domingo, 31 de março de 2013

Os portais da Amazônia

Tuiuiú Crucificado, acrílica sobre tela, de Olivar Cunha
 
Para Olivar Cunha
 
Na Amazônia, aquela região remota do planeta, o leigo, na sua imaginação, é devorado por insetos e microrganismos, torrado pelo sol equatorial, afogado pela água do ar, num santuário onde a danação atinge o clímax: a ideia, indelével, de que os colonos – europeus, americanos, paulistas, gaúchos, mineiros das Alterosas, japoneses – são deuses; ideia estratificada no pensamento, acomodado, dos colonizados, que se imaginam seres inferiores, servos dos sangues-azuis. Então, a Amazônia ferve no ventre das trevas. Assim, o leigo foge da miragem amazônica, grávido das velhas ideias preconcebidas de que o Trópico Úmido só serve para três fins: construção de hidrelétricas, extração de madeira e mineral, e reserva de caça e pesca. Já ao olhar clínico dos iniciados se desvanecem as brumas e vê-se com o coração. Aí, surge o paraíso. De modo que a Hileia é uma só: inferno verde e paraíso tropical – depende do olhar.
 
O olhar do coração é a chave dos iniciados; cada qual possui seus portais, nos quais ganham asas e mergulham em busca da alma amazônica. E é precisamente em uma erva que viceja como mato na Hileia que se aloja a alma da Amazônia: o jambu, que encerra cheiros, sabores, texturas, sons, visões e mente do caboco no espilantol. Minha cidade natal é um dos portais por onde enceto o voo. Vista de quem chega pelo rio, Macapá é uma miragem que vai se definindo na medida que o dia amanhece, como mulher emergindo do mergulho, respingando água, aos primeiros raios do sol, na cabeceira da Linha Imaginária do Equador. Macapá significa macapaba; em tupi, lugar de muitas bacabeiras, palmeira nativa da região; o fruto, bacaba, é transformado em suco delicioso, quase tanto quanto açaí, este, de grande significado para os amapaenses, que já foram paraenses; e os parauaras são os mais ávidos tomadores de açaí, outro portal.
 
Tomados pela cólera dos deuses, os espanhóis instalaram no continente ibero-americano uma aristocracia escravocrata que os portugueses potencializaram e que perdura até hoje, e desembarcaram no setentrião da Amazônia Azul antes mesmo de Pedro Álvares Cabral, de modo que em 1544, Carlos V de Espanha chamou aquelas paragens tucujus de Adelantado de Nueva Andaluzia, ao conceder a província ao navegador espanhol Francisco de Orellana, que, cego pela ambição, vagou pela Amazônia em busca da cidade de ouro, El Dorado, e, como seus colegas, foi vencido pelo inferno verde. Em 1738, colonos portugueses instalaram, ali, um destacamento militar, a Praça São Sebastião, atual Veiga Cabral, onde, em 4 de fevereiro de 1758, foi levantado o Pelourinho, na presença do capitão-general do Estado do Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, fundando-se a Vila de São José de Macapá, selando o fim da nação que dominava aquela beirada de rio, o povo tucuju, do tupi tucumã, palmeira natural da Amazônia, de frutos doces e oleosos, matéria-prima para vinho, licor e mingau.
 
Em 1764, Portugal mostrou seu poderio na Amazônia, iniciando a construção de projeto do engenheiro italiano Henrique Antônio Gallúcio, a Fortaleza de São José de Macapá, concluída em 1782, encravada defronte ao Canal do Norte e a cerca de 200 quilômetros da boca do Amazonas, quando o rio despeja pelo menos 200 mil metros cúbicos de água e húmus no oceano Atlântico, por segundo, contribuindo para que as costas do Amapá e do Pará sejam as mais ricas do planeta em vidas marinhas. Quanto aos tucujus, tornaram-se o símbolo de um tempo heroico; espanhóis e portugueses legaram a era atual, de colonos e colonizados – a tragédia que perpassa a Ibero-América, e toda a questão amazônica.
 
Nos portais há outros portais. Rosas para a Madrugada e Malabar Azul, de Isnard Brandão Lima Filho; Os Periquitos Comem Manga na Avenida, de Fernando Canto; o próprio Alcyr Araújo, o Poeta do Cais; o poeta e contista José Edson dos Santos, Joy Edson; o pintor Raimundo Peixe; o gênio Olivar Cunha, que completa 61 anos neste 31 de março de 2013; nasceu no mesmo dia em que nosso pai, João Raimundo Cunha, plantou a seringueira que intercepta o muro do Colégio Amapaense, na Rua Eliezer Levy. Mágico como Goya, sua fase de mendigos no Guamá, subúrbio de Belém do Pará, durante a década de 1970, e sua fase de tuiuiús crucificados, nos anos de 1990, garantem-lhe lugar entre os grandes do expressionismo brasileiro; óleos como Lavadeiras do Sol são como o tacacá da dona Maria do Carmo Pompeu dos Santos, às 6 horas da tarde, sentado no calçadão defronte ao Colégio Nazaré, em Belém.
 
A construção da Fortaleza por meio do trabalho escravo de negros e índios foi o cadinho em que se forjou a etnia macapaense. Os africanos fundaram o quilombo do Curiaú e o bairro do Laguinho, misturaram-se com os índios e legaram cafuzos; os portugueses cruzaram com os africanos e geraram mulatos, e fornicaram com os índios, formando uma população de mamelucos, numa diversidade étnica viva nas ruas de Macapá, nas nuanças de peles bronzeadas; de jambo maduro; ébano; e alabastro, unidos pelo sotaque caboco, a fusão do português falado em Lisboa, doces palavras tupis e fiapos do patoá das Guianas, além da seminudez dos habitantes do Trópico Úmido e do olhar da mulher amazônida, como jambu espalhando-se pelas papilas gustativas da alma, o embalar de rede no rio da tarde, o choro dos jasmineiros noturnos.

sábado, 30 de março de 2013

CONTO/Vila Belzebu

O ônibus estava bastante cheio. O motorista ia correndo um bocado e freou bruscamente quando Mutreta deu o sinal. Uma anta veio voando lá detrás e deu uma chifrada num bebê que só estava chupando o dedo. O bebê começou a chorar e levou uma bofetada.
 
– Cala a boca, assassino! – disse-lhe a mãe dele, repreendendo-o severamente.
 
Pipira, o pai, conseguiu se apoiar na muleta de um saci pererê.
 
Como o ônibus já estava muito lotado, o casal que ia saltar jogou os três garotinhos, seus filhos, pela janela. Um deles caiu de mau jeito e já ia para baixo das rodas de uma escavadeira Caterpilar quando um soldado da PM o puxou pelas pernas, tornando-se um herói.
 
Um pretão de três metros quis tirar um sarro com uma anã e foi atingido com um golpe baixo. Um sujeito com mania de cavalo ia relinchando, mas foi posto para fora com um pontapé na parte esquerda do beiço inferior. O motorista estava com muito ódio de um sujeito que puxou a caneta para anotar a placa do carro, a fim de “posteriormente”, conforme explicou para um vizinho, “queixar-se nos ditames da lei no departamento cabível”.
 
– Tu és um sem vergonha, seu cretino desavergonhado e purulento. Não sei onde estou que não paro este ônibus, boto todo mundo pra fora e pronto. Ainda te dou uma surra só com meu par de meias, cujo fedor nem hiena aguenta.
 
O sujeito que puxou a caneta estava visivelmente com medo da barbaridade do motorista.
 
– Basta a gente olhar para a tua cara, cabra safado, para se ver que a vergonha em ti já foi lambida. Tu estás pensado que é só puxar uma caneta e anotar a chapa, é?
 
– Vê se tu paras na tua casa; quero conversar com a tua mãe! – gritou alguém lá do meio do coletivo.
 
– Se esse insulto partisse de ti, sujeitinho descarado – disse o motorista para o incauto escrevinhador –, eu te poria os dedos dos pés nessa tua cara insossa. Tu herdaste essa cretinice da tua mãe?
 
O outro, acovardado e humilhado, pediu pra saltar, mas, num gesto inesperado de heroísmo, fincou a caneta no alto da cabeça do motorista. Ao ver o sangue, o chofer começou a sentir vertigens, até que apareceu uma gueixa com um leque do tamanho de um guarda-sol e começou a abanar o gajo. Ele se recompôs e zarpou.
 
Nessas alturas começou a trovejar e caiu um baita aguaceiro, que logo encharcou a Margarida. Ela fechou mais que rapidamente a janela, mas quando viu a janela foi aberta de novo. Ela tornou a fechá-la, mas novamente a janela foi aberta. Então Margarida olhou para trás e viu um sujeito com dois fundos de garrafa na cara abrindo a janela da moça.
 
– Primeiro vou te arrancar dos olhos esses dois telescópios, depois quebro eles e te corto os dedos mindinhos. A seguir, tiro meus sapatos altos e te dou com o salto de ferro só nos lóbulos das orelhas e no osso do nariz.
 
O rapaz, todo ensanguentado, explicou que não enxergara direito a janela, que só tinha uma das vidraças.
 
– Meu Deus! Massacrei um intelectual por causa da janela deste ônibus – lamentou Margarida.
 
Foi nessa hora que jogaram uma pedra no olho do motorista. Ele perdeu a direção do carro e o ônibus brecou certo no fim da linha, na Vila Belzebu, onde o bicho já os esperava de garfo em punho.
 
 
Publicado na Tribuna do Brasil, em 1987, e no Inteligentsia, em setembro de 1994, ambos os jornais em Brasília

quarta-feira, 27 de março de 2013

Preserve Amazônia: sete anos de trabalho voltado para o desenvolvimento sustentável dos amazônidas, sem o qual não pode haver desmatamento zero

 
Caribe? Não, ilha de Alter do Chão, no rio Tapajós,
município de Santarém, estado do Pará, Brasil
 
BRASÍLIA, 27 de março de 2013 – Há sete anos, desde 21 de março de 2006, a Associação Preserve Amazônia, sediada em Brasília, vem engrossando o caldo formado pelas instituições, bancada da Amazônia no Congresso Nacional, governadores e prefeitos do Trópico Úmido, que se empenham pelo desmatamento zero da Hileia. Localizado estrategicamente na Estrada do Sol, Fazenda Jardim Botânico, Chácara 5, o escritório da Preserve Amazônia foi erguido dentro de uma área de 28 hectares no bairro Jardim Botânico e onde se localiza o córrego Forquilha, um dos afluentes da Bacia do Rio São Bartolomeu. O terreno conta com viveiro de espécies arbóreas com capacidade para 12 mil mudas, destinadas a projetos de reflorestamento.
 
Os sete anos da Preserve Amazônia culminaram com o show Semente das Águas, do compositor, guitarrista e cantor brasiliense Haroldinho Mattos, dia 23, no Jardim Botânico de Brasília, onde, no dia 21, o presidente da ong, Marcos Dreux Mariani, proferiu palestra para estudantes do ensino fundamental sobre o Dia Mundial da Floresta, seguindo-se trilha ecológica e plantio de árvores; e dia 22, a consultora da Preserve Amazônia, Patrícia Michelle Feliciano, falou sobre o Dia Mundial da Água, também para alunos do ensino fundamental e seguindo-se trilha ecológica e plantio de árvores.
 
O trabalho de extensão da Preserve Amazônia vem sendo realizado ao longo desses sete anos por meio de dezenas de ações, “com o objetivo de conscientizar as pessoas, sobretudo crianças e estudantes, da importância de se preservar o meio ambiente, com, por exemplo, o plantio de árvores, não somente em Brasília, mas também em outros pontos do país” – afirma Marcos Mariani. Uma das ações mais significativas é o trabalho que vem sendo junto ao Congresso Nacional, “para frear as rodovias irregulares na Amazônia” – diz Mariani. “Fizemos inclusive uma palestra na Procuradoria Geral da República sobre esse tema, levando-o ainda para a Rio Mais 20.”
 
Marcos Mariani ressalta que “enquanto houver desmatamento na Amazônia estaremos trabalhando para reduzir isso a zero”. A ong começou seu trabalho num momento em que o desmatamento atingiu um nível drástico, de cerca de 20 mil quilômetros de floresta postos abaixo em um ano; desde então, esse índice vem caindo e, hoje, são toradas cerca de 6 mil quilômetros de árvores/ano, “o que não deixa de ser o mesmo absurdo”. Também de 2006 para cá, “identificamos questões da infraestrutura de transporte a serem trabalhadas do ponto de vista de políticas públicas e procuramos atuar nesse segmento” – comenta Marcos Mariani.
 
“De alguma maneira, devemos ter contribuído para a redução do desmatamento na Amazônia nesse período. Reconhecemos que somos apenas uma gota no oceano, mas estamos firmes na luta, sob o lema unir para preservar, pois a união faz a força, e um elo é sempre fundamental para a corrente” – diz Mariani, frisando que a bancada da Amazônia no Congresso Nacional “é bastante solidária a nós, ao abrir espaço ao debate sobre desenvolvimento sustentável, especialmente quando se trata do desenvolvimento sustentável dos povos que habitam a Amazônia”.
 
A AMAZÔNIA, foco principal da ong brasiliense, é uma região pouquíssimo conhecida pelos brasileiros. Situada ao norte do país, é compreendida por várias bacias hidrográficas, especialmente a do rio Amazonas, a maior do planeta, com 25 mil quilômetros de rios navegáveis em seis países: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela. A Amazônia Legal inclui os estados do Acre, Amapá, Amazonas, o oeste do Maranhão, o norte de Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Com 5 milhões de quilômetros quadrados, 59% do território brasileiro e 67% das florestas tropicais do mundo, se fosse um país seria o sexto maior em extensão territorial, dono de um terço das árvores, 20% da água doce e maior biodiversidade e província mineral do planeta.
 
Mas esse patrimônio está sendo destruído. Minerais, pedras preciosas, borracha, madeira, soja, pecuária, ou simplesmente o sonho de ter um pedaço de terra, são alguns dos motivos que levam estrangeiros e brasileiros de todas as regiões do país a migrarem para a Amazônia Legal, especialmente a Amazônia Clássica (Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima), atingindo de forma direta a floresta, seja na procura de sustento, ou em grandes projetos econômicos, que acabam beneficiando meia dúzia de pessoas e alijando do desenvolvimento índios, ribeirinhos, quilombolas e descendentes de europeus solidamente fincados na Hileia – o caboclo amazônida, enfim. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Amazônia Legal tem mais de 21 milhões de habitantes, mais de 12% da população brasileira.
 
Junto com os grandes projetos e as rodovias vieram também o desmatamento e a degradação do bioma. Em 1978, calcula-se que apenas 1% da Amazônia foi desmatado; hoje, 20% da floresta já foram torados. Segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), os desmatamentos e as queimadas afetam o ciclo hidrológico da região e jogam por ano 200 milhões de toneladas de carbono na atmosfera, colocando o Brasil em quarto lugar no ranking dos países que mais emitem CO2 e gases de efeito estufa, o que, segundo estudiosos do assunto, contribui para mudanças climáticas não somente na região amazônica e no continente sul-americano, mas em todo o planeta.
 
Mas como chegar ao desmatamento zero aliado ao desenvolvimento econômico e social dos moradores da Amazônia? Eis no que se resume a questão amazônica. A resposta é basicamente a seguinte: o governo federal precisa investir, pesada e permanentemente, no Tópico Úmido, de forma que os grandes projetos que rasgam a floresta sejam concebidos para a Amazônia, ou seja, para os amazônidas em primeiro lugar, e não somente projetos na Amazônia, como é o que se vê.
 
Tudo bem que se construa uma Usina Hidrelétrica de Tucuruí da vida, da mesma forma que se está construindo a Hidrelétrica de Belo Monte, ambas no Pará, desde que abasteçam com energia firme primeiramente os amazônidas, e só depois comercializar o excedente para outras regiões do país e para fabricar lingotes de alumina para o Japão (isto sim é internacionalizar a Amazônia). Em segundo lugar, o caminho das pedras parece ser o incentivo técnico e financeiro ao cultivo de espécies nativas e sua comercialização com alto valor agregado.
 
Contudo, está em primeiríssimo lugar a instalação, ampla, e com excelência, de cursos como: oceanografia; engenharia naval, de pesca e agronômica; biologia; medicina tropical; engenharia de geradores de energia solar e eólica; engenharia voltada para hidrovias; especialização em direito agrário da região; arqueologia; e história e literatura da Amazônia. Esse parece ser o destino das universidades das cidades amazônicas, especialmente as federais, o que só será possível com a mobilização das instituições organizadas dos próprios amazônidas.
 
“A Preserve Amazônia foi instalada estrategicamente em Brasília para cumprir a missão de zelar pelo meio ambiente, especialmente da Amazônia, em parceria com todos que se empenham, incansavelmente, pela prosperidade dos amazônidas, sem o que não será possível o desmatamento zero” – profetiza Marcos Mariani.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Preserve Amazônia festeja aniversário com palestras e o show Sementes das Águas, do guitarrista Haroldinho Mattos

BRASÍLIA, 20 de março de 2013 – A Preserve Amazônia e o Jardim Botânico de Brasília convidam para o show Semente das Águas, do guitarrista Haroldinho Mattos, neste sábado, 23, no Jardim Botânico, às 16 horas, com entrada franca. O show fecha programação de aniversário da Preserve Amazônia, fundada em 21 de março de 2006. O presidente da ong, Marcos Dreux Mariani, proferirá palestra para estudantes da rede pública e aberta ao público em geral, com o tema “Dia Mundial da Floresta”, nesta quinta-feira, 21, às 14h20, no Jardim Botânico, seguindo-se trilha ecológica às 15 horas e plantio de hortaliças às 15h30, com encerramento às 16 horas. Sexta-feira 22, a consultora da Preserve Amazônia, Patrícia Michelle Feliciano, falará sobre o “Dia Mundial da Água”, para alunos da rede pública e o público em geral, às 14h30, no Jardim Botânico, seguindo-se trilha ecológica às 15 horas e plantio de hortaliças às 15h30, com encerramento às 16 horas.
 
A Associação Preserve Amazônia nasceu com a missão de promover a consciência ambiental, contribuindo para com o desenvolvimento sustentável e o equilíbrio climático do planeta, aliando bem-estar social à conservação da natureza, além de se empenhar pelo desmatamento zero da Amazônia. A ong desempenha seu papel junto à população do Distrito Federal – num trabalho voltado para a conscientização da importância de se conservar o meio ambiente – e às organizações do terceiro setor e do poder público, com o objetivo de multiplicar conhecimentos sobre o meio ambiente, além de focar sua atividade pela preservação da Hileia, especialmente junto à bancada da Amazônia no Congresso Nacional, governadores e prefeitos da Região Norte, onde se localiza a maior floresta tropical e o maior reservatório de água doce superficial do planeta, o que torna a região especial para a Humanidade, cabendo ao Brasil, e países amazônicos, sua conservação e o desenvolvimento sustentável, o que implica basicamente no desenvolvimento econômico e social do morador da Amazônia.
 
Sediada estrategicamente em Brasília, o escritório da Preserve Amazônia foi erguido dentro de uma área de 28 hectares do bairro Jardim Botânico e onde se localiza o córrego Forquilha, um dos afluentes da Bacia do Rio São Bartolomeu. Localizada na Estrada do Sol, Fazenda Jardim Botânico, Chácara 5, Lago Sul, a ong conta com um viveiro de espécies arbóreas com capacidade para 12 mil mudas, para projetos e parcerias de reflorestamento. A equipe da Preserve Amazônia está trabalhando em um projeto de hotel fazenda que contará com centro esportivo, educacional e cultural, além de espaço para a instalação de ongs ligadas ao meio ambiente, ou seja, um polo de preservação ambiental que abrigue organizações, exposições permanentes ou temporárias e apreciadores de assuntos relacionados à Amazônia e ao meio ambiente. A sede da entidade contará ainda com anfiteatro e sala de projeções, destinados à educação e conscientização ambientais dos visitantes, sempre em busca do desenvolvimento de uma cultura de valorização da vida sustentável para uma sociedade moderna.
 
A AMAZÔNIA – O foco principal da Preserve é a Amazônia, região compreendida por várias bacias hidrográficas, especialmente a do rio Amazonas, a maior do planeta, com 25 mil quilômetros de rios navegáveis em seis países: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela. A Amazônia Legal inclui os estados do Acre, Amapá, Amazonas, o oeste do Maranhão, o norte de Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Com 5 milhões de quilômetros quadrados, 59% do território brasileiro e 67% das florestas tropicais do mundo, se fosse um país seria o sexto maior em extensão territorial, dono de um terço das árvores, 20% da água doce, maior biodiversidade e província mineral do planeta.
 
Mas esse patrimônio está sendo dilapidado. Minerais, pedras preciosas, borracha, madeira, soja, pecuária, ou simplesmente o sonho de ter um pedaço de terra, são alguns dos motivos que levam estrangeiros e brasileiros de todas as regiões do país a migrarem para a Amazônia Legal, especialmente a Amazônia Clássica (Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima), atingindo de forma direta a floresta, seja na procura de sustento, ou em grandes projetos econômicos, que acabam beneficiando meia dúzia de pessoas e alijando do desenvolvimento índios, caboclos, ribeirinhos, enfim, o amazônida, que é aquele que vive na Hileia. Junto com os grandes projetos e as rodovias vieram também o desmatamento e a degradação do bioma. Segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Amazônia Legal tem mais de 21 milhões de habitantes, mais de 12% da população brasileira.
 
Em 1978, calcula-se que apenas 1% da Amazônia foi desmatado; hoje, 20% da floresta foram torados (derrubados). Só em 2004, pôs-se abaixo cerca de 27 mil quilômetros quadrados, área correspondente a do estado de Alagoas. Em 2009, a devastação atingiu seu recorde, engolindo aproximadamente 7.400 hectares por dia, principalmente no Pará e em Rondônia. O desmatamento no Pará soma cerca de 207.085 quilômetros quadrados e Rondônia já destruiu cerca de 28,5% da sua flora, de acordo com dados do IBGE. Um hectare é equivalente a um campo de futebol, como observa o jornalista Lúcio Flávio Pinto.
 
Estudo do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), em 2002, aponta que 47% da Amazônia sofreram algum tipo de interferência humana. Segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), os desmatamentos e as queimadas afetam o ciclo hidrológico da região e jogam por ano 200 milhões de toneladas de carbono na atmosfera, colocando o Brasil em quarto lugar no ranking dos países que mais emitem CO2 e gases de efeito estufa, o que, segundo estudiosos do assunto, contribui para mudanças climáticas não somente na região amazônica e no continente sul-americano, mas em todo o planeta.
 
Mas como chegar ao desenvolvimento econômico e social dos moradores da Amazônia juntamente com o desmatamento zero? A questão amazônica resume-se nisso. Basicamente, a resposta é a seguinte: o governo federal precisa investir, pesadamente e de forma permanente, em grandes projetos para a Amazônia, e não somente na Amazônia. Tudo bem que se construa uma Usina Hidrelétrica de Tucuruí da vida, desde que abasteça com energia firme primeiramente os amazônidas; e não é o que acontece. Em segundo lugar, o cultivo de espécies nativas e sua comercialização com alto valor agregado parece ser o caminho das pedras.

sexta-feira, 15 de março de 2013

CONTO/Eduardo Campos e a anta

Sabe quando amanhecemos com a sensação de que sonhamos, mas não lembramos bulhufas? Pois foi assim que amanheci, hoje. Já faz tempo que não sonho. Não sei se isso tem a ver com a idade, 68 anos. Moro na 711 Sul e vou para o trabalho de ônibus. Pego o circular e desço no Setor Comercial, defronte ao shopping Pátio Brasil, e faço, então, minha caminhada diária, seguindo até a Rodoviária do Plano Piloto, sempre em torno das 8 horas, quando há muita mulher bonita caminhando por ali, os cabelos ainda molhados; dá vontade de cheirá-los. Sou do tipo que não pode viver sem mulher. Estou no sexto casamento; minha esposa atual tem 30 anos e está com oito meses de grávida. Antes de tomar o ônibus para o Setor Gráfico, onde fica a revista semanal que eu comando, leio a capa dos jornais na banca de revistas da ala oeste do primeiro piso da Rodoviária. Sou viciado nisso. A Folha de São Paulo é quase sempre a melhor capa; muito bem diagramada, títulos e chamadas enxutos e em cima da ferida, sempre interpretando e se antecipando. Gosto do Estadão também. Talvez ainda seja o jornal que cubra mais amplamente o país. A capa de O Globo é sempre a que leio com carinho; acho o Rio de Janeiro, onde vivia, antes de vir para Brasília, a cidade de todos os brasileiros, e O Globo traz sempre várias páginas sobre o dia a dia da Maravilhosa. O Correio Braziliense tem batido forte no PTMDB, o consórcio entre o Partido dos Trabalhadores e o Partido do Movimento Democrático Brasileiro. Trabalhei no Correio na época do Oliveira Bastos e Walmir Botelho. Foi um momento de ouro; até Gláuber Rocha andava por lá. Já O Povo, de Goiânia, é apenas um jornal familiar. A banca não expõe publicações do Nordeste, minha terra natal. Sou de Cascavel, no paradisíaco litoral do Ceará, para onde me mando sempre que possível.
 
Na parada defronte ao Palácio do Buriti entrou uma senhora com um guarda chuva em riste, o motorista acelerou, largando uma nuvem de fuligem, e a senhora veio para cima de mim com a lança; só deu tempo de desviar a ponta para o chão. Sou aiquidoca. Não sei por que, lembrei-me do Chifrudo. Segundo andei pesquisando na Wikipédia, o Chifrudo se chama Monumento Solarius. É um monstrengo de 16 metros de altura, de autoria do francês Ange Falchi, fincado na margem leste da BR-040, à esquerda de quem segue do Distrito Federal para Goiás. O monumento veio de Nice, transportado em sete blocos de aço e ferro, doado pelo governo francês a Juscelino Kubitschek e inaugurado em 26 de novembro de 1967, numa homenagem à construção de Brasília, simbolizando a ocupação territorial do DF. “O símbolo do pioneiro indômito, que conquistou a região agreste e pungente do Planalto Central” – segundo a Wikipédia, é feio como o diabo. Bom, por trás do Chifrudo uma estrada vicinal dá acesso ao córrego Saia Velha, onde há um restaurante bastante agradável.
 
Os ônibus de Brasília são sucatas imundas, e podem se desintegrar no percurso. Quando chegávamos à parada da Câmara Legislativa, a roda dianteira esquerda do ônibus voou e pegou um automóvel, afundando a porta traseira. Se fosse a roda direita, teria matado, ou avariado bastante, alguém na calçada. Sorte também que o motorista foi hábil. Ele desceu e enquanto tratava com o motorista do automóvel atingido, o trocador reuniu os passageiros para aguardarem outro carro; um sujeito estava exaltado e queria tocar fogo no ônibus, mas antes que ele acendesse o isqueiro veio outro coletivo da linha e embarcaram nele. Preferi caminhar até a revista, a uma quadra dali. Quando cheguei, Sara, minha secretária, levou-me café e ligou a televisão, sintonizada na TV Globo. Estava passando uma matéria com Eduardo Campos, presidente do PSB (Partido Socialista Brasileiro) e governador de Pernambuco. Então me lembrei do sonho: eu estava no Quênia, caçando com Ernest Hemingway; de repente víamos um guerreiro masai partir com a lança em riste em direção a um leão, no cerrado, mas não era leão, e sim uma anta, e o guerreiro era Eduardo Campos. A anta, bem, talvez o jornalista Diogo Mainardi saiba de quem se trata; afinal, ele se especializou em tapirídeos.
 
“Se os tucanos continuarem a arrancar as penas uns dos outros, vão tomar na cloaca” – pensei. 
 
 
Brasília, 13 de março de 2013

sábado, 9 de março de 2013

O voo do condor

BRASÍLIA, 9 de março de 2013 – Tomei o ônibus no fim da Avenida Comercial Sul, em Taguatinga, com destino ao Cruzeiro Novo. Sabe como são os ônibus em Brasília, sucateados e imundos. Era em torno de 11 horas, um sol de amolecer o asfalto e o motorista irritado com o calor e o congestionamento. A frota no Distrito Federal está em torno de 2,5 milhões de carros e as vias de ligação (aqui, rodovias urbanas) são poucas. O resultado já se viu. Falar nisso, acho que o trânsito em Taguatinga é um dos piores do mundo, até mesmo do que na minha cidade natal, Macapá, onde as ruas lembram a Lua, a sinalização é só para especialistas na decifração delas e a fiscalização é zero.
 
Elas entraram na Avenida Central, que secciona Taguatinga em norte e sul. Eram três. Duas pareciam irmãs gêmeas. Aboletaram-se no banco à minha frente, as três. Cariocas. Para mim, não há sotaque mais agradável do que o belenense, que soma a musicalidade do linguajar lisboeta, o indefectível tu, com a doçura do tupi e o sabor tropical da Linha Imaginária do Equador. Na mesma prateleira do sotaque belenense, guardo, no coração, a melodia do falar carioca, semelhante ao de Belém do Pará. Quando jovem, vivi em Copacabana. Costumava frequentar a biblioteca pública do bairro; às vezes, punha de lado a viagem que estava empreendendo para escutar a conversa de jovens estudantes em mesas lotadas ao meu lado. Punha-me a ouvir a musicalidade do falar da Zona Sul na voz daquelas doces criaturas, no momento de suas vidas em que se encontram no limiar da infância e da juventude.
 
Suas vozes me lembram, hoje, certas músicas que curam câncer, como a Nona Sinfonia de Beethoven. Segundo a análise que fiz, a coisa funciona mais ou menos assim: certos timbres, melodias, harmonias, regulam as glândulas hormonais; então, elas começam a produzir a porção exata dos diversos hormônios necessários ao funcionamento pleno do organismo, que, em harmonia consigo mesmo, expele as células cancerosas.
 
O fato é que eram três cariocas. Lindas. São necessários olhos clínicos e pureza para vermos realmente a beleza. “Os olhos são cegos. É preciso ver com o coração” – disse Antoine de Saint-Exupèry. Ele tem razão. Praticamente não enxergamos com os olhos cerebrais. Vincent van Gogh não era figurativo, mas o céu que ele pintava é tão intenso que chora. Danados são praticamente cegos; no mergulho suicida no vício, não sentem o agora e o agora, o momento mesmo da vida. São mortos-vivos.
 
Elas eram tão lindas que os vampiros, quando veem mulheres assim, rejuvenescem. Vampiros são, geralmente, homens de meia idade, a caminho acelerado para o túmulo, que sugam vida de mulheres jovens e lindas. Aproximam-se delas, aproveitando aglomerações, e aspiram-lhe o perfume, ouvem-lhes a voz, lambem-lhes com olhos de lâmina, e quando têm oportunidade, tocam-nas, e se logram as ter, sugam-nas até o caroço. São, paradoxalmente, hienas que se alimentam do belo.
 
As gêmeas eram as mais lindas. A primeira coisa que saltava aos olhos era sua pele, alva como um sorriso de criança, e macias como jambo maduro (os olhos podem desenvolver o tato). Eram altas e trajavam shortinho, expondo pernas maravilhosas ao escrutínio literário, sempre explorador. Seus olhares eram oblíquos, doces e misteriosos com o das mulatas de Di Cavalcanti, mas, na alma, agitados como o mar de ressaca, numa certa manhã de inverno em Copacabana. As gêmeas levavam nas orelhas os cabinhos ligando os ouvidos aos seus telefones celulares e de vez em quando uma delas manejava o telefone com os polegares, regulando sua vida virtual. A que não era gêmea usava um piercing, desses que lembram uma pequena verruga, no nariz, e cuidava das unhas. Conversavam, e creio que se entendiam mais por uma questão tácita do que pelo som propriamente dito, já que o ônibus sucateado resfolegava ao trânsito impossível e ao calor delirante.
 
Desci próximo ao Terraço, no Cruzeiro Novo, e entrei no shopping para tomar um espresso. O Terraço é bastante agradável. Meio aberto, logo à entrada, no átrio principal, mesas, e suas respectivas cadeiras espalham-se nos corredores. Frequento o Victória Café, que disponibiliza confortáveis mesas e cadeiras de vime (palhinha, como dizemos em Macapá). Lá, o expresso custa R$ 4. Apesar de ser um blend no qual quase não se nota grãos tipo arábica, e a colherzinha ser de plástico, o cafezinho é acompanhado de água mineral com gás e gelada, e um biscoitinho. O dióxido de carbono da água gaseificada serve para limpar as papilas gustativas e proporcionar, assim, a degustação dos mais de mil tipos de partículas do café; o biscoito, ou chocolate, é apenas um acompanhamento, com o intuito de se valorizar o serviço prestado pela cafeteria.
 
Em casa, mergulho na tarde. A tarde é como um rio largo, em solo linear, lento, na sua caminhada, sem pressa de desaguar em outro rio, ou no mar. Gosto mais ainda de certo momento da tarde, na sua agonia, quando flocos noturnos começam a cair, e nos damos conta de que a noite chegou de repente, como um navio todo iluminado.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Um dos gigantes do pensamento paraense, Vicente Salles, parte para o mundo espiritual. Lúcio Flávio Pinto é um dos herdeiros intelectuais do historiador

O intelectual paraense Vicente Salles (foto de Laís Teixeira/O Liberal)
 
BRASÍLIA, 8 de março de 2013 – Conheci Vicente Juarimbu Salles em 1996. Ele dirigia o Museu daUniversidade Federal do Pará (UFPA) quando fui entrevistá-lo para O Liberal, de Belém. Nascia, entre nós, uma amizade peculiar, semelhante a que cultivo com o maior jornalista da Amazônia, Lúcio Flávio Pinto: vimo-nos poucas vezes, mas tanto Vicente Salles quanto Lúcio Flávio Pinto emanavam uma intelectualidade intensa, de centenas de anos, encerrando conhecimentos profundos sobre a Amazônia.
 
Depois, em Brasília, onde Vicente Salles estava morando, estive uma ou duas vezes no apartamento dele, onde me recebeu com simplicidade cabocla e me serviu de doses generosas do seu conhecimento enciclopédico sobre o Trópico Úmido. Como acontece quando bato papo com pessoas intensas, sempre demoro um pouco para me refazer e voltar ao que chamamos de realidade. Das vezes em que tipo a rara oportunidade de privar da companhia de Vicente Salles, só aterrissei do voo vertiginoso dias depois.
 
O pesquisador, historiador, folclorista e musicólogo, um dos gigantes que pensam o Pará (agora por meio do seu legado), partiu para o mundo espiritual na madrugada de quinta-feira 7, aos 81 anos, de parada cardiorrespiratória, em um hospital particular da Cidade Maravilhosa, onde ele também viveu. Fora internado dia 27 de fevereiro, com anemia profunda e hemorragia. A viúva, Marena Salles, disse que o último pedido do marido foi de que seu corpo fosse cremado e as cinzas lançadas na baía do Guajará, que cerca a península belenense.
 
Vicente Salles deixa publicados mais de 15 livros – entre os quais O Memorial da Cabanagem –, que contribuem para a compreensão do Pará, da Amazônia, do Brasil e da Ibero-América; doou mais de 4 mil volumes e documentos e 70 mil recortes de jornais sobre temas como música, folclore, negro, artes cênicas e literatura, além cartuns, fotografias de época, cordéis, peças de teatro do repertório regional e nacional, teses, folhetos e cartazes, para o Museu da UFPA.
 
Certa vez ele me disse que a história contemporânea da Amazônia é escrita por Lúcio Flávio Pinto; pois bem, Vicente Salles ajudou a pavimentar a base para que essa história possa ser contada em profundidade, e para que possamos compreender por que no Pará o fosso social, que separa a aristocracia belenense da escravidão no coração das trevas, é tão tirânica.
 
O grande homem começou a pesquisar a história das bandas de música no interior do Pará em 1954 e, até este ano, jamais parou de pensar a cultura paraense, e a Hileia. Ainda em 1954, muda-se para o Rio de Janeiro, onde estuda jornalismo e gradua-se em Ciências Sociais pela Faculdade Nacional de Filosofia. Em 2002, recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade da Amazônia (Unama) ,e em 2011, a mesma honraria é-lhe concedida pela Universidade Federal do Pará.
 
Natural da vila Caripi, município de Igarapé-Açu, no nordeste paraense, Vicente Salles sempre se definiu como viveu: um caboclo (caboco, como diz Lúcio Flávio Pinto) autêntico.
 
A coleção Vicente Salles está disponível para consulta de segunda a sexta-feira, das 9 às 17 horas, na Biblioteca do Museu da UFPA, na Avenida José Malcher, bairro de Nazaré, Belém do Pará. Telefones: (91) 3242-6240/(91) 3242-6233.

segunda-feira, 4 de março de 2013

CONTO/Vaga-lumes piscando no cerrado

Não havia movimento algum no café, exceto pelo homem, já com certa idade, sentado à mesa junto à vidraça, de modo que podia descortinar o corredor, lá fora. Bebericava um espresso, soprando o café o chupando-o aos pouquinhos. Era quase que completamente calvo e deixara a parte cabeluda crescer, parecendo uma moita em meia lua. Tinha as mãos grandes e peludas, sólidas, como todo o resto do corpo. Terminou o café e ficou fazendo que lia a quarta capa do primeiro caderno do Correio Braziliense, de modo que quem chegasse visse a capa do jornal. Precisamente às 9h59 chegou outro sujeito e se dirigiu para a mesa ocupada pelo homem calvo, que o vira ainda no corredor e olhara para seu relógio.

– Você toma um cafezinho? – o calvo perguntou.

– Sim – disse o outro.

O calvo fez sinal para a garçonete e pediu mais um espresso.

– R$ 100 mil; metade agora e a outra metade quando meu cliente souber que o velho viajou – o calvo disse, baixinho.

– Combinado – o outro respondeu. Era alto e magro, usava chapéu de feltro de abas curtas e seus olhos eram pretos e mortiços.

– Quando eu entregar a outra metade, depois do negócio feito, você vai sumir de Brasília – disse o sujeito calvo, sempre baixinho.

– Já estou com passagem comprada para viajar hoje à noite mesmo pro Recife.

– Esta pasta aqui contém R$ 50 mil, o endereço do spa onde o velho está, foto, instruções sobre como chegar a ele e pentobarbital. Não falhe!

– Nunca falhei – disse o outro, secamente.

Ainda conversaram um pouco, até entrarem outros fregueses. Só então saíram. O homem atarracado se dirigiu para o oitavo andar da Business Center Tower, do Centro Empresarial Brasil 21, no Setor Hoteleiro Sul, a poucos passos da cafeteria. Na recepção, identificou-se como Carlos e ficou esperando. Logo depois foi introduzido a uma sala de reunião, onde aguardou cerca de meia hora, ao cabo da qual um homem ainda jovem entrou na sala. Trajava-se de terno azul marinho de algodão, bem cortado. Seus cabelos, negros, eram sedosos e bem penteados.

– Tudo certo – disse o sujeito calvo.

– Já fiz o depósito – o outro respondeu.

– Ele vai lá dez minutos do fim do horário de visita – volveu o calvo. O outro assentiu com os olhos, castanhos, com o mesmo tom mortiço dos olhos do sujeito calvo e do matador.

“Nunca mais esse filho da puta vai desligar a televisão e me mandar estudar, nem me pôr de castigo, nem suspender minha mesada, nem impedir que eu faça retiradas, e muito menos irá ao cartório colocar uma aliança na quenga” – pensou o homem jovem, esfregando a mão e imaginando tudo o que poderia fazer com o patrimônio avaliado em R$ 10 milhões.

No dia seguinte, uma nota no Correio Braziliense informava o passamento do empresário, membro do Clube dos Pioneiros. Causa mortis: colapso cardíaco.

Na noite anterior, logo que soube da morte de um hóspede, a proprietária do spa, Mariza Pereira, delegada aposentada da Polícia Civil, chamou seu amigo, o delegado Gabriel Silva, da Homicídios.

– Não deixe tocarem em nada; vou providenciar a necropsia do cadáver. Também vou fazer uma varredura na vida do filho único do pioneiro aqui – disse o delegado.

– Vamos tomar café na minha sala – propôs a elegante dona do spa, meneando a cabeça para ajeitar a bela juba dourada. Era uma louraça madura; uma cirurgia plástica cingira-lhe leve e constante sorriso, quase imperceptível, como o de Mona Lisa.

– Essa história está cheia de furos – o delegado murmurou. “Se foi mesmo aquele playboyzinho, ele vai gastar o dinheiro da herança com advogados e carcereiros corruptos” – pensou, aspirando o aroma do Illy, tirado na pequena máquina. Pela vidraça, podia-se descortinar, ao longe, a miríade de luzes do Lago Sul, como vaga-lumes piscando no cerrado.


Brasília, 1 de março de 2013