões, quantia que pode ter dobrado nos últimos sete anos, para US$ 600 bilhões (perto de R$ 1 trilhão), conforme o Relatório Global da Corrupção, da Transparência Internacional.

O Brasil é o septuagésimo quinto país mais corrupto, segundo ranking da Transparência Nacional. Na Inglaterra e nos Estados Unidos a multa chega a 20% do benefício conseguido pelos corruptos. “O pagamento, na Inglaterra, é ilimitado e a indenização pode ser milionária” – afirma José Francisco Compagno, sócio da área de investigação de fraudes e suporte a litígios da Consultoria Ernst & Young Terco. No Brasil, mais de 110 propostas que punem com rigor a corrupção estão engavetadas no Congresso Nacional. “Se tentamos aprovar uma lei mais dura, os próprios deputados jogam os projetos na gaveta. Eles se elegem com o dinheiro que vem da corrupção e isso cria um ciclo vicioso. Os casos são descobertos, mas ninguém vai para a cadeia. Não há punição” – disse para o Correio Braziliense o professor de ciências políticas da Universidade de Brasília (UnB), David Fleischer.

A mais influente revista semanal brasileira, Veja, em matéria de capa da edição de 19 de outubro de 2011, assinada por Otávio Cabral e Laura Diniz, afirma que a corrupção no Brasil leva R$ 82 bilhões por ano — 2,3% do PIB. Segundo a revista, as principais causas da corrupção são instituições frágeis, hipertrofia do estado, burocracia e impunidade. O governo federal dá o exemplo: emprega mais de 90 mil pessoas sem concurso público. Nos Estados Unidos, são cerca de 9 mil e na Grã-Bretanha, em torno de 300. “Isso faz com que os servidores trabalhem para partidos e não para o povo, prejudicando severamente a eficiência do estado” – observa Cláudio Weber Abramo, diretor da Transparência Brasil.

Cerca de 120 milhões de pessoas são empregadas da União, estados ou municípios, nestepaiz. Nossa legislação tributária é a mais injusta e confusa do mundo e a administração pública está tomada por quadrilhas, aqui e ali desbaratadas pela Polícia Federal, mas seus membros não vão para a cadeia. Essa situação recrudesceu a partir de 2003. O saque é feito diuturnamente nos três poderes da República, mas os vírus atacam mais nas prefeituras. Há prefeitos que empregam toda a família e gastam o orçamento apenas com a folha de pagamento; superfaturam obras ou não as entregam; furtam merenda escolar, medicamentos, assaltam velhinhos e batem carteira.

Meus dois ou três leitores, caso tenham chegado até aqui, já devem estar impacientes, pois em vez de escrever sobre vírus, prometi falar sobre Belém. Vamos lá. Entrevistei o prefeito eleito de Belém, Zenaldo Coutinho, na manhã de 14 de fevereiro de 2012, no seu gabinete no Anexo IV da Câmara dos Deputados; antes, portanto, da campanha. Perguntei-lhe: “O principal problema de Belém seria rede de esgoto e de galerias de águas pluviais defasadas?” Ele respondeu: “O principal problema de Belém é ausência de autoridade. Nós temos um conjunto de problemas que decorrem da falta de ação; muitas vezes, da absoluta inoperância da administração municipal, o que resulta em situações dramáticas. Belém é uma das capitais com menor índice de esgotamento sanitário do país, temos trânsito caótico, serviço de saúde ineficaz, insignificante, sistema educacional irrisório. Precisamos modernizar, aparelhar, equipar e ampliar a rede municipal de ensino fundamental, da mesma forma que temos que ampliar os serviços de saúde. As pessoas estão padecendo muito em Belém. Além da ausência de autoridade, há ainda falta de carinho para com a população. Belém precisa ser vista como extensão das casas de todos. Belém já foi a metrópole da Amazônia, e tem que voltar a sê-lo”.

Em novembro, ele retornou, eleito, a Brasília. Visitei-o na Câmara e batemos um longo papo, sobre o qual destaco alguns tópicos: Zenaldo já criou um departamento de inteligência, com o objetivo de prevenir assalto de qualquer espécie ao município; fará um convênio com os taxistas para que se tornem agentes do governo municipal, avisando a uma central tudo o que observarem de anormal na cidade; criará hidrovias urbanas; dará prosseguimento a projeto viário metropolitano financiado pelo Japão e pelo governo do estado; criará infraestrutura para o turismo, com medidas simples, como desassoreamento da enseada do Ver-O-Peso e botar o bondinho para funcionar, no largo do Forte do Castelo; arborização do subúrbio; e, fundamental, infraestrutura básica da cidade. Se Zenaldo bombardear para valer as ratazanas, sem dó nem piedade, conseguirá o restante, porque competência ele tem.

Zenaldo Coutinho, 51 anos, é graduado em Direito pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Foi eleito vereador por Belém, em 1985, aos 21 anos, o mais jovem do Brasil, à época. Desde então, também como deputado estadual e federal, dedica sua vida a três temas: Belém, o Pará e a Amazônia. Na sua ida para a Prefeitura de Belém há um propósito: resgatar Belém capital da Amazônia. Fundada em 12 de janeiro de 1616, a capital do estado do Pará é a mais importante cidade da Hileia. Um mergulho na história e na cultura da Amazônia Clássica, a análise da geografia do Trópico Úmido, e um estudo geopolítico do Mundo das Águas (os rios Amazonas, Tocantins, Pará e Guamá, abrindo-se como a bocarra de um jacaré-açu sobre o arquipélago de Marajó, no encontro com o Atlântico) confirmará minha tese. À noite, lembra um óvni pairando sobre a baía de Guajará. Trata-se da única capital-arquipélago do país, com 38 ilhas povoadas. Por conseguinte, Belém é uma cidade insular. O município, com 1.064,918 quilômetros quadrados, é habitado por cerca de 1.392.031 moradores (IBGE/2010), e a região metropolitana tem em torno de 2.100.319 habitantes.

Os dois últimos prefeitos dessa cidade deliciosa como tacacá foram desastrosos. O então petista e hoje do Psol Edmilson Rodrigues, 55 anos, foi prefeito de 1997 a 2004. Só não foi mais incompetente do que a ex-governadora do Pará, a petista Ana Júlia Carepa, porque isso é impossível, mas foi substituído por um Ana Júlia Carepa: Duciomar Costa, 57 anos, do PTB, que esquenta (ou esfria) a poltrona de prefeito desde 2005. Hoje, a Metrópole da Amazônia é uma sombra da sua importância. Por isso, a Cidade Morena precisa de um prefeito, talentoso, que a entenda.

Quanto à Amazônia, com 25 milhões de habitantes, é cada vez mais espoliada por uma elite capaz de bater na própria mãe para morder dinheiro, com a bunda gorda aboletada nas poltronas luxentas dos gabinetes de Brasília.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Fim da era Lula

BRASÍLIA, 2 de dezembro de 2012 – A era Lula durou precisamente oito anos – 2003-2010; acabou em 1 de janeiro de 2011. Lula e a nomenklatura do Partido dos Trabalhadores (PT) sonhavam, e sonham ainda, com uma ditadura de esquerda (as de direita são a mesma coisa). Sonho apenas. Jamais se concretizará. Mais adiante direi por quê. Lula, durante seu governo, agiu como um ditadorzinho. Aparelhou o Estado, incluindo as agências reguladoras, criadas por Fernando Henrique Cardoso (PSDB), e, claro, aparelhou também a Petrobras. Tentou a Receita e a Polícia Federal. Não conseguiu. A corrupção espirrou onde quer que Lula metesse o bedelho, até desaguar no Mensalão.
Em 2010, Lula, ídolo inconteste do povão, que, no fim das contas, é quem determina a fauna que vai para o Congresso Nacional, elegeu Dilma Rousseff, certo de que estaria elegendo um títere. Enganou-se. Dilma sabe o que é uma ditadura, pois já a sentiu na pele; foi torturada pelos militares durante a aventura dos generais (1964-1985), embalados pelo status quo da classe, então, dominante. Também é instruída, diferentemente de Lula, e sabe que a economia de mercado é o único caminho, pelo menos neste início do século 21. Até a ditadura de ferro da China reconheceu isso. Dilma não está disposta a embarcar na canoa furada de Lula, e dá claros sinais disso.
Lula passou oito anos gastando e acobertando corrupção histórica. Enquanto presidente da República, foi blindado e se beneficiou da propaganda nazista, que só o PT sabe e é capaz de fazer. Mas oito anos de corrupção é muita coisa. Bastou um ano fora do poder para o lamaçal começar a se agitar. Um nome começa a se insinuar, com insistência, em escutas legais da PF. Só falta decifrar a criptografia.
Lula e nomenklatura emanam a melancólica visão de empoeiradas teias de aranha. O mundo que desejam ardentemente é impossível. O Brasil já é uma potência democrática e isso não será mudado, por uma razão: as instituições que formam o Estado brasileiro se fortalecem a cada dia, de modo que os ladrões de merenda escolar já não podem mais agir à luz do dia, como tem sido.

sábado, 17 de novembro de 2012

Zé Dirceu ainda lidera um golpe e manda Joaquim Barbosa ao paredão. Ou um trem descarrilado na Ferrovia Norte-Sul

BRASÍLIA, 17 de novembro de 2012 – Esses 9 anos de governo petralha são paradoxais: o Brasil descarrila, mas se as eleições presidenciais fossem hoje, Lula seria eleito pela Bolsa Família e algumas dezenas de milhões de leitores funcionais como ele. Afinal, Lula recebe apoio de Zé Sarney, Zé Dirceu e Paulo Salim Maluf. Falar em Zé Dirceu, Joaquim Barbosa deve tomar cuidado, pois do jeito que o Petralha aparelhou e Estado e mantém na folha até a União Nacional dos Estudantes, Zé pode liderar um golpe de Estado, julgar Joaquim Barbosa e condená-lo ao paredão.

Aí, seria constituída uma ditadura comandada por Lula e três ministros na linha de frente: Zé Dirceu, o Che Guevara de Lula (o Fidel Castro tupiniquim); Zé Sarney (que apoia qualquer coisa que chegue ao poder) como ministro do Patrimonialismo; e Paulo Salim Maluf como ministro da Merenda Escolar. Seria oportuno um projeto tipo o Ficha Limpa para cortar um dedo dos mensaleiros, a fim das pessoas se precaverem à aproximação deles. Seria a quadrilha dos 19 dedos.
 
Mas bandalheira não se sustenta por muito tempo. Lula deu mais um tiro no pé com a Copa do Mundo. A infraestrutura básica do país está sucateada; rodovias, aeroportos e aeroportos estão quebrados; e não temos mais segurança pública – as rodovias e as ruas se tornaram terra de ninguém. A presidenta e seus ministros dizem em coro que a culpa é dos presidentes anteriores ao Petralha, embora os petelhos estejam há 9 anos no poder.

Além de propagandista com talento nazista, os petralhas não têm que se preocupar com oposição. Os tucanos vêm agindo como aves, mesmo. Tucano é somente um símbolo. Política partidária é outra conversa. Nas duas últimas eleições os tucanos não utilizaram na campanha conquistas extraordinárias, como: estabilidade da moeda, privatizações (parece que têm vergonha disso) e Lei de Responsabilidade Fiscal, para citar as mais importantes.

Nesses 9 anos, os petelhos aparelharam cada vez mais o Estado (já tentaram até a Receita Federal), desfigurando o funcionalismo público de carreira; distribuem a Bolsa Família sem contrapartida, criando um exército de pés inchados e analfabetos; fecham os olhos para investimentos na Educação, na infraestrutura básica, na segurança e na saúde públicas; os apagões causam prejuízos de bilhões de reais por ano; o país parou de crescer; e a inflação começa a se assanhar. Sem crescimento não há investimento e emprego. O que resta é partilhado entre o Petelho, o PMDB, a Delta e a Norte-Sul.

Só no Brasil é que Zé Dirceu pede seu passaporte de volta e enfrenta o Supremo, como se os ministros é que fossem bandidos. Só “nestepaiz” Paulo Salim Maluf é deputado federal e está solto. Só em Pindorama o autor de Marimbondos de Fogo, o Zé dos atos secretos, é coronel de barranco em dois estados, um deles, o Amapá, anexado ao Maranhão.

Aonde vamos parar a bordo deste trem descarrilado?

domingo, 11 de novembro de 2012

O apanhador no campo de centeio

BRASÍLIA, 11 de novembro de 2012 – Os dias sucedem-se nublados. Às vezes, abre-se uma gigantesca fresta de sol sobre a cidade, que pulsa ao calor. Há dias de vento forte, e chove. Assim caminha o ano rumo a dezembro, docemente, ao embalo do verão. Há mangueiras que já se vergam ao peso das mangas, belas como enfeites de Natal. Lemos, nas mentes das pessoas, que depositarão novamente todas as suas esperanças no primeiro dia do novo ano. Contudo, isso já está assegurado, porque a vida renasce todos os dias, todos os instantes, e para isso precisamos ouvir apenas o canto dos sabiás, sorrir para as crianças, especialmente as tristes, e oferecer flores aos que amamos, com o mesmo espírito de entrega do poeta ao ofertar rosas para a madrugada.

Dezembro não tardará, trazendo toda a magia da vida, até para os que se julgam perdidos na noite eterna dos danados, pois basta ouvir o riso dos pequeninos para que surja o sol no jardim do coração. Não importa quanto mal tenhamos praticado, mas quando sentimos o perdão todas as correntes se partem para sempre e descobrimos que é fácil voar. A esperança de 1 de janeiro deve se perpetuar para o dia 2 e se renovar, como as manhãs no trópico, até 31 de dezembro. Então, tudo recomeça.

Em 2013, vou abrir de novo meu relicário e ofertar todas as pedras preciosas que conseguir tirar de dentro dele. Posso ofertá-las para sempre, pois surgem mais e mais, infinitamente; são focos de luz, e só os vemos com o coração. Pretendo também ouvir mais a música da madrugada, para produzir mais diamantes, rubis e esmeraldas.

À medida que nos aproximamos de dezembro, a esperança brota numa flor, no canto dos passarinhos, nas mangueiras carregadas de frutos, no riso das crianças, nos olhos da mulher amada. As manhãs são redentoras, as tardes escoam como rios amazônicos e as noites são navios grandes e bem iluminados.

Sou o apanhador no campo de centeio. Estou ali, de vigília, e as crianças brincam de bola. Estou atento. Se a bola cai longe, vou apanhá-la e a devolvo para as crianças. Se uma delas se machuca, cuido do machucado e a consolo; quando elas sentem fome, alimento-as; e se alguma delas quer ficar triste, alegro-a, pois sei que tudo posso; até voar.

E assim vão-se os dias, embalados por ventos tão azuis que cheiram a mar. O Natal logo baterá à porta do meu coração, e virá o novo ano, num voo vertiginoso como o primeiro beijo, roubado dos lábios de um anjo, e tudo isso temos para sempre dentro de cada célula, de cada átomo, de cada quantum da nossa mente.

As madrugadas, as mesmas madrugadas que perpassam o Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart, essas madrugadas impregnadas de Chanel Número 5 espargido nos labirintos de mistérios do corpo da mulher amada, essas noites tórridas da Amazônia, regadas ao choro dos jasmineiros, esse Atlântico, abrem-se na minha vida em veredas ladeadas por zínias multicoloridas e rosas colombianas, vermelhas. É nas madrugadas que dou à luz personagens que nascem ao computador.

E isso é tudo o que eu quero, além do brilho dos olhos da minha amada, e do riso da minha filha, e da luz dos meus anjinhos, e do cheiro da minha mãe, e do bate-papo com meus antepassados, e dos voos vertiginosos junto com meu pai. Assim, estarei sempre acordado e bem-disposto na missão do apanhador no campo de centeio.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Coachs e escravos não mergulham no azul!

BRASÍLIA, 2 de novembro de 2012 – Corno manso é quem tem ciência de que sua cara-metade lhe põe chifre, mas não tuge, nem muge; prefere repartir a ficar sem nada. Escravo manso, de certa forma, é uma espécie de corno, traído por si mesmo. Induzidos pela empresa na qual trabalham, tornam-se escravos por meio de coaching, palavra originada na cidade húngara de Kocs, à margem do rio Danilo, e onde fabricavam-se carruagens. Kocs é uma palavra húngara parecida com “tutores”. No século XIX, uma universidade adotou o nome “coach” para os professores, e depois técnicos esportistas locais passaram a ser também chamados assim. Nas décadas de 1950 e de 1960, a palavra ganhou o mundo como “coaching”.

Problemas financeiros, falta de mão de obra e fatores que levavam à demissão de funcionários, levaram empresas a contratarem assessores, chamados coachs, para treinarem os funcionários sobre o processo de funcionamento delas. Dava certo. As empresas começaram a investir firmemente em técnicos com capacidade de moldar funcionários para produzir mais sem espernear. Hoje, há quem utilize o processo de coaching até como terapia psicológica, o que, naturalmente, baralha ainda mais a mente do coachee. Pregam os coachs que o coachee alcançará melhor qualidade de vida por meio do coaching.

O objetivo é sempre alcançado com tecnocratas, que acabam se transformando em máquina, o que, no fim das contas, é o que os empresários querem. Quando ocorre de o funcionário ter personalidade, jamais chegará ao fim de um desses treinamentos para ovelha, e certamente entrará na lista negra da empresa, se não for logo demitido. Para quem é trabalhador compulsivo, coaching é um prato cheio, capaz de levar à sublimação robótica.

Todos nós nascemos com facilidade para realizar certas tarefas, com talento e até genialidade. Tudo o que temos a fazer é descobrir, o mais cedo possível, nossa inclinação. Muitos pais estragam a vida dos filhos ao definir a profissão deles. Daí é que surgem médicos assassinos, feirantes doutorados em física, peões que lecionam em escolas públicas, artistas asfixiados num banco e milhões de pessoas atrás de um alto salário num emprego público, no qual se masturbará o resto da vida. Outro drama na vida de funcionários infelizes é sonhar ou com o passado ou com o futuro. Como ambos não existem, sonham mesmo.

Há também outra questão: a da fidelidade. Acompanhei o caso de uma estagiária numa determinada empresa. Foi-lhe exigida uma carga de trabalho que nem o melhor coach do planeta conseguiria extrair dela, mesmo que fosse escrava na acepção clássica do termo. Morreria apanhando e não daria conta do que lhe impuseram, mas foi fiel consigo mesma, revelando personalidade. Sua atitude foi vista como irresponsável pelo seu coach. Ora, quem não tem fidelidade consigo mesmo será sempre um bosta n’água, flutuando ao sabor da maré.

Pessoalmente, eu mesmo sou quem oficia missa na minha igrejinha pessoal, razão pela qual não fiz sucesso em algumas das empresas em que trabalhei, porque os coachs, que não são apenas os próprios, mas qualquer escravocrata, acham que o único mundo que existe é o que existe na cabeça deles. Nem desconfiam que o agora é intenso, ilimitado e eterno, e talvez jamais sintam o perfume da vida, vertiginoso mergulho no azul.

sábado, 27 de outubro de 2012

Macapá já está perdida. Resta Belém do Pará



BRASÍLIA, 27 de outubro de 2012 – Os moradores da mais importante cidade da Amazônia, Belém do Pará, escolherão, neste domingo, 28, seu prefeito, entre o tucano Zenaldo Coutinho e o marxista (seja lá o que isso queira dizer) Edmilson Rodrigues. Belém é minha segunda cidade natal. Minha verdadeira cidade natal, Macapá, já está perdida, pois os candidatos a prefeito são Roberto Góes (PDT) e Clécio Luís (Psol).

Macapá é puro realismo fantástico. Debruça-se à boca do maior rio do mundo, o Amazonas, na confluência da Linha Imaginária do Equador. Não conta com esgoto e sofre com falta de água e energia elétrica. Suas ruas são esburacadas e vem sendo saqueada, assim como o estado do Amapá, este, anexado ao Maranhão, desde sempre.
Este caboco, Roberto Góes, 46 anos, natural do município de Porto Grande, é candidato à reeleição e é presidente da Federação Amapaense de Futebol. É primo de Waldez Góes (PDT), ex governador do Amapá (2003-2010), natural de Gurupá (PA). Em 10 de setembro de 2010, Waldez Góes foi preso pela Polícia Federal na Operação Mãos Limpas, acusado de meter a mão em dinheiro da Educação do estado e da União – a quadrilha desviara cerca de R$ 300 milhões. Curtiu cana até 20 de setembro daquele ano, quando recebeu um mandado de condução coercitiva na operação Mãos Limpas, resultado de investigações de desvio de verbas públicas no valor de R$ 1 bilhão no Governo do Amapá durante a sua gestão, com extensão na prefeitura de Macapá.
Em 18 de dezembro de 2010, Roberto Góes, o atual prefeito, foi preso pela Polícia Federal, acusado de sabotar a PF. Uma semana antes, os federais apreenderam R$ 35 mil na Secretaria Municipal de Finanças de Macapá, dinheiro supostamente oriundo de licitações fraudulentas. Escutas da PF captaram um diálogo em que Roberto Góes pede à irmã, Queila Simone Rodrigues da Silva, procuradora-geral do município, medidas que obstruíssem as investigações. Roberto Góes ficou preso por quase 60 dias na penitenciária da Papuda, em Brasília, solto em 11 de fevereiro de 2011.
Ele responde ainda à ação penal no Tribunal de Justiça do Amapá por porte ilegal de arma de fogo e agora não pode frequentar locais públicos, como bares, restaurantes e similares. Também não pode deixar o Amapá por período superior a 30 dias sem autorização judicial, além de ter que comparecer em juízo de 5 em 5 meses.
Em agosto de 2012, foi suspenso procedimento licitatório instaurado pela Secretaria Municipal de Saúde visando contratar a empresa Criativa Construções Ltda., ligada a um parente de Roberto Góes. Segundo o Ministério Público, a contratação teria como finalidade desviar receita para alimentar caixa 2 da campanha de reeleição do prefeito.
Em setembro de 2012, o jornalista João Bosco Rabello, do Estadão, publicou no seu blog um post intitulado: “Um Prefeito sob controle judicial". Roberto Góes ingressou com ação e a Justiça Eleitoral do Amapá (Zé Sarney e a Justiça Eleitoral do Amapá já censuraram meio mundo) determinou a retirada da matéria do ar. Após protestos de diversas associações de jornalistas, o juiz eleitoral voltou atrás e revogou a determinação.
Roberto Góes responde ainda a inquérito no Ministério Público do Amapá pela retenção, por parte da Prefeitura de Macapá, de R$ 4,7 milhões descontados em folha dos servidores públicos que fizeram empréstimos consignados, e que deveriam ter sido repassados ao Banco Itaú.
Quanto ao candidato Clécio Luís, o que conspira contra ele é o Partido Socialismo e Liberdade (Psol), agremiação marxista, fundada em 2004, fruto de dissidência do Partido dos Trabalhadores (PT), que acaba de ter sua elite identificada como quadrilha, e um de seus ideólogos, Zé Dirceu, como chefe da gang.
Uma coisa puxa outra. O jornalista e intelectual Reinaldo Azevedo, que escreve na Veja.com, faz uma análise procedente sobre Lula, o criador do PT. Ele acha que todo esse frenesi de Lula nas eleições municipais é devido ao medo de virar réu nos outros processos do Mensalão. Reinaldo Azevedo: “Não desta parcela que está no Supremo, mas daquele que corre na primeira instância. Lula está fazendo essa gritaria país afora para ver se intimida os representantes do Ministério Público. Tenta repetir a tática de 2005, quando correu para os “braços do povo” — e a oposição, infelizmente, caiu no truque. O procurador da República Manuel Pastana, que atua no Rio Grande do Sul, já encaminhou uma representação à Procuradoria Geral da República em que pede que o ex-presidente seja responsabilizado criminalmente pelo Mensalão. Mais do que qualquer outro réu do Mensalão, Lula tem as digitais nesse imbróglio num caso em particular: aquele que diz respeito ao banco BMG — uma das instituições financeiras que fizeram os falsos empréstimos a Valério e ao PT (já comprovados pelo Supremo)”.
Ainda Reinaldo Azevedo: “Lula está com medo. Não faz tempo, ele dizia por aí que o Mensalão só seria julgado em 2050. Agora que a cadeia espreita alguns de seus aliados, teme entrar na fila. Até porque, como se vê acima, se Dirceu não assinava os crimes pelos quais foi condenado, é certo que Lula deixou assinaturas que beneficiaram o BMG, que foi, é inequívoco, um dos bancos do Mensalão. Uma das razões para Lula sair por aí deitando a sua glossolalia política é blindar-se, tentando intimidar o Ministério Público e a Justiça. Ele quer que as massas gritem: “Se tocarem em Lula, haverá rebelião”. Não haverá”.
Voltemos ao Psol. Trata-se de uma turma leninista, trotskista, marxista libertária e eurocomunista, pronta para usar a massa ovina e chegar ao poder, instalando partido único, ou seja, ditadura.
Agora, Belém. Edmilson Rodrigues e Zenaldo Coutinho são candidatos a prefeito d a Cidade das Mangueiras, a Cidade Morena, o Portal da Hileia, a Capital da Amazônia.
Edmilson Rodrigues, 55 anos, belenense, foi eleito e reeleito prefeito de Belém, de 1997 a 2005, e foi pré-candidato à presidência da República pelo PT, em 2002. É arquiteto, mestre em urbanismo e doutor em geografia pela USP. No primeiro governo municipal de Edmilson Rodrigues, sua vice foi a ex governadora do Pará (2007-2010), a dançarina de carimbó Ana Júlia Carepa. Edmilson Rodrigues, que em 2005 ingressou no Psol, foi sucedido na prefeitura por Duciomar Costa (PTB), o Dudu, 57 anos, natural de Tracuateua (PA). Somando Edmilson Rodrigues e Dudu, o atual prefeito (2005-2012),  são uma década e meia ladeira abaixo. Belém está numa ratoeira.
Zenaldo Coutinho, 51 anos, bacharel em Direito pela Universidade Federal do Pará (UFPA), foi eleito vereador por Belém, em 1985, aos 21 anos, o mais jovem do Brasil, à época. Desde então, também como deputado estadual e federal, dedica sua vida a três temas: Belém, o Pará e a Amazônia. Em 2011, comandou o “não” à divisão do estado do Pará, contra a criação dos estados de Carajás e do Tapajós.
Na manhã de 14 de fevereiro de 2012, uma terça-feira, Zenaldo Coutinho me recebeu no seu gabinete no Anexo IV da Câmara dos Deputados para a seguinte entrevista:
BRASÍLIA, 26 de fevereiro de 2012 – Belém precisa voltar a ser a capital da Amazônia – Fundada em 12 de janeiro de 1616, Belém, a capital do estado do Pará, é a mais importante cidade da Amazônia. Um mergulho na história e na cultura da Amazônia Clássica, a análise da geografia do Trópico Úmido, e um estudo geopolítico do Mundo das Águas (os rios Amazonas, Tocantins, Pará e Guamá, e o Atlântico, abrindo-se como a bocarra de um jacaré-açu sobre o arquipélago de Marajó), confirmará minha tese. Distante 2.146 quilômetros de Brasília, a Cidade das Mangueiras está, na verdade, ainda mais distante da Ilha da Fantasia. Caso fosse um país, o Pará seria um potencialmente rico, pois não teria que pagar ICMS para São Paulo e receberia integralmente royalties sobre sua inacreditável província mineral, o onírico El Dorado dos colonos espanhóis.
Belém, à noite, lembra um óvni pairando sobre a baía de Guajará. O município, com 1.064,918 quilômetros quadrados, é integrado ainda por 38 ilhas habitadas. Por conseguinte, Belém é uma cidade insular. Com cerca de 1.392.031 habitantes (IBGE/2010) no município, a região metropolitana de Belém tem em torno de 2.100.319 habitantes. Os dois últimos prefeitos dessa cidade deliciosa (sim, deliciosa) como tacacá foram desastrosos. O então petista e hoje do Psol Edmilson Rodrigues, 55 anos, foi prefeito de 1997 a 2004. Só não foi mais incompetente do que a ex-governadora do Pará, a petista Ana Júlia Carepa, porque isso é impossível, mas foi substituído por um quase Ana Júlia Carepa: Duciomar Costa, 57 anos, do PTB, que esquenta (ou esfria) a poltrona de prefeito desde 2005. Hoje, a Metrópole da Amazônia é uma sombra do que realmente ela é. Por isso, a Cidade Morena precisa de um prefeito, talentoso, que a entenda.
Entre os vários pré-candidatos, um se destaca pelo seu preparo, não só sobre Belém, mas também sobre a chamada questão amazônica. Zenaldo Rodrigues Coutinho Júnior, 51 anos, jovem advogado no quarto mandato de deputado federal pelo PSDB, foi quem liderou o não à divisão do estado do Pará em três unidades, e agora coleta assinaturas para a formação da Frente Parlamentar em Defesa da Amazônia. A Amazônia, diga-se, continua sendo vista, criminosamente, como celeiro do mundo, e a massa da sua população, de 25 milhões de habitantes, é cada vez mais espoliada por uma elite que passa por cima da própria mãe para morder dinheiro.
A questão é: a energia elétrica gerada na Hileia e a produção mineral no Trópico Úmido precisa enriquecer também o amazônida, proibido até de abater jacaré, que dá no meio da canela, e come também canela. A grande imprensa vê uma Amazônia mitológica, por jornalistas descredenciados, em nível mundial, mas principalmente no Brasil, e, especialmente, em Brasília, a Ilha da Fantasia; e, pasmem, por desinteligência na própria Amazônia. Por isso é que a Amazônia precisa ser divulgada tal qual ela é, para que os amazônidas se livrem do pensamento de colonizado, a síndrome do vira-lata.
Zenaldo Coutinho me recebeu no seu gabinete no Anexo IV da Câmara dos Deputados, na manhã de 14 de fevereiro de 2012, uma terça-feira, para a seguinte entrevista:
O principal problema de Belém seria rede de esgoto e de galerias de águas pluviais defasadas?
O principal problema de Belém é ausência de autoridade. Nós temos um conjunto de problemas que decorrem da falta de ação; muitas vezes, da absoluta inoperância da administração municipal, o que resulta em situações dramáticas. Belém é uma das capitais com menor índice de esgotamento sanitário do país, temos trânsito caótico, serviço de saúde ineficaz, insignificante, sistema educacional irrisório. Precisamos modernizar, aparelhar, equipar e ampliar a rede municipal de ensino fundamental, da mesma forma que temos que ampliar os serviços de saúde. As pessoas estão padecendo muito em Belém. Além da ausência de autoridade, há ainda falta de carinho para com a população. Belém precisa ser vista como extensão das casas de todos. Belém já foi a metrópole da Amazônia, e tem que voltar a sê-lo.
O senhor pensa Belém como um arquipélago?
Belém é a única capital-arquipélago do país, mas, nela, o transporte público fluvial é subutilizado. Implementar o transporte público fluvial já foi tentado, mas não logrou êxito. Creio que por não ser um serviço de excelência, com garantia de segurança e rapidez, como, por exemplo, a Rio-Niterói, com barcaças, catamarãs etc. É necessário que tenhamos um olhar sobre Belém de modo a não vê-la apenas como continente, mas uma cidade que tem 38 ilhas povoadas e onde há pessoas, portanto com necessidade de transporte. Obviamente esse não é o grande nó do trânsito belenense, mas, resolvido, ajudará a desafogar o trânsito. Icoaraci, por exemplo, pode abrigar um porto rodo-fluvial.
Belém é historicamente a cidade mais importante da Amazônia, mas seu patrimônio arquitetônico está se deteriorando.
Isso é gravíssimo, e se soma ao desleixo, falta de carinho, de atenção da autoridade para com tudo aquilo que é de todos. Repito: a cidade tem que ser vista como nossa casa. Jogamos lixo no chão da nossa casa? A cidade precisa do sentimento coletivo de respeito, de carinho.
Belém é a Cidade das Mangueiras; seu subúrbio o é também?
Antônio Lemos (prefeito de Belém, no fim do século XIX e início do século XX) foi o responsável pela plantação das mangueiras, que é uma árvore exótica na Amazônia, originária da Índia. Particularmente, defendo os corredores de mangueiras, mas também uma variação da nossa arborização, as essências amazônicas, estendidas também para os bairros periféricos de Belém, que precisa, como um todo, de mais arborização e jardinagem.
E as portas para o rio?
O turismo em Belém é incipiente. Precisamos de uma ação muito forte voltada para o turismo. Temos muito mais opções do que Manaus. Em Belém, além da floresta e da história, temos praias de rio e de mar, e Marajó, pertinho. Temos que estar antenados com a questão turística.
Que nota o senhor dá para os 7 anos da atual administração municipal?
Eu prefiro aguardar a nota que a população vai dar em outubro.
Caso o senhor seja efetivado como candidato e se eleja prefeito, qual será sua linha de atuação?
Já estou trabalhando em um projeto, ousado, moderno, corajoso, por uma Belém que faça justiça à comemoração dos seus 400 anos, o que ocorrerá na próxima administração.
Falta financiamento para a reforma estrutural de Belém?
Financiamento se consegue; o que falta é estabelecer prioridades. Agora mesmo há um embate, desnecessário, da prefeitura com o governo do estado, que, há 20 anos, desenvolve um projeto, com os japoneses, com visão metropolitana, porque ele leva o ônibus expresso de Marituba até o centro de Belém, com investimento de US$ 320 milhões, já garantidos, assegurados, assinados, e a prefeitura tem um outro projeto, de Icoaraci até São Brás. Pretende-se que a prefeitura chegue até só o Entroncamento, para que não haja sobreposição de projetos, até porque os japoneses só financiam se houver apenas um executor da obra. Essas ações de integração são fundamentais, daí porque é importante a harmonia entre a prefeitura e o governo do estado, pois o administrador público não deve ficar isolado, o que inclui um diálogo eficiente com todos os mecanismos de financiamento.
O senhor liderou a campanha pela não divisão do Pará. Por quê?
Em defesa do nosso estado, da população. Durante muito anos, aqui no Congresso, briguei para que houvesse estudos que antecedessem a consulta popular, sobre os impactos sociais, econômicos, tributários, ambientais, que analisassem as consequências na vida das pessoas em cada região a respeito de uma possível divisão. Infelizmente, foi um discursos para surdos. No caso de Belém, todos os estudos preliminares que havia, incluindo o da Universidade Federal do Pará, apontavam para o empobrecimento das três regiões. Teríamos implemento de despesas sem implemento de receitas. Teríamos que dividir o pouco que o estado do Pará já recebe, e teríamos o ônus de ter três assembleias legislativas, três palácios de governo, ou seja, teríamos uma elite usufruindo das estruturas de poder e uma população empobrecida e sem políticas públicas. Isso ensejou a nossa participação ativa, aqui no Congresso, e, posteriormente, na campanha pelo não no plebiscito. Graças a Deus, dois terços da população disse não à divisão do Pará.
Que avaliação o senhor faz do governo Dilma Rousseff?
A presidente Dilma tem acertado em adotar uma série de modelos que nós, do PSDB, legamos, como a questão da privatização. Os petistas transformaram em demônio a questão das privatizações, mas agora o próprio governo federal, através da presidente Dilma, reconhece que se trata de um modelo que dá mais eficácia na gestão dos serviços públicos, se o modelo for aplicado de maneira adequada, como o foi na telefonia, quando nós o aplicamos. Eu me lembro que antes que o PSDB privatizasse a telefonia, telefone era tão caro que era declarado no Imposto de Renda. Hoje em dia, todos os brasileiros que quiserem têm acesso a telefone, graças à privatização. Também o Brasil se mantém equilibrado, mesmo com a crise internacional, graças aos fundamentos da macroeconomia brasileira deixados pelo governo do PSDB, como é o caso da Responsabilidade Fiscal, que foi um item extremamente criticado pelo PT, na época em que nós o adotamos, e hoje é modelo até na Europa, no combate à crise europeia. Ainda, o governo petista mantém o Plano Real, o maior instrumento de justiça social estabelecido no país. Mas, apesar de pouco mais de um ano de governo, sete ministros caíram flagrados em corrupção, o que é muito grave. E precisamos agilizar as obras nacionais, que estão muito vagarosas, especialmente as do chamado PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), que estão empacadas. Temos que agilizar isso. Nós, da oposição, estamos fiscalizando para que as coisas efetivamente aconteçam.
Se o PT lê a cartilha do PSDB, por que os tucanos não conseguem voltar para ao Palácio do Planalto?
Porque existe transição democrática. Nós passamos oito anos no poder e o PT está caminhando para os doze anos, mas em muitos estados, de norte a sul, o PSDB está no poder. A democracia é, portanto, um processo natural, legítimo. Mas os partidos têm que viver, sempre, na busca da realização dos seus projetos, buscando eficiência, eficácia para melhorar a qualidade de vida da população, o que quer dizer que o projeto de poder não é um projeto de poder pelo poder, e também não quer dizer que se o partido não está naquele momento no poder ele está liquidado. Nós podemos exercer o poder no governo e na oposição. Aquele que está no governo exerce o poder do fazer e o que está na oposição exerce o poder político da pressão, do monitoramento, da fiscalização, da cobrança, para que os projetos públicos aconteçam. Nenhuma dessas duas posições é inadequada. A democracia só persiste porque existem essas posições diferentes. O importante é que o PSDB tem lutado a favor do Brasil, e continuaremos a nossa caminhada. Temos já o nosso pré-candidato a presidente da República, Aécio Neves, que foi grande governador de Minas Gerais e é senador respeitado. Estamos construindo um diálogo com a população para voltar à presidência da República.

Com a Wikipédia

sábado, 20 de outubro de 2012

Belém do Pará, nua

Anoitece na Estação das Docas, docemente, como negra em vestido de seda.
De tão intenso, o azul sangra, como choram jasmineiros em noites tórridas!

BRASÍLIA, 20 de outubro de 2012 – Quem chega de avião a Belém, à noite, à direita da aeronave, divisa, lentamente, a miríade de LEDs, bruxuleantes, sobre a península que avança para a escuridão, até que os contornos do rio Guamá vão ficando cada vez mais nítidos, à medida que se alarga na baía de Guajará, torres iluminadas se agigantam e os telhados das casas se aproximam. Subitamente, os gigantescos pneus do jato se chocam no chão de concreto e a nave desliza, veloz, começando a taxiar rumo ao terminal de passageiros. Ao pisarem no aeroporto de Val-de-Cães, os iniciados já começam a sentir, plenamente, a Cidade das Mangueiras. Pelo rio, de dia, ela surge como mulher emergindo, de repente, salpicando água, nuazinha.
Todas as cidades são semelhantes, inclusive Brasília, porém, conforme a iniciação de quem mergulha nelas, são portais para outras dimensões. Contudo, todas têm algo em comum: são mulheres, e como mulheres, não podem ser decifradas; precisam apenas ser amadas, pois só para isso existem, como poemas escritos por Deus.
Da mesma forma que as mulheres, as cidades são redes de labirintos intermináveis, abismos de segredos, por onde navegamos, sempre perdidos, mas firmemente guiados pelo azul mais azul, tão intenso que sangra. As cidades, exatamente como as mulheres, são choro de jasmineiros em noites tórridas, quando se abrem, de corpo e alma, aos nossos sentidos. Mergulhamos nas ruas das cidades do mesmo jeito que cavalgamos a luz, nos abismos femininos.
Sentado no calçadão defronte ao Colégio Nossa Senhora de Nazaré, ao embalo estático das 6 horas da tarde, caminho ao lado de cada uma das mulheres que passam, espargindo Chanel número 5, sob seus vestidos estampados. Então descubro o segredo da Hileia, deslindo o mistério, e, assim, o amplio: toda a Amazônia está contida num ramo de jambu. E é assim, nesse estado, que me acomodo numa cadeira de palhinha na Estação das Docas. Ao longe, um navio segue para o norte. Sinto cheiro de maresia, Cerpinha, merengue, à passagem de uma negra caribenha em vestido de seda, sílfide equina.
Continental e insular, Belém é o encontro da Grande Floresta Tropical com o oceano Atlântico nas águas salobras de Mosqueiro; o encontro da Hileia com a cidade pós-moderna; do ribeirinho com o cosmopolita; a Cidade Morena.
Amanhece. À medida que o dia vai esquentando e seus habitantes se movimentam, os subterrâneos vão minando. A cidade despeja esgoto in natura no rio. Há bairros nos quais moradores vivem em cima da merda. Outros, quando chove grosso e durante horas, vão para o fundo. O trânsito é caótico, e a segurança, como no resto do país, beira a lei da selva. Turistas só vão lá porque viver não é preciso; conhecer Belém é preciso.
Já faz tanto tempo que essa fêmea amazônida, esse portal do realismo fantástico, vem sendo estuprada por ratos que mordem seus seios, de onde, em vez de leite da mulher amada mina sangue de crianças de rua apedrejadas! Belém precisa de um prefeito que a ame, que a faça rir, que a revele em todo seu esplendor, como mulher ao toucador, absorta, nua.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Pela primeira vez na história destepaiz ratos são pegos no Supremo. Ratazana-chefe põe “barba” de molho

BRASÍLIA, 12 de outubro de 2012 – O Anexo III da Câmara Federal é composto por pequenos auditórios, salas de comissões temáticas e banheiros, nos quais há dois vasos e um mictório. Estava eu, certa manhã, num desses banheiros; utilizei o mictório e lavei as mãos, consumindo algum tempo para isso. Os dois cubículos dos vasos estavam ocupados. Ia secar as mãos quando, de um deles, saiu o ex-presidente do PT e então deputado José Genoíno; saiu sem lavar as mãos. Depois, voltei a vê-lo em uma das comissões. Chamou-me a atenção seu comportamento e modo de falar untuosos, aquele sebo que não vemos, mas que se revela no discurso escorregadio. E essa é uma característica visível também no ex-chefe da Casa Civil de Lula e ex-deputado federal José Dirceu, bem como no fundador do Partido dos Trabalhadores (PT) e ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.

Só vi Dirceu pela televisão e em fotos. Evoca um gangster, que jamais chegará a chefão, mas que chegou a braço direito do chefão. Lula, o vi pessoalmente uma vez, em 2002. Transmitia esperança, sobre a qual defecou. Quanto ao ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, lembra uma raposa vigiando a porta do galinheiro.

Terça-feira 9, foi um dia histórico: a mais alta corte de justiça do país, o Supremo Tribunal Federal (STF), condenou à prisão, por corrupção ativa, envolvendo roubo de dinheiro público, um ex-chefe da Casa Civil do governo Lula e ideólogo do PT, José Dirceu; um ex-presidente do PT, José Genoíno; e um ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares. No caso de Dirceu, é identificado como chefe da quadrilha do Mensalão, o mais amplo e profundo esquema de corrupção jamais instalado por um governo nestepaiz.

O Mensalão é apenas a parte emersa do iceberg de corrupção em que o PT afoga os brasileiros. Com a máquina pública aparelhada e a infraestrutura básica sucateada, ao longo de 9 anos, o país parou de crescer.

José Dirceu ameaça viajar Brasil afora sustentando a tese de que o STF, o Ministério Público e a imprensa é que são mafiosos; que ele é inocente. Ao afrontar instituições tão importantes para a consolidação da democracia, corre o risco de levar pedradas na cara.

Falta, agora, pegar o chefão. Isso está fora do alcance do Supremo, do Ministério Público e da imprensa. Nem o povão poderá fazer isso. Da mesma forma que bandidos perigosíssimos, como Hugo Chávez e Fidel Castro, não são pegos. E não é preciso. Os patrimonialistas brasileiros, eternos candidatos a ditador, utilizando-se do discurso obsceno e parasitário criado por Karl Marx, também cairão de podre. Literalmente.

sábado, 6 de outubro de 2012

A capital da Amazônia

BRASÍLIA, 6 outubro de 2012 – Desde que o espanhol Vicente Yáñez Pinzón, descobriu a Amazônia, em 26 de janeiro de 1500, que a Hileia vem sendo espoliada. Saqueada e escravizada pelos lusitanos durante 4 séculos, hoje, vem sendo colonizada pelo estado brasileiro, há mais de 1 século, constituindo-se na região mais infestada de colonos, piratas e escravocratas do planeta, incluindo os governos que se sucedem em Brasília, comandada, atualmente, pelo PT, o do Mensalão, do qual só se identificou, até agora, o chefe da quadrilha. Falta o chefão.
Voltemos à Amazônia. Trata-se da maior província biológica, aquífera e mineral do mundo, sem similar. O governo federal realiza grandes projetos na Amazônia, e não para a Amazônia. Por exemplo: a Vale do Rio Doce exporta uma montanha de minério de ferro e no Pará só fica o buraco, como o de Serra do Navio, no vizinho estado do Amapá, de onde foi extraído e vendido a preço de banana pela Icomi o melhor manganês do globo; hoje, estrategicamente estocado nos Estados Unidos. E quem recebe a grana é o governo federal.
A Albras/Alunorte, também no Pará, produz lingotes de alumina para o Japão, utilizando energia elétrica de Tucuruí, enquanto que no Pará, principalmente no Marajó, grande número de municípios não conta com energia elétrica firme.
Recentemente, construiu-se uma ponte sobre o rio Negro ligando Manaus a lugar algum. Ela custou R$ 1 bilhão.
No Amapá, a roubalheira é tão flagrante que não se sabe por que Zé Sarney, que anexou o Amapá ao Maranhão, ainda não interviu. Falar no estado dos tucujus, a costa do Amapá, desde o Marajó até o rio Oiapoque, é a maior província de vidas marinhas do planeta, porque o rio Amazonas lança profundamente no Atlântico o húmus que arrasta da grande floresta, mas quem pesca lá são piratas de todas as partes do mundo. A Marinha de Guerra brasileira não tem equipamento para vigiar a região, e, pelo que se nota, não há o menor interesse do PT nisso, até porque estão preocupados com o julgamento do Mensalão.
As toras de madeira griladas na Amazônia atravessam boa parte do continente brasileiro para serem comercializadas tranquilamente em São Paulo. Trafica-se, na Amazônia, até combustível atômico; lá, também, escraviza-se, inclusive crianças, que se tornam escravas sexuais até a morte. Creio que o Congresso Nacional disponha de relatórios que confirmam o que estou dizendo, a menos que sejam atos secretos, e certamente a Abin sabe o que se passa no Inferno Verde.
Nesse contexto, Belém, a capital do Pará, é a mais importante cidade da Amazônia, pois sempre foi a porta de entrada, e de saída, do Mundo das Águas. Acontece que Belém, que já foi a cidade mais rica do país, no Ciclo da Borracha, vem sendo pilhada, governo após governo. Há 16 anos, nas administrações de Edmilson Rodrigues e Duciomar Costa, de abandonada, Belém começou a ser depredada. Para piorar a situação do Portal da Amazônia, de 2007 a 2010, além do PT incrustado na burra por meio da aparelhagem do estado e da sua associação com o PMDB da transposição do São Francisco, da Ferrovia Norte-Sul, do setor elétrico etc. etc. etc., o Pará ficou desgovernado pela dançarina de carimbó petista Ana Júlia Carepa, hoje, com a ventosa numa sinecura federal.
Amanhã, os belenenses vão escolher quem administrará a Cidade das Mangueiras de 2013 a 2016. Entre os candidatos, um está preparado para resgatar a Capital da Amazônia: Zenaldo Coutinho. Ele conhece Belém como poucos e sabe o caminho das pedras para solucionar, um a um, os problemas mais prementes da Cidade Morena. Durante 10 anos seguidos, fui repórter de cidade em Belém, e estive do Lixão aos palácios; sei, por conseguinte, o que é Belém. Assessorei Zenaldo Coutinho no Congresso Nacional, acompanhando de perto seu trabalho; foi aí que observei o quanto ele conhece a Amazônia, e, por extensão, o Pará e Belém. Não somente isso, Zenaldo Coutinho ama profundamente Belém, naquilo que ela tem de mais precioso: a cultura.
É essa cultura que precisa ser resgatada, a cultura oriunda do povo belenense, cioso da beleza, do aconchego, da delícia que é Belém do Pará.

domingo, 30 de setembro de 2012

Os donos do mundo

BRASÍLIA, 30 de setembro de 2012 - Humberto Adami, advogado e diretor do Instituto de Advocacia Racial (Iara), pediu a censura de Caçadas de Pedrinho e de Negrinha, do ficcionista Monteiro Lobato e publicados na primeira metade do século passado. Ele questiona a distribuição desses livros em escolas públicas, alegando que contêm elementos racistas. Negrinha integra a lista de Os cem melhores contos brasileiros do século, da editora Objetiva. “O conto é fortemente carregado de conteúdos raciais, mas temos a opção de agregar valor à obra reconhecendo que há estereótipos e passando a desconstruí-los" - argumenta o advogado, ameaçando levar o Estado brasileiro à Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).
 
Nenhum negro deixará de ser negro por decreto, nem por maquiagem (Michael Jackson não conseguiu isso). E depois, para a sociedade, sangue azul miserável é nada perante negro milionário.
 
Há quem diga que a Idade Média foi a das Trevas, comparando-a com a Era Pós-Moderna, da tecnologia de ponta, da Web e da Wikipédia. A Bíblia trata de escravidão como algo normal, e por que não censurá-la? Tenho comentado que os colonos portugueses fizeram o diabo com os índios e africanos, mas reconheço que os tempos eram outros. O que não se pode é tolerar escravidão e colonialismo, agora.

O delegado da Polícia Federal e deputado federal Protógenes Queiroz (PCdoB/SP) levou seu filho de 11 anos para ver Ted, indicado para maiores de 15 anos, sentiu-se ofendido e exigiu a censura do filme.

Essa baboseira do politicamente correto, o falso moralismo, o jurássico discurso comunista, tudo isso é coisa da Idade Média. Em vez de se incomodarem com a ficção de um dos principais escritores brasileiros, ou de levarem crianças para verem filmes não recomendados para menores de 16 anos, deveriam engrossar o exército de salvação de crianças que vivem na rua, de crianças que são sequestradas para serem torturadas até a morte por tarados.

O PTelho, desde que se viu no poder, tratou de implementar três ações: amordaçar a imprensa, especialmente Veja; o aparelhamento do Estado; e a difusão da máfia bolivariana.

Quando mafiosos, travestidos de comunistas ou fascistas, que é a mesma coisa, assaltam um país, a primeira coisa que fazem é amordaçar a imprensa.

Censura pressupõe donos do mundo, pessoas que defecam na lei, pensando que podem tudo. Pura ilusão. No mundo mental não há dinheiro.

sábado, 22 de setembro de 2012

O ano de Portugal no paiz petelho

BRASÍLIA, 22 de setembro de 2012 – O Ano de Portugal no Brasil começou no dia 7 de setembro, com o objetivo de promover a pátria lusitana junto aos brasileiros e intensificar as relações entre os dois países. Os portugueses sempre estiveram grudados no Brasil, inicialmente com interesses coloniais e a partir de 15 de novembro de 1889, marco da verdadeira independência do Brasil, com interesses puramente financeiros, agora de mercado. Recentemente, uma patacada içou à tona a relação Brasil-Portugal: o novo Acordo Ortográfico, decretado com o objetivo de “unificar” os idiomas lusitano e brasileiro. O argumento para mudanças ortográficas na língua portuguesa é que a alegada unificação da escrita no Brasil e em Portugal tornaria o português língua oficial da Organização das Nações Unidas (ONU).
Em 29 de setembro de 2008, na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro, durante homenagem ao escritor Machado de Assis, que completava cem anos de morto (1839-1908), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que sente azia ao tentar ler, assinou quatro decretos de promulgação do novo Acordo Ortográfico no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), esta, outra inutilidade. “Com esses atos, Machado de Assis será duplamente exaltado: de um lado, a Academia lhe rende a mais expressiva homenagem neste ano em que celebramos o centenário de sua morte. E, de outro, a assinatura pelo presidente Lula dos decretos que promulgam o Acordo Ortográfico dos sete países lusófonos" – sambou o presidente da ABL, Cícero Sandroni.
Segundo Cícero Sandroni, a promulgação do Acordo Ortográfico concretizava uma antiga aspiração de Machado de Assis, manifestada num de seus discursos, em 1897. “A Academia buscará ser a guardiã de nosso idioma, fundado em suas legítimas fontes - o povo e os escritores, todos os falantes de língua portuguesa” - disse, na altura, o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Machado de Assis estava certo; profeticamente certo.
Por que a língua inglesa é a comercialmente mais falada no mundo? Porque a Grã-Bretanha e os Estados Unidos dão as cartas no planeta desde o século 18. Então, se a questão é inserir a língua portuguesa na ONU, é só levar em consideração apenas o Brasil. O português de Portugal se esgotou, não incorpora mais nada, enquanto o português do Brasil foi enriquecido pelo índio, pela África e pelo trópico, e é aberto. Além disso, o país é a sexta economia do planeta, e Portugal é do tamanho da ilha de Marajó, no Pará, e seu PIB é um terço do PIB do estado de São Paulo. Considerando-se o Brasil isoladamente, passamos à frente de Portugal da mesma forma que os Estados Unidos superaram a Grã-Bretanha.
Assim, a reforma ortográfica tudo muda para nada mudar, como diz uma personagem do romance O Leopardo, de Giuseppe Tomasi Di Lampedusa, referindo-se à monarquia italiana, então com as ventosas no erário, como ocorre hoje e sempre no Brasil chavista de Lula e patrimonialista de Zé Sarney. A célebre frase literária se ajusta à nomenklatura lulapetista, embora o destino do Brasil, a província aquífera, agrícola, florestal e mineral mais rica do planeta, seja o de se transformar numa potência mundial, o que só poderá conquistar por meio da democracia. E a democracia dorme no idioma. Só então, a língua brasileira será respeitada, procurada e aprendida. E depois, grandes escritores deste continente chamado Brasil são tradutores da nossa mestiçagem mulata, cafuza e mameluca, e das nossas cores, cheiros e alegria tropicais.
As nações mais desenvolvidas do planeta, como Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Japão, não mexem na etimologia do seu idioma. No nosso caso, viemos de um dos idiomas mais sofisticados da história da humanidade, que é o latim, que, em Portugal, sofreu misturas do gótico e do árabe, desembocando na língua brasileira, oriunda do português de Portugal, tupi-guarani, línguas africanas, palavras estrangeiras incorporadas ao nosso idioma, verbetes pós-modernos, neologismos e nossa maravilhosa cultura mestiça e tropical.
O novo Acordo Ortográfico é o Mensalão cultural. Só beneficia editoras, principalmente as que integram a panelinha do Ministério da Educação. Alguém está enchendo mais ainda a burra, vendendo milhões de novos dicionários, gramáticas normativas e livros em geral ajustados às novas regras, uma das quais extinguiu a palavra “acreano” e criou “acriano”. Os acreanos ficaram furiosos. Mas o que se há de fazer num momento de tanta mediocridade política e intelectual? O PTMDB só foca no faturamento de bilhões. Gosta de sentir o peso do dinheiro na cueca. Quanto ao ensino público e à pesquisa no Brasil foram despejados no vaso sanitário.
Em vez desse estelionato não seria melhor investir maciçamente no ensino básico? E depois o Brasil tem mais com que se preocupar. Enquanto Lula levava seu palanque para a Academia Brasileira de Letras, o Correio Braziliense, maior jornal da capital do país, publicava uma série de reportagens sobre crianças – meninas e meninos – que embarcavam em carros de luxo, no coração de Brasília, para serem estupradas a troco de comida. A propósito, exploração sexual de crianças e escravidão sexual são comuns na província potencialmente mais rica do planeta, mas onde a miséria humana, a escravidão, o assassinato, campeiam: a Amazônia.
A grande tragédia brasileira é a escola pública. O senador Cristovam Buarque (PDT/DF) costuma comparar as escolas públicas brasileiras, regidas por orientação federal, com o Banco do Brasil. Se as agências do BB em Brasília contam com a mesma estrutura das agências nos grotões brasileiros, como, por exemplo, o sertão do Maranhão que Zé Sarney e família providenciaram para o povo maranhense, uma escola pública do Plano Piloto não é a mesma na hinterlândia da Amazônia. O Acordo Ortográfico é mais uma peça de marketing do governo lulapetista, em um país de esmagadora maioria de alfabetizados funcionais – que leem mas não entendem o que leem -, com pelo menos 20 milhões de pessoas que vivem na Idade da Pedra – não sabem escrever e, muitíssimos deles, não têm sequer certidão de nascimento; outros, são escravos mesmo, principalmente nos medievais estados da Amazônia.
No Brasil, não precisamos de reforma ortográfica. Precisamos de reforma política, de reforma fiscal, de reforma educacional, de reforma do Judiciário, de reforma administrativa, de reforma previdenciária, de reforma do estado brasileiro, de pacto federativo, e, sobretudo, de jogar os ladrões de colarinho branco, especialmente mensaleiros, na cadeia, e fazê-los pagar tudo o que roubaram, e também acabar com a indecência da imunidade parlamentar. Faz-se necessário passar a limpo este “paiz” corrupto.
O Brasil não precisa de mudanças na língua. Nenhum povo precisa. O que potencializa a utilização de um idioma é o avanço do seu país, ou países. Fala-se inglês no mundo todo por causa do Império Inglês e, depois, dos Estados Unidos. Aos 5 anos de idade, quando aprendi a ler, lia Walter Disney, Edgar Rice Burroughs, Al Capp, e, a partir de 14 anos, Ernest Hemingway, Franz Scott Fitzgerald, John Steinbeck, Somerset Maugham, via John Ford, Francis Ford Coppola, ouvia os Beatles e, atualmente, utilizo-me da informática. Tudo porque Tio Sam influía até na Macapá de 1959 – minha cidade natal, ribeirinha, perdida na boca do rio Amazonas.
O Brasil não precisa de mudanças ortográficas. Precisa investir maciça e continuamente, de forma nunca desestimulada, em educação, pesquisa e tecnologia. Precisa reduzir o fosso social: de um lado, as Delta da vida ganham bilhões de reais, enquanto indiozinhos e caboclinhos morrem de fome, ou comidos por vermes, giárdia, ameba, protozoário, bactéria e vírus. Muitos dirão: são apenas indiozinhos e caboquinhos. Pois o Brasil só é rico porque tem, também, riqueza étnica.
O Brasil não precisa gastar dinheiro com reforma ortográfica. Precisa tirar das ruas crianças que estão morrendo de fome, de estupro, de drogas, à faca e à bala, o tempo todo. Enquanto essas crianças vagarem nas ruas brasileiras, como pedrada na cara, falastrões como Lula serão apenas perigosíssimos palhaços stalinistas, como Fidel Castro e Hugo Chávez.
O espantoso é que neste “paiz” petelho o Ministério da Educação (MEC) fez apologia da burrice; chegou a distribuir nas escolas públicas um livro, Por uma vida feliz, de autoria da professora (?) Heloísa Campos, com erros propositais de gramática, como “nós vai pescar”. Febeapá petelho em estado bruto. Em tempo, febeapá significa: “festival de besteiras que assola o país”, expressão criada pelo cronista carioca Sérgio Porto, ou, como era conhecido, Stanislaw Ponte Preta. Cheguei a escrever matéria, neste blog, sobre a apologia da burrice e fui acusado de preconceito, e, pasmem, por jornalistas e pessoas que me enviaram até títulos acadêmicos.
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Qualquer pessoa com curso superior feito numa universidade federal supõe-se saber que há linguagem falada e linguagem escrita. Conforme a linguística, que estuda o homem do ponto de vista da comunicação, se alguém disser “nós vai lá na doviária e compra 5 real de pão de quejim” e o outro entender o recado, tudo bem, fez-se a comunicação. Mas a linguagem escrita é outra coisa. Trata-se da mais complexa invenção humana, uma série de códigos, amadurecidos durante milhares de anos, capaz de registrar permanentemente e transmitir uma ideia, ou todo um sistema, ou a cultura inteira. Transgredir esse sistema é regredir à Pré-História.
Toda a cultura humana está registrada nos livros, ou na escrita, incluindo os parcos conhecimentos que temos do mundo espiritual, conhecimentos que nos foram passados por mestres como Jesus Cristo e registrados por seguidores. Jesus Cristo, por exemplo, falava em aramaico. Por meio da engenharia da tradução, suas palavras foram grafadas, na Idade Clássica, em grego e em latim, e ganhou o Ocidente por meio da língua inglesa, chegando a nós, brasileiros, pela língua portuguesa.
Voltando ao livro Por uma vida melhor, há um claro contexto que o cerca. Desde quando Lula chegou ao poder, em 2003, foi instalada no Brasil o que o jornalista Augusto Nunes chama de “era da mediocridade”. Lula, que não é burro, mas é esperto e medíocre, nivela tudo por baixo, porque é o que ele conhece. Estimulou um mar de burrice perversa. Inclusive estimulou estudantes a não aspirarem graduação superior. Não se enganem, Lula continua no poder, manipulando sua títere. Por trás de Lula há aquele discurso bandido dos comunistas: Deus não existe, ou melhor, Deus é o politburo, e o politburo sabe o que é melhor para todo mundo, de modo que a vida de todos passa a ter regras comuns e todos serão monitorados. A massa terá que aprender a balir. Todo mundo, menos o politburo, vai virar ovelha. Isso ocorreu na União Soviética e ocorre na China, na Coreia do Norte, em Cuba, na Venezuela, e em todas as ditaduras carniceiras da Ásia e da África, todas elas cortejadas por Lula.
Sabemos que os países desenvolvidos investem maciçamente, de forma nunca desestimulada e nunca descontinuada, em educação, em leitura, no aprendizado cada vez mais sofisticado do maior número de palavras possíveis e de várias línguas, ou culturas. Isso leva para o campo prático todo o saber humano, tanto filosófico quanto tecnológico. No caso do Brasil, a politicalha está se lixando para a Educação, preocupada apenas em roubar. Simples assim.

sábado, 15 de setembro de 2012

Gritos e sussurros

A tarde desmaiava, assaltada por flocos negros, invisíveis, acamando-se na cidade, e logo os anúncios luminosos, as luzes dos postes e os faróis dos carros começaram a povoar as ruas. Dentro do bar, onde eu estava, de repente a vida recomeçou. Podia ver parte do Setor Hoteleiro Sul, o Pátio Brasil e alguns prédios do Setor Comercial Sul. Em primeiro plano, o anoitecer me ofertava o passa-passa de mulheres tão lindas que eram, estou certo disso, miragens. Lá fora, o tempo estava seco e quente como um soco na boca do estômago, mas dentro do bar o ar refrigerado e o umidificador funcionavam ajustados como um foguete tripulado.
- O Mensalão começou a respingar no Chefão – disse meu amigo, velho jornalista que não conseguiu se adaptar aos novos tempos. Quanto a mim, ainda logrei ajustar-me a treinamento motivacional, coaching, como se diz, voltada para o que eu chamaria de “escravidão mansa”. Lembrei-me de William Faulkner: “É uma vergonha que haja tanto trabalho no mundo. Uma das coisas mais tristes é que a única coisa que um homem pode fazer durante oito horas diárias, dia após dia, é trabalhar. A gente não pode comer, beber ou fazer amor durante oito horas diárias: só o que se pode fazer, durante oito horas, é trabalhar. Eis aí a razão por que o homem torna a si próprio e a todos os demais tão miseráveis e infelizes”.
- Mas não te iludas; gente como o Chefão está tão blindado que nem Klark Kent conseguiria prova contra ele – disse-lhe. – Continuará chiando sua algaravia.
Uma jovem entrou no bar do hotel. Remetia imediatamente a jambo maduro, com sua alva pele cafuza, e longos cabelos de índia descendo-lhe como ervas daninhas até a garupa de DNA africano. Trajava vestido de seda branco, estampado de amarelo e vermelho. Foi direto para o balcão e se aboletou num tamborete, os quadris maravilhosos enchendo meus olhos, e os do meu velho amigo jornalista, que perdeu, de repente, o interesse pelo Chefão. Duas jovens europeias, com suas peles brancas, rosadas, quase vermelhas, inflamadas pelo sol tropical, também olharam para a cafuza, que deixou um rastro de jasmineiros chorando em noites tórridas em Macapá, cidade que flutua na boca do maior rio do mundo, o Amazonas. A cafuza pediu água tônica. Inadvertidamente, levei minha água tônica à boca. Gelada, refrescante, a bebida assumiu sabor de Caribe, ao som da voz da mulher improvável, que tinha sotaque francês. “Será da Guiana Francesa?” – pensei, referindo-me à colônia que os franceses mantêm vizinha ao estado do Amapá, que o senador Zé Sarney, o dos Atos Secretos, anexou ao Maranhão.
Meu velho amigo jornalista suspirou. Parecia o último suspiro de décadas de álcool, cigarro, noites indormidas, desregramento.
- Produto genuíno do trópico – cochichou-me, quase babando. Fiz sinal ao garçom para que levasse mais uma garrafa de água tônica para mim e uma Cerpinha para meu amigo. Cerpinha é a melhor cerveja do mundo. Quando eu era alcoólatra e ia a Belém, começava a beber Cerpinha enquanto tomava banho e depois observando a cidade pela janela do quarto de hotel, de modo que ao mergulhar nas veias da Cidade Morena já estava pronto.
- É da Guiana Francesa – disse-lhe. – Ou de Macapá, há muito tempo morando em Caiena.
- Conheci uma assim no Acre – confidenciou-me.
De repente, lembrei-me de Gabriela, Cravo e Canela, em cartaz na Globo. A mulata, a mulher cor de canela, a negra, a índia, mulheres produzidas para a libidinagem dos europeus e brasileiros de sangue azul. Um paradoxo. Mesmo com 10 mil anos de polimento, levado ao paroxismo em países como a Grã-Bretanha, a natureza masculina conserva o animal irracional que a habita. Se queres conhecer a verdadeira personalidade de um homem, lança-o à guerra, ou enche-o de cachaça, ou observa seu comportamento ao assalto de uma mulher fatal.
- Temos mulheres assim em toda a Amazônia – comentei, pois sabia que meu amigo conhece a Hileia tanto quanto eu, o que quer dizer que ambos já mergulhamos na alma da mulher amazônida, e sentimos o mundo girar, a mesma experiência de tomar tacacá às 6 horas da tarde na banca do Colégio Nazaré. Jambu! Jasmineiros chorando! Cerpinha! O céu, tão azul que sangra! Maresia! O balanço de uma rede! Leite da mulher amada! Jambo, doces como seios!
A cafuza fazia, agora, anotações em um caderno tipo Moleskine, e vi que era da Tilibra. Seria jornalista também? Ou secretária executiva de algum bilionário do ramo dos hotéis fazendo prospecções para a Copa do Mundo de 2014? Seja lá o que for, era tão linda que causava dor. Eu estava tão concentrado nela, que a mulher improvável se voltou para mim. Só então vi seus olhos, de clorofila, duas pedras preciosas a me engolirem. Fiquei petrificado, com o mesmo terror que deve acometer as presas na boca do jacaré. Depois percebi que o olhar da cafuza fora ocasional, que ela sequer me viu, nem à sua saída, deixando um banzeiro de romance e aventura na noite. Meu amigo e eu ficamos calados. Eu sabia o que ele estava pensando e ele também sabia perfeitamente o que eu sentia. Logo depois saímos. A noite era como um relicário de joias. Mais tarde, em outro bar, ouvi, quase inaudível, vindo de algum lugar, Zorba, o Grego, de Mikis Theodorakis.
 
Brasília, 15 de novembro de 2012