segunda-feira, 29 de abril de 2013

Café

Ray Cunha
Para O Pioneiro/SiglaViva

Durante muito tempo, o Café Doce Café reinou como um dos pontos mais aprazíveis do meu circuito nas entranhas de Brasília. Localizado no átrio do Conjunto Nacional, constituía-se em mirante de onde podíamos delirar à passagem de mulheres tão monumentais que faziam justiça à arquitetura de Oscar Niemeyer. Algumas, antes de sumir nos labirintos do shopping, tornavam o dia mais luminoso, fazendo uma parada no café. De lá, eu costumava ir à antiga livraria Sodiler – depois, La Selva e, agora, uma loja de roupas –, então o suprassumo brasiliense no setor livreiro – mais pela movimentação do que propriamente pela quantidade de títulos.
 
Um dia, arrancaram a maior parte do balcão de mármore do Café Doce Café e o substituíram por vidro, para que as pessoas pudessem ver os salgadinhos. Continuei a frequentá-lo, mais pelo mirante do que pelo café, que, aliás, sempre foi robusta. Além disso, as colherinhas de metal de lá demoraram a ser substituídas por hastes de plástico, e a louça, embora trincada, ainda guarda o desenho das xícaras e pires clássicos. Mas reduziram ainda mais o balcão de mármore e tive que descobrir novos mirantes, como o Kopenhagen, no segundo piso do shopping, ao lado da livraria Saraiva.
 
A propósito, o problema da Saraiva é música ambiente. Há sempre um desses dançarinos-cantores unissex guinchando nos alto-falantes da loja. Voltando à Kopenhagen, é bastante agradável, os móveis são de palhinha e da varanda da loja descortinamos o passa-passa numa grande área do shopping – verdadeiro laboratório literário. Além disso, a colherinha é de metal, embora o desenho do pires seja do tipo para acompanhamento de um biscoito. Contudo, o bom mesmo é o café, blend.
 
Sou apreciador de café espresso desde o século passado. Comecei a degustá-lo na companhia de um amigo de infância, o jornalista Ribamar Teixeira, que, como eu, é brasiliense de Macapá. Creio que também da mesma época, mas não por causa, eu já lia bastante sobre café, de modo que já fiz dois cursos de barista, com o italiano com carteirinha de brasileiro Antonello Monardo. Fi-los por curtição.
 
Café espresso recebeu esse nome porque foi inventado pelos italianos. É tirado por pressão, daí o “espresso” italiano, que, vertido para o português, virou “expresso”, dando a conotação de que é um café tirado rapidamente. Muitos não tomam espresso por duas razões: o chafé requentado de botequim custa R$ 0,50, enquanto o espresso chega a quase R$ 5. A outra razão é que muita gente vê o espresso como “muito forte”. Nesse caso, basta tomar um curto.
 
É o seguinte: café contém mais de mil essências nutritivas, tanto que na Europa entra em ene iguarias. Ao se tirar um espresso, essas essências são encontradas somente na primeira parte que cai, ou seja, na metade da xícara de 30 ml; o restante é pura cafeína. Assim, um curto é meia xícara do primeiro café tirado. Tem mais uma questão, importante. Há dois tipos de café: robusta e arábica. O robusta é resistente a praga e por isso mais barato, mas tão amargo que só entra com muito açúcar. É servido em toda parte; somente as cafeterias de primeira linha servem arábica, um café encorpado, aromático e naturalmente adocicado.
 
O mais famoso do mundo é o italiano Illy, blend dos melhores arábicas do planeta, especialmente do sul de Minas Gerais. A fábrica fornece sachê de Illy para todo o mundo. Em Brasília, pode-se degustá-lo no Saborela (112 Norte, Bloco C, Loja 38), tirado pelo barista Bruno Kzam.
 
O café arábica do sul de Minas Gerais, maior produtor do Brasil (e este, maior produtor do mundo), é um dos melhores do planeta. É leiloado. Oitenta por centro ficam com os alemães. Os japoneses também são grandes compradores. Em Tókio, um espresso custa US$ 5.
 
Meu café preferido é 3 Corações, gourmet (que quer dizer, neste caso, arábica e sem impurezas). Eu mesmo o tiro ao coador de algodão, logo após as 4 horas, quando me levanto. Começo o dia com três xícaras médias de 3 Corações com leite em pó. À tarde, costumo tomar um espresso, confortavelmente instalado num mirante.

3 comentários:

  1. Café é assunto fascinante para mim, filha de provador e classificador desse que é o "ouro negro" do Brasil. Também tivemos um sítio em campos Gerais, no sul de Minas. É de lá que sai o melhor café do mundo.

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  2. É do Sul de Minas, como bem acrescentou Silvestre Gorgulho, de Maria da Fé, de Cristina e Carmo de Minas que sai o melhor café do mundo e é exportado para o mundo.

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  3. Acabo de ser informada pelo meu ilustríssimo conterrâneo, Dr. Gilberto Lesser Pereira, de que o melhor café do mundo é da nossa terra, Campos Gerais. Portanto, amigo Ray, corrija em tempo, sua bela crônica. Abraços aos amigos.

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