terça-feira, 27 de março de 2012

Os dias são eternos

A cantora amapaense Juliele: voz azul
(Foto de Drika Bourquim)

Levanto-me às 5 horas. No banheiro, perscruto, ao espelho, meu rosto, cheio de rugas e cicatrizes. Gosto do que vejo, pois meus olhos guardam a eternidade dos 21 anos. “Todos os dias, sob todos os aspectos, vou cada vez melhor!” – penso. Olho minha gata; procuro ouvir sua respiração, divisando suas curvas, sempre misteriosas, sob o fino lençol, à luz mortiça do abajur. Saio para o corredor. Ouço o amanhecer. Os sons da casa se confundem com o latejar do sangue nos tímpanos, marés longínquas. Avanço para a cozinha. Preparo meu café, 3 Corações, gourmet, passado em coador Melita. Bebo três xícaras de 100 ml com leite em pó e duas fatias de pão com passas. Quando há cuscuz, tapioquinha amanteigada, doces ou tortas, bebo café puro. Então estou preparado para o melhor do meu dia.

Crio ao computador. Passaria o dia todo escrevendo, se fosse possível, mas se posso escrever durante pelo menos uma hora o dia será esplêndido. Faço a barba, e enquanto me visto namoro minha gata. Pego o circular na Entrequadra 510/511 Sul, desço defronte ao Pátio Brasil e atravesso o Setor Comercial Sul com destino à Rodoviária do Plano Piloto. Essa travessia é sempre uma aventura, porque cruzo com as mulheres mais bonitas do mundo, recém-saídas do banho, iluminando-me com o cio de virgens ruivas. São 21 graus centígrados. A temperatura perfeita.

Da Rodoviária do Plano Piloto até o meu trabalho dá uma hora de ônibus. Trabalho com afinco até o almoço. Às vezes, volto mais cedo para o Plano Piloto, almoço no Conjunto Nacional ou no Venâncio 2000, e dou uma volta na Livraria Leitura. A do Pátio Brasil é a melhor. Ontem, estava lá quando ouvi uma canção do Fernando Canto, uma que fala no Laguinho, na doce voz da Juliele. Larguei o livro que estava folheando e olhei para o grande monitor da livraria. Não era DVD; era CD. Olhei para o local onde os discos são postos para tocar e avistei meu velho amigo, o radialista Carlos Lobato, de Macapá. Ele estava divulgando o mais recente CD da Juliele, sua esposa.

Abraçamo-nos. Certa vez, quando éramos jovens, em Belém, fizemos uma farra, juntamente com duas gatinhas, de meter medo. Lembramo-nos disso, e de tudo. É interessante como num segundo que seja cabe a eternidade. Conversamos sobre a Juliele. Ela tem potencial para ascender ao show bizz nacional e internacional: sabe cantar, é jovem, bonita, e tem apresentação no palco. Só precisa soltar a voz.

Brasília, 27 de março de 2012

quinta-feira, 22 de março de 2012

Ministério Público entrega Marajó aos ratos d’água


BRASÍLIA, 22 de março de 2012 - O arquipélago do Marajó é um momento inspirado de Deus. É impossível dizer com precisão quantas ilhas o integram, pois há sempre novas ilhas nascendo ou sucumbindo na ditadura das águas. Contudo, registram-se 1.200 ilhas. O arquipélago flutua entre a foz do maior rio do mundo, o Amazonas, a oeste; a boca do rio Tocantins, a leste; o rio Pará, ao sul; e o mar Atlântico, ao norte. A Linha Imaginária do Equador o corta na altura da ilha Mexiana, antes de dividir Macapá, a capital do Amapá, em duas. No mapa múndi, a ilha de Marajó, a maior do planeta em águas salobras, se destaca do tamanho de Portugal; maior do que a Jamaica, Porto Rico ou Tinidad e Tobago, no Caribe; ou do que a Córsega, na França mediterrânea, ou a ilha de Creta, no mesmo mar europeu-africano. O arquipélago é rico. Suas praias atlânticas são estonteantes; seus açaizais, imensos; seu rebanho bubalino, o maior do Brasil; sua cerâmica, exportada e traficada para o mundo inteiro; sua produção de frutos do mar faz do Pará o maior produtor de peixe do país. E o genial romancista Dalcídio Jurandir nasceu em Ponta de Pedras.
 
O arquipélago é um três-por-quatro da Amazônia: paradoxal. A Amazônia é rica, e miserável. Seus recursos naturais são explorados por uma elite escravocrata. Assim, o caboclo – que é mais uma cultura do que uma etnia -, o caboclo que tentou redenção na Cabanagem, continua na senzala, como máquina mecânica a ser usada até suas peças se quebrarem. Imersos nesse mundo medieval e sem perspectiva política, índios aculturados, negros, cafuzos, mamelucos e mulatos continuam sob o látego da elite cartorial portuguesa.
Nesse arquipélago paradisíaco, curumins morrem devorados por vermes e micróbios; crianças são estupradas em balsas e iates a troco de comida; ratos d’água atacam famílias de ribeirinhos, estupram as mulheres e levam o que encontram. Essa realidade horrenda se desenrola com música incidental, a ladainha dos governos paraenses – Jader Barbalho, Almir Gabriel, Simão Jatene, Ana Júlia Carepa, Simão Jatene, qualquer um deles – de que vão criar um grupo de trabalho que estudará ações para o desenvolvimento do Marajó, quando a mais importante ação, a Hidrovia do Marajó, foi engavetada pelo Ministério Público Federal, em 1998.
Quando Luiz Inácio Lula da Silva (PTMDB) assumiu como imperador, em 2003, aí é que a coisa se complicou mesmo para o Marajó, pois como ocorre em todo o país, o Marajó estacou. Em 2006, Ana Júlia Carepa, também do PTMDB, assumiu o desgoverno do Pará. Então a situação piorou, e muito. Os governos federal e do Pará estiveram, sempre, de costas para o paraíso. Bastaria que estendessem o linhão de Tucuruí à ilha e também construíssem a Hidrovia do Marajó para que a região estonteante desabrochasse do seio das águas.
Segundo o Departamento de Ciências Humanas do Museu Paraense Emílio Goeldi, os primeiros grupos ceramistas chegaram ao Marajó há 3 mil anos antes de Cristo, vindos do Caribe e da Colômbia, descendo a costa paraense até o rio Gurupi, que divide o Pará do Maranhão. Na ilha, construíram, habitaram e utilizaram, como cemitério, tesos (aterros) e sambaquis (aterros de conchas), e produziram peças de cerâmica e utensílios de pedra, osso e concha. Foram identificadas cinco ocupações sucessivas no Marajó. A primeira, conhecida como Ananatuba, habitou a costa norte, entre 1100 e 200 antes de Cristo; a segunda, Mangueiras, conquistou e assimilou a anterior, entre 1000 antes de Cristo e 100 depois de Cristo, convergindo para o centro da ilha; a terceira, Formiga, que habitou a região do lago Arari, viveu de 100 a 400 - sua cerâmica era inferior a dos grupos anteriores; e a cultura Marajoara ocupou a ilha de 400 até 1350, também na região do lago Arari; seguiu-se a cultura Aruã, único grupo existente no Marajó quando da chegada dos portugueses, que, a partir de 1500, dizimaram o gentio. No século XVIII, descobriu-se a cerâmica marajoara, da mais complexa das culturas que habitaram a grande ilha. Os pesquisadores Mário F. Simões e Fernanda Araújo-Costa identificaram 45 sítios arqueológicos na ilha do Marajó. O mais famoso, visitado e explorado continuamente há mais de um século, é o sítio-cemitério Pacoval, da fase Marajoara, situado na praia leste do lago Arari, acima da boca do igarapé das Almas. O Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, possui um acervo de cerâmica marajoara inigualável.
Em Icoaraci, a Vila Sorriso, como o jornalista Aldemyr Feio batizou este belo subúrbio de Belém, produz-se imitação de cerâmica marajoara em escala. Turistas de todo o mundo aparecem por lá para comprar e ver como se faz a cerâmica. Há vasos de todos os tamanhos e preços; alguns, belíssimos.
Se o Marajó é estonteante em beleza - inclusive aquela beleza que não identificamos prontamente no horizonte geográfico, pois é um estado de espírito, oxigenado por elementos sutis, como o bamboleio da cabocla dançando carimbó -, o arquipélago, em sua crua realidade, é o Inferno Verde. Por isso é que a Hidrovia do Marajó seria fundamental para o desenvolvimento do arquipélago e do vizinho estado do Amapá, já que encurtaria pela metade a distância entre Belém, a mais importante cidade da Amazônia, e Macapá, capital do Amapá, que mantém intenso comércio com os belenenses. A proximidade da hidrovia com o porto de Santana, na zona metropolitana de Macapá, possibilitaria que produtos paraenses, como, por exemplo, açaí, piramutaba, cerâmica de Icoaraci e minérios, cheguem aos Estados Unidos, Europa e Japão (via Canal de Panamá) com redução de custo.
Mas, em 1998, o Ministério Público Federal entrou com ação civil pública embargando a obra, mesmo considerada como a única possibilidade de reverter o secular isolamento e empobrecimento da região. A obra consistiria tão somente em um canal ligando os rios Atuá e Anajás, mas foi encontrado um sítio arqueológico durante a elaboração do relatório de meio ambiente da hidrovia.
O rio Anajás vem sendo poluído por óleo e graxa de embarcações que trafegam na área e há devastação da floresta e dos açaizais para a extração de palmito na região. A hidrovia acabaria com esses problemas, pois facilitaria a fiscalização das embarcações e das atividades madeireiras e de coletores de palmito. A facilidade de acesso que a hidrovia proporcionaria permitiria também a implementação ininterrupta das campanhas de saúde junto às comunidades na parte central do arquipélago, varrido pela malária.
Em entrevista a este repórter, em 2008, o deputado federal Nilson Pinto (PSDB/PA), doutor em geofísica, ex-reitor da Universidade Federal do Pará (UFPA), afirmou: "A Hidrovia do Marajó é uma obra de infraestrutura fundamental para o estado do Pará, promovendo a ligação mais eficiente entre Belém e Macapá, passando pelo centro da ilha do Marajó e economizando horas de viagem. Essa obra, que é simplíssima, enfrenta percalços por falta de conhecimento, pelo excesso de zelo gerado pelo desconhecimento de algumas autoridades. O Ministério Público entende que a obra criaria problemas ambientais e tem procurado impedir de todas as formas que seja realizada, e tem conseguido isso, até agora. Há excesso de zelo de um lado e desconhecimento de causa por outro lado. Tem-se apenas de construir um canal de 32 quilômetros, numa região plana, desabitada, sem, absolutamente, nenhum tipo de problema que possa surgir com a construção do canal. A obra se resume, praticamente, na construção do canal.
"Para quem acha que isso é algo portentoso e agressivo ao meio ambiente, eu recomendo que faça uma visita, in loco, ou pela internet, ao canal Reno-Danúbio, na Alemanha, concluído há várias décadas e que liga a bacia do rio Reno à bacia do rio Danúbio. O Reno deságua no Mar do Norte. O rio Danúbio deságua no Mar Negro. Assim, os alemães ligaram o Mar do Norte ao Mar Negro. Trata-se de um canal de 171 quilômetros de extensão, com 66 eclusas, com desníveis fantásticos, tudo em plena operação, no coração da Alemanha, avançando por terras que têm toda uma história pretérita, que vem do tempo do Império Romano, passando por preciosidades arqueológicas e pelo coração de um país que tem um amor pela questão ambiental fantástico. A obra foi feita no meio da Alemanha e não gerou absolutamente nenhuma reclamação, no país que mais cuida do meio ambiente no mundo.
"Para fazer uma obra cinco vezes menor, de impacto ambiental mil vezes menor, na ilha do Marajó, nós temos um problema terrível com o Ministério Público. Eu não acredito que seja por conhecimento de causa, o que mostraria que essa obra não causará praticamente nenhum impacto ambiental. Acredito, sim, que é desconhecimento de quem acha que vai preservar a Amazônia impedindo que as pessoas que nela moram de ter melhores condições de sobrevivência. É um enorme equívoco do Ministério Público, que não tem competência técnica para opinar e está exorbitando da sua função. Deveriam se basear nos trabalhos dos órgãos técnicos competentes nessa área e não emitir pareceres apenas para defender uma posição aparentemente de defesa da Amazônia, do meio ambiente, mas que, na verdade, é uma posição absolutamente retrógrada, que nada tem a ver com desenvolvimento sustentável.
"O Ministério Público se arvora o direito de defender uma causa que não é de ninguém, mas causa de um ou outro visionário que resolveu fazer de uma questão pequena algo grandioso, não sei com que finalidade. O caso está na Justiça, que tem de se basear naquilo que é correto do ponto de vista do aproveitamento das nossas hidrovias, dos rios, que são as vias naturais que temos para deslocamento na Amazônia; tem que se basear na verdade extraída da competência técnica das instituições amazônicas, para poder dar a decisão. Não podemos ficar com uma visão unilateral emperrando o desenvolvimento da região, a melhoria da qualidade de vida da população. O Ministério Público precisa se reciclar. A minha sugestão é que o pessoal do Ministério Público estude mais. Não basta trabalhar com a visão ideológica. Aliás, o Ministério Público não existe para trabalhar com visão ideológica. Ele tem de trabalhar pelo interesse da sociedade, dentro da visão legal.
"Há um claro exagero por parte dos ambientalistas. É necessário para qualquer obra importante, em qualquer lugar e, principalmente, na Amazônia, que se tomem os cuidados para se evitar impactos ambientais de porte. Isso é necessário e existe conhecimento técnico em várias instâncias, neste país, para assessorar a realização de uma obra sempre que isso é necessário. O que nós não podemos aceitar é a visão da redoma. Somos frontalmente contra a visão preservacionista que vê apenas a floresta e esquece as pessoas que moram na floresta, uma posição absolutamente atrasada" – argumentou Nilson Pinto.
Segundo o senador Mário Couto (PSDB/PA), em declaração feita ainda no primeiro governo tucano de Simão Jatene (2003-2006), eleito novamente governador do Pará, em 2010, "o Ministério Público Federal já recebeu mais de 50 quilos de documentos da parte do governo do Pará, mostrando que os impactos ambientais da hidrovia serão mínimos, comparados aos impactos positivos que ela proporcionará; as medidas mitigadoras e ações compensatórias, já detalhadas em farta documentação, superam qualquer dano que a obra possa causar".
O projeto da Hidrovia do Marajó é fruto de convênio celebrado entre os governos estadual e federal, com contrapartida de 50%. "Já foram realizados todos os estudos técnicos e ambientais (EIA/Rima) para a dragagem de 32 quilômetros do canal destinado a perenizar a interligação das bacias dos rios Atuá e Anajás, interligação já existente pela própria natureza, mas durante somente seis meses de cheia" - explicou o engenheiro da Administração das Hidrovias da Amazônia Oriental (Ahimor), Antônio Alberto Pequeno de Barros.
A construção da hidrovia consiste na dragagem de 9 milhões de metros cúbicos entre os rios Atuá e Anajás, a fim de garantir a navegação, na época da seca, de comboios com até 2.800 toneladas de capacidade de carga em quatro chatas, de Belém a Macapá, vice-versa. Segundo o projeto, a hidrovia atravessará pelo meio o arquipélago no sentido sudeste-noroeste, levando novas oportunidades de emprego e de renda para a população local e facilitando o escoamento da produção de todo o Marajó. Os 580 quilômetros que hoje separam Belém de Macapá, porque a ilha do Marajó tem de ser contornada, diminuirão para 432 quilômetros pelo meio da ilha. Haverá uma redução de 148 quilômetros entre a capital do Pará e a capital do Amapá.
"Além disso, a obra vai permitir acesso aos diversos recursos naturais da região marajoara, modernização do seu parque agropecuário e suprimento dos mercados consumidores de Belém e Macapá, viabilizando a criação de bacias leiteiras e estimulando a piscicultura" - observa Antônio Alberto Pequeno de Barros, alinhando, também, entre os impactos sócio-econômicos, o desenvolvimento do turismo flúvio-ecológico e a integração nacional do Marajó e do Amapá por meio da Hidrovia Araguaia-Tocantins.
A Secretaria Executiva de Transportes do Pará e a Ahimor cumpriram todas as exigências legais, tais como elaboração de EIA/Rima e realização de audiências públicas. Em setembro de 1998, a Secretaria Executiva de Ciência, Tecnologia e Meio-Ambiente do Pará concedeu a licença ambiental para instalação da obra, que foi renovada anualmente, até 2002. Acontece que, por força da ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal, até hoje o projeto da hidrovia não conseguiu sair do papel e a consequência disso é que a população do Marajó sofre os efeitos devastadores de doenças infecto-contagiosas, principalmente malária, de erradicação remota diante da dificuldade de acesso para a implementação de ações necessárias para debelar a doença.
O governo do estado e o Ministério dos Transportes chegaram a tomar todas as providências para o início das obras, inclusive a avaliação das terras localizadas nos municípios de Anajás e Muaná, feita por técnicos do Instituto de Terras do Pará (Iterpa). Procuradores do estado foram ao encontro dos comunitários para fazer o pagamento das indenizações no próprio local. Um convênio para distribuição do material lenhoso também foi celebrado com as prefeituras de Anajás e Muaná. Além disso, um plano de saúde foi elaborado para atender a área de influência da futura hidrovia. O plano envolve a construção de ambulatórios, proteção aos operários que trabalharão na obra e imunização contra doenças endêmicas. O fato é que está tudo pronto para que a obra seja realizada. Só depende do Ministério Público Federal.
A Hidrovia do Marajó só sairá do papel se os governos do Pará e do Amapá se unirem para valer por essa causa, levando-a ao Supremo Tribunal Federal (STF). E, se for preciso, os parlamentares do Pará e do Amapá no Congresso Nacional e nas assembleias legislativas dos dois estados, comprometidos com o desenvolvimento da região, podem sair a campo e coletar assinaturas para entrarem no Congresso com um projeto popular que crie exceção em prol do desenvolvimento da Amazônia, pois, como se sabe, o Brasil é um continente e a Amazônia é outro Brasil, ignorado por Brasília e borrifado de perfume barato pela TV Globo. Acabamos de ver que quando o povo quer, pode qualquer coisa. A Lei da Ficha Limpa que o diga.

segunda-feira, 19 de março de 2012

CONTO/Buenos Aires

Sulistrowski conversava em polonês com alguém. Enquanto conversavam, Isaías tomava seu bom whisky, olhando através da vidraça o ar frio lá fora.

- Vamos embora – disse Sulistrowiski, a certa altura.

Isaías perdera-se no emaranhado da cidade. Tinha noção de que atravessara a zona portuária, por sobre um viaduto, e foram para uma parte desconhecida de Buenos Aires. E agora estavam chegando ao bairro das paraguaias – uma porção de casebres espalhados na escuridão. Pararam na frente de uma casa e saltaram do carro. Havia vários rapazes aquecendo-se em torno de uma fogueira. Isaías sentou-se por ali e Sulistrowski entrou na casa. Parecia que já estivera lá e conhecia a dona do negócio. Pouco depois Isaías olhou para dentro e viu uma prostituta sobre uma cama fornicando com um rapaz. Ela cantava para ele, com voz horrorosa. Assim que o rapaz saiu entrou outro, que ficou à espera de que a prostituta acabasse de se lavar. Logo a coisa se repetiu. Isaías ficou meio enjoado com aquilo, mas estava fazendo muito frio para se preocupar e tratou de se aquecer. Sulistrowski o chamou. Isaías entrou na casa com um misto de curiosidade e de repugnância. Sulistrowski, que conversava e ria com uma matrona, disse a Isaías que estava pago... A prostituta desabotoou-lhe a calça e o fez deitar-se por sobre ela, e pôs-se a cantar com a voz medonha.

Que venga outro – disse a prostituta, logo que Isaías deixou a dependência separada da sala por um pano.

O ar, lá fora, era vivificante.

- É assim que a gente fode na guerra – Sulistrowski disse, quando foram embora.

Dias depois nasceu o tumor. Então Isaías verificou que apanhara cancro mole.


Buenos Aires, do livro A grande farra (edição do autor - Ray Cunha -, Brasília, 1992, 153 páginas, esgotado)

quinta-feira, 15 de março de 2012

CONTO/Nostalgia

Queria andar. A cidade estava calma como sempre. Sentiu fome e entrou num restaurante suburbano. O garçom era um velho magro e acabrunhado, e pela janelinha de passar comida viu outro velho, gordo, a picar alguma coisa. O restaurante era sujo e malcheiroso. Isaías foi embora. Apanhou um táxi e pediu ao motorista que o levasse a um restaurante limpo e alegre. O restaurante Samurai era um prédio de dois andares, sujo e fedorento, quente e mal iluminado, barulhento, e os garçons lembravam urubus espreitando carniça. Saiu. Caminhou lentamente e encontrou uma zona de casas noturnas, mas nenhuma era como estava querendo. Até que topou com a luz que vinha de uma casa, cercada por uma sebe de cróton. Era amarela, recentemente pintada. Fora uma residência e agora era um bar, com tudo bem arrumado e limpo e bem iluminado. Sob a marquise, uma moça e dois rapazes batiam papo. Fluía Monday, Monday, numa cuidada orquestração.
- Boa noite, senhora – disse Isaías à japonesa que o atendeu. Ela o saudou e ele pediu uma cerveja Antarctica. A garrafa estava enevoada e a taça muito limpa. – Dê-me também um sanduíche de filé.
Um rapaz, que só falava em japonês com a velha senhora, começou a preparar o sanduíche. Fazia-o de maneira tão correta que Isaías entreteve-se a vê-lo.
- É muito agradável sua casa, senhora.
- Oh! Muito obrigada! Muito obrigada!
- Se não viajasse amanhã viria mais vezes aqui.
- O senhor não é daqui?
- Sou. Meu pai faleceu e eu vim por isso. Ele foi um dos pioneiros de Macapá.
Enquanto bebia, pensava no pai. Tinha muito charme quando atirava. Nunca perdia um tiro. Quando ele morreu, há muito que Isaías morava em Manaus; isso atenuou o choque causado pela morte do pai. A moça e os dois rapazes haviam saído. A moça era bonita e Isaías desejou tê-la consigo. O japonês começou a arrumar as mesas e esperava para varrer. A mulher pediu desculpa e Isaías também pediu desculpa, pagou e saiu. A noite era um navio à espera num bar qualquer da cidade.


Nostalgia integra o livro de contos A grande farra (edição do autor - Ray Cunha -, Brasília, 1992, 153 páginas, esgotado

sábado, 10 de março de 2012

CONTO/Fim de semana

A embarcação mergulhava a proa e dava a sensação do dorso de um cavalo a galope. Durante toda a manhã foi assim. À tarde, o sol amarelava a baía; não havia vento e o calor estava sufocante. E assim passou-se o dia até a noite, quanto chegaram à ilha, ao largo do Marajó.

Cedo, no dia seguinte, contornaram a ilha, desembarcaram e se internaram no mato em busca de porcos, que tinham sido vistos naquele ponto. Os rapazes avistaram uma clareira, onde erguia-se um taperebazeiro, e ouviram os porcos. Jiparaná se abaixou para ver as pegadas e um porco passou desembestado por eles. Isaías engatilhou a doze, mas o porco sumiu no mato. Jiparaná pediu a doze e quando pegou a arma ela disparou para o ar.

- Bando de filhos-da-puta! Como é, seu sacana, que tu me dás esta porra engatilhada, em, seu filho-da-puta?

- Lá está ele! – gritou um dos caboclos, apontando para o porco, que estacionara adiante e procurava se orientar. Entraram no mato atrás dele e conseguiram-no encurralar numa capoeira impenetrável. Joparaná disparou. O animal emitiu um grunhido e caiu. Fora atingido na cabeça.

À tarde, a ilha pareceu inflar. Surgiram praias até onde alcançavam os olhos.

- Vamos levantar, cambada de vagabundos – disse Jiparaná, sob protesto dos rapazes. Jiparaná ergueu Carlos da rede e foi atirá-lo no rio, do extremo do trapiche. – Vou fazer uma operação daqui a pouco – disse, enquanto tomava um gole de café. – Alguém quer ir comigo?

Só João quis ir e Jiparaná largou-se com ele e um caboclo.

- Outro dia peguei uma criança. Estava morta. Quase podre já.

- E agora, o que é?

- Gangrena.

A casa havia surgido ao longe. Na frente, meia dúzia de crianças aguardava a ubá. Quando encostaram, as crianças entraram correndo.

O doente gemia numa rede atada na parte central da casa. Jiparaná olhou a mão gangrenada, fez uma careta e pediu que fervessem água.

- João, me dá a maleta. – Tirou um bisturi, quelene e álcool. João guardou para si uma caixa de quelene, sem que Jiparaná notasse.

Não havia muito o que fazer. O doente teria que ser removido para Macapá na madrugada seguinte. Jiparaná fez suas recomendações e disse que passaria, com a maré, para pegar o doente. De volta à ilha, aproveitaram o que sobrava do dia para pescar.

- Vou dar uma cagada, enquanto isso... – disse João, apanhando uma Bíblia. Então mostrou um frasco de quelene para os outros rapazes. Tomaram um caminho que dava para o mato. Sentaram-se e puseram-se a cheirar quelene. João sacou meia página da Bíblia e preparou um cigarro.

- Só falta agora Abbey Road e a Telma – disse Isaías.

- E vodca também – lembrou João.

- Com laranja – Carlos completou.

- A Telma é uma delícia...

- Ela deve estar banhadinha uma hora destas, escutando os Beatles.

Jiparaná os chamou. Foram pescar nos poços ao longo da praia. Os peixes são morriam imediatamente, envenenados pelo timbó, e uma grande piramutaba saltou de dentro da rede, caindo no poço, para logo depois flutuar.

A noite caiu. E tudo pareceu imerso dentro da noite. A ilha era a casa. Quem se aproximasse da casa veria a brasa dos cigarros, que se alumiavam, de vez em quando, pousadas no piche da noite.


Fim de semana, conto do livro A grande farra, edição do autor (Ray Cunha), Brasília, 1992, 153 páginas, edição esgotada

quinta-feira, 8 de março de 2012

Mulheres, o voo na luz

As mulheres são um santuário abissal de rosas tão azuis que sangram rubis. Sigmund Freud viajou no meio desse cataclismo e retornou atordoado, à razão. As mulheres nos carregam no útero durante nove meses, ao cabo dos quais nos dão à luz, por isso, por mais que não pareça, nos dominam para sempre, pois, para elas, somos sempre crianças, a quem deram os seios prenhes de vida. Nós, homens, jamais as subjugaremos, por uma razão simples: ninguém pode acorrentar a poesia, e elas são livres como a flor, luminosas como o riso das crianças, mais lindas do que um grande jato pousando.

Para que eu me sinta seguro basta a presença de mulheres, pois são elas que nos conduzem a Deus, às vezes, por labirintos em trevas aos olhos masculinos, mas onde elas enxergam com a clareza das manhãs de primavera. De nós, homens, elas só exigem que as amemos, pois só assim desabrocham como rosa colombiana, vermelha, e espargem perfume aonde quer que passem. Todos os dias hão de ser dedicados às mulheres, nas preces, à passagem delas, na sua liberdade azul como o voo do vento.

Sou o homem mais rico entre todos, porque, além de voar nos sonhos, minha vida é povoada de mulheres. Duas tem nome de flores: Josiane, que me purifica no seu santuário, e Iasmim, minhas asas. Sou o homem mais rico porque elas me mostraram a dimensão do éter, que é onde voo na luz.

terça-feira, 6 de março de 2012

Gritos azuis

A noite chega doce como abismo azul.
Ouço Summertime, entre os rumores da noite.
Falam-me de Macapá e da Estação das Docas.
Compreendo, então, que o som vem do meu coração.
Ouço risos de crianças,
E deposito toda a minha esperança nesses pequenos deuses.
Ouço vozes femininas,
E sinto a nudez de todas as mulheres muito lindas,
Como Boeing pousando.
A noite jorra na minha memória
Como cataclismo de rosas
O atrito da Terra no éter
O Concerto Para Piano e Orquestra, de Mozart,
O choro dos jasmineiros
Que vertem Chanel número 1.
O céu é tão intenso que verte rubis
Os shoppings estão lotados
De mulheres seminuas
Nesta noite de março, em Brasília.
Suave como o cochichar de lábios carnudos ao meu ouvido
A noite avança prenhe de romance e mistério
Encontro-a em toda parte
E ela surge das minhas mãos de criador
Na tela do computador
Por toda a eternidade!


Brasília, 711 Sul, 6 de março de 2012

sábado, 3 de março de 2012

CONTO/O Elesbão é um convite

- Mais uma Cola-Cola e um meiota – pediu. Voltou-se para o outro, que aprovara o pedido. – A matança começará à meia-noite.

- É o tempo que terminamos esta meiota – disse, olhando para a única porta, e gritou: porrada!

Fora do bar dois sujeitos brigavam. O maior castigava o outro a chutes. Apartaram a briga. O ruivo e o moreno voltaram para o bar. Aproximava-se a meia-noite.

- Vamos tomar mais uma?

- Só sairemos daqui quando fechar – respondeu o moreno.

- Escrevi um poema ontem, evocando minha infância. Tem a forma de um disco – disse o ruivo.

- Mas isso não dificulta a leitura?

- Assim as pessoas se detêm mais no conteúdo.

- E o que lhes pode interessar da tua infância?

- É um poema introspectivo...

- Melhor vermos os porcos.

- Vamos tomar mais duas – afirmou o ruivo.

- Vamos perder a matança.

- Aquele filho da puta do meu tio disse que ia me esperar.

O ruivo escorregou e caiu numa poça de água. Levantou-se e continuou andando, como se nada houvesse acontecido. Pararam num boteco e pediram duas doses de aguardente. Ouviram ao longe grunhidos de porco.

- Ainda não começaram a matança.

No bairro do Elesbão, em Macapá, há um matadouro de porcos na extremidade de um comprido trapiche. Quando a maré sobe, o trapiche parece afogar-se no rio Amazonas. Naquela hora da noite era grande o movimento por lá. Transferiam porcos de um curral para outro. O tio do ruivo foi buscar café. Um sujeito enorme experimentava duas marretas e olhava para os porcos.

- O ruivo vai acabar morrendo também! – exclamou um caboclo. Os outros riram. Num local, quase às escuras, o ruivo tentava pegar no traseiro de uma mulher, que esquentava água em panelões.

Com a marretada no crânio o porco se encolheu, e caiu estrebuchando com a facada no pescoço. Em pouco mais de uma hora os porcos estavam mortos e logo seriam pelados. Alguns demoravam a morrer. Um carregador baixo e forte serviu café em copos de vidro grosso.

- Antônio, corre aqui! – gritou o ruivo para o rapaz moreno.

- Diz!

- Descobri uma garrafa de Pitú!

- Onde?

- Ali! Mas não dá mancada.

- Claro. Vamos apanhá-la e dar o fora.

- Não, rapaz, temos que falar com o titio, antes.

- Ora, porra!

- Ele só me convidou para a matança porque tenho que levar porco para casa.

- Ele manda amanhã. Não percebes que hoje estamos bebendo?

- Como é que o nosso tio não percebeu? – disse o ruivo, abaixando-se para pegar a garrafa.

- Nosso, não.

Amanhecia. Uma fogueira fria queimava de cor o rio e aves passeavam, lentas, na areia do mangue.



O ELESBÃO É UM CONVITE integra o livro A GRANDE FARRA, edição do autor (Ray Cunha), Brasília, 1992, 153 páginas, esgotado