sábado, 29 de dezembro de 2012

O agora e o agora, o momento mesmo da vida

BRASÍLIA, 29 de dezembro de 2012 – Em 1975, em Manaus, o jornalista Isaias Oliveira me disse algo que remoí nos 25 anos seguintes: “O passado é feito do que há de melhor”. Tínhamos, então, 21 anos de idade, e Isaias Oliveira, ex guia de turistas na selva, começava, como eu, a carreira jornalística, ambos sem curso superior. Ele, contudo, já me impressionava, sobretudo pela sua serenidade, e pela cultura. A personagem central do meu conto Inferno Verde, o jornalista que duela com o psicopata Cara de Catarro, foi batizado de Isaias Oliveira, e tem os olhos grandes e expressivos do seu homônimo da vida real.
Criei, e utilizei em mais de um trabalho de ficção, uma frase que equaciona o que Isaias Oliveira me dissera décadas atrás: “O agora e o agora, o momento mesmo da vida”, no sentido de que não existe passado, nem futuro, mas somente a intensidade do agora. O passado e o futuro são vidas paralelas.
Mas se não existe, por que Isaias Oliveira teria me dito que “o passado é feito do que há de melhor?” E aquela zona escura da nossa personalidade, que não confessamos nem para nós mesmos? E os crimes que cometemos, inconfessáveis, e que somente nossa consciência pode punir, por meio da angústia, às vezes tão aguda que sangra a alma? Como fugir dessa zona sombria, se ela está alojada no subconsciente, indelével? Podemos até esquecer esse inferno, mas, sempre que a oportunidade se apresenta, ele se manifesta.
Minha esposa, Josiane, preletora da Seicho-no-Ie e psicóloga, vive me dizendo: “Tudo o que realizamos deve ser feito como a coisa mais importante da nossa vida, com amor, para que beneficie o mais amplamente o maior número de pessoas”. Ontem, li em voz alta o preceito do dia 28 do calendário de 2013 da Seicho-no-Ie, que diz: “Concentre-se no agora e viva plenamente. Você nasceu neste mundo para viver plenamente cada momento de sua vida. Aprimorou sua alma valorizando o passado e visualizando um futuro radioso. Concentre os esforços naquilo que deve ser feito agora. Só assim abrir-se-á a porta de seu futuro. É essencial cumprir bem a missão que lhe cabe no momento” (Seicho Taniguchi). Minha filha, Iasmim, que me ouvia, disse: “Pai, o passado nós vivificamos; o presente, vivemos; o futuro, a gente constrói”.
Com efeito, o passado não existe, mesmo. Nostalgia, voltar ao passado, tentar resgatá-lo, estacionar nele, é vida paralela; e voltar ao passado para castigar-nos é mergulhar na angústia, agonizar, morrer. Se temos algum ajuste com o passado, só precisamos arrepender-nos, ou seja, não cometer mais o que nos angustia tanto, e aceitar o resultado da colheita, por mais terrível que seja. De real, naquilo que já foi, só há os antepassados, as raízes, o riso mais cristalino de quando éramos criança. E o futuro, será sempre o reflexo do agora e o agora.
Já faz tempo que vivo cada dia. Ainda tenho muitos livros para escrever, mas não estou preocupado com isso. Quero ver telas novas de Olivar Cunha e ler o livro de contos de Joy Edson, quero sentir crianças rindo e rosas que não se importam em se desnudarem na minha presença. O momento mesmo da vida é o azul mais azul, intenso como a nudez das rosas vermelhas à luz de manhãs ensolaradas, como o primeiro beijo, e gemidos no silêncio da noite, ao mergulharmos no abismo da mulher amada, prenhe de mistério.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Pequeno poema de Natal

Existe um jardim prenhe de rosas colombianas vermelhas, zínias multicoloridas
Jasmineiros que espargem Chanel número 5 em tórridas noites de agosto, na Amazônia,
Quando o céu é só diamantes e, de tão azul, sangra.
Escorre, nas frestas deste jardim, ouro, nas manhãs ensolaradas
E há uma mina, onde brotam as roseiras mais vermelhas
E de onde retiro rubis e esmeraldas.
No jardim, todas as manhãs são arrumadas por Deus, e são eternas.
As crianças adoram brincar entre as flores
E seus risos são o Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor.
Sou o apanhador do jardim; quando a bola das crianças cai longe, na relva,
Corro para devolvê-la e continuar ouvindo-as,
Como ouço o sangue latejando nos tímpanos, o atrito da Terra no espaço,
O hálito de Deus.
O jardim é fovista como a paleta mais luminosa de Olivar Cunha
E os alimentos são doces como o sumo dos frutos mais desejados.
O cheiro de maresia
O sabor de leite materno
O azul das rosas vermelhas
Mozart
O cetim das pétalas
O voo vertiginoso no Éter
Guardo num relicário, na memória do meu coração,
Que é de vocês, Josiane e Iasmim,
Neste Natal, e para sempre.
 
Brasília, 24 de dezembro de 2012

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Feliz Natal e próspero Ano Novo!

BRASÍLIA, 24 de dezembro de 2012 - Sinto o Natal como um jardim imenso, prenhe de rosas colombianas vermelhas, zínias mulcoloridas e jasmineiros que choram, à noite, Chanel número 5, e nesse jardim, que viceja numa manhã eterna, há uma mina de pedras preciosas; é o jardim do coração que dou a todos que eu amo, e todos que me amam já o têm, naturalmente, como manhãs ensolaradas. Que o Éter natalino penetre no mais recôndito das nossas almas, e que 2013 abra a mina, inesgotável, para sempre!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Zenaldo Coutinho devolverá a Belém o status de cidade mais importante da Amazônia?

BRASÍLIA, 7 de dezembro de 2012 – Dados de 2011 da Transparência Internacional e projeções da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostram que o Brasil dá guarida a até 43% de todo o dinheiro movimentado no planeta pela corrupção. Enquanto as perdas médias giraram em torno de R$ 160 bilhões nos últimos sete anos, no mundo, o prejuízo nacional chega a R$ 70 bilhões, anualmente —2,3% do Produto Interno Bruto (PIB). Segundo a Fiesp, foram roubados, em 2008, no Brasil, R$ 41,5 bilhões, ou 1,38% do PIB. No mundo, entre 1990 e 2005, a roubalheira girou em torno de US$ 300 bilhões, quantia que pode ter dobrado nos últimos sete anos, para US$ 600 bilhões (perto de R$ 1 trilhão), conforme o Relatório Global da Corrupção, da Transparência Internacional.

O Brasil é o septuagésimo quinto país mais corrupto, segundo ranking da Transparência Nacional. Na Inglaterra e nos Estados Unidos a multa chega a 20% do benefício conseguido pelos corruptos. “O pagamento, na Inglaterra, é ilimitado e a indenização pode ser milionária” – afirma José Francisco Compagno, sócio da área de investigação de fraudes e suporte a litígios da Consultoria Ernst & Young Terco. No Brasil, mais de 110 propostas que punem com rigor a corrupção estão engavetadas no Congresso Nacional. “Se tentamos aprovar uma lei mais dura, os próprios deputados jogam os projetos na gaveta. Eles se elegem com o dinheiro que vem da corrupção e isso cria um ciclo vicioso. Os casos são descobertos, mas ninguém vai para a cadeia. Não há punição” – disse para o Correio Braziliense o professor de ciências políticas da Universidade de Brasília (UnB), David Fleischer.

A mais influente revista semanal brasileira, Veja, em matéria de capa da edição de 19 de outubro de 2011, assinada por Otávio Cabral e Laura Diniz, afirma que a corrupção no Brasil leva R$ 82 bilhões por ano — 2,3% do PIB. Segundo a revista, as principais causas da corrupção são instituições frágeis, hipertrofia do estado, burocracia e impunidade. O governo federal dá o exemplo: emprega mais de 90 mil pessoas sem concurso público. Nos Estados Unidos, são cerca de 9 mil e na Grã-Bretanha, em torno de 300. “Isso faz com que os servidores trabalhem para partidos e não para o povo, prejudicando severamente a eficiência do estado” – observa Cláudio Weber Abramo, diretor da Transparência Brasil.

Cerca de 120 milhões de pessoas são empregadas da União, estados ou municípios, nestepaiz. Nossa legislação tributária é a mais injusta e confusa do mundo e a administração pública está tomada por quadrilhas, aqui e ali desbaratadas pela Polícia Federal, mas seus membros não vão para a cadeia. Essa situação recrudesceu a partir de 2003. O saque é feito diuturnamente nos três poderes da República, mas os vírus atacam mais nas prefeituras. Há prefeitos que empregam toda a família e gastam o orçamento apenas com a folha de pagamento; superfaturam obras ou não as entregam; furtam merenda escolar, medicamentos, assaltam velhinhos e batem carteira.

Meus dois ou três leitores, caso tenham chegado até aqui, já devem estar impacientes, pois em vez de escrever sobre vírus, prometi falar sobre Belém. Vamos lá. Entrevistei o prefeito eleito de Belém, Zenaldo Coutinho, na manhã de 14 de fevereiro de 2012, no seu gabinete no Anexo IV da Câmara dos Deputados; antes, portanto, da campanha. Perguntei-lhe: “O principal problema de Belém seria rede de esgoto e de galerias de águas pluviais defasadas?” Ele respondeu: “O principal problema de Belém é ausência de autoridade. Nós temos um conjunto de problemas que decorrem da falta de ação; muitas vezes, da absoluta inoperância da administração municipal, o que resulta em situações dramáticas. Belém é uma das capitais com menor índice de esgotamento sanitário do país, temos trânsito caótico, serviço de saúde ineficaz, insignificante, sistema educacional irrisório. Precisamos modernizar, aparelhar, equipar e ampliar a rede municipal de ensino fundamental, da mesma forma que temos que ampliar os serviços de saúde. As pessoas estão padecendo muito em Belém. Além da ausência de autoridade, há ainda falta de carinho para com a população. Belém precisa ser vista como extensão das casas de todos. Belém já foi a metrópole da Amazônia, e tem que voltar a sê-lo”.

Em novembro, ele retornou, eleito, a Brasília. Visitei-o na Câmara e batemos um longo papo, sobre o qual destaco alguns tópicos: Zenaldo já criou um departamento de inteligência, com o objetivo de prevenir assalto de qualquer espécie ao município; fará um convênio com os taxistas para que se tornem agentes do governo municipal, avisando a uma central tudo o que observarem de anormal na cidade; criará hidrovias urbanas; dará prosseguimento a projeto viário metropolitano financiado pelo Japão e pelo governo do estado; criará infraestrutura para o turismo, com medidas simples, como desassoreamento da enseada do Ver-O-Peso e botar o bondinho para funcionar, no largo do Forte do Castelo; arborização do subúrbio; e, fundamental, infraestrutura básica da cidade. Se Zenaldo bombardear para valer as ratazanas, sem dó nem piedade, conseguirá o restante, porque competência ele tem.

Zenaldo Coutinho, 51 anos, é graduado em Direito pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Foi eleito vereador por Belém, em 1985, aos 21 anos, o mais jovem do Brasil, à época. Desde então, também como deputado estadual e federal, dedica sua vida a três temas: Belém, o Pará e a Amazônia. Na sua ida para a Prefeitura de Belém há um propósito: resgatar Belém capital da Amazônia. Fundada em 12 de janeiro de 1616, a capital do estado do Pará é a mais importante cidade da Hileia. Um mergulho na história e na cultura da Amazônia Clássica, a análise da geografia do Trópico Úmido, e um estudo geopolítico do Mundo das Águas (os rios Amazonas, Tocantins, Pará e Guamá, abrindo-se como a bocarra de um jacaré-açu sobre o arquipélago de Marajó, no encontro com o Atlântico) confirmará minha tese. À noite, lembra um óvni pairando sobre a baía de Guajará. Trata-se da única capital-arquipélago do país, com 38 ilhas povoadas. Por conseguinte, Belém é uma cidade insular. O município, com 1.064,918 quilômetros quadrados, é habitado por cerca de 1.392.031 moradores (IBGE/2010), e a região metropolitana tem em torno de 2.100.319 habitantes.

Os dois últimos prefeitos dessa cidade deliciosa como tacacá foram desastrosos. O então petista e hoje do Psol Edmilson Rodrigues, 55 anos, foi prefeito de 1997 a 2004. Só não foi mais incompetente do que a ex-governadora do Pará, a petista Ana Júlia Carepa, porque isso é impossível, mas foi substituído por um Ana Júlia Carepa: Duciomar Costa, 57 anos, do PTB, que esquenta (ou esfria) a poltrona de prefeito desde 2005. Hoje, a Metrópole da Amazônia é uma sombra da sua importância. Por isso, a Cidade Morena precisa de um prefeito, talentoso, que a entenda.

Quanto à Amazônia, com 25 milhões de habitantes, é cada vez mais espoliada por uma elite capaz de bater na própria mãe para morder dinheiro, com a bunda gorda aboletada nas poltronas luxentas dos gabinetes de Brasília.

domingo, 11 de novembro de 2012

O apanhador no campo de centeio

BRASÍLIA, 11 de novembro de 2012 – Os dias sucedem-se nublados. Às vezes, abre-se uma gigantesca fresta de sol sobre a cidade, que pulsa ao calor. Há dias de vento forte, e chove. Assim caminha o ano rumo a dezembro, docemente, ao embalo do verão. Há mangueiras que já se vergam ao peso das mangas, belas como enfeites de Natal. Lemos, nas mentes das pessoas, que depositarão novamente todas as suas esperanças no primeiro dia do novo ano. Contudo, isso já está assegurado, porque a vida renasce todos os dias, todos os instantes, e para isso precisamos ouvir apenas o canto dos sabiás, sorrir para as crianças, especialmente as tristes, e oferecer flores aos que amamos, com o mesmo espírito de entrega do poeta ao ofertar rosas para a madrugada.

Dezembro não tardará, trazendo toda a magia da vida, até para os que se julgam perdidos na noite eterna dos danados, pois basta ouvir o riso dos pequeninos para que surja o sol no jardim do coração. Não importa quanto mal tenhamos praticado, mas quando sentimos o perdão todas as correntes se partem para sempre e descobrimos que é fácil voar. A esperança de 1 de janeiro deve se perpetuar para o dia 2 e se renovar, como as manhãs no trópico, até 31 de dezembro. Então, tudo recomeça.

Em 2013, vou abrir de novo meu relicário e ofertar todas as pedras preciosas que conseguir tirar de dentro dele. Posso ofertá-las para sempre, pois surgem mais e mais, infinitamente; são focos de luz, e só os vemos com o coração. Pretendo também ouvir mais a música da madrugada, para produzir mais diamantes, rubis e esmeraldas.

À medida que nos aproximamos de dezembro, a esperança brota numa flor, no canto dos passarinhos, nas mangueiras carregadas de frutos, no riso das crianças, nos olhos da mulher amada. As manhãs são redentoras, as tardes escoam como rios amazônicos e as noites são navios grandes e bem iluminados.

Sou o apanhador no campo de centeio. Estou ali, de vigília, e as crianças brincam de bola. Estou atento. Se a bola cai longe, vou apanhá-la e a devolvo para as crianças. Se uma delas se machuca, cuido do machucado e a consolo; quando elas sentem fome, alimento-as; e se alguma delas quer ficar triste, alegro-a, pois sei que tudo posso; até voar.

E assim vão-se os dias, embalados por ventos tão azuis que cheiram a mar. O Natal logo baterá à porta do meu coração, e virá o novo ano, num voo vertiginoso como o primeiro beijo, roubado dos lábios de um anjo, e tudo isso temos para sempre dentro de cada célula, de cada átomo, de cada quantum da nossa mente.

As madrugadas, as mesmas madrugadas que perpassam o Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart, essas madrugadas impregnadas de Chanel Número 5 espargido nos labirintos de mistérios do corpo da mulher amada, essas noites tórridas da Amazônia, regadas ao choro dos jasmineiros, esse Atlântico, abrem-se na minha vida em veredas ladeadas por zínias multicoloridas e rosas colombianas, vermelhas. É nas madrugadas que dou à luz personagens que nascem ao computador.

E isso é tudo o que eu quero, além do brilho dos olhos da minha amada, e do riso da minha filha, e da luz dos meus anjinhos, e do cheiro da minha mãe, e do bate-papo com meus antepassados, e dos voos vertiginosos junto com meu pai. Assim, estarei sempre acordado e bem-disposto na missão do apanhador no campo de centeio.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Coachs e escravos não mergulham no azul!

BRASÍLIA, 2 de novembro de 2012 – Corno manso é quem tem ciência de que sua cara-metade lhe põe chifre, mas não tuge, nem muge; prefere repartir a ficar sem nada. Escravo manso, de certa forma, é uma espécie de corno, traído por si mesmo. Induzidos pela empresa na qual trabalham, tornam-se escravos por meio de coaching, palavra originada na cidade húngara de Kocs, à margem do rio Danilo, e onde fabricavam-se carruagens. Kocs é uma palavra húngara parecida com “tutores”. No século XIX, uma universidade adotou o nome “coach” para os professores, e depois técnicos esportistas locais passaram a ser também chamados assim. Nas décadas de 1950 e de 1960, a palavra ganhou o mundo como “coaching”.

Problemas financeiros, falta de mão de obra e fatores que levavam à demissão de funcionários, levaram empresas a contratarem assessores, chamados coachs, para treinarem os funcionários sobre o processo de funcionamento delas. Dava certo. As empresas começaram a investir firmemente em técnicos com capacidade de moldar funcionários para produzir mais sem espernear. Hoje, há quem utilize o processo de coaching até como terapia psicológica, o que, naturalmente, baralha ainda mais a mente do coachee. Pregam os coachs que o coachee alcançará melhor qualidade de vida por meio do coaching.

O objetivo é sempre alcançado com tecnocratas, que acabam se transformando em máquina, o que, no fim das contas, é o que os empresários querem. Quando ocorre de o funcionário ter personalidade, jamais chegará ao fim de um desses treinamentos para ovelha, e certamente entrará na lista negra da empresa, se não for logo demitido. Para quem é trabalhador compulsivo, coaching é um prato cheio, capaz de levar à sublimação robótica.

Todos nós nascemos com facilidade para realizar certas tarefas, com talento e até genialidade. Tudo o que temos a fazer é descobrir, o mais cedo possível, nossa inclinação. Muitos pais estragam a vida dos filhos ao definir a profissão deles. Daí é que surgem médicos assassinos, feirantes doutorados em física, peões que lecionam em escolas públicas, artistas asfixiados num banco e milhões de pessoas atrás de um alto salário num emprego público, no qual se masturbará o resto da vida. Outro drama na vida de funcionários infelizes é sonhar ou com o passado ou com o futuro. Como ambos não existem, sonham mesmo.

Há também outra questão: a da fidelidade. Acompanhei o caso de uma estagiária numa determinada empresa. Foi-lhe exigida uma carga de trabalho que nem o melhor coach do planeta conseguiria extrair dela, mesmo que fosse escrava na acepção clássica do termo. Morreria apanhando e não daria conta do que lhe impuseram, mas foi fiel consigo mesma, revelando personalidade. Sua atitude foi vista como irresponsável pelo seu coach. Ora, quem não tem fidelidade consigo mesmo será sempre um bosta n’água, flutuando ao sabor da maré.

Pessoalmente, eu mesmo sou quem oficia missa na minha igrejinha pessoal, razão pela qual não fiz sucesso em algumas das empresas em que trabalhei, porque os coachs, que não são apenas os próprios, mas qualquer escravocrata, acham que o único mundo que existe é o que existe na cabeça deles. Nem desconfiam que o agora é intenso, ilimitado e eterno, e talvez jamais sintam o perfume da vida, vertiginoso mergulho no azul.

sábado, 27 de outubro de 2012

Macapá já está perdida. Resta Belém do Pará



BRASÍLIA, 27 de outubro de 2012 – Os moradores da mais importante cidade da Amazônia, Belém do Pará, escolherão, neste domingo, 28, seu prefeito, entre o tucano Zenaldo Coutinho e o marxista (seja lá o que isso queira dizer) Edmilson Rodrigues. Belém é minha segunda cidade natal. Minha verdadeira cidade natal, Macapá, já está perdida, pois os candidatos a prefeito são Roberto Góes (PDT) e Clécio Luís (Psol).

Macapá é puro realismo fantástico. Debruça-se à boca do maior rio do mundo, o Amazonas, na confluência da Linha Imaginária do Equador. Não conta com esgoto e sofre com falta de água e energia elétrica. Suas ruas são esburacadas e vem sendo saqueada, assim como o estado do Amapá, este, anexado ao Maranhão, desde sempre.
Este caboco, Roberto Góes, 46 anos, natural do município de Porto Grande, é candidato à reeleição e é presidente da Federação Amapaense de Futebol. É primo de Waldez Góes (PDT), ex governador do Amapá (2003-2010), natural de Gurupá (PA). Em 10 de setembro de 2010, Waldez Góes foi preso pela Polícia Federal na Operação Mãos Limpas, acusado de meter a mão em dinheiro da Educação do estado e da União – a quadrilha desviara cerca de R$ 300 milhões. Curtiu cana até 20 de setembro daquele ano, quando recebeu um mandado de condução coercitiva na operação Mãos Limpas, resultado de investigações de desvio de verbas públicas no valor de R$ 1 bilhão no Governo do Amapá durante a sua gestão, com extensão na prefeitura de Macapá.
Em 18 de dezembro de 2010, Roberto Góes, o atual prefeito, foi preso pela Polícia Federal, acusado de sabotar a PF. Uma semana antes, os federais apreenderam R$ 35 mil na Secretaria Municipal de Finanças de Macapá, dinheiro supostamente oriundo de licitações fraudulentas. Escutas da PF captaram um diálogo em que Roberto Góes pede à irmã, Queila Simone Rodrigues da Silva, procuradora-geral do município, medidas que obstruíssem as investigações. Roberto Góes ficou preso por quase 60 dias na penitenciária da Papuda, em Brasília, solto em 11 de fevereiro de 2011.
Ele responde ainda à ação penal no Tribunal de Justiça do Amapá por porte ilegal de arma de fogo e agora não pode frequentar locais públicos, como bares, restaurantes e similares. Também não pode deixar o Amapá por período superior a 30 dias sem autorização judicial, além de ter que comparecer em juízo de 5 em 5 meses.
Em agosto de 2012, foi suspenso procedimento licitatório instaurado pela Secretaria Municipal de Saúde visando contratar a empresa Criativa Construções Ltda., ligada a um parente de Roberto Góes. Segundo o Ministério Público, a contratação teria como finalidade desviar receita para alimentar caixa 2 da campanha de reeleição do prefeito.
Em setembro de 2012, o jornalista João Bosco Rabello, do Estadão, publicou no seu blog um post intitulado: “Um Prefeito sob controle judicial". Roberto Góes ingressou com ação e a Justiça Eleitoral do Amapá (Zé Sarney e a Justiça Eleitoral do Amapá já censuraram meio mundo) determinou a retirada da matéria do ar. Após protestos de diversas associações de jornalistas, o juiz eleitoral voltou atrás e revogou a determinação.
Roberto Góes responde ainda a inquérito no Ministério Público do Amapá pela retenção, por parte da Prefeitura de Macapá, de R$ 4,7 milhões descontados em folha dos servidores públicos que fizeram empréstimos consignados, e que deveriam ter sido repassados ao Banco Itaú.
Quanto ao candidato Clécio Luís, o que conspira contra ele é o Partido Socialismo e Liberdade (Psol), agremiação marxista, fundada em 2004, fruto de dissidência do Partido dos Trabalhadores (PT), que acaba de ter sua elite identificada como quadrilha, e um de seus ideólogos, Zé Dirceu, como chefe da gang.
Uma coisa puxa outra. O jornalista e intelectual Reinaldo Azevedo, que escreve na Veja.com, faz uma análise procedente sobre Lula, o criador do PT. Ele acha que todo esse frenesi de Lula nas eleições municipais é devido ao medo de virar réu nos outros processos do Mensalão. Reinaldo Azevedo: “Não desta parcela que está no Supremo, mas daquele que corre na primeira instância. Lula está fazendo essa gritaria país afora para ver se intimida os representantes do Ministério Público. Tenta repetir a tática de 2005, quando correu para os “braços do povo” — e a oposição, infelizmente, caiu no truque. O procurador da República Manuel Pastana, que atua no Rio Grande do Sul, já encaminhou uma representação à Procuradoria Geral da República em que pede que o ex-presidente seja responsabilizado criminalmente pelo Mensalão. Mais do que qualquer outro réu do Mensalão, Lula tem as digitais nesse imbróglio num caso em particular: aquele que diz respeito ao banco BMG — uma das instituições financeiras que fizeram os falsos empréstimos a Valério e ao PT (já comprovados pelo Supremo)”.
Ainda Reinaldo Azevedo: “Lula está com medo. Não faz tempo, ele dizia por aí que o Mensalão só seria julgado em 2050. Agora que a cadeia espreita alguns de seus aliados, teme entrar na fila. Até porque, como se vê acima, se Dirceu não assinava os crimes pelos quais foi condenado, é certo que Lula deixou assinaturas que beneficiaram o BMG, que foi, é inequívoco, um dos bancos do Mensalão. Uma das razões para Lula sair por aí deitando a sua glossolalia política é blindar-se, tentando intimidar o Ministério Público e a Justiça. Ele quer que as massas gritem: “Se tocarem em Lula, haverá rebelião”. Não haverá”.
Voltemos ao Psol. Trata-se de uma turma leninista, trotskista, marxista libertária e eurocomunista, pronta para usar a massa ovina e chegar ao poder, instalando partido único, ou seja, ditadura.
Agora, Belém. Edmilson Rodrigues e Zenaldo Coutinho são candidatos a prefeito d a Cidade das Mangueiras, a Cidade Morena, o Portal da Hileia, a Capital da Amazônia.
Edmilson Rodrigues, 55 anos, belenense, foi eleito e reeleito prefeito de Belém, de 1997 a 2005, e foi pré-candidato à presidência da República pelo PT, em 2002. É arquiteto, mestre em urbanismo e doutor em geografia pela USP. No primeiro governo municipal de Edmilson Rodrigues, sua vice foi a ex governadora do Pará (2007-2010), a dançarina de carimbó Ana Júlia Carepa. Edmilson Rodrigues, que em 2005 ingressou no Psol, foi sucedido na prefeitura por Duciomar Costa (PTB), o Dudu, 57 anos, natural de Tracuateua (PA). Somando Edmilson Rodrigues e Dudu, o atual prefeito (2005-2012),  são uma década e meia ladeira abaixo. Belém está numa ratoeira.
Zenaldo Coutinho, 51 anos, bacharel em Direito pela Universidade Federal do Pará (UFPA), foi eleito vereador por Belém, em 1985, aos 21 anos, o mais jovem do Brasil, à época. Desde então, também como deputado estadual e federal, dedica sua vida a três temas: Belém, o Pará e a Amazônia. Em 2011, comandou o “não” à divisão do estado do Pará, contra a criação dos estados de Carajás e do Tapajós.
Na manhã de 14 de fevereiro de 2012, uma terça-feira, Zenaldo Coutinho me recebeu no seu gabinete no Anexo IV da Câmara dos Deputados para a seguinte entrevista:
BRASÍLIA, 26 de fevereiro de 2012 – Belém precisa voltar a ser a capital da Amazônia – Fundada em 12 de janeiro de 1616, Belém, a capital do estado do Pará, é a mais importante cidade da Amazônia. Um mergulho na história e na cultura da Amazônia Clássica, a análise da geografia do Trópico Úmido, e um estudo geopolítico do Mundo das Águas (os rios Amazonas, Tocantins, Pará e Guamá, e o Atlântico, abrindo-se como a bocarra de um jacaré-açu sobre o arquipélago de Marajó), confirmará minha tese. Distante 2.146 quilômetros de Brasília, a Cidade das Mangueiras está, na verdade, ainda mais distante da Ilha da Fantasia. Caso fosse um país, o Pará seria um potencialmente rico, pois não teria que pagar ICMS para São Paulo e receberia integralmente royalties sobre sua inacreditável província mineral, o onírico El Dorado dos colonos espanhóis.
Belém, à noite, lembra um óvni pairando sobre a baía de Guajará. O município, com 1.064,918 quilômetros quadrados, é integrado ainda por 38 ilhas habitadas. Por conseguinte, Belém é uma cidade insular. Com cerca de 1.392.031 habitantes (IBGE/2010) no município, a região metropolitana de Belém tem em torno de 2.100.319 habitantes. Os dois últimos prefeitos dessa cidade deliciosa (sim, deliciosa) como tacacá foram desastrosos. O então petista e hoje do Psol Edmilson Rodrigues, 55 anos, foi prefeito de 1997 a 2004. Só não foi mais incompetente do que a ex-governadora do Pará, a petista Ana Júlia Carepa, porque isso é impossível, mas foi substituído por um quase Ana Júlia Carepa: Duciomar Costa, 57 anos, do PTB, que esquenta (ou esfria) a poltrona de prefeito desde 2005. Hoje, a Metrópole da Amazônia é uma sombra do que realmente ela é. Por isso, a Cidade Morena precisa de um prefeito, talentoso, que a entenda.
Entre os vários pré-candidatos, um se destaca pelo seu preparo, não só sobre Belém, mas também sobre a chamada questão amazônica. Zenaldo Rodrigues Coutinho Júnior, 51 anos, jovem advogado no quarto mandato de deputado federal pelo PSDB, foi quem liderou o não à divisão do estado do Pará em três unidades, e agora coleta assinaturas para a formação da Frente Parlamentar em Defesa da Amazônia. A Amazônia, diga-se, continua sendo vista, criminosamente, como celeiro do mundo, e a massa da sua população, de 25 milhões de habitantes, é cada vez mais espoliada por uma elite que passa por cima da própria mãe para morder dinheiro.
A questão é: a energia elétrica gerada na Hileia e a produção mineral no Trópico Úmido precisa enriquecer também o amazônida, proibido até de abater jacaré, que dá no meio da canela, e come também canela. A grande imprensa vê uma Amazônia mitológica, por jornalistas descredenciados, em nível mundial, mas principalmente no Brasil, e, especialmente, em Brasília, a Ilha da Fantasia; e, pasmem, por desinteligência na própria Amazônia. Por isso é que a Amazônia precisa ser divulgada tal qual ela é, para que os amazônidas se livrem do pensamento de colonizado, a síndrome do vira-lata.
Zenaldo Coutinho me recebeu no seu gabinete no Anexo IV da Câmara dos Deputados, na manhã de 14 de fevereiro de 2012, uma terça-feira, para a seguinte entrevista:
O principal problema de Belém seria rede de esgoto e de galerias de águas pluviais defasadas?
O principal problema de Belém é ausência de autoridade. Nós temos um conjunto de problemas que decorrem da falta de ação; muitas vezes, da absoluta inoperância da administração municipal, o que resulta em situações dramáticas. Belém é uma das capitais com menor índice de esgotamento sanitário do país, temos trânsito caótico, serviço de saúde ineficaz, insignificante, sistema educacional irrisório. Precisamos modernizar, aparelhar, equipar e ampliar a rede municipal de ensino fundamental, da mesma forma que temos que ampliar os serviços de saúde. As pessoas estão padecendo muito em Belém. Além da ausência de autoridade, há ainda falta de carinho para com a população. Belém precisa ser vista como extensão das casas de todos. Belém já foi a metrópole da Amazônia, e tem que voltar a sê-lo.
O senhor pensa Belém como um arquipélago?
Belém é a única capital-arquipélago do país, mas, nela, o transporte público fluvial é subutilizado. Implementar o transporte público fluvial já foi tentado, mas não logrou êxito. Creio que por não ser um serviço de excelência, com garantia de segurança e rapidez, como, por exemplo, a Rio-Niterói, com barcaças, catamarãs etc. É necessário que tenhamos um olhar sobre Belém de modo a não vê-la apenas como continente, mas uma cidade que tem 38 ilhas povoadas e onde há pessoas, portanto com necessidade de transporte. Obviamente esse não é o grande nó do trânsito belenense, mas, resolvido, ajudará a desafogar o trânsito. Icoaraci, por exemplo, pode abrigar um porto rodo-fluvial.
Belém é historicamente a cidade mais importante da Amazônia, mas seu patrimônio arquitetônico está se deteriorando.
Isso é gravíssimo, e se soma ao desleixo, falta de carinho, de atenção da autoridade para com tudo aquilo que é de todos. Repito: a cidade tem que ser vista como nossa casa. Jogamos lixo no chão da nossa casa? A cidade precisa do sentimento coletivo de respeito, de carinho.
Belém é a Cidade das Mangueiras; seu subúrbio o é também?
Antônio Lemos (prefeito de Belém, no fim do século XIX e início do século XX) foi o responsável pela plantação das mangueiras, que é uma árvore exótica na Amazônia, originária da Índia. Particularmente, defendo os corredores de mangueiras, mas também uma variação da nossa arborização, as essências amazônicas, estendidas também para os bairros periféricos de Belém, que precisa, como um todo, de mais arborização e jardinagem.
E as portas para o rio?
O turismo em Belém é incipiente. Precisamos de uma ação muito forte voltada para o turismo. Temos muito mais opções do que Manaus. Em Belém, além da floresta e da história, temos praias de rio e de mar, e Marajó, pertinho. Temos que estar antenados com a questão turística.
Que nota o senhor dá para os 7 anos da atual administração municipal?
Eu prefiro aguardar a nota que a população vai dar em outubro.
Caso o senhor seja efetivado como candidato e se eleja prefeito, qual será sua linha de atuação?
Já estou trabalhando em um projeto, ousado, moderno, corajoso, por uma Belém que faça justiça à comemoração dos seus 400 anos, o que ocorrerá na próxima administração.
Falta financiamento para a reforma estrutural de Belém?
Financiamento se consegue; o que falta é estabelecer prioridades. Agora mesmo há um embate, desnecessário, da prefeitura com o governo do estado, que, há 20 anos, desenvolve um projeto, com os japoneses, com visão metropolitana, porque ele leva o ônibus expresso de Marituba até o centro de Belém, com investimento de US$ 320 milhões, já garantidos, assegurados, assinados, e a prefeitura tem um outro projeto, de Icoaraci até São Brás. Pretende-se que a prefeitura chegue até só o Entroncamento, para que não haja sobreposição de projetos, até porque os japoneses só financiam se houver apenas um executor da obra. Essas ações de integração são fundamentais, daí porque é importante a harmonia entre a prefeitura e o governo do estado, pois o administrador público não deve ficar isolado, o que inclui um diálogo eficiente com todos os mecanismos de financiamento.
O senhor liderou a campanha pela não divisão do Pará. Por quê?
Em defesa do nosso estado, da população. Durante muito anos, aqui no Congresso, briguei para que houvesse estudos que antecedessem a consulta popular, sobre os impactos sociais, econômicos, tributários, ambientais, que analisassem as consequências na vida das pessoas em cada região a respeito de uma possível divisão. Infelizmente, foi um discursos para surdos. No caso de Belém, todos os estudos preliminares que havia, incluindo o da Universidade Federal do Pará, apontavam para o empobrecimento das três regiões. Teríamos implemento de despesas sem implemento de receitas. Teríamos que dividir o pouco que o estado do Pará já recebe, e teríamos o ônus de ter três assembleias legislativas, três palácios de governo, ou seja, teríamos uma elite usufruindo das estruturas de poder e uma população empobrecida e sem políticas públicas. Isso ensejou a nossa participação ativa, aqui no Congresso, e, posteriormente, na campanha pelo não no plebiscito. Graças a Deus, dois terços da população disse não à divisão do Pará.
Que avaliação o senhor faz do governo Dilma Rousseff?
A presidente Dilma tem acertado em adotar uma série de modelos que nós, do PSDB, legamos, como a questão da privatização. Os petistas transformaram em demônio a questão das privatizações, mas agora o próprio governo federal, através da presidente Dilma, reconhece que se trata de um modelo que dá mais eficácia na gestão dos serviços públicos, se o modelo for aplicado de maneira adequada, como o foi na telefonia, quando nós o aplicamos. Eu me lembro que antes que o PSDB privatizasse a telefonia, telefone era tão caro que era declarado no Imposto de Renda. Hoje em dia, todos os brasileiros que quiserem têm acesso a telefone, graças à privatização. Também o Brasil se mantém equilibrado, mesmo com a crise internacional, graças aos fundamentos da macroeconomia brasileira deixados pelo governo do PSDB, como é o caso da Responsabilidade Fiscal, que foi um item extremamente criticado pelo PT, na época em que nós o adotamos, e hoje é modelo até na Europa, no combate à crise europeia. Ainda, o governo petista mantém o Plano Real, o maior instrumento de justiça social estabelecido no país. Mas, apesar de pouco mais de um ano de governo, sete ministros caíram flagrados em corrupção, o que é muito grave. E precisamos agilizar as obras nacionais, que estão muito vagarosas, especialmente as do chamado PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), que estão empacadas. Temos que agilizar isso. Nós, da oposição, estamos fiscalizando para que as coisas efetivamente aconteçam.
Se o PT lê a cartilha do PSDB, por que os tucanos não conseguem voltar para ao Palácio do Planalto?
Porque existe transição democrática. Nós passamos oito anos no poder e o PT está caminhando para os doze anos, mas em muitos estados, de norte a sul, o PSDB está no poder. A democracia é, portanto, um processo natural, legítimo. Mas os partidos têm que viver, sempre, na busca da realização dos seus projetos, buscando eficiência, eficácia para melhorar a qualidade de vida da população, o que quer dizer que o projeto de poder não é um projeto de poder pelo poder, e também não quer dizer que se o partido não está naquele momento no poder ele está liquidado. Nós podemos exercer o poder no governo e na oposição. Aquele que está no governo exerce o poder do fazer e o que está na oposição exerce o poder político da pressão, do monitoramento, da fiscalização, da cobrança, para que os projetos públicos aconteçam. Nenhuma dessas duas posições é inadequada. A democracia só persiste porque existem essas posições diferentes. O importante é que o PSDB tem lutado a favor do Brasil, e continuaremos a nossa caminhada. Temos já o nosso pré-candidato a presidente da República, Aécio Neves, que foi grande governador de Minas Gerais e é senador respeitado. Estamos construindo um diálogo com a população para voltar à presidência da República.

Com a Wikipédia

sábado, 20 de outubro de 2012

Belém do Pará, nua

Anoitece na Estação das Docas, docemente, como negra em vestido de seda.
De tão intenso, o azul sangra, como choram jasmineiros em noites tórridas!

BRASÍLIA, 20 de outubro de 2012 – Quem chega de avião a Belém, à noite, à direita da aeronave, divisa, lentamente, a miríade de LEDs, bruxuleantes, sobre a península que avança para a escuridão, até que os contornos do rio Guamá vão ficando cada vez mais nítidos, à medida que se alarga na baía de Guajará, torres iluminadas se agigantam e os telhados das casas se aproximam. Subitamente, os gigantescos pneus do jato se chocam no chão de concreto e a nave desliza, veloz, começando a taxiar rumo ao terminal de passageiros. Ao pisarem no aeroporto de Val-de-Cães, os iniciados já começam a sentir, plenamente, a Cidade das Mangueiras. Pelo rio, de dia, ela surge como mulher emergindo, de repente, salpicando água, nuazinha.
Todas as cidades são semelhantes, inclusive Brasília, porém, conforme a iniciação de quem mergulha nelas, são portais para outras dimensões. Contudo, todas têm algo em comum: são mulheres, e como mulheres, não podem ser decifradas; precisam apenas ser amadas, pois só para isso existem, como poemas escritos por Deus.
Da mesma forma que as mulheres, as cidades são redes de labirintos intermináveis, abismos de segredos, por onde navegamos, sempre perdidos, mas firmemente guiados pelo azul mais azul, tão intenso que sangra. As cidades, exatamente como as mulheres, são choro de jasmineiros em noites tórridas, quando se abrem, de corpo e alma, aos nossos sentidos. Mergulhamos nas ruas das cidades do mesmo jeito que cavalgamos a luz, nos abismos femininos.
Sentado no calçadão defronte ao Colégio Nossa Senhora de Nazaré, ao embalo estático das 6 horas da tarde, caminho ao lado de cada uma das mulheres que passam, espargindo Chanel número 5, sob seus vestidos estampados. Então descubro o segredo da Hileia, deslindo o mistério, e, assim, o amplio: toda a Amazônia está contida num ramo de jambu. E é assim, nesse estado, que me acomodo numa cadeira de palhinha na Estação das Docas. Ao longe, um navio segue para o norte. Sinto cheiro de maresia, Cerpinha, merengue, à passagem de uma negra caribenha em vestido de seda, sílfide equina.
Continental e insular, Belém é o encontro da Grande Floresta Tropical com o oceano Atlântico nas águas salobras de Mosqueiro; o encontro da Hileia com a cidade pós-moderna; do ribeirinho com o cosmopolita; a Cidade Morena.
Amanhece. À medida que o dia vai esquentando e seus habitantes se movimentam, os subterrâneos vão minando. A cidade despeja esgoto in natura no rio. Há bairros nos quais moradores vivem em cima da merda. Outros, quando chove grosso e durante horas, vão para o fundo. O trânsito é caótico, e a segurança, como no resto do país, beira a lei da selva. Turistas só vão lá porque viver não é preciso; conhecer Belém é preciso.
Já faz tanto tempo que essa fêmea amazônida, esse portal do realismo fantástico, vem sendo estuprada por ratos que mordem seus seios, de onde, em vez de leite da mulher amada mina sangue de crianças de rua apedrejadas! Belém precisa de um prefeito que a ame, que a faça rir, que a revele em todo seu esplendor, como mulher ao toucador, absorta, nua.

sábado, 6 de outubro de 2012

A capital da Amazônia

BRASÍLIA, 6 outubro de 2012 – Desde que o espanhol Vicente Yáñez Pinzón, descobriu a Amazônia, em 26 de janeiro de 1500, que a Hileia vem sendo espoliada. Saqueada e escravizada pelos lusitanos durante 4 séculos, hoje, vem sendo colonizada pelo estado brasileiro, há mais de 1 século, constituindo-se na região mais infestada de colonos, piratas e escravocratas do planeta, incluindo os governos que se sucedem em Brasília, comandada, atualmente, pelo PT, o do Mensalão, do qual só se identificou, até agora, o chefe da quadrilha. Falta o chefão.
Voltemos à Amazônia. Trata-se da maior província biológica, aquífera e mineral do mundo, sem similar. O governo federal realiza grandes projetos na Amazônia, e não para a Amazônia. Por exemplo: a Vale do Rio Doce exporta uma montanha de minério de ferro e no Pará só fica o buraco, como o de Serra do Navio, no vizinho estado do Amapá, de onde foi extraído e vendido a preço de banana pela Icomi o melhor manganês do globo; hoje, estrategicamente estocado nos Estados Unidos. E quem recebe a grana é o governo federal.
A Albras/Alunorte, também no Pará, produz lingotes de alumina para o Japão, utilizando energia elétrica de Tucuruí, enquanto que no Pará, principalmente no Marajó, grande número de municípios não conta com energia elétrica firme.
Recentemente, construiu-se uma ponte sobre o rio Negro ligando Manaus a lugar algum. Ela custou R$ 1 bilhão.
No Amapá, a roubalheira é tão flagrante que não se sabe por que Zé Sarney, que anexou o Amapá ao Maranhão, ainda não interviu. Falar no estado dos tucujus, a costa do Amapá, desde o Marajó até o rio Oiapoque, é a maior província de vidas marinhas do planeta, porque o rio Amazonas lança profundamente no Atlântico o húmus que arrasta da grande floresta, mas quem pesca lá são piratas de todas as partes do mundo. A Marinha de Guerra brasileira não tem equipamento para vigiar a região, e, pelo que se nota, não há o menor interesse do PT nisso, até porque estão preocupados com o julgamento do Mensalão.
As toras de madeira griladas na Amazônia atravessam boa parte do continente brasileiro para serem comercializadas tranquilamente em São Paulo. Trafica-se, na Amazônia, até combustível atômico; lá, também, escraviza-se, inclusive crianças, que se tornam escravas sexuais até a morte. Creio que o Congresso Nacional disponha de relatórios que confirmam o que estou dizendo, a menos que sejam atos secretos, e certamente a Abin sabe o que se passa no Inferno Verde.
Nesse contexto, Belém, a capital do Pará, é a mais importante cidade da Amazônia, pois sempre foi a porta de entrada, e de saída, do Mundo das Águas. Acontece que Belém, que já foi a cidade mais rica do país, no Ciclo da Borracha, vem sendo pilhada, governo após governo. Há 16 anos, nas administrações de Edmilson Rodrigues e Duciomar Costa, de abandonada, Belém começou a ser depredada. Para piorar a situação do Portal da Amazônia, de 2007 a 2010, além do PT incrustado na burra por meio da aparelhagem do estado e da sua associação com o PMDB da transposição do São Francisco, da Ferrovia Norte-Sul, do setor elétrico etc. etc. etc., o Pará ficou desgovernado pela dançarina de carimbó petista Ana Júlia Carepa, hoje, com a ventosa numa sinecura federal.
Amanhã, os belenenses vão escolher quem administrará a Cidade das Mangueiras de 2013 a 2016. Entre os candidatos, um está preparado para resgatar a Capital da Amazônia: Zenaldo Coutinho. Ele conhece Belém como poucos e sabe o caminho das pedras para solucionar, um a um, os problemas mais prementes da Cidade Morena. Durante 10 anos seguidos, fui repórter de cidade em Belém, e estive do Lixão aos palácios; sei, por conseguinte, o que é Belém. Assessorei Zenaldo Coutinho no Congresso Nacional, acompanhando de perto seu trabalho; foi aí que observei o quanto ele conhece a Amazônia, e, por extensão, o Pará e Belém. Não somente isso, Zenaldo Coutinho ama profundamente Belém, naquilo que ela tem de mais precioso: a cultura.
É essa cultura que precisa ser resgatada, a cultura oriunda do povo belenense, cioso da beleza, do aconchego, da delícia que é Belém do Pará.

sábado, 15 de setembro de 2012

Gritos e sussurros

A tarde desmaiava, assaltada por flocos negros, invisíveis, acamando-se na cidade, e logo os anúncios luminosos, as luzes dos postes e os faróis dos carros começaram a povoar as ruas. Dentro do bar, onde eu estava, de repente a vida recomeçou. Podia ver parte do Setor Hoteleiro Sul, o Pátio Brasil e alguns prédios do Setor Comercial Sul. Em primeiro plano, o anoitecer me ofertava o passa-passa de mulheres tão lindas que eram, estou certo disso, miragens. Lá fora, o tempo estava seco e quente como um soco na boca do estômago, mas dentro do bar o ar refrigerado e o umidificador funcionavam ajustados como um foguete tripulado.
- O Mensalão começou a respingar no Chefão – disse meu amigo, velho jornalista que não conseguiu se adaptar aos novos tempos. Quanto a mim, ainda logrei ajustar-me a treinamento motivacional, coaching, como se diz, voltada para o que eu chamaria de “escravidão mansa”. Lembrei-me de William Faulkner: “É uma vergonha que haja tanto trabalho no mundo. Uma das coisas mais tristes é que a única coisa que um homem pode fazer durante oito horas diárias, dia após dia, é trabalhar. A gente não pode comer, beber ou fazer amor durante oito horas diárias: só o que se pode fazer, durante oito horas, é trabalhar. Eis aí a razão por que o homem torna a si próprio e a todos os demais tão miseráveis e infelizes”.
- Mas não te iludas; gente como o Chefão está tão blindado que nem Klark Kent conseguiria prova contra ele – disse-lhe. – Continuará chiando sua algaravia.
Uma jovem entrou no bar do hotel. Remetia imediatamente a jambo maduro, com sua alva pele cafuza, e longos cabelos de índia descendo-lhe como ervas daninhas até a garupa de DNA africano. Trajava vestido de seda branco, estampado de amarelo e vermelho. Foi direto para o balcão e se aboletou num tamborete, os quadris maravilhosos enchendo meus olhos, e os do meu velho amigo jornalista, que perdeu, de repente, o interesse pelo Chefão. Duas jovens europeias, com suas peles brancas, rosadas, quase vermelhas, inflamadas pelo sol tropical, também olharam para a cafuza, que deixou um rastro de jasmineiros chorando em noites tórridas em Macapá, cidade que flutua na boca do maior rio do mundo, o Amazonas. A cafuza pediu água tônica. Inadvertidamente, levei minha água tônica à boca. Gelada, refrescante, a bebida assumiu sabor de Caribe, ao som da voz da mulher improvável, que tinha sotaque francês. “Será da Guiana Francesa?” – pensei, referindo-me à colônia que os franceses mantêm vizinha ao estado do Amapá, que o senador Zé Sarney, o dos Atos Secretos, anexou ao Maranhão.
Meu velho amigo jornalista suspirou. Parecia o último suspiro de décadas de álcool, cigarro, noites indormidas, desregramento.
- Produto genuíno do trópico – cochichou-me, quase babando. Fiz sinal ao garçom para que levasse mais uma garrafa de água tônica para mim e uma Cerpinha para meu amigo. Cerpinha é a melhor cerveja do mundo. Quando eu era alcoólatra e ia a Belém, começava a beber Cerpinha enquanto tomava banho e depois observando a cidade pela janela do quarto de hotel, de modo que ao mergulhar nas veias da Cidade Morena já estava pronto.
- É da Guiana Francesa – disse-lhe. – Ou de Macapá, há muito tempo morando em Caiena.
- Conheci uma assim no Acre – confidenciou-me.
De repente, lembrei-me de Gabriela, Cravo e Canela, em cartaz na Globo. A mulata, a mulher cor de canela, a negra, a índia, mulheres produzidas para a libidinagem dos europeus e brasileiros de sangue azul. Um paradoxo. Mesmo com 10 mil anos de polimento, levado ao paroxismo em países como a Grã-Bretanha, a natureza masculina conserva o animal irracional que a habita. Se queres conhecer a verdadeira personalidade de um homem, lança-o à guerra, ou enche-o de cachaça, ou observa seu comportamento ao assalto de uma mulher fatal.
- Temos mulheres assim em toda a Amazônia – comentei, pois sabia que meu amigo conhece a Hileia tanto quanto eu, o que quer dizer que ambos já mergulhamos na alma da mulher amazônida, e sentimos o mundo girar, a mesma experiência de tomar tacacá às 6 horas da tarde na banca do Colégio Nazaré. Jambu! Jasmineiros chorando! Cerpinha! O céu, tão azul que sangra! Maresia! O balanço de uma rede! Leite da mulher amada! Jambo, doces como seios!
A cafuza fazia, agora, anotações em um caderno tipo Moleskine, e vi que era da Tilibra. Seria jornalista também? Ou secretária executiva de algum bilionário do ramo dos hotéis fazendo prospecções para a Copa do Mundo de 2014? Seja lá o que for, era tão linda que causava dor. Eu estava tão concentrado nela, que a mulher improvável se voltou para mim. Só então vi seus olhos, de clorofila, duas pedras preciosas a me engolirem. Fiquei petrificado, com o mesmo terror que deve acometer as presas na boca do jacaré. Depois percebi que o olhar da cafuza fora ocasional, que ela sequer me viu, nem à sua saída, deixando um banzeiro de romance e aventura na noite. Meu amigo e eu ficamos calados. Eu sabia o que ele estava pensando e ele também sabia perfeitamente o que eu sentia. Logo depois saímos. A noite era como um relicário de joias. Mais tarde, em outro bar, ouvi, quase inaudível, vindo de algum lugar, Zorba, o Grego, de Mikis Theodorakis.
 
Brasília, 15 de novembro de 2012

sábado, 8 de setembro de 2012

Rio de Janeiro

Cheguei ao Rio de Janeiro num dia de semana, sem lenço e sem documento, em 1972. Tinha 17 anos e não portava sequer carteira de identidade, e contava apenas com o terceiro ano do antigo curso ginasial, hoje, ensino fundamental. Queria sair de Macapá. Tomei um barco para Belém e de lá viajei de carona para Brasília e depois tomei um ônibus para o Rio de Janeiro, levando comigo alguns exemplares de Xarda Misturada, livro de poemas que publiquei em 1971, em Macapá, com Joy Edson (José Edson dos Santos) e José Montoril. Lembro-me que cheguei no meio da tarde e na rodoviária pedi informações e tomei um ônibus para o coração do Rio de Janeiro, o cruzamento das avenidas Presidente Vargas e Rio Branco, onde fica a antiga catedral da cidade de São Sebastião. Levava comigo o endereço de trabalho de uma amiga do pintor e poeta Manoel Bispo, de Macapá, e a confiança inabalável de um garoto ribeirinho de que a amiga do Manoel Bispo me receberia de braços abertos. Localizei-a quase à saída do trabalho; já na rua ela me olhou e me disse que eu não poderia ficar na casa dela, desejou-me boa sorte e sumiu na multidão.
Eu levava também comigo o endereço de um amigo que conheci no Colégio Amapaense, Sílvio, paulistano que fora para Macapá com o pai, um americano que trabalhava na Indústria e Comércio de Minérios de Ferro e Manganês (Icomi), que, juntamente com a Bethlehem Steel, transportou do município de Serra do Navio, para os Estados Unidos, a jazida do melhor manganês do planeta, a preços vis, e deixou uma imensa cratera no Amapá.
Na época, o Sílvio morava com os tios na Alameda São Boaventura 208, Fonseca, Niterói. Cheguei lá à noite. O Sílvio, sua tia e seus primos me receberam muito bem. Em novembro daquele ano apresentei-me na Primeira Região Militar do Exército. Eu meço 1,64 metro de altura, e creio que pesasse, naquela época, 50 quilos (hoje, peso 64 quilos), também a mudança de clima e a poluição causaram uma coceira no meu corpo todo, de modo que fui dispensado do serviço militar, e vi meu propósito de morar no quartel esfarinhar-se.
O tio do Sílvio era um oficial da Aeronáutica, negro, coisa rara na Ditadura dos Generais (1964-1985). Acho que o episódio que aconteceu naquela noite foi reflexo daqueles anos de chumbo. O tio do Sílvio chegou mais cedo. Eu estava tocando violão na sala. Aprendera-o em Macapá com um amigo de adolescência, Ribamar Teixeira. O tio do Sílvio ordenou que fôssemos todos dormir. Eu dormia num sofá, na varanda. Continuei tocando violão. Então o tio do Sílvio veio do quarto dele e ordenou que eu pegasse minhas coisas e fosse embora. Juntei meus pertences – algumas roupas e exemplares de Xarda Misturada – e fui para a rodoviária central de Niterói. Foi uma longa noite. Só senti mais frio na estação aeroviária de Buenos Aires, em certa noite que lá passei, e da qual surgiu o poema Noite Horrível, publicado no livro Sob o Céu nas Nuvens (edição do autor, Belém, 1982).
Só quem passa uma noite dessas é que sente o quanto o sol do alvorecer é vivificante. Nem bem o dia amanheceu, lavei o rosto, tomei café com leite e pão com manteiga e me mandei para a representação do governo do Território Federal do Amapá, no centro do Rio de Janeiro. O representante, Couto, era conhecido por ajudar amapaenses. Conversamos. Ele me perguntou se eu conhecia o Itabaraci, que é de uma geração ligeiramente antes da minha, de Macapá (onde hoje vive); contudo, seu pai, Aimore (em tupi, não leva acento agudo na última sílaba) Nunes Batista, era padrinho da minha irmã caçula, Rosa Maria. Disse ao Couto que sim, conhecia o Itabaraci, e ele me deu um conselho.
- Vai procurar o Itabaraci; ele mora num apartamento em Copacabana, onde a senhoria, dona Maria Antônia, aluga vagas – disse-me ele, e me deu o endereço: Rua República do Peru 210, Apartamento 204, entre as ruas Tonelero e Barata Ribeiro, Copacabana. Vivi dois anos lá.
Dona Maria Antônia, paraense, funcionária dos Correios, há muito radicada no Rio, foi uma das mulheres mais bacanas que encontrei. Ela simplesmente me acolheu, e só passei a pagar vaga depois que ela mesma conseguiu emprego para mim, como ajudante de carteiro numa agência dos Correios em Copacabana, e depois como faz-tudo numa empresa de conserto e venda de peças de eletrodomésticos, primeiramente numa loja em Ipanema e depois em Copacabana. Quanto ao Itabaraci, e seu irmão, o violonista e pianista Aimorezinho, que nessa época tocava na banda do Raul Seixas (hoje, vive em fortaleza), trataram-me como a um príncipe. Por isso sou eternamente grato a eles.
Logo depois, o compositor amapaense Luiz Tadeu Tavares Magalhães, que estava morando no Rio e trabalhava na White Martins, conseguiu para mim uma vaga como contínuo na filial de Jacaré, na Zona Norte. O Tadeu era músico e radialista em Macapá, e me entrevistara várias vezes, na condição de escritor. Em 1971, antes de publicar Xarda Misturada, participei de um jornalzinho colegial anarquista, A Rosa, de modo que eu tinha ideia de como fazer um house organ, e foi o que eu fiz, o jornalzinho da filial. Além disso, eu pagava mensalmente uma empresa que fornecia entradas a pelo menos quatro peças teatrais por mês. O gerente da filial, dr. Arlindo, também era cliente da mesma empresa, e andamos nos encontrando nos teatros. Conclusão: ele morava em Ipanema e passou a me dar carona para Copacabana quando saíamos juntos. O jornalzinho e o interesse comum por teatro entre o gerente da filial e eu, além da companhia do Luiz Tadeu, tornavam o ambiente pesado de multinacional da White Martins em um convívio bastante agradável.
Às sextas-feiras, principalmente após recebermos o salário, eu saía com o Luiz Tadeu. Às vezes, íamos para a casa do nosso colega de White Martins, Frank Loiola Matos, em Padre Miguel. O fato é que bebíamos muito. Também foi nessa época que conheci o Luiz Loyola, Lula, irmão do Frank, no Curso de Interpretação Teatral no antigo Teatro de Comedia do Estado da Guanabara (Teco), na turma do professor e ator Jorge Paulo. A prova final do curso foi a encenação de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, com músicas de Chico Buarque de Holanda, no extinto Teatro de Arena no Largo da Carioca. Fiz um dos coveiros. Nessa mesma época, começamos leituras e laboratório da peça Miolo de Pão, texto de Luiz Loyola e que expressava “a realidade conflitante, festiva e utópica de uma família do subúrbio carioca” – como diz o próprio Loyola. Nós nos reuníamos na casa do Jamil Viana, na Pavuna; na casa da belíssima Beth Bello, na Ilha do Governador; e na Vila Valqueire.
No quarto do Loiola, BOE (Boite Onda Estudantil), na casa em Padre Miguel, “aconteciam reuniões com muita música, teatro, poesia, happenings, num clima underground e ambiente psicodélico, cheio de posters de vanguarda, caricaturas, painel com capas de LP, objetos antigos, como um armário centenário com um enorme espelho de cristal na frente da porta, que encantava os narcisistas, uma luminária em formato de chapéu mexicano vermelho, iluminada por uma tênue luz azul opaca, lembrando cabarés da Avenida Prado Júnior, no Leme; no chão, havia um espelho retrovisor redondo, de aproximadamente um metro de diâmetro, do serviço de trânsito do Rio, apelidado de “poço” pelo companheiro de trabalho Paulo Cesar Americano do Brasil, da Remington Rand, onde trabalhei com Luiz Tadeu no inicio da década de 70” – lembra Luiz Loiola.
“Num desses eventos, em uma noite festiva, tive o prazer de receber o amigo Ray Cunha, sutilmente trajando: calça jeans do Lixo (boutique cult de Copa), camisa mangas compridas com gola rolé cor roxa e sapatos bicolor vermelho e amarelo... a figura tinha cabelos ruivos black-power no melhor estilo saltimbanco do ator do filme musical Gospell... em sua companhia chegaram Luiz Tadeu e Iara Picanço, depois de uma viagem de trem da Central do Brasil, direto do subúrbio do Lins de Vasconcelos” – recorda Luiz Loila.
“Numa única visita à casa de Ray Cunha, na Rua República do Peru, em Copacabana, na década de 70, o poeta me recebeu em seu quarto (vaga), onde havia uma cama beliche e o seu estado de saúde era gripal e febril, e driblamos aquele quadro e resolvemos sair pra respirarmos uma brisa do mar caminhando pelo calçadão, depois paramos numa lanchonete e tomamos um delicioso café e suco de laranja com sanduíche, e serpenteando pelas ruas sombrias do bairro, o poeta fez uma citação irreverente dizendo que "Copacabana era uma enorme cama, onde nordestinos descansam...” – Luiz Loiola mergulha mais naqueles anos dourados, referindo-se ao poema Essa Copacabana Triste Mulher, publicado no livro Sob o Céu nas Nuvens.
“Não posso deixar de relatar, uma noite quando eu e o poeta chegamos em minha casa em Padre Miguel fomos para a cozinha e nos deliciamos com café com bolo, pães, cuscuz de fubá preparados por minha mãe, dona Maria Amélia (in memorian); foi quando o poeta, degustando uma banana, começou a declamar versos de Xarda Misturada, dando um toque tropicalista romântico àquela noite de inverno tímido” – registra meu caríssimo amigo Luiz Loiola.
Nessa mesma época, Manoel Bispo foi fazer um curso de pintura no Parque Lage, e foi vizinho do Luiz Tadeu, no Lins. Havia fins de semana que o Bispo e eu saíamos para bater perna. Parávamos para ver os pintores que expõem nas ruas da Zona Sul, entrávamos nas galerias, íamos a cinema e conversávamos sobre tudo. Eu ia muito a teatro, cinema de arte, circos como o Moscou e a grandes shows, como o Santana. Ia muito, também, aos programas de auditório da extinta TV Tupi. Varava o Rio noite adentro. Em 1974, já como balconista da filial da White Martins de Jacaré, pedi demissão e voltei para Macapá.
Em 1982, em Belém, com o matrimônio fracassado, parti novamente para o Rio de Janeiro. Mas era como se eu estivesse sonhando. Lembro-me que fui com o Luiz Tadeu para Pedra de Guaratiba, onde o Luiz Loiola festejou seu aniversário, com muita batida do Primo, vinho, cerveja, happenings e a bela voz do Luiz Tadeu. Dessa vez, minha estada no Rio durou pouco tempo. Retornei para Belém e concluí o curso de jornalismo.
Nos anos 1990, eu estava novamente no Rio quando o pintor Olivar Cunha expôs na Fiesp, em Botafogo, defronte ao Shopping Rio Sul. Ao coquetel de abertura estavam presentes Luiz Tadeu e sua filha e minha querida amiga Luciana Magalhães, e Luiz Loyola.
Em 1992, fui ao Rio para lançar A Grande Farra (edição do autor, Brasília, 1992, contos). Foi uma estada etílica.
Em 2000, fui participar da Bienal do Livro, com Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos. Num domingo de manhã eu acabara de sair da praia de Ipanema, com Luciana Magalhães, quando houve o primeiro arrastão televisionado - cenas aterrorizantes. Também dessa vez foi como se eu estivesse mergulhado num sonho etílico.
Em 2010, passei uma semana com a minha gata, Josiane, no Rio. Ela é psicóloga e foi participar do décimo primeiro Congresso Brasileiro de Psicooncologia e do quarto Encontro Internacional de Cuidados Paliativos em Oncologia, de 22 a 25 de setembro, no Centro de Convenções do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC), em Botafogo. Hospedamo-nos no Hotel Inglês, ao lado do Museu da República, onde Getúlio Vargas se matou, no Flamengo. Jantávamos num restaurante defronte ao Museu, quase sempre camarão. Todas as comidas daquele restaurante são deliciosas. Aquela parte do Flamengo, até Botafogo, passando pelo Largo do Machado, é a Europa no trópico – fantástico. Durante o dia, enquanto a Josiane estava no CBC, eu incursionava pela Zona Sul, num resgate memorialístico redentor da cidade que eu tanto amo. Durante aquela semana eu esquadrinhei a Zona Sul, agora com o olhar maduro do homem de 56 anos de idade e que não mergulhava mais em bebedeiras mortais.
Perambulei por muitas ruas da Zona Sul, observei a arquitetura, a Lagoa Rodrigo de Freitas à noite, bati perna em Copacabana, Ipanema, Leblon, Barra da Tijuca, Flamengo, Botafogo, centro do Rio, e retornei ao Pão de Açúcar, com minha amada. Lá de cima sabemos de pronto por que o Rio é a Cidade Maravilhosa. Há cidades que aonde quer que eu vá estarei sempre nelas, porque elas, como o Rio de Janeiro, vivem para sempre no relicário do meu coração.

sábado, 1 de setembro de 2012

Cavalgada na luz

BRASÍLIA, 1 de setembro de 2012 – Eu tinha 17 anos quando saí de Macapá, em 1972. Era uma cidadela ribeirinha, sitiada pela selva, igualzinha a Macondo, com a diferença de que à sua frente passa o rio Amazonas. Quando é maré cheia e o vento sopra forte, ondas de mais de dois metros rebentam no muro de arrimo defronte da cidade, e quando a maré está baixa, o leito do rio surge, negro, numa faixa de quase um quilômetro de largura. Hoje, é a urbe que engole a floresta, numa caminhada de concreto, derrubando árvores e soterrando igarapés, em marcha de terra arrasada. Mas as cidades físicas são ilusórias; somente as que construímos em nosso coração eternizam-se.
Em dezembro de 1971, havia publicado, juntamente com Joy Edson (José Edson dos Santos) e José Montoril, Xarda Misturada, um livrinho de poemas adolescentes no qual o poeta Isnard Lima Filho encontrou um veio de pedras preciosas (certamente os poemas do Joy) e me batizou, então, de Ray Cunha, profetizando que um dia entrarei no mercado livreiro norte-americano. Meu nome é Raimundo, do gótico “sábio protetor”, e uma homenagem a meu avô paterno, Manoel Raimundo Cunha, e a meu pai, João Raimundo Cunha, além de uma promessa de vovó Rosa Maria Cunha a São Raimundo Nonato, padroeiro das parteiras e obstetras.
Pois bem, naquela época, em Macapá, artistas eram vistos como vagabundos. Então achei que deveria me mandar, e me mandei. Peguei minha cota de Xarda Misturada, tomei um barco no trapiche de Macapá e parti rumo a Belém, onde, com ajuda do meu irmão Paulo Cunha e de amigos, peguei carona pela Belém-Brasília, ainda em construção, e fui bater em Brasília, onde consegui, no antigo Ministério da Educação e Cultura (MEC), passagem para o Rio de Janeiro. De lá, queria ir a Paris e cheguei a conversar isso com o dramaturgo Paschoal Carlos Magno, que me aconselhou a me aquietar no Rio mesmo. Depois, vivi em Buenos Aires, Manaus, Belém e, finalmente, Brasília.
Nessa peripécia, passei por inúmeras situações e circunstâncias insalubres ou perigosas, e conheci pessoas maravilhosas, com o que delineei meu perfil, que terá, sempre, base naquilo que recebi dos meus pais: amor incondicional – pois todo amor verdadeiro é incondicional.
Em 1975, comecei a trabalhar como repórter, o que faço até hoje, 37 anos depois. Ler, leio desde os 5 anos de idade, maravilhado com os gibis do meu irmão Paulo Cunha, e, depois, aos 14 anos, com os livros da estante dele, na qual fiz o primeiro contato com Ernest Hemingway.
Recentemente, assumi a chefia de redação de uma agência de comunicação de Brasília, predominantemente de jovens. Aos 58 anos de idade, cheguei ao requinte de auscultar a alma dos jovens. Geralmente são inquietos, dramáticos, desesperados e trágicos. Pensam que são imortais, no sentido de que serão sempre jovens, e veem a velhice como câncer em metástase. Ignoram que jovens também adoecem, sofrem acidentes e morrem, e que se sobreviverem até uma idade provecta lembrarão maracujá de gaveta, ou múmia, dependendo do número de intervenções plásticas ou procedimentos médicos a que se submeterem. E que os órgãos de todos nós, belos ou feios, falirão, e que a morte é inevitável.
Há exceções, óbvio ululante (uma homenagem a Nelson Rodrigues, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos). O americano Ernest Hemingway foi uma delas. Tinha 21 anos quando decidiu demitir-se do cargo de correspondente do Toronto Star em Paris para dedicar-se exclusivamente à literatura, mesmo sabendo que passaria fome. E passou. Aos 26 anos, publicou um romance revolucionário e maravilhoso: O sol também se levanta. É que aos 18 anos quase morre na Primeira Grande Guerra, e reavaliou sua vida.
Aos 21 anos, quando comecei a trabalhar como repórter, em Manaus, lindas gatas faziam fila à porta da minha alcova, mas só mergulhei inteiramente nos misteriosos abismos femininos depois de velho, ou seja, depois da peripécia. Então, se formos dar um sentido verdadeiro para velhice, ela quer dizer experiência, sabedoria, requinte. Mas vou lhes dizer uma coisa que pouca gente sabe verdadeiramente: nós, seres humanos, somos movidos pela mente. É a mente que vivifica nosso corpo. O tempo cronológico é, tão somente, uma convenção. Portanto, a mente não tem idade. Somos todos, jovens e velhos, mentes sem idade. Neste contexto, os velhos recebem mais sol nos jardins de Deus.
Nosso corpo é simplesmente um amontoado de átomos (Albert Einstein deixou isso bem claro), que se unem enquanto há vida (Éter, como nominam os cientistas; Deus, para quem desenvolveu a intuição). Creio que todos conhecem o adágio: Orai e vigiai! Por meio da oração entramos em contato com Deus, e por meio da vigília, isto é, da prática do bem, nos alinhamos com o Universo. Só então podemos cavalgar a luz.

domingo, 26 de agosto de 2012

A vida é sempre um recomeçar

BRASÍLIA, 26 de agosto de 2012 – Xarda Misturada, livro de poemas de Joy Edson (José Edson dos Santos), José Montoril e meus, foi publicado em dezembro de 1971, em Macapá. Em 1982, lancei Sob o Céu nas Nuvens, também de poemas, em Belém. Dez anos depois, estreei como contista, com A Grande Farra, em Brasília. Meu primeiro livro publicado por uma editora, Cejup, de Belém, saiu em 1996, o conto A Caça. Em 2000, lancei Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos e em 2005 a Editora Cejup publicou o romance A Casa Amarela. Em 2008, a LGE Editora, de Brasília, lançou O Casulo Exposto, de contos. Todos esses livros venderam, alguns vendem ainda, a conta-gotas.

Em 22 de outubro de 2010, o artista plástico André Cerino, meu amigo desde quando cheguei em Brasília, em 1987, criou o blog raycunha.blogspot.com. Um ano e 10 meses depois, o blog já foi visitado 17.389 vezes. Nunca fui tão lido, e por tantos leitores importantes. Dia 20 passado, comecei MBA em Marketing pela Escola de Administração e Negócios (Esad). A primeira aula dos cursos da Esad são sempre ministradas pelo seu principal executivo, Marcelo Saraceni. Pois bem, na hora das apresentações ele disse para a turma que é leitor do meu blog e me pediu para escrever o endereço eletrônico no quadro.

Depois desse episódio, ocorreu-me que muita gente importante lê meu blog, e até se corresponde comigo, como o poeta Jorge Tufic, do Clube da Madrugada, autor da letra do Hino do Amazonas. Convivi com Tufic entre 1975 e 1977. Bebíamos Antarcticas enevoadas no Bar Nathalia, em Manaus. Hoje, o poeta vive em Fortaleza.

Desconfio que sou lido também, embora esporadicamente, como acusa correspondência fragmentada, por um dos maiores repórteres do mundo, o premiado jornalista e ensaísta Lúcio Flávio Pinto, que vive em Belém do Pará. Outro escritor amazônida que me lê é o compositor popular, contista, ensaísta e professor universitário, o sociólogo Fernando Canto, de Macapá. Correspondência atesta que meu blog é lido ainda por um dos jornalistas políticos mais lúcidos do país, o romancista Ruy Fabiano, e também pelo ensaísta Jorge da Silva Bessa. Desconfio que o embaixador de Portugal em Paris, Francisco Seixas da Costa, seja meu leitor, e tenho certeza de que o embaixador de Cabo Verde em Brasília, Daniel Pereira, lê meu blog. Esclareço que todos os meus leitores são importantes para mim, especialmente minha gata, Josiane, e minha princesa, Iasmim.

Há os leitores que se ofendem com o que eu escrevo e exigem a retirada de seus endereços eletrônicos da mala direta do blog, principalmente simpatizantes do Lulapetismo.

Este mês, passei a publicar apenas um trabalho por semana. É que dia 9 comecei em um novo emprego: assumi a coordenadoria executiva da Proativa Comunicação, agência brasiliense de porte médio, com clientes do nível da inglesa PricewaterhouseCoopers (PwC), uma das maiores firmas de consultoria e auditoria do mundo, presente em mais de 150 países. As atividades lá tomam toda a semana, de modo que passei a me levantar às 4 horas para trabalhar no meu novo romance. Antes, levantava-me às 5. Então, aos sábados de manhã tenho aula de inglês instrumental e à tarde, quando não me sinto muito cansado, escrevo algo para o blog. Como ontem eu me sentia cansado, escrevo esta crônica neste belíssimo domingo, 26.

Mudamo-nos – Josiane, Iasmim, dona Joana (minha sogra) e eu – no dia 27 de maio da 711 Sul, onde moramos durante 4 anos e 4 meses, para o Cruzeiro Novo. O jardim que cultivávamos na 711 lembrava uma mina de pedras preciosas. Rosas amarelas rebentavam em cachos, fazendo-me lembrar Gabriel García Márquez como a um velho amigo, com quem eu me encontrasse quase todas as noites num bar bem iluminado e me contasse histórias caribenhas. Nas noites muito quentes o jasmineiro chorava Chanel número 5. Plantamos também um pau-rosa e a Josiane cultivava orquídeas. Em novembro, a mangueira defronte de casa ficava prenhe de mangas, doces como seios, e o sabiá cantava desde o fim de agosto até fevereiro.

No Cruzeiro Novo o sabiá também canta na mesma época; começa, a cada dia, sempre em torno das 5 horas e entra pela noite. Na 711 Sul, caminhávamos, Josiane e eu, no Parque da Cidade. Às vezes, eu ia até a Rodoviária do Plano Piloto e retornava caminhando, porque gosto de observar o movimento das ruas. Agora só caminho aos sábados e domingos, explorando o entorno da nova moradia. Vivi no Cruzeiro Velho, o bairro dos cariocas, entre 1987 e 1989, e agora percorro, nas minhas caminhadas, velhos roteiros, e vou lembrando das coisas, como marujo perdido dentro de um nevoeiro.

É que naquela época eu era alcoólatra. Comecei a beber em 1968, com 14 anos de idade, e só parei no réveillon de 2011, quando recusei o tradicional champagne. Então, parte do meu passado jaz sob vapor etílico. Mas a vida é um recomeçar, a cada segundo, e há sempre sol vazando nos jardins de Deus.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A idade da sabedoria


BRASÍLIA, 7 DE AGOSTO 2012 – Eu tinha vinte e poucos anos quando Gilberto Araújo, amigo da minha idade, profetizou que nossa geração, afogada no álcool, só iria alcançar a sabedoria após os 50 anos. Em 1996, o ocultista paraense Erwin Von-Rommel me perguntou se eu acreditava em Deus.
- Sim! – afirmei.
- E o que é Deus para ti? – indagou.
- É a harmonia do universo – respondi-lhe prontamente.
Quando reconheci que alcançaria a sabedoria após os 50 anos não sabia bem o que era isso; talvez pensasse tratar-se de alguém com a vida financeira resolvida, e em 1996, Deus, para mim, era um conceito intelectual. Domingo passado, fui ao Seminário da Luz, da Seicho-no-Ie, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, que teve como palestrante o professor Heitor Miyazaki, um iluminado. Durante este seminário, compreendi que sou filho de Deus.
Os astros não se chocam, por causa das leis de atração e de repulsão, da mesma forma que os átomos do nosso corpo. Por quê? A isso os cientistas chamam de lei da gravidade, e também de éter, e eu chamo de Vida, Harmonia, Deus.
Albert Einstein descobriu que a matéria é, de fato, energia, e que o universo funciona por meio de vibrações, que podem ser dissonantes e geram o caos, ou harmônicas, gerando vida. Deus é isso.
Pois bem, estou chegando à sabedoria aos 58 anos de idade, que completo, hoje. Comecei a sentir algo prodigioso, uma espécie de júbilo. Confirmei, por exemplo, que agora vou mais fundo ao mergulhar na mulher amada, desvendando mistérios da natureza feminina, como o desnudar-se das rosas vermelhas ao esplendor da manhã, e cada vez mais nitidamente ouço a música de Mozart no ar, inundando minha alma como Chanel número 5 no corpo de mulheres muito lindas. E quando oro, alço voo cada vez mais em múltiplas dimensões. E já não preciso me esforçar para levantar-me às 5 horas, para escrever, porque, agora, utilizo força mental. O combustível para desenvolvermos força mental é harmonia; suas vibrações têm o poder do primeiro beijo, que contém pureza absoluta, e fé.
Fisicamente, sou comum. A pele começa a ficar engelhada e os músculos se transformam, aos poucos, em gordura. A calva fica maior a cada dia e os dentes já não partem ossos. Contudo, descobri que o mundo físico é apenas uma breve passagem numa dimensão fugaz diante da infinitude do Universo. O fato é que o buraco negro mais gigantesco é nada perante minha mente, pois compreendi que meu Pai é o próprio Criador.

sábado, 21 de julho de 2012

Próximo prefeito de Belém deve resgatar condição de Metrópole da Amazônia


Cai a noite na Estação das Docas, em Belém do Pará: Portal da Amazônia

BRASÍLIA, 21 de julho de 2012 - Manaus, a capital do estado do Amazonas, é o principal centro financeiro e a cidade mais populosa da Amazônia, com cerca de 1.832.423 habitantes (IBGE/2011), e 2.210.825 moradores (IBGE/2010) na sua região metropolitana. É considerada também a capital brasileira que mais evoluiu em qualidade de vida nos últimos dez anos, bem como foi escolhida a única da Hileia como uma das doze sedes da Copa do Mundo de 2014. O PIB de Manaus, em torno de R$ 58 bilhões, representa mais do que o dobro do PIB da colônia francesa da Guiana, do Suriname e da Guiana, juntos. Mesmo assim, Manaus não é a mais importante cidade da Amazônia. Esse título pertence a Belém.

Em quase tudo, Belém é menor do que Manaus. Com cerca de 1.392.031 habitantes (IBGE/2010) e 2.100.319 moradores na sua região metropolitana, seu PIB está em torno de R$ 50 bilhões. Mas nem sempre foi assim. Conhecida como a Metrópole da Amazônia, histórica e culturalmente Belém representa para a região o que o Rio de Janeiro significa para o Brasil. Localizada ao sul da baía de Marajó, formada pelos rios Tocantins e Pará, Belém e Macapá - a capital do estado do Amapá, situada na boca do rio Amazonas, ao norte, tendo ao meio o arquipélago de Marajó – são os portais da Amazônia, ligando a maior bacia hidrográfica do planeta ao oceano Atlântico – a Amazônia Azul setentrional.

Se no fim do século passado a Zona Franca tornava Manaus cada vez mais pujante, Belém mergulhava na decadência. Em 1997, Edmilson Rodrigues, então no PT, foi eleito prefeito de Belém, até 2005. No ano seguinte, entrou Duciomar Costa, do PTB, reeleito em 2010. Uma década e meia perdida. É tempo demais para uma cidade ficar parada. E ainda houve outro problema nesse meio tempo. Em 2006, o PT, já com Lula e a Bolsa Família bombando, elegeram Ana Júlia Carepa governadora do Pará. Ana Júlia só fez bem (será?) uma coisa: dançar carimbó. Nunca se viu neste país incompetência tão grande. Resultado: foram quatro anos de encolhimento do Pará, e, por extensão, de Belém.

De modo que o candidato a prefeito que souber passar a mensagem ao eleitor belenense de que trabalhará com afinco e competência para resgatar a importância de Belém para a Amazônia, será prefeito a partir de 1 de janeiro de 2013.

sábado, 7 de julho de 2012

Ponte que liga o Amapá à Guiana Francesa está pronta, mas BR-156 está longe de ser concluída


BRASÍLIA, 7 de julho de 2007 – O mais influente noticioso televisivo do país, o Jornal Nacional, da TV Globo, mostrou, ontem à noite, um pouco sobre como as coisas costumam funcionar (ou não funcionam) na Amazônia, precisamente no estado do Amapá, no setentrião da costa brasileira, fronteira com a Guiana Francesa, país que a França mantém como colônia na América do Sul.
Em 13 de setembro de 1943, foi criado o Território Federal do Amapá, desmembrando do estado do Pará, e em 1 de janeiro de 1991, foi instalado o estado do Amapá, criado pela Assembleia Nacional Constituinte de 1988. Foi nessa época, aliás, que o maranhense Zé Sarney foi eleito pelos tucujus senador vitalício. Sarney deu notoriedade ao Amapá, que só era conhecido como fonte do melhor manganês do mundo, com o qual o governo brasileiro presenteou os americanos, que o estocaram no Tio Sam e deixaram o buracão no município de Serra do Navio.
Pois bem, com 142.814,585 quilômetros quadrados, o Amapá é cortado longitudinalmente pela A BR-156, que liga Macapá, a capital, a Oiapoque, na divisa com a Guiana Francesa. Essa rodovia começou a ser construída nos anos de 1940. Tem cerca de 900 quilômetros, mas apenas 150 quilômetros foram pavimentados. Em quase sete décadas de construção, já enriqueceu muita gente boa e, pelo jeito, ainda vai encher os bolsos de muita gente boa.
Em agosto de 2011, o Brasil concluiu, após dois anos de construção, uma ponte sobre o rio Oiapoque, no valor de R$ 71 milhões, ligando a cidade de Oiapoque (açougue de carne infantil a turistas libidinosos, que atravessam o rio Oiapoque em busca de aventuras que só o Brasil pode proporcionar) a Caiene, a capital da colônia francesa, a 5 quilômetros de Oiapoque. Do lado francês, a rodovia e as instalações alfandegárias estão prontinhas, mas do lado amapaense só há a decrepitude de sempre.
Atualmente, o Amapá está nas mãos da família Capiberibe. O governador, Carlos Camilo Góes Capiberibe (PSB), 40 anos, é filho do ex-governador por 8 anos e agora senador João Capiberibe e da deputada federal Janete Capiberibe, ambos também do PSB. João Capibiberibe não concluiu a BR-156 e Camilo não leva jeito de que vá concluí-la. Esse negócio de que a rodovia é federal, que é preciso se ajoelhar na frente da presidente Dilma Rousseff, ou ir diretamente a Lula, para que a BR seja concluída, é papo furado. Um governador pode muito; é só ter vontade política. É claro que para isso é preciso também ser avesso a patrimonialismo e a nepotismo, e bater de frente contra as gangs que assaltam o Amapá.
A propósito, segundo o jornal O Estado de São Paulo, até junho de 2010, a verba indenizatória dos deputados estaduais do Amapá era de R$ 15 mil mensais; subiu para R$ 50 mil e depois para R$ 100 mil, por sugestão do presidente da casa, Moisés de Souza (PSC), e acolhida por unanimidade. Foi algo tão descarado que as aves de rapina recuaram e baixaram o saque para R$ 50 mil, ainda assim, a maior do Brasil. Os deputados estaduais de São Paulo recebem R$ 13 mil mensais e os federais, R$ 35 mil (houve aumente recentemente, mas ainda está longe de R$ 50 mil). Detalhe: o Amapá é um dos estados mais pobres da federação.
Moisés de Souza é da turma de Zé Sarney. Falar em Sarney, o senador vitalício criou em Macapá uma “zona franca” de quinquilharias que atraiu boa parte da população pobre do Maranhão. Agora, Zé Sarney tem eleitor até para voltar à presidência da República. Lula, que ungiu Sarney como inimputável, que se cuide.