sábado, 28 de abril de 2012

CONTO/Luziânia

De dia, as margens da BR-040, entre Brasília e Luziânia (GO), era uma sucessão de cerrado pegando fogo e povoados imersos na fumaça e na poeira, num sono antigo, que, à noite, mergulhava no horror imposto pelos barões locais da droga. A sensação térmica era de 40 graus centígrados e a umidade relativa do ar, de 4%. Quase não se conseguia respirar. A temperatura era de 21 graus dentro do carro, uma caminhonete negra, Chevrolet, que cortava o distrito de Jardim Ingá rumo a Luziânia, sede do município, uma dessas cidadezinhas perdidas à sombra da miragem de Brasília. Iam dois homens no carro.

O caso é o seguinte: ele já deve ter uma fortuna de R$ 1 bilhão. Quer se eleger... e será eleito – disse o que ia ao volante. Era pequeno e pardo, tinha o nariz quebrado e seus olhos brilhavam como os de Rafael Leónidas Trujillo Molina, o Bode.

O outro sujeito lembrava o Jeca Tatu de Mazzaropi, e estava sempre com as mãos suadas; parecia que estava morrendo, o tempo todo. Sentia raiva, e medo. Entraram pelo Parque Alvorada, subúrbio de Luziânia. A caminhonete estava encardida como os pombos que disputam restos na Pastelaria Viçosa, na Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília.

- Temos que ter cuidado com essa gente. São mafiosos – disse Jeca Tatu. Sua voz era todinha a do papagaio do programa da Ana Maria Braga, da TV Globo.

- Ele quer se eleger e podemos fazer a campanha dele pelo jornal e pela rádio - disse o do volante, seco e rijo como um peso pena. - Estavam passando pela Igreja do Rosário, em direção ao centro da cidade.

Quando chegaram ao restaurante, o tipo com voz de papagaio estava com a testa porejada, apesar da secura do tempo. A tarde já ia pelo meio e só havia meia dúzia de pessoas na casa, contando com eles. O pugilista foi falar com o dono do estabelecimento, de quem era conhecido, retornando pouco depois para a mesa. O garçom já havia servido água tônica com gelo e limão.

- Ele não vai demorar – disse o pugilista. – E a Mara? – perguntou ao homem com voz de papagaio.

- Mara? – respondeu o outro, estupidamente. – Estou puto com ela! – disse, enfezado.

O pugilista sabia alguma coisa.

- É inútil brigar com as mulheres – disse. – Nem Freud conseguiu entendê-las. Aliás, elas mesmas não se entendem. Para mantê-las nossas aliadas tudo o que temos a fazer é tratá-las como crianças, o tempo todo, excitá-las, comprar-lhes presentes caros, essas coisas.

- Acho que a melhor maneira de lidarmos com elas é fazendo-as sentir o peso da nossa mão – disse Jeca Tatu.

- Não penso assim. Obtive o esclarecimento definitivo sobre as mulheres vendo um documentário da BBC sobre répteis – disse o pugilista.

- Répteis? – perguntou Jeca, sem acreditar naquela conversa. Ambos eram velhos amigos da faculdade de direito, e Bode sempre fora acometido por aquelas conversas exóticas.

- Sim, répteis. Alguns lagartos, não me lembro mais se do norte da África, ou de alguma ilha do Mediterrâneo, procuram pedras para se aquecerem. Aqueles que conseguem as maiores têm que enfrentar rivais para não perder a pedra. Os vitoriosos ficam lá, ao sol, e de repente atraem um harém, fêmeas que vão se oferecer para ele. Com as mulheres é a mesma coisa, se você tiver a maior pedra ao sol elas se oferecem a você. No nosso caso, mamíferos racionais, a pedra pode ser um diamante. – O pugilista disse isso e ficou olhando para o sujeito com aspecto de capiau, embora trajasse roupas caras.

- Continuo achando que aquela vaca pensa que sou um touro – disse o tipo com jeito de caipira. – Para certas putas só chumbo quente mesmo.

- Você lhe dá flores, leva-a para dançar, faz carinho nela, quero dizer, antes de meter essa trolha nela? – o pugilista perguntou. Parecia conhecer muito bem seu parceiro para manter uma conversa dessas.

- Mulher gosta é de levar a seco – disse o outro, pedindo mais água tônica.

- Assim ela não sente prazer algum. A menos que você goste de estuprar. Isso é bom. Se você consegue se excitar num estupro, terá nervos para se manter sereno enquanto eu converso com o nosso mafioso. Ele quer se eleger deputado federal para poder lavar a grana que recolhe com o jogo de azar, lenocínio e droga – disse o pugilista. – De modo que o caso da Mara não deve turvar seu raciocínio, amigo.

O outro olhou para o pugilista.

- A Mara tem um amante. Um traficante. O sujeito me mandou um bilhete ameaçando matar a Samanta se eu não liberar a Mara – disse o capiau, com a voz mais parecida do que nunca com a do papagaio da Ana Maria Braga.

- Matar a Samanta? – quase gritou o outro. – Samanta era a esposa do capiau.

O pugilista sentiu que o papagaio estava se cagando de medo; ia dizer alguma coisa quando o candidato chegou. Era comerciante e fazendeiro e falava como o Cebolinha, do Maurício de Souza.

- Vou plecisar do jornal e da ládio de vocês – disse.

- Estamos em julho. Com R$ 1 milhão, elegemos você. A campanha fica toda por nossa conta: jornal, rádio e trio elétrico – disse o pugilista.

- E TV? – Cebolinha perguntou.

- Com TV aumenta o preço; vai para R$ 1,3 milhão – volveu o pugilista. – R$ 440 mil agora, R$ 430 mil em agosto e R$ 430 mil em setembro, se você estiver bem nas pesquisas.

- Então posso gastal R$ 870 mil sem galantia de que estalei bem em setemblo? – Cebolinha perguntou. Os cabelos dele lembravam também os de Cebolinha.

- Com o curral eleitoral que o senhor comprou no Instituto de Ação Social não há erro – disse o pugilista.

Papagaio não falou durante o tempo todo. Após 15 minutos de conversa direta e franca Cebolinha apertou a mão dos dois e saiu com os seguranças, que estavam à mesa mais próxima da saída. Nem bem Cebolinha saiu e dois sujeitos entraram no restaurante e anunciaram o assalto. Nessas alturas só estavam no recinto o pugilista, o papagaio e um casal. O mais alto dos dois assaltantes foi ao caixa e o limpou; o outro, baixinho, ficou à porta, de 38 na mão. O pugilista e o papagaio ficaram olhando para a mesa. Papagaio porejava e o pugilista podia sentir o fedor que ele exalava; lembrava o odor de flores mortas. O assaltante da porta estava visivelmente nervoso, olhando para a saída e para seu comparsa. O casal, que estivera conversando animadamente, virou uma estátua. Os olhos da moça estavam esbugalhados. O telefone celular do companheiro dela tocou, e ficou tocando até silenciar. O sujeito alto saiu de detrás do balcão com um saco cheio de dinheiro e se dirigiu para a porta. Chegou à porta e retornou, até à mesa onde estavam o pugilista e o capiau. Atirou sem mirar. O projétil da pistola 45 pegou Zeca Tatu no meio da testa. Os assaltante sumiram. A cabeça de Zeca Tatu tombou para trás e seus braços caíram ao lado da cadeira. Parecia que ele estava fazendo a sesta. 


Brasília, 25 de março de 2012

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Poesia em estado bruto


Ouço Espanha, de Chabrier, e sinto cheiro de mulher nua - ostra com Antarctica enevoada, às 9 horas, em julho, no ar saturado de mulheres lindas e suadas, de Salinas.
Tu só precisas me lamber com teus olhos verdes como rubis para eu sentir o acme
Tu precisas apenas sorrir e tocar nos meus finos lábios para que eu possa morrer como as rosas, que não morrem nunca, porque são imortais na sua explosiva beleza de um eterno segundo.
Vou presentear ao Facebook minha presa, minha amante, que imobilizei pelos cabelos, beijei-a na boca, fi-la gritar de prazer: ela é a própria noite.
A grande sedutora é como um café noturno, cheio de mulheres misteriosas de tão lindas e que dizem oi quando passo.
Ouço Caravan, de Duke Ellington, ouço-a tanto que fico cheirando a púbis ruivo, que inunda meu olfato, meu paladar, meu cérebro.
Degusto Antarctica de Manaus com Jorge Tufic no Nathalia, beijo os lábios carnudos e mordo o pescoço da Mara, lambo o rosto da Tharcilla, que implora pela minha pegada.
Como Isnard Lima Filho, oferto rosas para a madrugada,
Sonho com leões, ao amanhecer, na praia, com a mulher amada, de quem extraí gemidos e agora ela dorme tranquila sob minha guarda.
Igual a Picasso, com seus olhos negros, nonagenários, sou como pássaro, que nunca envelhece, mesmo que lembre maracujá de gaveta, porque nasci com asas invisíveis aos olhos, e que a somente algumas mulheres é dado ver a maravilha dessas engrenagens que se equilibram no éter como caças, e deixam uma trilha branca no azul.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Ray Cunha autografa O Casulo Exposto e Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos na Bienal Brasil do Livro e da Leitura de Brasília



Ray Cunha e O Casulo Exposto (Foto: Ricardo Marques - 2009)
BRASÍLIA, 17 de abril de 2012 – Estarei autografando dois livros: Ocasulo exposto (LGE Editora, Brasília, 2008, 153 páginas, R$ 28) e TrópicoÚmido - Três contos amazônicos (edição do autor, Brasília, 2000, 116 páginas, R$ 20), na Bienal Brasil do Livro e da Leitura de Brasília, na Esplanada dos Ministérios, Pavilhão D, estande 67, da Livraria Cope Espaço Cultural, defronte ao estande da Livraria Arco-Íris, sábado 21 e domingo 22, entre as 17 e 19 horas.

A Bienal Brasil do Livro e da Leitura de Brasília é o ponto alto da programação de aniversário da capital da República, que completa 52 anos, dia 21 de abril. Começou dia 14 e irá até 23 de abril, sempre das 9 às 22 horas, numa estrutura coberta de 14 mil metros quadrados, dividida em quatro pavilhões, com 157 expositores, sessões de autógrafos, exibição de peças e filmes, seminários, debates, palestras e shows de música popular brasileira, tudo com entrada franca. Os promotores do evento aguardam meio milhão de visitantes. 

Estarão presentes 120 editoras e autores de todos os continentes. Nomes consagrados autografarão seus trabalhos, como o Nobel nigeriano Wole Soyinka, autor de O Leão e a Joia; o norte-americano Daniel Polansky, autor da trilogia Cidade das Sombras; o britânico Richard Bourne, autor da biografia Lula do Brasil; e o argentino Mempo Giardinelli, de Luna Caliente. Haverá também debates com escritores como a norte-americana Alice Walker, de A Cor Púrpura; e o chileno Antonio Skármeta, de O Carteiro e o Poeta. Entre os autores brasileiros convidados estão Milton Hatoum, Cristovão Tezza e Marçal Aquino.


domingo, 8 de abril de 2012

História maldita


Não sei quando terminarás, ou se terminarás
Sei que começaste ao abandono de uma tarde estrangeira
Quando a esperança quebrou-se como cristal fino
A este medo insinuante.
Começaste sem saída.
Tentarei manter-me vivo e lúcido
Enquanto escrevo esta história curta e angustiante
Tentarei não pensar no abandono
A ansiedade e a angústia que me tomam
Talvez me desesperem
É pena eu ter coração e ser fraco diante de certas cenas.
Às vezes preciso chorar porque o mundo me magoa.
Essas são coisas que acrescentamos num poema
Corrigido e circunspecto.
Enfim, tudo é relativo.
Relativo a este caso estrangeiro.
A eventualidade é um conto fantástico
Dentro da retórica de um judeu-argentino.
Sou um a mais na caravana em desespero
Não tenho mais o sentido das coisas
Dentro de um âmbito de soluções.
Sou um pontito escuro
No porto de chegada.
Ilusão estremunhada
Cansaço num caminho curto.

Do livro Sob o céu nas nuvens, 94 páginas, publicado em 1980, em Belém do Pará, edição do autor, esgotado. Os poemas desse livro foram escritos nos anos 1970. História maldita, por exemplo, foi trabalhado em Buenos Aires, concluído em 9 de outubro de 1974. Eu tinha 20 anos e estava na estrada, como milhões de jovens, em busca de si mesmos. Encerrei essa fase, que iniciara em 1972, aos 17 anos, em 1982, aos 26 anos. Lendo Ernest Hemingway, descobri que aonde quer que vamos, levamos sempre nós mesmos. Assim, Papa me ensinou que o que estamos vendo como problema está em nós mesmos, e nunca nos outros, ou no lugar onde vivemos. Lembro-me que em 1972 estive na casa do teatrólogo Paschoal Carlos Magno, em Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Ele foi uma espécie de guru de jovens artistas. E eu “fugia” de Macapá. Disse-lhe que queria ir para Paris. Ele me perguntou por quê.

- Para escrever um romance – respondi-lhe.

- E por que você não o escreve aqui? – indagou.

Não soube responder, e escrevi o romance A Casa Amarela (Cejup, Belém do Pará, 2005, 158 páginas), 33 anos depois, em Brasília. Ele é Macapá, que guardo no meu coração, como um raio de sol, ao amanhecer, transformando gotas de orvalho numa rosa vermelha em imenso rubi cravejado de diamantes.