quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Minha amante precisa de um prefeito

Anoitecer na Estação das Docas, em Belém do Pará, Amazônia Caribenha
Belém do Pará era a cidade brasileira mais desenvolvida e umas das mais prósperas do planeta, no século 19, a Belle Époque, e continua sendo uma das mais atraentes e movimentadas do Brasil. Fundada em 12 de janeiro de 1616, precisa desesperadamente de um prefeito, que a entenda, que seja honesto, democrático e empreendedor. Seus 1.402.056 moradores (IBGE/2011) certamente ficarão muito gratos, pois há décadas os alcaides tratam o Portão de Entrada da Amazônia como se fosse sanitário público.
A Cidade das Mangueiras é uma península que avança na baía de Guajará, no trópico equatorial, como um pórtico para o Mundo das Águas, o arquipélago de Marajó: o maior rio do mundo, o Amazonas, ao norte; os rios Tocantins e Guamá, ao sul e sudeste; o rio Pará, a sudoeste, e o Atlântico, a noroeste. Só o Amazonas, fertiliza o Atlântico com pelo menos 200 mil metros cúbicos da sua água túrgida de húmus, por segundo. Assim, a Amazônia Azul do setentrião é a maior província piscosa e de frutos do mar do planeta, e a mais mal guardada do Brasil. Mas isso é outro artigo. Agora, precisa-se de prefeito na principal cidade da Hileia.
Quem chega à Metrópole da Amazônia pelo Aeroporto Internacional de Val-de-Cães, à noite, mergulha na baía de Guajará até ver emergir a península de luzes, cada vez mais próxima, e então os gigantescos pneus do jato se chocam no chão e a nave desliza para o terminal de passageiros. Se é madrugada, a cidade parece dormir profundamente, mas suas entranhas fervem nas casas noturnas, feéricas, insones, e que somente o sol as aquietam. Amanhece, e suas ruas é que fervem, agora. A temperatura chega aos 34 graus, chove e a chuva vira vapor. Em alguns pontos, sente-se o cheiro adocicado de cavalo morto, inchado, ao sol e à chuva, minando de esgotos antigos, estourados, no meio-fio.
A esmeralda mais preciosa do Trópico Úmido precisa de um prefeito que não seja covarde como os das cidades que todos os anos vão para o fundo. Precisa de um prefeito que, além de recuperar os prédios tombados, implemente nova infraestrutura básica na urbe e saneie as favelas erguidas sobre fossas.
Embarco em Mosqueiro numa lancha coletiva pública, que faz parada na Vila Sorriso, na Escadinha do Cais, no Porto do Sal e no campus do Guamá, da Universidade Federal do Pará, e faz a linha de volta. Cruzamos com outras lanchas coletivas, de outras linhas. Os passageiros viajam sentados como se estivessem num ônibus. É um sonho recorrente na Cidade Morena, minha amante.
São 7 horas. Aprecio o dorso dos peixes enfileirados no mercado do Ver-O-Peso, maior feira livre da Ibero-América. A mais fantástica variedade de peixes de água doce do planeta, além dos do mar, é enfileirada em balcões de mármore. Há deles de todos os tamanhos e tons, sem falar nos frutos do mar, com seu cheiro de aventura. A cidade dos tupinambás precisa de um prefeito que dê ao Ver-O-Peso a dimensão desse cheiro de romance, que os viajores procuram avidamente.
No meu delírio, quedo-me na Estação das Docas. Uma portuguesinha em vestido de seda passa e deixa um rastro de esperança. Ouço merengue, distante, talvez de um quarto de hotel no sétimo andar, e a tarde me leva, como um rio, para a dimensão do sonho. A chave do sonho é uma cuia de tacacá, jambu, que se entranha na minha memória e desnuda minha amante.

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