sábado, 21 de julho de 2012

Próximo prefeito de Belém deve resgatar condição de Metrópole da Amazônia


Cai a noite na Estação das Docas, em Belém do Pará: Portal da Amazônia

BRASÍLIA, 21 de julho de 2012 - Manaus, a capital do estado do Amazonas, é o principal centro financeiro e a cidade mais populosa da Amazônia, com cerca de 1.832.423 habitantes (IBGE/2011), e 2.210.825 moradores (IBGE/2010) na sua região metropolitana. É considerada também a capital brasileira que mais evoluiu em qualidade de vida nos últimos dez anos, bem como foi escolhida a única da Hileia como uma das doze sedes da Copa do Mundo de 2014. O PIB de Manaus, em torno de R$ 58 bilhões, representa mais do que o dobro do PIB da colônia francesa da Guiana, do Suriname e da Guiana, juntos. Mesmo assim, Manaus não é a mais importante cidade da Amazônia. Esse título pertence a Belém.

Em quase tudo, Belém é menor do que Manaus. Com cerca de 1.392.031 habitantes (IBGE/2010) e 2.100.319 moradores na sua região metropolitana, seu PIB está em torno de R$ 50 bilhões. Mas nem sempre foi assim. Conhecida como a Metrópole da Amazônia, histórica e culturalmente Belém representa para a região o que o Rio de Janeiro significa para o Brasil. Localizada ao sul da baía de Marajó, formada pelos rios Tocantins e Pará, Belém e Macapá - a capital do estado do Amapá, situada na boca do rio Amazonas, ao norte, tendo ao meio o arquipélago de Marajó – são os portais da Amazônia, ligando a maior bacia hidrográfica do planeta ao oceano Atlântico – a Amazônia Azul setentrional.

Se no fim do século passado a Zona Franca tornava Manaus cada vez mais pujante, Belém mergulhava na decadência. Em 1997, Edmilson Rodrigues, então no PT, foi eleito prefeito de Belém, até 2005. No ano seguinte, entrou Duciomar Costa, do PTB, reeleito em 2010. Uma década e meia perdida. É tempo demais para uma cidade ficar parada. E ainda houve outro problema nesse meio tempo. Em 2006, o PT, já com Lula e a Bolsa Família bombando, elegeram Ana Júlia Carepa governadora do Pará. Ana Júlia só fez bem (será?) uma coisa: dançar carimbó. Nunca se viu neste país incompetência tão grande. Resultado: foram quatro anos de encolhimento do Pará, e, por extensão, de Belém.

De modo que o candidato a prefeito que souber passar a mensagem ao eleitor belenense de que trabalhará com afinco e competência para resgatar a importância de Belém para a Amazônia, será prefeito a partir de 1 de janeiro de 2013.

sábado, 7 de julho de 2012

Ponte que liga o Amapá à Guiana Francesa está pronta, mas BR-156 está longe de ser concluída


BRASÍLIA, 7 de julho de 2007 – O mais influente noticioso televisivo do país, o Jornal Nacional, da TV Globo, mostrou, ontem à noite, um pouco sobre como as coisas costumam funcionar (ou não funcionam) na Amazônia, precisamente no estado do Amapá, no setentrião da costa brasileira, fronteira com a Guiana Francesa, país que a França mantém como colônia na América do Sul.
Em 13 de setembro de 1943, foi criado o Território Federal do Amapá, desmembrando do estado do Pará, e em 1 de janeiro de 1991, foi instalado o estado do Amapá, criado pela Assembleia Nacional Constituinte de 1988. Foi nessa época, aliás, que o maranhense Zé Sarney foi eleito pelos tucujus senador vitalício. Sarney deu notoriedade ao Amapá, que só era conhecido como fonte do melhor manganês do mundo, com o qual o governo brasileiro presenteou os americanos, que o estocaram no Tio Sam e deixaram o buracão no município de Serra do Navio.
Pois bem, com 142.814,585 quilômetros quadrados, o Amapá é cortado longitudinalmente pela A BR-156, que liga Macapá, a capital, a Oiapoque, na divisa com a Guiana Francesa. Essa rodovia começou a ser construída nos anos de 1940. Tem cerca de 900 quilômetros, mas apenas 150 quilômetros foram pavimentados. Em quase sete décadas de construção, já enriqueceu muita gente boa e, pelo jeito, ainda vai encher os bolsos de muita gente boa.
Em agosto de 2011, o Brasil concluiu, após dois anos de construção, uma ponte sobre o rio Oiapoque, no valor de R$ 71 milhões, ligando a cidade de Oiapoque (açougue de carne infantil a turistas libidinosos, que atravessam o rio Oiapoque em busca de aventuras que só o Brasil pode proporcionar) a Caiene, a capital da colônia francesa, a 5 quilômetros de Oiapoque. Do lado francês, a rodovia e as instalações alfandegárias estão prontinhas, mas do lado amapaense só há a decrepitude de sempre.
Atualmente, o Amapá está nas mãos da família Capiberibe. O governador, Carlos Camilo Góes Capiberibe (PSB), 40 anos, é filho do ex-governador por 8 anos e agora senador João Capiberibe e da deputada federal Janete Capiberibe, ambos também do PSB. João Capibiberibe não concluiu a BR-156 e Camilo não leva jeito de que vá concluí-la. Esse negócio de que a rodovia é federal, que é preciso se ajoelhar na frente da presidente Dilma Rousseff, ou ir diretamente a Lula, para que a BR seja concluída, é papo furado. Um governador pode muito; é só ter vontade política. É claro que para isso é preciso também ser avesso a patrimonialismo e a nepotismo, e bater de frente contra as gangs que assaltam o Amapá.
A propósito, segundo o jornal O Estado de São Paulo, até junho de 2010, a verba indenizatória dos deputados estaduais do Amapá era de R$ 15 mil mensais; subiu para R$ 50 mil e depois para R$ 100 mil, por sugestão do presidente da casa, Moisés de Souza (PSC), e acolhida por unanimidade. Foi algo tão descarado que as aves de rapina recuaram e baixaram o saque para R$ 50 mil, ainda assim, a maior do Brasil. Os deputados estaduais de São Paulo recebem R$ 13 mil mensais e os federais, R$ 35 mil (houve aumente recentemente, mas ainda está longe de R$ 50 mil). Detalhe: o Amapá é um dos estados mais pobres da federação.
Moisés de Souza é da turma de Zé Sarney. Falar em Sarney, o senador vitalício criou em Macapá uma “zona franca” de quinquilharias que atraiu boa parte da população pobre do Maranhão. Agora, Zé Sarney tem eleitor até para voltar à presidência da República. Lula, que ungiu Sarney como inimputável, que se cuide.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Voo vertiginoso

No meu coração brincam muitas crianças;
Seus risos, ouço-os azuis, a pingar diamantes.
E sinto rosas desabrochando, como vertigem do primeiro beijo,
No ar prenhe de Chanel número 5.
Meu coração respira o sabor da mulher amada,
Cheiro de mar numa tarde de julho.
Meu coração pulsa movido a risos de crianças
A rosas desabrochando
Ao choro de jasmineiros em tórrido anoitecer na Estação das Docas
A madrugadas
A acme que escapa dos lábios da mulher amada,
Secos de gozo, e que ela umidifica com a língua,
Tirando os cabelos do rosto, num gesto intenso.
Meu coração está prenhe do sabor indescritível
Do corpo da mulher amada, que eu ergo, como leão
Abismo de labirintos em que sou conduzido pela luz de uma estrela de outra galáxia,
Inalcançável, mas que cintila nos meus próprios olhos.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

CONTO/Café Espresso

O Entorno de Brasília lhe lembrava, naquele ano, a floresta do sudeste do estado do Pará, devastada, desolada, degradada, enfumaçada, pontilhada de caieiras que alimentavam usinas metalúrgicas clandestinas, espalhadas naquela paisagem de pós-guerra. A umidade relativa do ar caíra para 4%, e o Planalto tremeluzia em chamas. O dia fora sufocante, mas chegara o momento da transição entre a tarde e a noite, instante de trégua, portal que se abre durante um brevíssimo lapso, mas que dá acesso para a eternidade. Era agosto, terça-feira 7, lua cheia. O inverno ia ao meio. A noite caiu como uma bofetada, e também a temperatura, que desabou para 14 graus.

A redação da revista Brasília Agora ficava no quinto andar do Conjunto Nacional, shopping não distante do Setor Hoteleiro Sul, aonde, às quintas-feiras, Honorato costumava incursionar, terminando quase sempre no Jazz Club do Churchill Lounge Bar, no Hotel Meliá Brasil 21. Estava fechando a edição de agosto, naquela terça-feira. A publicação circulava geralmente em meados do mês. Tomou o elevador e se dirigiu para o Café Kopenhagen, defronte à Livraria Saraiva, no segundo piso. O Café Kopenhagen era o melhor mirante do shopping, de onde, confortavelmente instalado em cadeiras de vime (palhinha, como se dizia em Belém, sua cidade natal), podia-se apreciar o desfile das mulheres, uma mais linda do que a outra, que surgiam por ali como de uma mina de rubi. Alexandre o aguardava. Apertou a mão dele e foi diretamente ao balcão pedir os dois espressos curtos de sempre. Alexandre era publicitário freelance e artista plástico.
- Rapaz, tu estás só pele e osso; precisas tirar férias, de tudo – disse Honorato.
- Não estou conseguindo concluir meu trabalho para a próxima exposição na Laura Alvim, no próximo mês. Tenho que expor 21 telas. É o contrato. Mas não consigo terminar as sete que estão faltando. A Frênia é como uma toxina; estou viciado nela – Alexandre se lamentou.
- Tu precisas te desintoxicar, do contrário só restará teu corpo astral vagando por aí.
- Ontem, eu estava trabalhando quando ela telefonou para eu ir à casa dela. Fui, e não voltei mais para o ateliê. Foi pau rosa até a noite.
- Sempre tiveste vontade de conhecer a Amazônia. Pois bem, sou amicíssimo do dono de uma pousada em Soure, na ilha de Marajó, no Pará. É um lugar paradisíaco, exatamente o que os europeus chamam de realismo fantástico. Trata-se da maior ilha fluviomarinha do mundo, do tamanho de Portugal. Fica no meio do que eu chamo de Mundo das Águas: entre o maior rio do planeta, o Amazonas, a noroeste; o rio Pará, ao sul; o rio Tocantins, a sudeste; e o oceano Atlântico, a nordeste. A Linha Imaginária do Equador corta a ilha Mexiana, ao norte de Marajó, separadas pelo Canal do Sul do Amazonas. É indescritível. Uma semana longe de tudo vai te fazer recarregar as baterias da criação e te pôr no foco de novo.
- Ela ia querer ir comigo – disse Alexandre.
- Bem, tens que escolher entre a compulsão e o prazer permanente; só este traz paz de espírito. A compulsão é apenas algo físico, e, como se diz no budismo, o mundo físico é sombra da mente. Damos muito valor ao sexo, porém o sexo é físico, e o corpo, como tudo o que é material, se transforma constantemente. Em 15 anos, todas as nossas células são substituídas. Fisicamente, mudamos o tempo todo, até que termina o tempo útil do corpo e ele se desintegra, quando a vida se retira dele e vai para a sua dimensão, a eternidade – Honorato discursou.
- Então não é o caso de aproveitarmos bem enquanto somos jovens e buscarmos o prazer? – Alexandre perguntou, sorrindo.
- Isso é uma escolha, e há dois caminhos a tomar: o da angústia, advinda da compulsão; e o da paz de espírito, fruto da tarefa cumprida. Neste caso, tudo o que nos é dado, além da alegria, o é por acréscimo, e isso pode ser uma mulher magnífica – Honorato respondeu.
- Honorato, eu não saberia viver senão numa velocidade astronômica – disse Alexandre.
- Assim és, se assim pensas. Somos o que pensamos – disse Honorato. – Mas creio que o corpo é apenas o principal instrumento por meio do qual o espírito evolui, a fim de conseguir entrar, plenamente, na sua própria dimensão, que é o mundo espiritual, e o apego é sua maior prova. Penso que devemos apreciar, sim, o maravilhoso mistério feminino, mas somente quando isso nos é dado por acréscimo.
- O fato é que a combinação Honorato/café espresso me faz bem; tu darias um ótimo psicólogo – disse Alexandre, que era carioca e, como Honorato, flexionava o tu lisboeta com a mesma graça com que o jornalista se expressava, com o chiado comum dos cariocas e belenenses.
- Acho que bater papo é algo que causa grande prazer a nós dois, pois temos muita coisa em comum; quanto ao café, com efeito, ele leva à produção de dopamina e ao disparo de sinapses, além de compor-se de mais de duas mil substâncias benéficas ao nosso corpo. O espresso curto contém todas essas substâncias. Mas acho que eu não seria, de modo algum, psicólogo. Qualquer profissão exige trabalho focado, e meu foco é jornalismo. Utilizo minha percepção de mundo para apresentar aos leitores de Brasília Agora a cidade como ela é, hoje: metrópole, não mais quintal de São Paulo, e que oferece tudo o que procuramos – disse Honorato.
- Nem tudo. Tu sabes muito bem que qualquer artista que não é profissional tem que morar, pelo menos durante certo tempo, no Rio de Janeiro ou em São Paulo – disse Alexandre.
- Nisso tens razão, inclusive penso, às vezes: o que o Alexandre faz em Brasília? Acho que teu lugar é no Rio.
- É nisso que eu venho pensando também, mas a Frênia é funcionária do Senado, e o dinheiro que eu ganho é esporádico. Às vezes, ganho muito dinheiro, mas posso passar bastante tempo sem grana... ela chegou! – quase gritou Alexandre.
Frênia surgiu da ala sul. Caminhava como modelo na passarela, os longos cabelos ruivos esvoaçantes, os seios empinados, selada, as ancas opulentas, as pernas bem torneadas, o mesmo bocão da atriz Aline de Moraes, e olhos de clorofila.
- Olá, cavalheiros - gorjeou. – Eu também quero café - ela se sentou e fitou o jornalista, sorrindo.
“O protótipo da predadora. Mas a predadora só se estabelece quando há oportunidade” – pensou o jornalista.
Alexandre fora pedir mais café.
- O Alexandre é fascinado por você – disse Frênia. Exalava Chanel número 5.
Alexandre retornou carregando uma bandeja com três espressos curtos, sentou-se e pôs-se a explicar à Frênia a possibilidade de passar uma semana na ilha de Marajó, sem perceber o que estava ocorrendo. O velho jornalista sentiu o mesmo terremoto do primeiro beijo, numa manhã de julho, em Salinas, na costa paraense, quando Frênia pegou na sua coxa. Ela estava dizendo que Alexandre deveria ir, sim, à ilha de Marajó, que ela lhe dava todo o apoio, que isso seria importante para ele recarregar suas baterias da criatividade e concluir o trabalho para a exposição, e que suportaria sua ausência com estoicismo. Dizia isso e apertava a coxa do jornalista.
- Preciso subir – disse Honorato.
- Então, amanhã de manhã vamos conversar para acertar minha ida à Soure – disse Alexandre.
O Conjunto Nacional bombava. Honorato tomou o elevador e pouco depois entrou na redação de Brasília Agora. Ainda se sentia trêmulo. Sentou-se à mesa, procurou acomodar-se na cadeira, buscando conforto, e ligou o rádio, que já estava sintonizado na Super Rádio Brasília FM. Ouviu-se o Concerto para piano e orquestra, em ré menor, de Mozart. A música fluía como o pulsar do sangue no ouvido, tênue vibração, o azul que vai tomando conta da tarde, até se transformar em noite. Fechou os olhos e começou a respirar cadenciadamente, procurando não pensar em nada. Permaneceu assim uns cinco minutos. Abriu os olhos, tirou do bolso do paletó o cartão que Frênia colocara ali, rasgou-o, jogou-o na lixeira e voltou ao trabalho.

Brasília, 23 de abril de 2012