sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Manoel Bispo, Steven Spielberg e Abraham Lincoln

BRASÍLIA, 8 de fevereiro de 2013 – Em 1973, no Rio de Janeiro, o poeta Manoel Bispo me convidou para vermos o filme de estreia de Steven Spielberg, Encurralado.
Tu ainda vais ouvir falar nesse cineasta – disse-me o poeta, ao sairmos do cinema. A noite caíra em Copacabana, como uma amante que estamos esperando desde cedo, e que cheira a mar. Manoel Bispo é poeta e pintor, natural de Macapá, a cidade que se debruça para o maior rio do mundo, o Amazonas, não muito distante da sua boca, quando o gigante é seccionado pela Linha Imaginária do Equador. É poeta não porque tenha livros publicados, mas é que tem antenas especiais, com as quais se conecta com o Éter.
Concordei com ele. Eu também estava feliz, como quando lemos um grande livro. Encurralado (Duel) estreou em 1971, nos Estados Unidos. Trata-se de um filme curto, de 90 minutos, feito para a televisão e em apenas 13 dias, com roteiro de Richard Matheson. O argumento é simples: David Mann (Dennis Weaver) está dirigindo seu carro pelas estradas da Califórnia quando começa a ser perseguido por um caminhão gigantesco. Ao estrear no Rio, já sabíamos que havia levado o prêmio de melhor filme no Festival de Cinema Fantástico de Avoriaz, França, além de outras premiações.
Spielberg, que é de dezembro de 1946 está com 66 anos  levou o Oscar de Melhor Filme pelo A Lista de Schindle (Schindler's List), de 1994, e de Melhor Diretor por A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan), de 1999. É o diretor que mais tem filmes na lista dos 100 Melhores de Todos os Tempos, do American Film Institute, e é considerado um dos cineastas mais populares e influentes da história do cinema. A Forbes calcula que tenha US$ 3 bilhões. Foi aluno relapso e não conseguiu vaga no curso de cinema da Universidade da Califórnia; acabou fazendo literatura inglesa. Mas aos 13 anos de idade venceu seu primeiro concurso de curta-metragem, com Fuga do Inferno, de guerra, com 40 minutos. Aos 16, fez seu primeiro Super 8; em 1969, estreou profissionalmente com o curta Amblin, de 24 minutos, sobre um casal de jovens no deserto de Mojave, exibido no Festival de Filmes de Atlanta e premiado depois em festivais importantes, como o de Veneza. Então Spielberg tentou entrar na University of Southern California, mas não foi aceito. Aí, foi estudar na Universidade Estadual da Califórnia, onde fez cinco filmes.
Após Amblin, veio sua grande oportunidade. Assinou contrato com a Universal e dirigiu seu primeiro longa, Encurralado, para a televisão; fez tanto sucesso que foi parar nos cinemas. O trabalho seguinte, Louca Escapada (1974), foi elogiado pela crítica, mas um fracasso de público. Essa produção, contudo, foi o início da parceria entre ele e o compositor John Williams. Em 1975, dirigiu Tubarão, que faturou mais de US$ 100 milhões e conquistou o mundo, inaugurando um estilo de superprodução, com muito marketing e efeitos especiais. Também Spielberg inovou na utilização da trilha sonora, de John Williams, recurso que passaria a ser imitado. No filme, a música precedo o tubarão, um monstro que começou a fazer refeições com turistas de um balneário. Em 1977, laçou Contatos Imediatos de Terceiro Grau, e em 1979, amargou o fracasso de 1941 - Uma Guerra Muito Louca (1979), fiasco superado em 1981, com Os Caçadores da Arca Perdida, que teve três sequências: Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984), Indiana Jones e a Última Cruzada (1989) e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008), todos com Harrison Ford.
Em 1982, veio sua consagração definitiva, com o clássico E.T, o Extraterrestre. Em 1985, fez A Cor Púrpura, e, em 1987, O Império do Sol. Em 1989, novo fracasso, com Além da Eternidade. Refez-se em 1991, com Hook - A volta do Capitão Gancho. Em 1993, dois filmes seus lotaram as salas de cinema em todo o mundo: Jurassic Park e A Lista de Schindler, pelo que levou o Oscar de melhor diretor e melhor filme. Seguiram-se Amistad, de 1997, e O Resgate do Soldado Ryan, de 1999, com o qual recebeu o segundo Oscar de melhor diretor. Vieram A.I. - Inteligência Artificial (2001); Minority Report (2002); e Prenda-me se For Capaz, também de 2002; O Terminal, de 2004; e Guerra dos Mundos, de 2005, mesmo ano de Munique. Em 2011, lançou As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne (The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn) e War Horse.
Fiz esse rapapé todo só para falar em Lincoln, último filme de Spielberg, e em cartaz no Brasil. Com roteiro de Tony Kushner, trata-se de um drama político intimista, baseado no poder da palavra, e mesmo assim sucesso de público. É porque o filme fala da condição mais sagrada da raça humana: a liberdade. Resgata os últimos quatro meses da vida de Abraham Lincoln (Hodgenville, 12 de fevereiro de 1809 — Washington, 15 de abril de 1865; décimo sexto presidente dos Estados Unidos, de março de 1861 até seu assassinato, em abril de 1865). Steven Spielberg prova, em Lincoln, uma tese na qual acredito piamente: todo mundo, todos mesmo, temos uma missão na vida. Às vezes, fazemos coisas inacreditáveis, ou sobrevivemos quando já deveríamos estar mortos. A razão disso é um mistério. A grande missão de Lincoln foi libertar os escravos da corrente propriamente dita, e no rastro disso construir o grande país norte-americano. Nenhuma nação cresce sobre a escravidão, nem sob a ditadura. Três dias antes de morrer, Lincoln sonhou que estava a bordo da balsa de Caronte, no rio Aqueronte, com destino a Hades. No filme, ao ganhar a guerra, o general Ulysses Simpson Grant encontra-se com Lincoln, e observa que o presidente envelhecera de modo sobrenatural. Lincoln replica que sente seus ossos chacoalharem, como os de uma pessoa que já morreu. Em 14 de abril de 1865, logo depois da vitória da décima terceira emenda à Constituição e dos ianques na Guerra de Secessão (1861-1865), Lincoln foi assassinado de forma inexplicável. Deixou a Casa Branca para assistir à encenação da peça Our American Cousin no Ford. Estava no camarote quando o ator John Wilkes Booth, de 26 anos, o matou com um tiro, “para vingar a derrota do Sul”.
A décima terceira emenda matou Lincoln, mas essa era sua missão. E os estadistas não fogem da sua missão.


Com informações da Wikipédia

4 comentários:

  1. Muito bom, amigo Ray. Compartilhei,como sempre compartilho suas matérias. Bom carnaval de livros e filmes. rsrrsrs

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  2. Ray excepcionalmente bem constituido o texto pela palavras,impar raciocionio pela tessitura dos informativos historicos(Lincoln foi e o é, e Spielberg, o será.)Providencial o convite do Bispo (Vizinho da Ernestino Borges-Macapá).Onde a liberdade andava de pés descalços.E nos documentos o espaço destinado a Raça era prenchida com a palavra'Humana' ( Paulo Freire)
    O que vem confirmar o que disse no texto "Todos temos uma missão na vida"Dos quatro.Tres continuam tendo(Spielberg,Bispo,Ray.)
    Luiz Jorge.

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  3. Belo texto, Ray! No meu entender, melhor que o filme, que contém uma série de lugares-comuns, frases de (pouco) efeito e "patriotada" norte-americana. No entanto, considerei espetacular a atuação do Daniel Day-Lewis, para mim, disparado, o melhor ator de cinema dos últimos 40 anos, no mínimo. Há alguns diálogos muito bons, também, como aquele entre Lincoln e a escrava que presta serviço em sua casa. Bem, mas considerando que o primeiro negro só pode entrar numa universidade 100 anos depois da aprovação da 13a. emenda, já nos anos sessenta do século XX, o progresso das ditas liberdades nos EUA é bem, bem lento. Abraço!

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