segunda-feira, 2 de julho de 2012

CONTO/Café Espresso

O Entorno de Brasília lhe lembrava, naquele ano, a floresta do sudeste do estado do Pará, devastada, desolada, degradada, enfumaçada, pontilhada de caieiras que alimentavam usinas metalúrgicas clandestinas, espalhadas naquela paisagem de pós-guerra. A umidade relativa do ar caíra para 4%, e o Planalto tremeluzia em chamas. O dia fora sufocante, mas chegara o momento da transição entre a tarde e a noite, instante de trégua, portal que se abre durante um brevíssimo lapso, mas que dá acesso para a eternidade. Era agosto, terça-feira 7, lua cheia. O inverno ia ao meio. A noite caiu como uma bofetada, e também a temperatura, que desabou para 14 graus.

A redação da revista Brasília Agora ficava no quinto andar do Conjunto Nacional, shopping não distante do Setor Hoteleiro Sul, aonde, às quintas-feiras, Honorato costumava incursionar, terminando quase sempre no Jazz Club do Churchill Lounge Bar, no Hotel Meliá Brasil 21. Estava fechando a edição de agosto, naquela terça-feira. A publicação circulava geralmente em meados do mês. Tomou o elevador e se dirigiu para o Café Kopenhagen, defronte à Livraria Saraiva, no segundo piso. O Café Kopenhagen era o melhor mirante do shopping, de onde, confortavelmente instalado em cadeiras de vime (palhinha, como se dizia em Belém, sua cidade natal), podia-se apreciar o desfile das mulheres, uma mais linda do que a outra, que surgiam por ali como de uma mina de rubi. Alexandre o aguardava. Apertou a mão dele e foi diretamente ao balcão pedir os dois espressos curtos de sempre. Alexandre era publicitário freelance e artista plástico.
- Rapaz, tu estás só pele e osso; precisas tirar férias, de tudo – disse Honorato.
- Não estou conseguindo concluir meu trabalho para a próxima exposição na Laura Alvim, no próximo mês. Tenho que expor 21 telas. É o contrato. Mas não consigo terminar as sete que estão faltando. A Frênia é como uma toxina; estou viciado nela – Alexandre se lamentou.
- Tu precisas te desintoxicar, do contrário só restará teu corpo astral vagando por aí.
- Ontem, eu estava trabalhando quando ela telefonou para eu ir à casa dela. Fui, e não voltei mais para o ateliê. Foi pau rosa até a noite.
- Sempre tiveste vontade de conhecer a Amazônia. Pois bem, sou amicíssimo do dono de uma pousada em Soure, na ilha de Marajó, no Pará. É um lugar paradisíaco, exatamente o que os europeus chamam de realismo fantástico. Trata-se da maior ilha fluviomarinha do mundo, do tamanho de Portugal. Fica no meio do que eu chamo de Mundo das Águas: entre o maior rio do planeta, o Amazonas, a noroeste; o rio Pará, ao sul; o rio Tocantins, a sudeste; e o oceano Atlântico, a nordeste. A Linha Imaginária do Equador corta a ilha Mexiana, ao norte de Marajó, separadas pelo Canal do Sul do Amazonas. É indescritível. Uma semana longe de tudo vai te fazer recarregar as baterias da criação e te pôr no foco de novo.
- Ela ia querer ir comigo – disse Alexandre.
- Bem, tens que escolher entre a compulsão e o prazer permanente; só este traz paz de espírito. A compulsão é apenas algo físico, e, como se diz no budismo, o mundo físico é sombra da mente. Damos muito valor ao sexo, porém o sexo é físico, e o corpo, como tudo o que é material, se transforma constantemente. Em 15 anos, todas as nossas células são substituídas. Fisicamente, mudamos o tempo todo, até que termina o tempo útil do corpo e ele se desintegra, quando a vida se retira dele e vai para a sua dimensão, a eternidade – Honorato discursou.
- Então não é o caso de aproveitarmos bem enquanto somos jovens e buscarmos o prazer? – Alexandre perguntou, sorrindo.
- Isso é uma escolha, e há dois caminhos a tomar: o da angústia, advinda da compulsão; e o da paz de espírito, fruto da tarefa cumprida. Neste caso, tudo o que nos é dado, além da alegria, o é por acréscimo, e isso pode ser uma mulher magnífica – Honorato respondeu.
- Honorato, eu não saberia viver senão numa velocidade astronômica – disse Alexandre.
- Assim és, se assim pensas. Somos o que pensamos – disse Honorato. – Mas creio que o corpo é apenas o principal instrumento por meio do qual o espírito evolui, a fim de conseguir entrar, plenamente, na sua própria dimensão, que é o mundo espiritual, e o apego é sua maior prova. Penso que devemos apreciar, sim, o maravilhoso mistério feminino, mas somente quando isso nos é dado por acréscimo.
- O fato é que a combinação Honorato/café espresso me faz bem; tu darias um ótimo psicólogo – disse Alexandre, que era carioca e, como Honorato, flexionava o tu lisboeta com a mesma graça com que o jornalista se expressava, com o chiado comum dos cariocas e belenenses.
- Acho que bater papo é algo que causa grande prazer a nós dois, pois temos muita coisa em comum; quanto ao café, com efeito, ele leva à produção de dopamina e ao disparo de sinapses, além de compor-se de mais de duas mil substâncias benéficas ao nosso corpo. O espresso curto contém todas essas substâncias. Mas acho que eu não seria, de modo algum, psicólogo. Qualquer profissão exige trabalho focado, e meu foco é jornalismo. Utilizo minha percepção de mundo para apresentar aos leitores de Brasília Agora a cidade como ela é, hoje: metrópole, não mais quintal de São Paulo, e que oferece tudo o que procuramos – disse Honorato.
- Nem tudo. Tu sabes muito bem que qualquer artista que não é profissional tem que morar, pelo menos durante certo tempo, no Rio de Janeiro ou em São Paulo – disse Alexandre.
- Nisso tens razão, inclusive penso, às vezes: o que o Alexandre faz em Brasília? Acho que teu lugar é no Rio.
- É nisso que eu venho pensando também, mas a Frênia é funcionária do Senado, e o dinheiro que eu ganho é esporádico. Às vezes, ganho muito dinheiro, mas posso passar bastante tempo sem grana... ela chegou! – quase gritou Alexandre.
Frênia surgiu da ala sul. Caminhava como modelo na passarela, os longos cabelos ruivos esvoaçantes, os seios empinados, selada, as ancas opulentas, as pernas bem torneadas, o mesmo bocão da atriz Aline de Moraes, e olhos de clorofila.
- Olá, cavalheiros - gorjeou. – Eu também quero café - ela se sentou e fitou o jornalista, sorrindo.
“O protótipo da predadora. Mas a predadora só se estabelece quando há oportunidade” – pensou o jornalista.
Alexandre fora pedir mais café.
- O Alexandre é fascinado por você – disse Frênia. Exalava Chanel número 5.
Alexandre retornou carregando uma bandeja com três espressos curtos, sentou-se e pôs-se a explicar à Frênia a possibilidade de passar uma semana na ilha de Marajó, sem perceber o que estava ocorrendo. O velho jornalista sentiu o mesmo terremoto do primeiro beijo, numa manhã de julho, em Salinas, na costa paraense, quando Frênia pegou na sua coxa. Ela estava dizendo que Alexandre deveria ir, sim, à ilha de Marajó, que ela lhe dava todo o apoio, que isso seria importante para ele recarregar suas baterias da criatividade e concluir o trabalho para a exposição, e que suportaria sua ausência com estoicismo. Dizia isso e apertava a coxa do jornalista.
- Preciso subir – disse Honorato.
- Então, amanhã de manhã vamos conversar para acertar minha ida à Soure – disse Alexandre.
O Conjunto Nacional bombava. Honorato tomou o elevador e pouco depois entrou na redação de Brasília Agora. Ainda se sentia trêmulo. Sentou-se à mesa, procurou acomodar-se na cadeira, buscando conforto, e ligou o rádio, que já estava sintonizado na Super Rádio Brasília FM. Ouviu-se o Concerto para piano e orquestra, em ré menor, de Mozart. A música fluía como o pulsar do sangue no ouvido, tênue vibração, o azul que vai tomando conta da tarde, até se transformar em noite. Fechou os olhos e começou a respirar cadenciadamente, procurando não pensar em nada. Permaneceu assim uns cinco minutos. Abriu os olhos, tirou do bolso do paletó o cartão que Frênia colocara ali, rasgou-o, jogou-o na lixeira e voltou ao trabalho.

Brasília, 23 de abril de 2012

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