domingo, 29 de setembro de 2013

CONTO/Sábado

O Potiguar Caldos, no Sudoeste, estava lotado naquela noite de sábado, como, aliás, era de praxe. Quem se voltasse para o estacionamento podia ver, no outro lado da Rua das Jaqueiras, os prédios do Cruzeiro Novo. Um casal acabou de chegar, atravessou entre as mesas, e até as mulheres se viraram para ver mais um pouco a beldade. Era uma adolescente de mais ou menos 17 anos, ruiva, olhos verdes, longilínea, de pernas torneadas, tipo potranca, em vaporoso vestido de seda rosa. Parecia flutuar. O rapaz era maciço e ao menor movimento seus músculos saltavam; era também muito bonito. O garçom os guiou até uma mesa que acabara de ser preparada.

Ao lado, havia um casal ocupando duas mesas juntas, uma das quais continha um fogareiro com a chapa cheia de maminha com queijo e batata frita, uma terrina com mandioca e toda sorte de acompanhamentos. A mulher era pequena, loira e graciosa, e ele, grande, lembrava uma fêmea de búfalo albino, grávida. Sua camisa estava metida na calça e os botões quase saltavam à pressão da volumosa gordura querendo libertar-se. Conversavam. Ele se debruçara sobre o prato e entre uma palavra e outra enfiava na bocarra grandes garfadas. Ela comia devagar e aos pouquinhos, olhando-o e falando sempre, graciosa como toda mulher.

Quatro jovens, quase garotos, ocupavam a mesa que fazia um triângulo com os dois casais; eram três moças e um rapaz e estavam comendo sanduíches com suco, cada qual de olho no seu telefone celular de última geração, admirando, simultaneamente, a nova tatuagem da moça de pele leitosa e vestida de negro. A tatuagem fora aplicada recentemente e estava envolta numa espécie de plástico, como um curativo transparente.

Vocês não vão acreditar: o boliviano que me tatuou é famoso e nunca veio ao Brasil; ontem, soube que ele estava em Brasília e fui ao hotel onde ficou hospedado. Cara, nem acreditei quando ele terminou – disse a tatuada.

– Quem é o tio que ele tatuou – o rapaz quis saber.

– Che Guevara – disse a moça. – Você não sabe quem é Che Guevara?

– Ouvi dizer que é um carniceiro que ajudou Fidel Castro a foder com Cuba. É isso? – volveu o rapaz. As outras duas moças perderam o interesse pela tatuagem e pela conversa e estavam de olho nos seus celulares, mastigando lentamente seus sanduíches e bebendo golinhos do suco.

– Oh! Não! Veio! Esse cara é aquele do filme de Walter Salles! – a tatuada defendeu-se.

– Humm! Quando é que vocês vão parar com esse papo-cabeça? – perguntou a bela morena de olhos azuis, desgrudando-se, um instante, do seu celular.

– Acho que você foi enganada por esse boliviano; deve ser um tio brega... – disse o rapaz. – Se fosse eu, preferiria uma folha de jambu.

– Folha de quê? – perguntou a terceira moça, uma negra tão linda quanto a ruiva que acabara de passar.

– De jambu – disse o rapaz. – Meu pai é de Belém do Pará e ele já me mostrou uma folha de jambu; ele me explicou que jambu é uma síntese da Amazônia e que a Amazônia é como se fosse uma realidade dentro da realidade. Não entendi muito bem, mas senti que é alguma coisa mágica.

– Você anda fumando muita maconha – disse a morena de olhos azuis, baixando a voz.

O búfalo se levantou; em pé, lembrava um gorila branco. Sua esposa também se levantou. Era pequena e graciosa, daquele tipo que temos vontade de pôr inteira na boca. Ele sequer empurrou sua cadeira, quanto mais a dela. Saiu palitando os dentes e dando pequenos arrotos. Ela parecia não prestar atenção às grosserias do elefante. Ele pôs uma pata sobre os ombros da esposa e se foram rumo ao estacionamento. As três moças e o rapaz não se deram conta da saída do casal anômalo; desinteressaram-se completamente pela tatuagem e se voltaram para seus celulares. No braço da moça tatuada, branco como leite, a tatuagem saltava aos olhos como um grande ferimento colorido. A noite, ali, alcançara um momento de pico, e mais pessoas chegaram. O casal belíssimo encontrava-se a meio caminho de terminar a refeição e o fogareiro com carne de sol estava pela metade. A moça ruiva parecia flutuar dentro do seu próprio perfume. No âmbito do seu entorno, não houve quem não a olhasse, mesmo que fosse um olhar inconsciente. Um velho, enrugado como maracujá de gaveta, e sozinho, mirava-a do seu posto, uma mesa na beira da calçada, quase caindo no meio-fio. É provável que só ele visse um fio de luz saindo da moça e se espalhando ao redor. “Ela é linda porque é jovem e é a manifestação física de energia fina” – pensou o velho, que desmontava um tucunaré frito como quem desmonta um relógio, olhava de vez em quando para a ruiva e suspirava. Os quatro jovens terminaram seus sanduíches e de um momento para outro sumiram. Pouco depois desceram do carro no estacionamento do bloco da moça leitosa, no Cruzeiro Novo, procuraram um lugar escuro e acenderam o baseado.

Não demorou para que o rapaz musculoso e a jovem ruiva terminassem e saíssem. Ela era tão linda que todos se voltavam para si e a acompanhavam até a perderem de vista; por isso, um velhote levou um beliscão dolorido da megera que o mantinha sob cerrada vigilância.

– Vamos para casa – disse a moça ruiva.

– Sim, vamos, minha irmã – o rapaz respondeu.

Naquele momento, a loira pequena acabara de montar o monstro. A barriga dele luzia à claridade mortiça do abajur. Ela começou a cavalgar e a gemer, até começar a gritar. Ele soltou um urro medonho. Depois, o abajur foi desligado, e o silêncio desabou como a escuridão.


BRASÍLIA, 29 DE SETEMBRO DE 2013

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