segunda-feira, 19 de março de 2012

CONTO/Buenos Aires

Sulistrowski conversava em polonês com alguém. Enquanto conversavam, Isaías tomava seu bom whisky, olhando através da vidraça o ar frio lá fora.

- Vamos embora – disse Sulistrowiski, a certa altura.

Isaías perdera-se no emaranhado da cidade. Tinha noção de que atravessara a zona portuária, por sobre um viaduto, e foram para uma parte desconhecida de Buenos Aires. E agora estavam chegando ao bairro das paraguaias – uma porção de casebres espalhados na escuridão. Pararam na frente de uma casa e saltaram do carro. Havia vários rapazes aquecendo-se em torno de uma fogueira. Isaías sentou-se por ali e Sulistrowski entrou na casa. Parecia que já estivera lá e conhecia a dona do negócio. Pouco depois Isaías olhou para dentro e viu uma prostituta sobre uma cama fornicando com um rapaz. Ela cantava para ele, com voz horrorosa. Assim que o rapaz saiu entrou outro, que ficou à espera de que a prostituta acabasse de se lavar. Logo a coisa se repetiu. Isaías ficou meio enjoado com aquilo, mas estava fazendo muito frio para se preocupar e tratou de se aquecer. Sulistrowski o chamou. Isaías entrou na casa com um misto de curiosidade e de repugnância. Sulistrowski, que conversava e ria com uma matrona, disse a Isaías que estava pago... A prostituta desabotoou-lhe a calça e o fez deitar-se por sobre ela, e pôs-se a cantar com a voz medonha.

Que venga outro – disse a prostituta, logo que Isaías deixou a dependência separada da sala por um pano.

O ar, lá fora, era vivificante.

- É assim que a gente fode na guerra – Sulistrowski disse, quando foram embora.

Dias depois nasceu o tumor. Então Isaías verificou que apanhara cancro mole.


Buenos Aires, do livro A grande farra (edição do autor - Ray Cunha -, Brasília, 1992, 153 páginas, esgotado)

2 comentários:

  1. SEMPRE LEIO SEUS CONTOS COM ATENÇÃO. E GOSTO MUITO DESTE FINAL QUE ELES TEM COM TOQUE CINEMATOGRAFICO, EM QUE A CENA TERMINA,SEM O DESFECHO PRESUMIVEL, SUBITAMENTE, E PARALELA AO QUE O CONTEUDO DO TEXTO, VINHA CONDUZINDO O LEITOR.
    EM TEMPOS ATRAS EM BELEM DO PARA FUI VISITA-LO JUNTO COM LUIZ TADEU MAGALHÃES DESTA FEITA FORAM LIDOS POEMAS E CONTOS.MUITO BONS TAMBÉM.
    A CRIATIVIDADE CONTINUA EM ESPIRAL ASCENDENTE.
    PARABENS. LUIZ JORGE.

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    1. Olá, Luiz Jorge! É um prazer "revê-lo". Obrigado!

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