sábado, 23 de março de 2013

CONTO/O primeiro filme a gente nunca esquece

Sou o mais velho de cinco irmãos. Tenho 11 anos e a caçula, 5. Minha mãe, Olinda, diz que somos uma escada. Meu pai, Aquiles, morreu logo depois do nascimento da Violeta, minha irmã caçula. Meu nome é Alexandre, mas meus irmãos e os colegas da escola me chamam de Alex. Depois de mim vem Alessandra, 10 anos; Júlio César, 9; Orquídea, 7; e Violeta, 5. Meu pai era operário na construtora do Paulo Octávio, o homem mais rico de Brasília, por isso, segundo minha mãe, ela recebe uma pensão. Assim que meu pai veio do Recife, ele recebeu um lote em Samambaia, do homem que governava Brasília, Joaquim Roriz. Minha mãe cuida de nós e é lavadeira; ela trabalha o dia inteiro, desde cedo, até tarde da noite. Mesmo assim, ela ainda é muito bonita. Logo depois que meu pai veio para Brasília, tia Sebastiana, ou Tiana, como ela gosta de ser chamada, veio atrás. Tia Sebastiana se casou e foi morar com seu marido. Ele é bem de vida; é dono da mercearia no fim da rua onde moramos. Mas tia Sebastiana tem um problema e quando sente que o problema está chegando ela corre aqui para casa. Domingo de manhã, estávamos vendo televisão quando ela chegou, mais branca do que ela já é. Minha mãe mandou a gente ir para o quarto. A casa só tem dois quartos: um é da minha mãe e o outro é nosso. Fomos para o nosso quarto e eu, que sou o mais velho, fiquei olhando pelo buraco da fechadura e descrevendo o que via para meus irmãos. A visão pelo buraco da fechadura dá certinho no sofá. Minha mãe sentou tia Sebastiana ali. Ela foi ficando dura e falando com voz de homem. Deu para entender algumas coisas, como “estou no meio de uma escuridão” e “preciso de luz”. O negócio era pavoroso; mesmo assim eu procurava descrever tudo da melhor maneira possível para meus irmãos. Vi que minha mãe gritou para alguém, da cozinha, mas voltou logo para a sala e pouco depois entrou um homem que mora na rua atrás da nossa e que ouvi dizer que é espírita. Não sei bem o que é isso, mas me explicaram que ele fala com os mortos. Ele foi entrando e pondo a mão na cabeça da minha tia.
 
– Pai Nosso que estais nos Céus, santificado seja o Vosso Nome, venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Mal. Amém. – ele foi logo dizendo. E depois: – Tu és filha de Deus e ninguém, nenhuma entidade, poderá te causar mal algum... quem está aqui no corpo desta nossa irmã que se manifeste, e diga o que quer.
 
– Estou aqui nesta escuridão – respondeu tia Sebastiana, naquela voz grossa. – Preciso de luz. Peço perdão a Sebastianinha, a quem eu maltratei tanto; espancava-a com ripa até ela desmaiar. Olinda se casou antes que eu perdesse o emprego e passasse o dia inteiro em casa, atentando os outros. Apesar de tudo, Santinha, a mãe das minhas filhas, sempre me apoiava. Ela também sofreu muito, pois lhe ensinei a cartilha do ABC à base de palmatória. Agora eu compreendo que não devemos, nunca, fazer os outros chorarem; só devemos fazer os outros rirem. Eu estou arrependido e só peço o perdão de Sebastianinha. Aqui, onde estou, faz tanto frio, e é tão escuro!
 
Eu tentava compreender bem o que estavam falando para explicar para os meus irmãos. Violeta quis chorar, mas lhe expliquei o que estava acontecendo baseado no que eu sentia.
 
– Quem está aí no corpo da nossa irmã? – o espírita perguntou.
 
– É o pai dela, Virgulino. Ela precisa me perdoar – disse a voz grossa.
 
– Deixe esta nossa irmã; ela vai perdoar o senhor, mas deixe-a viver a vida dela, de agora em diante. Vamos orar pelo senhor.
 
– Onde eu estou é tão escuro e cheio de mato! Não enxergo o matagal, mas posso sentir que está cheio de urtiga e cacto!
 
– Sua sepultura será limpa e o senhor vai receber muita luz, em forma de oração.
 
– Muito obrigado! Muito obrigado! Muito obrigado! Que Deus abrigue todos nós!
 
Minha tia Sebastiana foi se acalmando, se acalmando, até voltar a ser ela mesma. Acompanhei, com curiosidade, o que veio nos dias seguintes, inclusive para interpretar esses acontecimentos para meus irmãos, que ainda dependiam de mim para entender muitas coisas. Sei que todas as noites minha tia ia para casa e rezava com minha mãe, e, passada mais ou menos uma semana, minha irmã viajou para Santa Cruz do Capibaribe, no estado de Pernambuco, onde meu avô está enterrado. Parece que ela foi para lá com o intuito de limpar a sepultura do meu avô. O certo é que já faz um ano que isso aconteceu e nunca mais minha tia sofreu ataque algum; pelo contrário, ela, que é professora normalista formada, abriu uma creche e Violeta passa o dia lá. De Orquídea para cima já estamos estudando na escola em Taguatinga. Minha mãe vai deixar e buscar a gente. É divertido pular a catraca do ônibus, que está sempre cheio como uma lata de sardinha e às vezes quebra na estrada. Mas é melhor do que lá no Recife, onde, às vezes, passávamos o dia inteiro só com um cafezinho no bucho, com exceção de Violeta, que nasceu no Hospital Regional da Asa Sul. Quando morávamos no Recife, o papai cortava cana numa fazenda não sei onde, mas que era distante, e passava bastante tempo longe de casa; minha mãe chorava muito, mas ela sempre confiou em Deus. Deus é muito bom, tanto que, hoje, pela primeira vez, nós cinco iremos ao cinema. Minha mãe me explicou que mesmo filhos de ex operários da construtora onde o papai trabalhava têm direito a ver um filme. Não sei como é um filme, pois nunca vi um, mas sinto que é alguma dessas coisas que jamais esquecemos, que guardamos para sempre no nosso coração.
 
 
Brasília, 5 de março de 2013

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