sábado, 30 de março de 2013

CONTO/Vila Belzebu

O ônibus estava bastante cheio. O motorista ia correndo um bocado e freou bruscamente quando Mutreta deu o sinal. Uma anta veio voando lá detrás e deu uma chifrada num bebê que só estava chupando o dedo. O bebê começou a chorar e levou uma bofetada.
 
– Cala a boca, assassino! – disse-lhe a mãe dele, repreendendo-o severamente.
 
Pipira, o pai, conseguiu se apoiar na muleta de um saci pererê.
 
Como o ônibus já estava muito lotado, o casal que ia saltar jogou os três garotinhos, seus filhos, pela janela. Um deles caiu de mau jeito e já ia para baixo das rodas de uma escavadeira Caterpilar quando um soldado da PM o puxou pelas pernas, tornando-se um herói.
 
Um pretão de três metros quis tirar um sarro com uma anã e foi atingido com um golpe baixo. Um sujeito com mania de cavalo ia relinchando, mas foi posto para fora com um pontapé na parte esquerda do beiço inferior. O motorista estava com muito ódio de um sujeito que puxou a caneta para anotar a placa do carro, a fim de “posteriormente”, conforme explicou para um vizinho, “queixar-se nos ditames da lei no departamento cabível”.
 
– Tu és um sem vergonha, seu cretino desavergonhado e purulento. Não sei onde estou que não paro este ônibus, boto todo mundo pra fora e pronto. Ainda te dou uma surra só com meu par de meias, cujo fedor nem hiena aguenta.
 
O sujeito que puxou a caneta estava visivelmente com medo da barbaridade do motorista.
 
– Basta a gente olhar para a tua cara, cabra safado, para se ver que a vergonha em ti já foi lambida. Tu estás pensado que é só puxar uma caneta e anotar a chapa, é?
 
– Vê se tu paras na tua casa; quero conversar com a tua mãe! – gritou alguém lá do meio do coletivo.
 
– Se esse insulto partisse de ti, sujeitinho descarado – disse o motorista para o incauto escrevinhador –, eu te poria os dedos dos pés nessa tua cara insossa. Tu herdaste essa cretinice da tua mãe?
 
O outro, acovardado e humilhado, pediu pra saltar, mas, num gesto inesperado de heroísmo, fincou a caneta no alto da cabeça do motorista. Ao ver o sangue, o chofer começou a sentir vertigens, até que apareceu uma gueixa com um leque do tamanho de um guarda-sol e começou a abanar o gajo. Ele se recompôs e zarpou.
 
Nessas alturas começou a trovejar e caiu um baita aguaceiro, que logo encharcou a Margarida. Ela fechou mais que rapidamente a janela, mas quando viu a janela foi aberta de novo. Ela tornou a fechá-la, mas novamente a janela foi aberta. Então Margarida olhou para trás e viu um sujeito com dois fundos de garrafa na cara abrindo a janela da moça.
 
– Primeiro vou te arrancar dos olhos esses dois telescópios, depois quebro eles e te corto os dedos mindinhos. A seguir, tiro meus sapatos altos e te dou com o salto de ferro só nos lóbulos das orelhas e no osso do nariz.
 
O rapaz, todo ensanguentado, explicou que não enxergara direito a janela, que só tinha uma das vidraças.
 
– Meu Deus! Massacrei um intelectual por causa da janela deste ônibus – lamentou Margarida.
 
Foi nessa hora que jogaram uma pedra no olho do motorista. Ele perdeu a direção do carro e o ônibus brecou certo no fim da linha, na Vila Belzebu, onde o bicho já os esperava de garfo em punho.
 
 
Publicado na Tribuna do Brasil, em 1987, e no Inteligentsia, em setembro de 1994, ambos os jornais em Brasília

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