sábado, 13 de abril de 2013

A rede

Durante o dia, a umidade relativa do ar caía para 11% e a sensação térmica ficava acima de 40 graus centígrados; agora, no início daquela madrugada de domingo, a temperatura estava bastante agradável no Fran’s Café – na Quadra 302, Bloco C, Edifício Athenas, no Sudoeste, bairro chique de Brasília –, aberto 24 horas por dia. O jornalista consultou sua caderneta Tilibra, tipo Moleskine. Já estivera em Uruaçu (GO), hospedara-se durante alguns dias nos hotéis Itajubá e Rio Vermelho, em Goiânia, e passara uma semana no Meliá Brasil 21. A jovem com quem se encontraria dali a pouco era o elo que faltava para concluir a reportagem. Pensava nisso quando seu telefone celular emitiu os primeiros acordes de Para Elisa, de Ludwig van Beethoven. Era ela. Pagou o espresso que tomara e seguiu para um prédio distante cerca de 200 metros dali. Disse ao porteiro aonde ia. Subiu pelo elevador e desceu no primeiro andar. Ela trajava uma camisola vermelha, tinha quadris largos e seios empinados, pele rosada, olhos verdes, duas grandes esmeraldas, e lábios que lembravam os de Alinne Moraes. Parecia medir 1,60 metro e pesar 55 quilos.
 
– Você bebe o quê? – ela perguntou ao jornalista, que se sentara numa poltrona.
 
– Não vou beber nada – ele respondeu, tirando da bolsa um pequeno gravador.
 
A jovem havia se sentado à frente dele e cruzado as pernas.
 
“É linda demais” – pensou o jornalista.
 
Era em torno de 8 horas quando ele deixou o apartamento. O porteiro olhou-o com inveja. Caminhou até o Fran’s e pediu café com leite e uma baguete tostada com manteiga. Depois, foi a uma banca ali perto e comprou a revista Veja e o jornal O Globo e se dirigiu para seu carro, um Gol vermelho, estacionado na extremidade leste da quadra. Na entrada da confeitaria Pão de Ouro havia uma dupla de mendigos. Passou por eles, desejando-lhes boa sorte, para desencanto de ambos. O carro estava estacionado próximo de um monturo. Centenas de pombos fervilhavam ali; havia até um gavião, que, solene, bicava alguma coisa presa numa de suas garras. Quando pôs o carro para funcionar os ratos de asas pararam um segundo e logo voltaram a fervilhar, como formigueiro assanhado. Reinaldo pôs o carro em marcha e minutos depois tomou o Eixo Monumental. Passou defronte à Câmara Legislativa, “o albergue dos parasitas”, e logo alcançou a Esplanada dos Ministérios, com as bacias do Congresso Nacional destacando-se ao fundo. Cruzou o Lago Paranoá pela ponte Juscelino Kubitschek. “O sol já está a ponto de matar europeu sem protetor solar e chapéu” – pensou. “A bacanal de alguns príncipes do Congresso Nacional, empresários, diplomatas e turistas libidinosos vindos do frio vai sofrer um abalo, a partir de quarta-feira, quando o Observador de Brasília chegar às bancas. Brasília vai pegar fogo.”
 
Só prestou atenção à moto quando ela já estava ao lado da sua janela. O carona disparou duas vezes. O carro entrou no cerrado e parou logo adiante. O que atirou correu até lá, pegou a bolsa do jornalista e deu mais dois tiros na cabeça dele.
 
Vistos ao longe, as casas e o comércio do Lago Sul, margeando ruas vazias, entre as escarpas, dormiam, indiferentes, ao sol.
 
 
Brasília, 19 de março de 2013

2 comentários:

  1. Perfeito. Esse é o Ray Cunha escritor que,depois de deliciar o leitor com um texto impecável, deixa um mistério no ar: o texto pertence a que gênero: crônica ou conto? Para mim, tanto pode ser lido como crônica, como conto. Controvérsias à parte, a palavra final, mesmo, pertence ao autor.Edevaldo leal

    ResponderExcluir
  2. Caríssimo cronista, tuas impressões, mestre que és na arte da crônica, representam riqueza inestimável: o estímulo! Obrigado! Caso não queiras te manter anônimo, envia-me teu e-mail, para: raycunha@gmail.com. Abraços!

    ResponderExcluir