sábado, 28 de janeiro de 2012

Gozo

Brasília, 28 de janeiro de 2012 - A Feira do Guará é o ponto turístico mais visitado de Brasília. Acho que turismo de negócios, ou de lazer. O turismo histórico da cidade é muito pobre. Quem quiser fazer turismo de história do Brasil deve procurar cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, Belém etc. Em Brasília, só há para ver o trabalho genial de Oscar Niemeyer (se é apropriado para o trópico, ou prático, nisso está a polêmica). Suponho que a Esplanada dos Ministérios e a Praça dos Três Poderes sejam, para os turistas, apenas uma curiosidade sobre a devassidão da roubalheira em Brasília, a cada dia mais ousada, desde que o PTMDB tomou conta do estado brasileiro, a partir de 2003, lançando sua ventosa canina na teta do Erário.

Falávamos da Feira do Guará. Fundada em 1983, atualmente conta com 11.056,25 metros quadrados de área coberta e 526 bancas, como informa seu site (www.feiradoguara.com), de quinta-feira a domingo, das 8 às 18 horas. Vende tudo. Desconfio que até avião. Roupa, então, nem se fala. As confecções vêm principalmente de Goiânia, que é um polo de costura, e também do próprio Guará, que exporta biquínis, por exemplo, para a Europa. Eu moro na 711 Sul, no Plano Piloto. Quando não vou à Feira do Guará no JEY, que é meu carango, um Ford K de 1997, vou de metrô. Ando três quadras até chegar à estação do metrô, na 112 Sul. Caminho até a 512, pela Avenida W3, pego a rua comercial da 312 e depois a 112, e em poucos minutos desço na estação da Feira.

O Guará é um distrito distante cerca de 6 quilômetros do Plano Piloto e a meio caminho de Águas Claras, distrito conurbado a Taguatinga, maior cidade do Distrito Federal, depois de Brasília. Águas Claras foi construída em um dos governos de Joaquim Roriz, que dava incondicional apoio aos barões da especulação imobiliária, com Paulo Octávio à frente. Paulo Octávio é o sujeito mais rico de Brasília, com interesses na construção civil e incorporação, no setor de comunicação social, hoteleiro etc. É dono de um terço da cidade. Outro terço é de Luiz Estêvão, senador cassado, que, juntamente com o juiz Lalau (Nicolau dos Santos Neto), roubou cerca de R$ 203 milhões das obras do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo. Luiz Estêvão foi condenado a devolver R$ 55 milhões. Paulo Octávio e Luiz Estêvão eram amigões de Fernando Collor de Mello.

Águas Claras, uma selva de arranha-céus, foi construída sobre um aquífero. Há locais na região de onde a água mina na rua. Quando chove muito, há pontos que vão para o fundo. Também foi tão mal planejada que tem poste até em calçada. Aliás, nunca se deu muito importância à calçada no Distrito Federal, tanto que se diz que Brasília é para cabeça, tronco e rodas. Com efeito, caminhar no Plano Piloto é uma aventura perigosa.

A Feira do Guará é sempre, aos meus sentidos permanentemente maravilhados, uma viagem romanesca. Logo nas primeiras horas da manhã, ainda há poucas pessoas, então aproveito para ver os peixes e frutos do mar. Adoro ver peixes. Quando morei em Belém do Pará, um dos meus programas prediletos era ver peixes no Ver-O-Peso. Há duas peixarias na Feira, com todo tipo de peixes de água doce e do mar. Até truta, que é um peixe das águas cristalinas dos Estados Unidos e do Canadá, a gente encontra, trazida de criatórios nas montanhas de Minas Gerais. A maior parte dos peixes, principalmente tucunaré, que é o mais saboroso do mundo (mais do que truta), vem do lago de Tucuruí, no Pará. Gosto também de ver os camarões rosa, as lagostas, e todos os animais da água.

Paro na banca da dona Zenaide, de Macapá, irmã do padre Cláudio, que trabalhou durante 10 anos na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em Macapá, e agora está em outra paróquia, em Santana. Dona Zenaide me disse que depois de 25 anos irá, dia 15 de abril, a Macapá, para passar uma semana, rever sua família, especialmente sua mãe. “É dessas emoções que se abastece de vida nossos corações” – pensei. Compro sempre açaí (Tuíra ou Fruta), do grosso, congelado e importado de Belém. Também compro um tipo de farinha de tapioca que só encontro na banca da dona Zenaide – a farinha se desfaz na boca da gente. Compro-a especialmente para dona Joana, minha sogra. Levo ainda tucupi. Às vezes, tomo suco de taperebá, que aqui chamam cajá e tem o sabor um pouco diferente do taperebá da Amazônia. Não tomei hoje porque já degustara água de coco da Paraíba, delícia. Bebo água de coco numa banca só de mulheres. São lindas e espetaculares manejando o facão.

Há uma banca onde compro farinha do Pará: de tapioca, que como com açaí, e farinha d’água amarela, para farofa, utilizada pela minha gata, Josiane, e minha filha, Iasmim, e a média, para mim. Outro dia a Josiane preparou tamuatá - que é um peixe comum no Pará e no Amapá - no tucupi, e deve ser comido com farinha d’água. É um dos pratos mais saborosos de quantos conheço. Sempre digo que tamuatá no tucupi, com farinha, é capaz de fazer qualquer chef francês cair de joelhos.

Também gosto de olhar as bancas de frutas, legumes e folhas. Quanto mais belos e limpos, mais os aprecio. Às vezes, compro limão, tomate, banana da terra (que em Macapá chamamos banana comprida). Compro sempre, numa banca próxima à da dona Zenaide, castanha-do-pará (assada, pois assim não precisa ser guardada na geladeira), castanha de caju e ameixa desidratada e sem caroço, que utilizo para regular o intestino.

Passo sempre na Universidade do Pastel, um dos melhores da cidade, conforme o ranking da revista Veja Brasília, especializada em gastronomia. Levo pastéis para casa, de palmito com catupiri. Às 11 horas os restaurantes começam a se encher. Servem comida típica de todo o continente brasileiro. Certa vez almocei na Feira com minha irmã, Linda, e uma amiga dela. Comeram galinha caipira e eu, mocotó.

Meio-dia, a Feira está bombando. É um dos maiores magotes de mulheres lindas por metro quadrado de Brasília, criaturas que só é possível ver no verão do trópico, produto de séculos de miscigenação, dentro de leves tecidos decotados e sandálias japonesas. “Isso é gozar para valer” – penso.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Minha amante precisa de um prefeito

Anoitecer na Estação das Docas, em Belém do Pará, Amazônia Caribenha
Belém do Pará era a cidade brasileira mais desenvolvida e umas das mais prósperas do planeta, no século 19, a Belle Époque, e continua sendo uma das mais atraentes e movimentadas do Brasil. Fundada em 12 de janeiro de 1616, precisa desesperadamente de um prefeito, que a entenda, que seja honesto, democrático e empreendedor. Seus 1.402.056 moradores (IBGE/2011) certamente ficarão muito gratos, pois há décadas os alcaides tratam o Portão de Entrada da Amazônia como se fosse sanitário público.
A Cidade das Mangueiras é uma península que avança na baía de Guajará, no trópico equatorial, como um pórtico para o Mundo das Águas, o arquipélago de Marajó: o maior rio do mundo, o Amazonas, ao norte; os rios Tocantins e Guamá, ao sul e sudeste; o rio Pará, a sudoeste, e o Atlântico, a noroeste. Só o Amazonas, fertiliza o Atlântico com pelo menos 200 mil metros cúbicos da sua água túrgida de húmus, por segundo. Assim, a Amazônia Azul do setentrião é a maior província piscosa e de frutos do mar do planeta, e a mais mal guardada do Brasil. Mas isso é outro artigo. Agora, precisa-se de prefeito na principal cidade da Hileia.
Quem chega à Metrópole da Amazônia pelo Aeroporto Internacional de Val-de-Cães, à noite, mergulha na baía de Guajará até ver emergir a península de luzes, cada vez mais próxima, e então os gigantescos pneus do jato se chocam no chão e a nave desliza para o terminal de passageiros. Se é madrugada, a cidade parece dormir profundamente, mas suas entranhas fervem nas casas noturnas, feéricas, insones, e que somente o sol as aquietam. Amanhece, e suas ruas é que fervem, agora. A temperatura chega aos 34 graus, chove e a chuva vira vapor. Em alguns pontos, sente-se o cheiro adocicado de cavalo morto, inchado, ao sol e à chuva, minando de esgotos antigos, estourados, no meio-fio.
A esmeralda mais preciosa do Trópico Úmido precisa de um prefeito que não seja covarde como os das cidades que todos os anos vão para o fundo. Precisa de um prefeito que, além de recuperar os prédios tombados, implemente nova infraestrutura básica na urbe e saneie as favelas erguidas sobre fossas.
Embarco em Mosqueiro numa lancha coletiva pública, que faz parada na Vila Sorriso, na Escadinha do Cais, no Porto do Sal e no campus do Guamá, da Universidade Federal do Pará, e faz a linha de volta. Cruzamos com outras lanchas coletivas, de outras linhas. Os passageiros viajam sentados como se estivessem num ônibus. É um sonho recorrente na Cidade Morena, minha amante.
São 7 horas. Aprecio o dorso dos peixes enfileirados no mercado do Ver-O-Peso, maior feira livre da Ibero-América. A mais fantástica variedade de peixes de água doce do planeta, além dos do mar, é enfileirada em balcões de mármore. Há deles de todos os tamanhos e tons, sem falar nos frutos do mar, com seu cheiro de aventura. A cidade dos tupinambás precisa de um prefeito que dê ao Ver-O-Peso a dimensão desse cheiro de romance, que os viajores procuram avidamente.
No meu delírio, quedo-me na Estação das Docas. Uma portuguesinha em vestido de seda passa e deixa um rastro de esperança. Ouço merengue, distante, talvez de um quarto de hotel no sétimo andar, e a tarde me leva, como um rio, para a dimensão do sonho. A chave do sonho é uma cuia de tacacá, jambu, que se entranha na minha memória e desnuda minha amante.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Fora de hora

- Pra mim chega – disse Isaías.

- Vem, filho-da-puta – o outro gritou de dentro d’água. – Vamos lá naquele barco!

Não parecia distante e os dois começaram a nadar no rumo do barco. Então notaram que a maré os arrastava para o largo da Fortaleza São José de Macapá. Isaías levantou a cabeça e procurou ver o trapiche, e viu João nadando bem perto dele. O vento da tarde fazia com que a baía parecesse uma cabeleira revolta, afogando o trapiche, na frente da cidade, com as embarcações atracadas na agitação da água. O sol era uma tela fovista a desfazer-se, cedendo a um azul escuro e sólido, que se acamava no estuário do rio.

Os dois rapazes estavam cansados. Queriam pedir socorro. Ridículo. Melhor não. Depois seriam encontrados no canal do Mangue, por onde a água entra na cidade e, no regresso, leva a imundície do bairro central. Isaías levantou a cabeça, viu, bem perto, um barco, e nadou mais ainda. Agora já se aproximara bastante e pôde ver um cabo na popa do barco, bem próximo do seu nariz. Pensou, uma vez, que fosse ferir o nariz no cabo, mas era o desejo de alcançá-lo que lhe dava essa ilusão. Tentou ver de novo o barco... lembrou-se que poderia sentir cãibra. Olhou para o trapiche e não viu ninguém, depois engoliu água, uma, duas, três goladas, e pensou na sua mãe. Estaria fazendo o jantar, e seu pai, na varanda, bebia uma lata de cerveja, lendo um livro de bolso. Esforçou-se e voltou a nadar, desta vez muito lentamente. Observou que perdera terreno e voltara a se afastar do trapiche. Ficou flutuando alguns segundos, e sentiu que a maré não o arrastava mais.



Ray Cunha. Do livro A grande farra, edição do autor, Brasília, 153 páginas, esgotado

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A bacanal do Bode

Mario Vargas Llosa começou a ganhar o Nobel em 2000, quando publicou A festa do Bode (La fiesta del chivo, Alfaguara/Objetiva, Rio de Janeiro, 2011, 450 páginas), reportagem sobre a ditadura de Rafael Leónidas Trujillo Molina, o Bode, de 1930 a 1961, na República Dominicana, país que divide com o Haiti uma das ilhas do Mar do Caribe, Hispaniola, primeiro território americano a ser descoberto por Cristóvão Colombo. Se quiserem chamar A festa do Bode de romance, tudo bem. “Se o leitor preferir, considere este volume como um trabalho de ficção. Seja como for, ficção ou não, há sempre a possibilidade de que lance alguma luz sobre aquilo que foi escrito como matéria de fato” – escreveu Ernest Hemingway, no prólogo de Paris é uma Festa. O fato é que A festa do Bode disseca a mecânica da mente de um ditador, qualquer um deles. Basicamente, perseguem o poder absoluto, poder que, paradoxalmente, será sempre seu inferno pessoal. Ditadores, e os que gostariam de sê-lo, têm em comum alguns traços: são, em potencial, populistas, nepotistas, patrimonialistas, mentirosos, profundamente covardes, ladrões, perversos, bestas crudelíssimas, torturadores, estupradores, assassinos, criaturas diabólicas. Como se diz em psicologia: psicopatas. Chegam ao poder porque são ousados, e maus, e porque se cercam de preguiçosos, ávidos por carniça, a quem alimentam, para se cercarem de zumbis dispostos a empalar a própria mãe por dinheiro.

O Nobel peruano Mario Vargas Llosa, um
dos maiores escritores de todos os tempos

A festa do Bode: “Ele a segurou pelo braço e deitou-a ao seu lado. Com movimentos de pernas e de cintura, montou sobre ela. Aquela massa de carne a esmagava, afundando-a no colchão; o bafo de conhaque e a raiva lhe davam náuseas. Sentia seus músculos e ossos sendo triturados, pulverizados. Mas nada disso impediu que notasse a rudeza daquela mão, daqueles dedos que exploravam, escavavam e entravam nela à força. Sentiu-se rachada, esfaqueada; um relâmpago percorreu seu corpo do cérebro aos pés. Gemeu, sentindo que ia morrer. “Grite, sua cadelinha, vamos ver se você aprende” – cuspiu a vozinha ferina e ofendida de Sua Excelência. “Agora, abra-se. Deixe eu ver se está furada mesmo, se você não está gritando só de farsante que é.”

Creio que foi em 2006 que visitei meu amigo Walmir Botelho, em Belém do Pará. Ele é um dos leitores mais sem limites que conheço. Recomendou-me que lesse A festa do Bode. Já em Brasília, procurei o livro de Llosa, mas estava esgotado. Llosa ganhou o Nobel ano passado e logo depois as livrarias exibiam montes de livros dele. Comprei A festa do Bode no dia 24 de dezembro de 2011 e terminei-o de ler, ontem, dia 11 de janeiro de 2012. Lia-o à noite, em casa, ou no ônibus a caminho do trabalho. Desde o início, não dormi mais direito, passando, às vezes, a noite em claro, ou entrecortada de pesadelos. Às vezes, lendo-o, eu era possuído de indignação, e também sentia meus olhos ficaram húmidos.

Rafael Leónidas Trujillo Molina, o Bode, animal que
deteve poder absoluto na República Dominicana
A festa do Bode: “Quando o castraram, o fim estava próximo. Não cortaram os testículos com uma faca, mas com uma tesoura, enquanto estava sentado no Trono. Ouvia risos hiperexcitados e comentários obscenos, de uns sujeitos que eram apenas vozes e cheiros ácidos, de axilas e fumo barato. Não lhes deu o prazer de ouvi-lo gritar. Eles lhe enfiaram os testículos na boca, e ele os engoliu, desejando que tudo aquilo apressasse a sua morte, coisa que nunca imaginou que pudesse desejar tanto”.

Até onde vai meu conhecimento literário, vejo na Ibero-América três escritores realmente monumentais, que podem ser colocados lado a lado na prateleira dos grandes: o argentino Jorge Luis Borges, o colombiano Gabriel García Márquez e o peruano Mario Vargas Llosa. Borges, porque entendeu o que é espaço-tempo e transcendeu, na literatura, nosso grosseiro mundo físico; Gabo, porque pôs como ninguém no papel o que os europeus chamam de realismo fantástico, que é, tão somente, o Trópico; e Llosa porque é um construtor de catedrais.

A festa do Bode: “Duas ou três semanas depois, em vez do habitual prato fedorento de farinha de milho, trouxeram para o calabouço uma panela com pedaços de carne. Miguel Ángel Báez e Modesto quase engasgaram, comendo com as mãos até se fartar. Pouco depois, o carcereiro voltou a entrar. Olhou para Báez Díaz: o general Ramfis Trujillo queria saber se não lhe dava nojo comer o seu próprio filho. Do chão, Miguel Ángel o insultou: “Diga a esse filho da puta nojento que engula a língua e se envenene”. O carcereiro riu. Foi e voltou, mostrando pela porta uma cabeça juvenil que segurava pelos cabelos. Miguel Ángel Báez Díaz morreu horas depois, nos braços de Modesto, de um ataque cardíaco”.

A festa do Bode será sempre um alerta contra as ditaduras, como a de Hugo Chávez, que, juntamente com sua família, está roubando tudo dos venezuelanos. Mas por que essas serpentes não caem? Porque, como a metástase, contaminam quase todo o país, sobrevivendo do cadáver. Por isso é que não basta apenas eliminá-los - é necessário recomeçar tudo. O povo cubano, por exemplo, terá que enterrar, além dos ossos de Fidel Castro e quadrilha, também o “comunismo” cubano, que hoje é apenas nostalgia das viúvas. Ditaduras, sejam de esquerda (?) ou de direita (?), são uma coisa só: degradação humana.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Belém, meu amor, ou uma declaração de amor desesperado

Vivi em Belém parte da minha vida, grandes amores, casei-me; graduei-me em jornalismo (embora, antes de ingressar na faculdade, já ganhasse o pão de cada dia com jornalismo há 7 anos); e publiquei meu único livro de poemas, Sob o céu nas nuvens. Durante mais de uma década, andei, como repórter, por toda Belém, conhecendo-a amplamente, e durante minha estada na cidade atravessei um dos períodos mais duros da minha vida, quando, despejado e desempregado, encontrei refúgio na Casa do Estudante Universitário do Pará (Ceup). Foi uma das escolas, as quais, graças a Deus, sempre encontrei, que me enrijeceram como um espartano.

Sou de Macapá, mas elegi Belém como meu amor. Amo todas as cidades onde já vivi, pois não podemos viver numa cidade sem a amar, pelo menos não por muito tempo. Todas as vezes que vou a Macapá é como se voltasse a encontrar as primeiras mulheres que me beijaram, provocando o cataclismo de sentimentos que nos orienta por toda a vida. Macapá me sacode, me lança no ar, como nos sonhos que às vezes povoam minhas noites. É como se eu estivesse correndo numa planície de zínias e rosas, cortada pelo maior rio do mundo, desaguando na noite prenhe de jasmineiros chorando. Evoca-me amores da juventude, madrugadas curvado sobre papel em branco, aguardente, imortalidade, que, depois descobrimos, não é física. Namorei carnalmente Macapá durante 17 anos. Nosso namoro continua firme, mas agora só no coração.

Também amo o Rio de Janeiro. Vivi, durante dois anos, em Copacabana, e assim fui seduzido, como todos, para sempre. Sinto-me em casa, no Rio de Janeiro, e, todos os dias, com a sensação do retorno. Em 2010, passei uma semana com minha gata, Josiane, hospedados num hotel no Flamengo. Curtimos adoidado a Zona Sul, descobri novos segredos e vi coisas que nunca vira, com o olhar encantado, mais maduro, do descobridor.

Em Manaus, é a mesma coisa, e em cada cidade a vida se multiplica infinitamente em magia. Como em Brasília, onde nasceu Iasmim.

Belém é como mil e uma noites. Na minha realidade, vejo-a como uma mulher que emerge, lentamente, do rio, nua. Tento me aproximar dela e, antes de alcançá-la, desaparece no bar do clube, mas deixa um rastro de maresia, Chanel número 5, champanhe e rosas vermelhas. Ela para, volta-se e diz meu nome. Sua voz é como o pulsar da música de Mozart. Finalmente a alcanço, pego-a pelo cangote e a beijo. Sua boca tem sabor de acme.

Em 13 de fevereiro de 2011, publiquei neste blog uma crônica em homenagem a Belém do Pará, que, nesta quinta-feira 12, completará 396 anos de fundação. Publico, agora, a mesma crônica, com a necessária revisão.

Nem os ratos - que se dedicaram a te assaltar, a te depredar, a te estuprar, que te morderam os seios - conspurcaram tua beleza, nem reduziram tua eternidade, Belém. Parabéns, querida, pelos teus 396 anos, que completas em 12 de janeiro deste 2012. Conforme a Breve história da Amazônia, de Márcio Souza (Agir, Rio de Janeiro, 2001, 239 páginas), naquela data, em 1616, os portugueses, comandados por Francisco Caldeira Castelo Branco, desembarcaram numa enseada na foz do rio Guamá e começaram a construir uma fortaleza, a que chamaram Forte do Presépio, e à cidade que foi surgindo em torno do forte chamaram de Santa Maria de Belém.
Os tupinambás, que lá moravam, não deram descanso aos invasores. Mas, além de armas de fogo, “os portugueses eram superiores em proselitismo religioso e em doenças letais” – como diz Márcio Souza. E em 1626, assumiu o governo do forte Bento Maciel Parente. Se os colonizadores portugueses eram brutais, pareciam gentis diante da loucura de Bento Maciel Parente, que mandava amarrar os membros dos índios em cavalos ou em canoas até que fossem rasgados, vivos. Pelo menos 2 milhões de índios foram assassinados na Amazônia, escravizados em nome de Jesus Cristo, atingidos por letais doenças europeias, degolados, esquartejados ou fuzilados.
No começo do século XX, a exportação de borracha tornou Belém e Manaus, sua vizinha nas distâncias amazônicas, as cidades mais ricas do país. Em 1910, os ingleses começaram a plantar seringueiras no sudeste asiático, causando a débâcle da borracha na Amazônia. Aí começou o declínio de Belém. Hoje, Belém é uma cidade sucateada, inchada, violenta, infestada de bandoleiros e ratazanas, com suas ruas emporcalhadas de esgoto minando do meio-fio, cidadela corrompida por alcaides parasitários, e, durante quatro anos (2007-2010), também por um governo letal como câncer metastático.
Contudo, Belém é bela como mangueiras em dezembro, carregadas de mangas, doces como seios, como mulher na rede, mulher amada. É assim que Belém vive no meu coração. Quando chegamos a Belém, ao amanhecer, pela baía do Guajará, nós, que a amamos, vemo-la se despir, aos poucos, da névoa, até emergir, nua. Se chegamos de avião e é noite, as luzes na península, como miríade na noite que desaba sobre a baía, anunciam-se como óvni, até pousarmos no bolsão de sol noturno de Val-de-Cães. À tarde, o céu sangra de tão azul. 
Já não controlo meu coração. Faço desjejum no Ver-O-Peso, café recém-coado, com tapioquinha amanteigada, e depois vou apreciar os peixes enfileirados nos balcões de mármore do mercado - os pirarucus são, talvez, os mais bonitos, os filhotes são enormes e os meros, imensos, há sempre piramutaba, pescada, tucunaré, curimatã, tamuatá, gurijuba, mapará, camarão e toda sorte de frutos do mar. Almoço no Ver-O-Peso, dourada com pirão de açaí, ou filhote no Restaurante Remada, ou dourada com vinagrete e farofa na Vila Sorriso, ou pirarucu ao molho de castanha-do-pará no Mangal das Garças. À tarde, vagabundeio, tomo tacacá na banca do Colégio Nazaré e sorvete de tapioca na Cairu, e, à noite, janto caldeirada de filhote no Remada e bebo Cerpinha no banheiro do hotel, enquanto me arrumo para o encontro com a madrugada. Assim, os dias se sucedem com cheiro de maresia, mulheres caminhando, merengue, bebedeiras, o rio.
Belém é a Catedral da Virgem, rosas para a madrugada, lembranças guardadas numa prece, como as mulheres mais bonitas do mundo, que exalam perfume das virgens ruivas, espargem um rastro de devaneio, que só podemos sentir com o coração. Ungido pelos deuses, entrei neste santuário e dele estou grávido para sempre. Belém, como as mulheres muito bonitas, inesgotáveis de tão intensas, desencadeia, na minha memória, um cataclismo de rosas colombianas, o Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart, jasmineiros chorando em noite tórrida, o céu de julho, na Amazônia, que sangra um jorro de giz azul nas tardes de risos.
Ouço o riso das mulheres mais bonitas do mundo, trotando nos calçadões, sentadas, tomando tacacá, naquele momento em que a noite cai lentamente, se acamando, até as luzes da noite tremeluzirem como composição de Debussy, e sentirmos sabor de leite da mulher amada, lábios de pétalas de rosas vermelhas, esmigalhadas, Chanel número Cinco, Dom Pérignon e maresia. Acomodado numa cadeira de palinha, na Estação das Docas, observo o rio e a tarde. Um iate parte. Talvez vá para Macapá, ou para Trinidad e Tobago. Talvez vá para Caiena. Ou para Mosqueiro. Ou Salinas. De qualquer forma, haverá de ir para um lugar lindo, pois a tarde é povoada de mulheres em vestidos de seda. Vindo de algum lugar, remoto, penso ouvir merengue. Concentro-me numa prece. O mundo gira. Sinto a mesma vertigem de missa na Catedral. Tenho certeza, então, de que estou em Belém.
Caminho nas tuas ruas rumo aos segredos que só eu conheço, como ouvir o anoitecer na Estação das Docas, ver passar as mulheres mais bonitas do mundo enquanto tomo tacacá defronte ao Colégio Nazaré, ouvir o rio. O mundo nos quebra, mas tudo o que amamos permanece intacto no relicário do coração: o mundo a girar ao perfume de gim inglês no Cosa Nostra; a alegria das mulheres no Kalamazoo, ao som de merengue e da madrugada; uma declaração de amor desesperado. 

Brasília, 13 de janeiro de 2011