sábado, 29 de dezembro de 2012

O agora e o agora, o momento mesmo da vida

BRASÍLIA, 29 de dezembro de 2012 – Em 1975, em Manaus, o jornalista Isaias Oliveira me disse algo que remoí nos 25 anos seguintes: “O passado é feito do que há de melhor”. Tínhamos, então, 21 anos de idade, e Isaias Oliveira, ex guia de turistas na selva, começava, como eu, a carreira jornalística, ambos sem curso superior. Ele, contudo, já me impressionava, sobretudo pela sua serenidade, e pela cultura. A personagem central do meu conto Inferno Verde, o jornalista que duela com o psicopata Cara de Catarro, foi batizado de Isaias Oliveira, e tem os olhos grandes e expressivos do seu homônimo da vida real.
Criei, e utilizei em mais de um trabalho de ficção, uma frase que equaciona o que Isaias Oliveira me dissera décadas atrás: “O agora e o agora, o momento mesmo da vida”, no sentido de que não existe passado, nem futuro, mas somente a intensidade do agora. O passado e o futuro são vidas paralelas.
Mas se não existe, por que Isaias Oliveira teria me dito que “o passado é feito do que há de melhor?” E aquela zona escura da nossa personalidade, que não confessamos nem para nós mesmos? E os crimes que cometemos, inconfessáveis, e que somente nossa consciência pode punir, por meio da angústia, às vezes tão aguda que sangra a alma? Como fugir dessa zona sombria, se ela está alojada no subconsciente, indelével? Podemos até esquecer esse inferno, mas, sempre que a oportunidade se apresenta, ele se manifesta.
Minha esposa, Josiane, preletora da Seicho-no-Ie e psicóloga, vive me dizendo: “Tudo o que realizamos deve ser feito como a coisa mais importante da nossa vida, com amor, para que beneficie o mais amplamente o maior número de pessoas”. Ontem, li em voz alta o preceito do dia 28 do calendário de 2013 da Seicho-no-Ie, que diz: “Concentre-se no agora e viva plenamente. Você nasceu neste mundo para viver plenamente cada momento de sua vida. Aprimorou sua alma valorizando o passado e visualizando um futuro radioso. Concentre os esforços naquilo que deve ser feito agora. Só assim abrir-se-á a porta de seu futuro. É essencial cumprir bem a missão que lhe cabe no momento” (Seicho Taniguchi). Minha filha, Iasmim, que me ouvia, disse: “Pai, o passado nós vivificamos; o presente, vivemos; o futuro, a gente constrói”.
Com efeito, o passado não existe, mesmo. Nostalgia, voltar ao passado, tentar resgatá-lo, estacionar nele, é vida paralela; e voltar ao passado para castigar-nos é mergulhar na angústia, agonizar, morrer. Se temos algum ajuste com o passado, só precisamos arrepender-nos, ou seja, não cometer mais o que nos angustia tanto, e aceitar o resultado da colheita, por mais terrível que seja. De real, naquilo que já foi, só há os antepassados, as raízes, o riso mais cristalino de quando éramos criança. E o futuro, será sempre o reflexo do agora e o agora.
Já faz tempo que vivo cada dia. Ainda tenho muitos livros para escrever, mas não estou preocupado com isso. Quero ver telas novas de Olivar Cunha e ler o livro de contos de Joy Edson, quero sentir crianças rindo e rosas que não se importam em se desnudarem na minha presença. O momento mesmo da vida é o azul mais azul, intenso como a nudez das rosas vermelhas à luz de manhãs ensolaradas, como o primeiro beijo, e gemidos no silêncio da noite, ao mergulharmos no abismo da mulher amada, prenhe de mistério.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Pequeno poema de Natal

Existe um jardim prenhe de rosas colombianas vermelhas, zínias multicoloridas
Jasmineiros que espargem Chanel número 5 em tórridas noites de agosto, na Amazônia,
Quando o céu é só diamantes e, de tão azul, sangra.
Escorre, nas frestas deste jardim, ouro, nas manhãs ensolaradas
E há uma mina, onde brotam as roseiras mais vermelhas
E de onde retiro rubis e esmeraldas.
No jardim, todas as manhãs são arrumadas por Deus, e são eternas.
As crianças adoram brincar entre as flores
E seus risos são o Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor.
Sou o apanhador do jardim; quando a bola das crianças cai longe, na relva,
Corro para devolvê-la e continuar ouvindo-as,
Como ouço o sangue latejando nos tímpanos, o atrito da Terra no espaço,
O hálito de Deus.
O jardim é fovista como a paleta mais luminosa de Olivar Cunha
E os alimentos são doces como o sumo dos frutos mais desejados.
O cheiro de maresia
O sabor de leite materno
O azul das rosas vermelhas
Mozart
O cetim das pétalas
O voo vertiginoso no Éter
Guardo num relicário, na memória do meu coração,
Que é de vocês, Josiane e Iasmim,
Neste Natal, e para sempre.
 
Brasília, 24 de dezembro de 2012

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Feliz Natal e próspero Ano Novo!

BRASÍLIA, 24 de dezembro de 2012 - Sinto o Natal como um jardim imenso, prenhe de rosas colombianas vermelhas, zínias mulcoloridas e jasmineiros que choram, à noite, Chanel número 5, e nesse jardim, que viceja numa manhã eterna, há uma mina de pedras preciosas; é o jardim do coração que dou a todos que eu amo, e todos que me amam já o têm, naturalmente, como manhãs ensolaradas. Que o Éter natalino penetre no mais recôndito das nossas almas, e que 2013 abra a mina, inesgotável, para sempre!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Paulo Francis, a era da mediocridade e a caravana do Lula

BRASÍLIA, 21 de dezembro de 2012 – Recebi meu batismo de fogo como escritor ao participar de Xarda Misturada, volume de poemas que publiquei com José Montoril e Joy Edson (José Édson dos Santos), todos da minha idade, 17 anos, em dezembro de 1971, em Macapá. O livro serviu para revelar o Joy. Para mim, foi, como disse, meu batismo de fogo, como escreveu no prefácio o pai da minha geração, o poeta Isnard Brandão Lima Filho, autor de Rosas para a Madrugada.
No ano seguinte, 1972, antes de completar 18 anos, peguei a estrada e parti para o Rio de Janeiro, de carona, sem lenço e sem documento, literalmente, e depois para Buenos Aires. Nos três anos seguintes realizei as mais diversas tarefas para sobreviver, de distribuidor de impressos na rua, passando por carregador de carga, até balconista da White Martins, filial de São Cristóvão, Rio. De volta a Macapá, em 1975, tentei retornar aos estudos, o quarto ano ginasial (equivalente, hoje, a uma graduação de cinco anos), mas senti-me tão solitário que voltei à vagabundagem, desta vez pelo rio Amazonas.
Fui visitar meu irmão, Paulo Cunha, em Santarém, onde fui convidado para redigir o jornal da Rádio Difusora de Santarém. Trabalhei durante um mês, dei a vaga para o Souza Lélis, que estava precisando mais do que eu do emprego, e parti para Manaus, com a intenção de conhecer a família do meu pai, João Raimundo Cunha. No mesmo dia em que cheguei em Manaus passei pela frente do Jornal do Comércio, então na Avenida Eduardo Ribeiro, e li um anúncio de que estavam precisando de repórter policial. Subi, falei com o diretor de redação e saí de lá empregado. Comecei no dia seguinte. Era 1975.
Somente 7 anos depois é que ingressaria no curso de jornalismo da Universidade Federal do Pará, após fazer supletivos de primeiro e de segundo graus e, é claro, o vestibular. Antes disso, tive mestres estupendos, como o Esso José Marqueiz; Octávio Ribeiro, o Pena Branca; e Walmir Botelho... Temperei meu texto jornalístico lendo Euclides da Cunha, Ernest Hemingway, Norman Mailer, Gay Talese, Lúcio Flávio Pinto, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes e Paulo Francis... Outro dia, meu amigo Marcelo Larroyed me presenteou o Diário da Corte, de Paulo Francis, organizado por Nelson de Sá, com posfácio de Luiz Felipe Pondé, num volume de 407 páginas editado pela Três Estrelas, do Grupo Folha, São Paulo. Estou lendo-o.
Paulo Francis é uma dessas raridades que só aparecem de cem em cem anos. Morreu em 1997. Seis anos depois, teria início a era da mediocridade, com Lula e petelhos. Lula virou a anta do Diogo Mainardi e agora o é do Reinaldo Azevedo e do Augusto Nunes, os três entrincheirados no Grupo Abril. Há uma característica comum que perpassa esses jornalistas: são ex covardes, como Nelson Rodrigues se identificava, ao deixar, num certo momento da sua vida, de sentir medo da patrulha ideológica. Paulo Francis era uma metralhadora giratória num meio, o intelectual, cheio de “covardes, carreiristas e oportunistas de todos os tipos, que pensam mil vezes antes de escrever algo, com medo do totalitarismo dos bem-intencionados” – como observa Luiz Felipe Pondé.
Francis era – como Lúcio Flávio Pinto, o grande jornalista da Amazônia – um solitário, e sua solidão originava-se da sua cultura em meio à mediocridade, e do desmitificador, que acaba resultando no iconoclasta. Para que o leitor sinta o que estou escrevendo, pense na solidão indevassável que perpassa a era da mediocridade, “um mundo tomado pelo politicamente correto e pela jequice que marca a sensibilidade da classe média” – de novo Luiz Felipe Pondé –, além da ideologia, que funciona como viseira de cavalo de carga.
Comecei a ler Paulo Francis para valer nos anos de 1980. Ele me ensinou algo fundamental na profissão de jornalista: a desmitificação. Foi com Francis que aprendi que o autor de Marimbondos de Fogo será sempre Jeca Sarney. No Brasil, um Lula qualquer da vida que chegue a presidente da República passa a ser santificado, e fazer o que quiser. Vê-se isso no aparelhamento do estado: a máquina está inchada de gentalha incompetente e corrupta, recebendo altíssimos salários e tratada como doutora, embora portadores de títulos duvidosos.
O fato é que os Francis da vida são fundamentais para a democracia, que só viceja se for defendida por quem não sente medo, à maneira de Lúcio Flávio Pinto, que desmitificou a Amazônia (na Hileia, a coisa é da pesada; o cangaço impera). Francis desmitificou o Brasil; colocou a mediocridade, a jequice, o confete, no lugar deles. Se Sarney afirmar que Lula pode fazer o que quiser, “porque é um patrimônio do Brasil”, ou se Lula disser que Sarney tem direito a ser o maior patrimonialista brasileiro de todos os tempos, a massa acredita, incluindo a UNE. O Brasil da era da mediocridade dá couto a ladrões e assassinos. Só que o estado é constituído de instituições. O governo é apenas uma delas. Não temos mais Paulo Francis, mas temos pelo menos a banda não amestrada da imprensa, aquela que não arria a calça para os jumentos da era da mediocridade, e temos intelectuais como Joaquim Barbosa.
Lula ameaça percorrer o Brasil para mostrar que é dono da unanimidade. Dará certo desta vez?

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Com Minha Moldura é o Universo, Renato Cunha resgata o lugar do poeta e jornalista Heitor Andrade na história de Brasília

No alto, capa do livro Minha Moldura é o Universo.
Acima, o poeta e jornalista Heitor Andrade, que
tem lugar garantido na história de Brasília

BRASÍLIA, 18 de dezembro de 2012 - O poeta e jornalista Heitor Andrade autografa, após 18 anos de jejum, seu quinto livro de poemas, Minha Moldura é o Universo (Editora Sigla Viva, Brasília, 2012, R$ 25), sábado 22, das 19 às 23 horas, no Bar do Mercado, na W3 Sul, Quadra 509, Bloco C, Piso Superior. Heitor Andrade é autor de: Corpos de Concreto (1964), livro concretista, queimado na nascente Ditadura dos Generais (1964-1985); Sigla Viva (1971), Três X1 – A Matemática do Poema; e Nas Grades do Tempo, além de poemas em fôlderes.

Natural de Salvador, o escritor é pioneiro na vida cultural e jornalística de Brasília, onde vive há 44 anos. Agitador cultural, apresenta também na noite brasiliense o Teatro do Imprevisto, criação sua. Nas apresentações, improvisa e dialoga com a plateia, num texto de improviso e sempre instigante. O cineasta Renato Cunha, também editor de Minha Moldura é o Universo, trabalha atualmente num documentário longo sobre Heitor, com produção de Kim Andrade, que foi produtor de Glauber Rocha. Heitor e Kim são primos de Glauber.

Candidato derrotado à Câmara Legislativa do Distrito Federal, pelo PV, em 2010, Heitor Andrade afirmou que “o maior crime ecológico do país chama-se Águas Claras, construída pela corja da construção civil de Brasília, em cima do maior manancial hídrico do Brasil”. Sobre o Cerrado: “Está sendo destruído pelo pessoal da soja. É uma catástrofe, porque temos uma reserva hídrica gigantesca nesse bioma; as bacias hidrográficas do país nascem no Cerrado do Planalto Central”. E sobre o Entorno do DF: “O governo de Goiás acha que o Entorno é problema de Brasília e Brasília acha que é de Goiás. O governo federal, com sua majestosa incompetência, também ignora o Entorno, que enfrenta graves problemas de saúde, de educação, muita criminalidade. O Entorno, que é na verdade uma região rica, está abandonado”.

Heitor Andrade, um dos construtores dos alicerces da vida cultural de Brasília, como poeta e jornalista, nos anos de 1960, nos momentos heroicos da cidade, é uma mente aguda ao pensar Brasília e o país. Renato Cunha começou o resgate do artista, que, quer queiram, quer não, tem lugar garantido na história de Brasília.

sábado, 15 de dezembro de 2012

O Natal dos murídeos

BRASÍLIA, 15 de dezembro de 2012 – Outro dia fui ver O Quebra-Nozes, de Piotr Ilitch Tchaikovsky, com a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro, sob a regência do maestro Cláudio Cohen. O Quebra-Nozes é uma coreografia sobre um conto de Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann, e a menina Clara, protagonista do conto, foi interpretada pela graciosa Karina Dias, primeira solista do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. O Teatro Nacional, um dos mais belos do país, criado na prancheta genial de Oscar Niemeyer, está roto como Brasília, que, por sua vez, é um três por quatro do Brasil.
 
As ruas de Brasília, a capital da sexta economia mundial, são sujas, esburacadas e carecem de sinalização. Quando chove firme na cidade ela vai para o fundo, pois as galerias de águas pluviais são lixões. Os ônibus públicos também são imundos, principalmente na primeira viagem; quem estiver de branco numa dessas e sentar-se ficará marrom. Há fim de semana no Distrito Federal em que se mata, a chumbo quente, aço, paulada ou fogo, 15 pessoas, e os hospitais são corredores da morte, incluindo os privados, onde pacientes só sobrevivem enquanto suas famílias ainda possuírem bens. Vi na televisão, um dia desses, que o governador Agnelo Queiroz, petista, instalou na sala dele monitores para fiscalizar o atendimento hospitalar na cidade. Ridículo.
 
Na verdade, Brasília não é um três por quatro do Brasil, que é um continente, com bolsões de Primeiro Mundo, mas a capital da República é todinha o governo petista: incompetente (o país não crescerá nem 2% este ano), populista (o Programa de Aceleração do Crescimento é papo furado) e corrupto (o Mensalão).
 
O Quebra-Nozes é um conto fantástico, presente de Natal de Agnelo Queiroz para os amantes do balé. Brasília é também a ilha da fantasia, abrigo de diversas quadrilhas, uma das quais foi desbaratada principalmente pelo trabalho de dois dos mais valentes homens deste país: Roberto Gurgel e Joaquim Barbosa.
 
Agora, falta pegar as ratazanas, aquelas que se acham acima do bem e do mal, para quem a burra é apenas um galinheiro cheio de chester. As famílias dos murídeos mais gordos destepaiz estão nadando em reais; parecem a família do ladrão bolivariano.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Zenaldo Coutinho devolverá a Belém o status de cidade mais importante da Amazônia?

BRASÍLIA, 7 de dezembro de 2012 – Dados de 2011 da Transparência Internacional e projeções da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostram que o Brasil dá guarida a até 43% de todo o dinheiro movimentado no planeta pela corrupção. Enquanto as perdas médias giraram em torno de R$ 160 bilhões nos últimos sete anos, no mundo, o prejuízo nacional chega a R$ 70 bilhões, anualmente —2,3% do Produto Interno Bruto (PIB). Segundo a Fiesp, foram roubados, em 2008, no Brasil, R$ 41,5 bilhões, ou 1,38% do PIB. No mundo, entre 1990 e 2005, a roubalheira girou em torno de US$ 300 bilhões, quantia que pode ter dobrado nos últimos sete anos, para US$ 600 bilhões (perto de R$ 1 trilhão), conforme o Relatório Global da Corrupção, da Transparência Internacional.

O Brasil é o septuagésimo quinto país mais corrupto, segundo ranking da Transparência Nacional. Na Inglaterra e nos Estados Unidos a multa chega a 20% do benefício conseguido pelos corruptos. “O pagamento, na Inglaterra, é ilimitado e a indenização pode ser milionária” – afirma José Francisco Compagno, sócio da área de investigação de fraudes e suporte a litígios da Consultoria Ernst & Young Terco. No Brasil, mais de 110 propostas que punem com rigor a corrupção estão engavetadas no Congresso Nacional. “Se tentamos aprovar uma lei mais dura, os próprios deputados jogam os projetos na gaveta. Eles se elegem com o dinheiro que vem da corrupção e isso cria um ciclo vicioso. Os casos são descobertos, mas ninguém vai para a cadeia. Não há punição” – disse para o Correio Braziliense o professor de ciências políticas da Universidade de Brasília (UnB), David Fleischer.

A mais influente revista semanal brasileira, Veja, em matéria de capa da edição de 19 de outubro de 2011, assinada por Otávio Cabral e Laura Diniz, afirma que a corrupção no Brasil leva R$ 82 bilhões por ano — 2,3% do PIB. Segundo a revista, as principais causas da corrupção são instituições frágeis, hipertrofia do estado, burocracia e impunidade. O governo federal dá o exemplo: emprega mais de 90 mil pessoas sem concurso público. Nos Estados Unidos, são cerca de 9 mil e na Grã-Bretanha, em torno de 300. “Isso faz com que os servidores trabalhem para partidos e não para o povo, prejudicando severamente a eficiência do estado” – observa Cláudio Weber Abramo, diretor da Transparência Brasil.

Cerca de 120 milhões de pessoas são empregadas da União, estados ou municípios, nestepaiz. Nossa legislação tributária é a mais injusta e confusa do mundo e a administração pública está tomada por quadrilhas, aqui e ali desbaratadas pela Polícia Federal, mas seus membros não vão para a cadeia. Essa situação recrudesceu a partir de 2003. O saque é feito diuturnamente nos três poderes da República, mas os vírus atacam mais nas prefeituras. Há prefeitos que empregam toda a família e gastam o orçamento apenas com a folha de pagamento; superfaturam obras ou não as entregam; furtam merenda escolar, medicamentos, assaltam velhinhos e batem carteira.

Meus dois ou três leitores, caso tenham chegado até aqui, já devem estar impacientes, pois em vez de escrever sobre vírus, prometi falar sobre Belém. Vamos lá. Entrevistei o prefeito eleito de Belém, Zenaldo Coutinho, na manhã de 14 de fevereiro de 2012, no seu gabinete no Anexo IV da Câmara dos Deputados; antes, portanto, da campanha. Perguntei-lhe: “O principal problema de Belém seria rede de esgoto e de galerias de águas pluviais defasadas?” Ele respondeu: “O principal problema de Belém é ausência de autoridade. Nós temos um conjunto de problemas que decorrem da falta de ação; muitas vezes, da absoluta inoperância da administração municipal, o que resulta em situações dramáticas. Belém é uma das capitais com menor índice de esgotamento sanitário do país, temos trânsito caótico, serviço de saúde ineficaz, insignificante, sistema educacional irrisório. Precisamos modernizar, aparelhar, equipar e ampliar a rede municipal de ensino fundamental, da mesma forma que temos que ampliar os serviços de saúde. As pessoas estão padecendo muito em Belém. Além da ausência de autoridade, há ainda falta de carinho para com a população. Belém precisa ser vista como extensão das casas de todos. Belém já foi a metrópole da Amazônia, e tem que voltar a sê-lo”.

Em novembro, ele retornou, eleito, a Brasília. Visitei-o na Câmara e batemos um longo papo, sobre o qual destaco alguns tópicos: Zenaldo já criou um departamento de inteligência, com o objetivo de prevenir assalto de qualquer espécie ao município; fará um convênio com os taxistas para que se tornem agentes do governo municipal, avisando a uma central tudo o que observarem de anormal na cidade; criará hidrovias urbanas; dará prosseguimento a projeto viário metropolitano financiado pelo Japão e pelo governo do estado; criará infraestrutura para o turismo, com medidas simples, como desassoreamento da enseada do Ver-O-Peso e botar o bondinho para funcionar, no largo do Forte do Castelo; arborização do subúrbio; e, fundamental, infraestrutura básica da cidade. Se Zenaldo bombardear para valer as ratazanas, sem dó nem piedade, conseguirá o restante, porque competência ele tem.

Zenaldo Coutinho, 51 anos, é graduado em Direito pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Foi eleito vereador por Belém, em 1985, aos 21 anos, o mais jovem do Brasil, à época. Desde então, também como deputado estadual e federal, dedica sua vida a três temas: Belém, o Pará e a Amazônia. Na sua ida para a Prefeitura de Belém há um propósito: resgatar Belém capital da Amazônia. Fundada em 12 de janeiro de 1616, a capital do estado do Pará é a mais importante cidade da Hileia. Um mergulho na história e na cultura da Amazônia Clássica, a análise da geografia do Trópico Úmido, e um estudo geopolítico do Mundo das Águas (os rios Amazonas, Tocantins, Pará e Guamá, abrindo-se como a bocarra de um jacaré-açu sobre o arquipélago de Marajó, no encontro com o Atlântico) confirmará minha tese. À noite, lembra um óvni pairando sobre a baía de Guajará. Trata-se da única capital-arquipélago do país, com 38 ilhas povoadas. Por conseguinte, Belém é uma cidade insular. O município, com 1.064,918 quilômetros quadrados, é habitado por cerca de 1.392.031 moradores (IBGE/2010), e a região metropolitana tem em torno de 2.100.319 habitantes.

Os dois últimos prefeitos dessa cidade deliciosa como tacacá foram desastrosos. O então petista e hoje do Psol Edmilson Rodrigues, 55 anos, foi prefeito de 1997 a 2004. Só não foi mais incompetente do que a ex-governadora do Pará, a petista Ana Júlia Carepa, porque isso é impossível, mas foi substituído por um Ana Júlia Carepa: Duciomar Costa, 57 anos, do PTB, que esquenta (ou esfria) a poltrona de prefeito desde 2005. Hoje, a Metrópole da Amazônia é uma sombra da sua importância. Por isso, a Cidade Morena precisa de um prefeito, talentoso, que a entenda.

Quanto à Amazônia, com 25 milhões de habitantes, é cada vez mais espoliada por uma elite capaz de bater na própria mãe para morder dinheiro, com a bunda gorda aboletada nas poltronas luxentas dos gabinetes de Brasília.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Fim da era Lula

BRASÍLIA, 2 de dezembro de 2012 – A era Lula durou precisamente oito anos – 2003-2010; acabou em 1 de janeiro de 2011. Lula e a nomenklatura do Partido dos Trabalhadores (PT) sonhavam, e sonham ainda, com uma ditadura de esquerda (as de direita são a mesma coisa). Sonho apenas. Jamais se concretizará. Mais adiante direi por quê. Lula, durante seu governo, agiu como um ditadorzinho. Aparelhou o Estado, incluindo as agências reguladoras, criadas por Fernando Henrique Cardoso (PSDB), e, claro, aparelhou também a Petrobras. Tentou a Receita e a Polícia Federal. Não conseguiu. A corrupção espirrou onde quer que Lula metesse o bedelho, até desaguar no Mensalão.
Em 2010, Lula, ídolo inconteste do povão, que, no fim das contas, é quem determina a fauna que vai para o Congresso Nacional, elegeu Dilma Rousseff, certo de que estaria elegendo um títere. Enganou-se. Dilma sabe o que é uma ditadura, pois já a sentiu na pele; foi torturada pelos militares durante a aventura dos generais (1964-1985), embalados pelo status quo da classe, então, dominante. Também é instruída, diferentemente de Lula, e sabe que a economia de mercado é o único caminho, pelo menos neste início do século 21. Até a ditadura de ferro da China reconheceu isso. Dilma não está disposta a embarcar na canoa furada de Lula, e dá claros sinais disso.
Lula passou oito anos gastando e acobertando corrupção histórica. Enquanto presidente da República, foi blindado e se beneficiou da propaganda nazista, que só o PT sabe e é capaz de fazer. Mas oito anos de corrupção é muita coisa. Bastou um ano fora do poder para o lamaçal começar a se agitar. Um nome começa a se insinuar, com insistência, em escutas legais da PF. Só falta decifrar a criptografia.
Lula e nomenklatura emanam a melancólica visão de empoeiradas teias de aranha. O mundo que desejam ardentemente é impossível. O Brasil já é uma potência democrática e isso não será mudado, por uma razão: as instituições que formam o Estado brasileiro se fortalecem a cada dia, de modo que os ladrões de merenda escolar já não podem mais agir à luz do dia, como tem sido.