sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Paulo Francis, a era da mediocridade e a caravana do Lula

BRASÍLIA, 21 de dezembro de 2012 – Recebi meu batismo de fogo como escritor ao participar de Xarda Misturada, volume de poemas que publiquei com José Montoril e Joy Edson (José Édson dos Santos), todos da minha idade, 17 anos, em dezembro de 1971, em Macapá. O livro serviu para revelar o Joy. Para mim, foi, como disse, meu batismo de fogo, como escreveu no prefácio o pai da minha geração, o poeta Isnard Brandão Lima Filho, autor de Rosas para a Madrugada.
No ano seguinte, 1972, antes de completar 18 anos, peguei a estrada e parti para o Rio de Janeiro, de carona, sem lenço e sem documento, literalmente, e depois para Buenos Aires. Nos três anos seguintes realizei as mais diversas tarefas para sobreviver, de distribuidor de impressos na rua, passando por carregador de carga, até balconista da White Martins, filial de São Cristóvão, Rio. De volta a Macapá, em 1975, tentei retornar aos estudos, o quarto ano ginasial (equivalente, hoje, a uma graduação de cinco anos), mas senti-me tão solitário que voltei à vagabundagem, desta vez pelo rio Amazonas.
Fui visitar meu irmão, Paulo Cunha, em Santarém, onde fui convidado para redigir o jornal da Rádio Difusora de Santarém. Trabalhei durante um mês, dei a vaga para o Souza Lélis, que estava precisando mais do que eu do emprego, e parti para Manaus, com a intenção de conhecer a família do meu pai, João Raimundo Cunha. No mesmo dia em que cheguei em Manaus passei pela frente do Jornal do Comércio, então na Avenida Eduardo Ribeiro, e li um anúncio de que estavam precisando de repórter policial. Subi, falei com o diretor de redação e saí de lá empregado. Comecei no dia seguinte. Era 1975.
Somente 7 anos depois é que ingressaria no curso de jornalismo da Universidade Federal do Pará, após fazer supletivos de primeiro e de segundo graus e, é claro, o vestibular. Antes disso, tive mestres estupendos, como o Esso José Marqueiz; Octávio Ribeiro, o Pena Branca; e Walmir Botelho... Temperei meu texto jornalístico lendo Euclides da Cunha, Ernest Hemingway, Norman Mailer, Gay Talese, Lúcio Flávio Pinto, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes e Paulo Francis... Outro dia, meu amigo Marcelo Larroyed me presenteou o Diário da Corte, de Paulo Francis, organizado por Nelson de Sá, com posfácio de Luiz Felipe Pondé, num volume de 407 páginas editado pela Três Estrelas, do Grupo Folha, São Paulo. Estou lendo-o.
Paulo Francis é uma dessas raridades que só aparecem de cem em cem anos. Morreu em 1997. Seis anos depois, teria início a era da mediocridade, com Lula e petelhos. Lula virou a anta do Diogo Mainardi e agora o é do Reinaldo Azevedo e do Augusto Nunes, os três entrincheirados no Grupo Abril. Há uma característica comum que perpassa esses jornalistas: são ex covardes, como Nelson Rodrigues se identificava, ao deixar, num certo momento da sua vida, de sentir medo da patrulha ideológica. Paulo Francis era uma metralhadora giratória num meio, o intelectual, cheio de “covardes, carreiristas e oportunistas de todos os tipos, que pensam mil vezes antes de escrever algo, com medo do totalitarismo dos bem-intencionados” – como observa Luiz Felipe Pondé.
Francis era – como Lúcio Flávio Pinto, o grande jornalista da Amazônia – um solitário, e sua solidão originava-se da sua cultura em meio à mediocridade, e do desmitificador, que acaba resultando no iconoclasta. Para que o leitor sinta o que estou escrevendo, pense na solidão indevassável que perpassa a era da mediocridade, “um mundo tomado pelo politicamente correto e pela jequice que marca a sensibilidade da classe média” – de novo Luiz Felipe Pondé –, além da ideologia, que funciona como viseira de cavalo de carga.
Comecei a ler Paulo Francis para valer nos anos de 1980. Ele me ensinou algo fundamental na profissão de jornalista: a desmitificação. Foi com Francis que aprendi que o autor de Marimbondos de Fogo será sempre Jeca Sarney. No Brasil, um Lula qualquer da vida que chegue a presidente da República passa a ser santificado, e fazer o que quiser. Vê-se isso no aparelhamento do estado: a máquina está inchada de gentalha incompetente e corrupta, recebendo altíssimos salários e tratada como doutora, embora portadores de títulos duvidosos.
O fato é que os Francis da vida são fundamentais para a democracia, que só viceja se for defendida por quem não sente medo, à maneira de Lúcio Flávio Pinto, que desmitificou a Amazônia (na Hileia, a coisa é da pesada; o cangaço impera). Francis desmitificou o Brasil; colocou a mediocridade, a jequice, o confete, no lugar deles. Se Sarney afirmar que Lula pode fazer o que quiser, “porque é um patrimônio do Brasil”, ou se Lula disser que Sarney tem direito a ser o maior patrimonialista brasileiro de todos os tempos, a massa acredita, incluindo a UNE. O Brasil da era da mediocridade dá couto a ladrões e assassinos. Só que o estado é constituído de instituições. O governo é apenas uma delas. Não temos mais Paulo Francis, mas temos pelo menos a banda não amestrada da imprensa, aquela que não arria a calça para os jumentos da era da mediocridade, e temos intelectuais como Joaquim Barbosa.
Lula ameaça percorrer o Brasil para mostrar que é dono da unanimidade. Dará certo desta vez?

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