terça-feira, 26 de novembro de 2013

CONTO/Mulher na chuva

O tronco da mangueira parecia excessivamente grosso, visto de longe, na agonia da tarde; era alguém que estava abraçado nele. Trajava-se com um vestido de seda, longo, estampado com rosas colombianas vermelhas, em pinceladas que eram puro Paul Gauguin. Seus lábios, pintados também de vermelho, poderia ser uma daquelas rosas que alguém, de tanto beijar, sangrou. O que mais chamava atenção na jovem que abraçava-se à mangueira eram seus olhos, negros, grandes e misteriosos como mulher nua, que, de repente, emerge das águas do mar. As partes à mostra da sua pele – no estertor da tarde, quando é possível ouvir-se a tarde morrer, seguindo-se o riso feminino da noite – flutuavam, como escultura de marfim, no anoitecer. Seus cabelos cobriam-na como um véu, com vida própria, esvoaçando levemente à aragem, que prenunciava chuva. Ela meneou a cabeça; seu nariz era gracioso, quase teimoso. Desgrudou-se um pouco da árvore e virou-se para frente, e os seios, pequenos e rijos, quase escapuliram da prisão. Voltou-se novamente e ficou na posição anterior. Seus quadris abaulavam-se, a partir da fina cintura e mergulhavam no mistério. Ela estava ali já fazia algum tempo, recarregando o que chamava de Qi (pronuncia-se "ti"), que quer dizer, em mandarim, algo como energia. Ela era jovem. Tinha vinte e poucos anos, mas continha toda a experiência do mar, por isso seu olhar era tão intenso, e inacessível, e os poetas, ao se sentirem atraídos por aquele olhar, sentiam a vertigem dos primeiros beijos, sabedores de que se tratava apenas de delírio. Fora casada com um cadete da Academia Militar das Agulhas Negras, mas aquele tipo de mulher, completamente linda, por dentro e por fora, como rosa nua, só pode ser feliz com um mago poderoso, que a leve ao cume do Pico da Neblina.

– Ava! – ouviu-se. Alguém, uma mulher, a chamava. Ela não se moveu. A mangueira era grande, como as que povoam o centro de Belém do Pará. – Ava! – gritaram de novo, e a voz perdeu-se no anoitecer.

Fora um duro dia de trabalho, e no fim do dia atendera um vampiro. Ava não sabia que se tratava de um vampiro, pois na sua mente só havia jardins, muitos jardins, inúmeros jardins. Quando ela ampliou os olhos do velho, sob a lente – um velho acabado, murcho como maracujá seco –, identificou uma ventosa chupando luz, e sentiu-se tonta. Os vampiros, na verdade, não são como o de Bram Stocker; são chupadores de Qi, de luz, e quando encontram uma jovem lindíssima, procuram sugar desesperadamente sua energia, tanto que vão embora lentos, como carapanãs após a bacanal. Por isso Ava estava ali, abraçada à mangueira. Abraçava-se sempre a uma árvore quando sentia-se exaurida.

– Ava Nogueira! – gritaram de novo, agora com sobrenome.

Já era noite quando a chuva engrossou; então, Ava desgrudou-se do tronco da mangueira e correu para a chuva. Logo seu vestido ficou totalmente molhado, e suas curvas, curvas que somente a música pode fazer, revelaram-se em toda a sua oceânica beleza. Relâmpagos estalaram. Ouviu-se trovejar, mas Ava já estava na varanda da casa, abrigada numa felpuda toalha, alva como sua pele, que sua mãe lhe levara. E o Lago Sul se encolheu sob o dilúvio.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

FOGO NO CORAÇÃO

Como deve o acupunturista proceder nos casos das paixões avassaladoras?
Haverá agulha tão comprida, e fina, que atinja a alma?
Ou prescindiriam, os danados, de cura?
Pois os pacientes desse mal, ou bênção, sobrevivem nas trevas e na luz
São cinza e asas
E seus corações atingem a velocidade dos despenhadeiros
Do mergulho no maremoto
Do olho do furacão
Do desespero
Não será tamanho sentimento, em si mesmo, o triunfo?
Voo concedido a poucos?
Eterno porque agora?
Creio que descobri um mal – ou bênção?
Que a acupuntura não sana
Pois como apagar a luz com luz
Como ouvir o som da Terra no espaço
Se o coração não se inflama?

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Maresia

Inundaste meus olhos desde o primeiro instante
E agora, preso ao instante, sinto cheiro de sal aonde quer que vá
Sinto-o, como o cataclismo dos primeiros beijos,
Afogando-me, matando-me, vivificando-me no azul do teu mar

sábado, 9 de novembro de 2013

Brasília e Amazônia em sessão de autógrafos no Monardo Gastronomia e Cultura

Ray Cunha lê conto no Bar Faixa de Gaza/Galeria
Olho de Águia (Foto: Ivaldo Cavalcante)


Por MARCELO LARROYED
larroyed@gmail.com


BRASÍLIA, 9 DE NOVEMBRO DE 2012 – Ray Cunha autografa O Casulo Exposto (LGE Editora/Ler Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 30) e Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos (edição do autor, Brasília, 116 páginas, R$ 20), dia 21 de novembro, uma quinta-feira, das 17 às 20h30, no Monardo Gastronomia e Cultura, na 201 Sul (atrás do Banco Central), Bloco B, Loja 9, telefone 3425-3566. A compra dos dois livros fica por R$ 40.

O Casulo Exposto enfeixa 17 contos ambientados no Distrito Federal. Trabalho, como jornalista, em Brasília, desde 1987, cobrindo amplamente a cidade-estado, o Entorno e o Congresso Nacional, o que me proporcionou conhecer bem essa geografia, inclusive a humana, que serviu para criar as personagens e o cenário dessas histórias curtas” – diz Ray Cunha. “O casulo é uma alegoria à redoma legal que engessa o Patrimônio Cultural da Humanidade, a borboleta de Lúcio Costa, ninfa golpeada no ventre, as vísceras escorrendo como labaredas de luxúria, depravação e morte, nos subterrâneos e na esfera política da cidade dos exilados, onde chafurda uma fauna heterogênea: amazônidas que deixaram a Hileia para trás e tentam sobreviver na ilha da fantasia; jornalistas se equilibrando no fio da navalha; políticos, daquele tipo mais vagabundo, que esconde merenda escolar na mala do seu carro e dinheiro na cueca; estupradores; assassinos; bandidos de todos os calibres; tipos fracassados e duplamente fracassados, misturando-se numa zona de fronteira e penumbra.”

PREFÁCIO DE MAURÍCIO MELO JÚNIOR – O jornalista e escritor Maurício Melo Júnior diz, no prefácio de O Casulo Exposto, o seguinte: “O escritor Jorge Amado costumava se queixar de algumas ausências da literatura brasileira. E dizia que a mais gritante delas era a falta de romances sobre o ciclo do café, como os que foram escritos sobre os ciclos da cana-de-açúcar e do cacau. Também podemos dizer que ainda não surgiram os escritores que tomaram o desafio de contar as sagas da busca da borracha na Amazônia e da construção de Brasília em pleno cerrado goiano.

“Neste seu novo livro de contos e novelas, o escritor Ray Cunha, nascido no Amapá e vivente de Brasília, passa longe da narrativa de homens perdidos na solidão da floresta ou na poeira das construções incansáveis. O que interessa ao escritor são os resultados daquelas experiências, são os personagens que ficaram depois das epopeias.

“Os homens e mulheres que saltam destas páginas são bastante curiosos. Têm a política no sangue, embora apenas transitem em torno dela. Veem o poder bem de perto, mas não participam de suas benesses. Também calejados pelas dores impostas pela opressão da floresta, já nada os surpreende e a violência pode ser uma forma de defesa ou sobrevivência. Sim, os escrúpulos são poucos. Ou, citando Jarbas Passarinho, um acriano que fez carreira política no Pará, “às favas com o escrúpulo”. Em compensação, a sensualidade aflora na pele dessa gente. O perigo é que também este poder de encantar e seduzir é instrumento de dominação.

“Naturalmente que a visão que temos aqui está superdimensionada pelos requisitos da literatura, mesmo assim sua base tem intensos pontos de realismo. E Ray ainda lhes dá um tratamento recheado de um humor cáustico, em alguns momentos até cruel. No entanto, este humor nasce do clima noir, o clima dos filmes e livros policiais surgidos nos anos de 1940.

“Sem saudosismos e com muito suspense, os contos e novelas de Ray Cunha nos põem diante dos brasilienses, esses seres nascidos da junção plena de todos os brasileiros. E vale muito a pena conhecê-los”.

ENTREVISTA A ALDEMYR FEIO – Segue-se entrevista concedida por Ray Cunha ao jornalista paraense Aldemyr Feio.

O que o levou a escrever O Casulo Exposto?

Costumo ambientar meus livros na Amazônia, especialmente Belém, minha cidade predileta. Porém vivo em Brasília desde 1987. Do início de 1996 ao fim de 1997, voltei a morar em Belém, mas por questões profissionais retornei a Brasília. Uma estada tão longa nos leva a conhecer bem o ambiente onde vivemos; assim, é natural que comecemos a escrever algumas histórias com a geografia da cidade onde moramos. Em 2008, observei que já escrevera 17 contos ambientados em Brasília e com personagens que são, quase sempre, migrantes, que transitam nas ruas e nos meios jornalísticos e políticos da cidade-estado. Submeti os 17 contos à leitura do Maurício Melo Júnior, escritor talentoso e crítico literário bem preparado. Ele escreveu a apresentação do livro e sugeriu que o levasse ao Antonio Carlos Navarro, diretor da LGE Editora, que resolveu editá-lo.

Maurício Melo Júnior, ao apresentar o livro, afirma que “O que interessa ao escritor são os resultados daquelas experiências, são os personagens que ficaram depois das epopeias”. Por quê?

Um dos fios condutores de O Casulo Exposto são as personagens, em geral migrantes, às vezes frustrados ou duplamente frustrados. As epopeias a que Maurício se refere é a construção de Brasília – uma fase da cidade que já acabou. Restaram os candangos bem-sucedidos, como o empresário Paulo Octávio, dono de boa parte da cidade, e muita gente que mora em assentamentos e invasões. Migrantes continuam chegando, mas agora tudo está lotado. Os contos, portanto, não enfocam uma epopeia, mas a miudeza do dia-a-dia na capital da república.

Maurício também afirma: “Ray Cunha ainda lhes dá um tratamento recheado de um humor cáustico, em alguns momentos até cruel”. O que ele quis dizer com isso?

Algumas das personagens dos contos são tragicômicas. Outras, apenas trágicas. Creio que o humor cáustico a que Maurício se refere é o que costumamos chamar de humor negro, quando situações, apesar de dramáticas, ou trágicas, contêm, mesmo assim, viés risível.

Seus romances e contos são, geralmente, ambientados na Amazônia. Qual a sensação de escrever um livro candango, ou seja, produzido com as coisas que acontecem em Brasília?

É a mesma sensação de trocar pirão de açaí com dourada frita por pão de queijo, ou de trocar a Estação das Docas por shopping. São duas situações absolutamente diferentes. No meu caso pessoal, caio de joelhos por tudo o que diz respeito à Amazônia, mas também curto Brasília. Assim, sinto-me perfeitamente à vontade tanto na Amazônia como em Brasília.

O casulo é uma alegoria à redoma legal que engessa o Patrimônio Cultural da Humanidade...” mas “também tresanda a perfume, romance e esperança, nas luzes da grande cidade”. Dá para explicar?

O casulo do título evoca o fato de que Brasília é reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade. Em termos práticos, não se pode mudar a arquitetura original do Plano Piloto de Brasília, que compreende o projeto do urbanista Lúcio Costa, excluindo-se as cidades-satélites. Então, o Plano Piloto é protegido sob uma redoma legal, um engessamento legal. É Patrimônio Cultural da Humanidade, mas nas suas ruas e nos seus subterrâneos não há romantismo, como em toda metrópole brasileira, inchadas e perigosas. Apesar disso, há contos de puro perfume, romance e esperança. O conto que encerra o livro, A Caça – que inclusive já foi publicado pela Editora Cejup –, quase no fim, refere-se às luzes de Brasília e termina no quarto de um bom hotel.

Você acha que o leitor vai entender as suas colocações contidas no Casulo?

Certamente que sim. A literatura, como qualquer arte, tem algo maravilhoso. No seu caso específico, as palavras remetem o leitor a mundos que são somente dele. O escritor é um mero porteiro. Lembrei-me de um caso que ocorreu com William Faulkner. Alguém o informou que leu duas vezes um livro seu e não entendeu a história. Faulkner sugeriu que lesse mais uma vez.

Nos casos relatados no livro você teve alguma participação ou foram vivenciados apenas superficialmente?

O senso comum mistura atores com personagens e acredita que ficção é o que conhecemos como realidade. Se assim fosse, quantos escritores não estariam atrás das grades por assassinato? O fato é que até nas autobiografias há mais ficção do que realidade. O escritor que faz seu trabalho com seriedade não está interessado em jornalismo. Estou certo de que pelo menos 75% do que os jornais publicam originam-se de interesses dos donos, de ideologia, de conjecturas, de boatos, ou de mentiras pura e simplesmente. Também o escritor não está interessado em si mesmo, pois todos os escritores são pessoas comuns e, muitas vezes, introvertidas. Qual a participação que um escritor pode ter numa história que se passa em outro planeta?  Como Antoine de Saint-Exupéry criou O Pequeno Príncipe? Esta é a diferença: as antenas especiais com que os escritores nascem, o que permitiu, por exemplo, que Ernest Hemingway criasse uma mulher abortando, em Adeus às Armas, ou que John Steinbeck desse vida a uma mulher que acaba de perder seu bebê recém-nascido e dá de mamar a um ancião que está morrendo de fome, em Vinhas da Ira.

Quem é Ray Cunha?

Nasci em Macapá, na margem esquerda do estuário do rio Amazonas, e cortada pela Linha Imaginária do Equador, em 7 de agosto de 1954. Fui educado na Amazônia. Conheço a Hileia razoavelmente, por longa leitura e por ter estado lá. Vivo em Brasília por uma questão de mercado de trabalho. Aqui, consigo oferecer à minha família razoável padrão de vida, sustentado pela minha profissão, jornalismo. Literatura, para mim, é minha missão pessoal. Embora morando em Brasília, a internet me permite ficar ligado o tempo todo à Amazônia. Tenho ligação íntima com Belém, um dos meus grandes amores, e, naturalmente, com Macapá. Quanto a Brasília, já somos velhos namorados. Brasília me deu duas mulheres fundamentais: minha esposa, e minha luz, Josiane, e uma flor, minha filha Iasmim.

TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS – Trópico Úmido reúne três contos com pano de fundo em quatro cidades da Amazônia: Belém, capital do Pará; Macapá, capital do Amapá; Manaus, capital do Amazonas; e Rio Branco, capital do Acre. Inferno Verde conta a história do repórter Isaías Oliveira, num duelo com o sinistro traficante Cara de Catarro. A trama se passa em Belém e na ilha de Marajó.

Latitude Zero se desenrola em Macapá, cidade situada no estuário do maior rio do planeta, o Amazonas, na cofluência com a Linha Imaginária do Equador. Um punhado de jovens começa a descobrir que a vida produz também ressaca.

A Grande Farra narra as peripécias do jovem repórter e playboy Reinaldo. Candidato a escritor, ele gasta seu tempo trabalhando como repórter, bebendo e se envolvendo com inúmeras mulheres. O conto tem sua geografia em Manaus, encravada no meio da selva amazônica, e em Rio Branco, no extremo oeste brasileiro.

OBSESSÕES AMAZÔNICAS DE RAY CUNHA – Maurício Melo Júnior escreveu sobre Trópico Úmido: “A literatura brasileira está numa encruzilhada. Cada autor atira para um lado e ninguém consegue formatar o que no passado se chamou de movimento. Mesmo em lugares onde se pratica uma literatura regional intensa – Pernambuco e Rio Grande do Sul, por exemplo – não há o senso de união. Isso, se por um lado favorece a diversidade temática, por outro, paradoxalmente, desagrega autores e enfraquece o trabalho de formação de leitores. Embora o ato de escrever seja um exercício de solidão, são a vivência e a convivência que dão ao escritor o estofo necessário para a composição do texto.

“O escritor Ray Cunha, nascido na beirada da floresta amazônica, sofre do mal que vitimou parte de seus colegas a partir dos anos setenta: é um escritor desagregado, carente de grupos com quem possa discutir temas, estéticas e formas. Isso fica muito claro em seu livro Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos, no qual, apesar de uma certa obsessão geográfica, sente-se a ausência da região em sua plenitude. O leitor mais exigente terminará a leitura carente do sotaque e das cores amazônicas, embora fique saciado com o desenvolvimento bem resolvido da trama.

“O conto que abre o livro, Inferno Verde, conta a história do repórter Isaías Oliveira em duelo sangrento e perverso com o traficante Cara de Catarro. O segundo texto, Latitude Zero, fala de um grupo de jovens em descobertas sexuais em Macapá. Pode ser visto como um conto de formação, embora carregado do escancaro de Charles Bukowisk, o que é até compreensível em quem sobreviveu às teorias de Freud e à revolução sexual dos anos sessenta. Finalmente, o último conto do volume, A Grande Farra, conta a história de Reinaldo, um repórter que sonha ser escritor, mas, milionário, gasta a vida em bebedeiras e aventuras sexuais.

“A linha que liga todos os textos, além da região amazônica, é mesmo a temática da sexualidade. No entanto, este sentimento está muito próximo das práticas vindas com a liberação sexual dos anos sessenta, unidas a um certo sadismo dos personagens. Num pobre exercício de paráfrase com os Atletas de Cristo, que trazem halos angelicais para os nossos atletas do futebol, podemos dizer que os personagens de Ray Cunha são Atletas de Sade. É impressionante a obsessão por um ato doloroso e imposto. Há sempre dominação do macho sobre a fêmea, mesmo quando ela, também filiada à revolução sexual, escolhe seu parceiro. Ainda assim prevalece a força do macho.

“Esses personagens construídos pelo autor, por conta da defesa de uma geração perdida, terminam por carregar cores muito iguais. São todos hedonistas, amantes do prazer sobre todas as coisas. Por conta desse sentimento entram de cabeça na vida sem medir qualquer consequência. E fica clara aí a influência de Bukowisk, o velho safado, embora a sensualidade das ninfetas traga para os textos uma certa lembrança de Nabokovisk, o velho também safado, mas um pouco mais pudico. Sobrevive disso tudo um mundo excessivamente cruel, posto que o prazer é o que menos importa aos moços. Todas as relações têm como objeto a sujeição do parceiro.

“O poeta Augusto dos Anjos falava em um de seus sonetos da “obsessão cromática”, do que chamava de fantástica visão do sangue se espalhando por toda parte. Ray Cunha trás para a literatura um pouco dessa obsessão, que faz a festa dos repórteres policiais. Há muitas cenas cruéis, com requintes de crueldade, dignos das páginas dos romancistas policiais americanos da década de cinquenta, um período no qual a fineza britânica de Conan Doyle foi substituída pela inspiração de Bram Stoker.

“Finalmente, há obsessão geográfica. Para um livro passado na Amazônia isso é bem interessante. No entanto o autor poderia descrever mais e citar menos. Explica-se. É comum por todo o texto o nome de ruas onde moram, vivem e rodopiam os personagens. O problema é que a citação pura e simples do nome da rua simplesmente não remete a qualquer impacto sobre o leitor que não conhece as ruas. O autor poderia descrever as ruas, o que daria uma informação a mais ao leitor, situando-o até no ambiente por onde transitam os personagens.

“Fica do livro, entretanto, a construção da história. Há pontos de prisão do leitor no jogo de curiosidades desvendadas aos poucos. O autor sabe manipular bem a trama, levando o leitor ao clímax. Com isso, resgata uma das maiores carências da literatura brasileira atual: o bom contador de história. É que os nossos novos escritores, buscando a universalidade linguística de Guimarães Rosa, esqueceram que ele sabia contar bem uma história. Resultado: renunciaram à narrativa e não ganharam a inventividade estética.

“Ray Cunha consegue contar bem suas histórias. No entanto poderia ter trazido o mundo mais amazônico para suas páginas; poderia deixar um pouco as influências estrangeiras e seguir a trilha de autores como Benedicto Monteiro. Isso pode transformá-lo no grande representante da literatura amazônica moderna. Aquele que conseguirá traduzir boa linguagem com boa narrativa, e tudo temperado em um bom caldo de tucupi”.

LIVROS DO AUTOR – Ray Cunha estreou como escritor em 1971, com o livro coletivo, de poemas, Xarda Misturada (edição dos autores, Macapá), juntamente com o poeta e contista José Edson dos Santos e José Montoril; em 1982, publicou Sob o Céu nas Nuvens (edição do autor, Belém, poemas); em 1990, lançou A Grande Farra (edição do autor, Brasília, contos); em 1996, a Editora Cejup, de Belém, lançou o conto A Caça. Em 2000, saiu Trópico Úmido - Três Contos Amazônicos; em 2003, a Editora Cejup lançou o romance A Casa Amarela, ambientado em Macapá, no ano do golpe militar de 1964; e em 200, a LGE/Ler Editora publica O Casulo Exposto.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Mulher amada

As mulheres são a ilusão mais pungente
Que existe
Porque tornam o desejo inesgotável
E não saciam nunca
Inacessíveis, são como mênstruo,
O parto de um monstro
Imaginado apenas pela dor
Mas que suporta-se pela esperança
Do sorriso
Basta o olhar da mulher
Para acenderem-se todas as chamas
Munir de asas o homem mais medíocre
E engravidar de perfume o mundo


Linha 152, Rodoviária-Cruzeiro Novo, 4 de novembro de 2013, uma segunda-feira, 15h50, sol de rachar

domingo, 3 de novembro de 2013

Os portões da íris

Procuro na luz dos teus olhos
Misteriosos como a noite
Nos teus lábios de rosa vermelha esmigalhada
Nos meridianos do teu mar
Perder-me no azul
E sentir o sabor da tua boca
Do teu leite
Do teu púbis
Num desejo que me consome e não cessa nunca

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O ponto azul

A noite se avizinhava na 201 Sul, e ia chover. Havia poucas pessoas no Restaurante e Café Monardo. Na mesa mais ao fundo, dois homens conversavam. Um deles era jovem, tinha em torno de 40 anos, e o outro, de cabelos completamente brancos e a pele do rosto começando a engelhar, aparentava ter 70 anos, por aí assim.

– Ela me pôs a nocaute – disse o velho. Na verdade, ele tinha 80 anos, mas era vigoroso e seco. Seus olhos, vivos como duas esmeraldas, estavam claros, quase sem clorofila.

– Meu caro Picasso, ela só tem 29 aninhos; ainda não é nem sequer balzaquiana – respondeu o tipo mais jovem, com sua voz de tenor.

– A questão não é essa, a questão é que eu nunca deixei de ser um garoto carente, e ela abriu a porta.

– Como assim abriu a porta? Só porque deu atenção a você? – volveu o de meia idade, carioca, já acostumado com Brasília.

– Ela me enfeitiçou quando disse que tem a alma da natureza, e que é como o mar. Aquilo foi lá no fundo, como um maremoto, sepultando-me no abismo, até que, sem fôlego, puxei oxigênio daquela boca de rosa esmigalhada, e fui salvo pelos seus olhos egípcios. Mas compreendi que ela estava apenas confiando a mim sua alma, certa de que eu não tentaria entrar no seu santuário. Não paro de pensar nela.

– Cara, acho que vou fortalecer seu pericárdio e seu baço.

– Como assim? – o velho perguntou. Estava bebendo Lacrima Crhisti. O outro degustava Bohemia enevoada.

– O pericárdio protege o coração das invasões azuis e o baço remói as lembranças mortais, como, por exemplo, o cataclismo dos primeiros beijos – disse o de meia idade, que era acupunturista de mão cheia.

– Não quero travar nada que se dirija ao meu coração, nem ao meu baço; pelo contrário, se você souber de um ponto que funcione como a pílula azul, espete-o, para que eu delire pronunciando o nome dela: Ava! Ava! Ava!

– Se eu soubesse de um ponto assim já teria comprado um Girassóis, de Van Gogh – disse o de meia idade. – Tenho um paciente, que, na verdade, o problema não está nele, mas na mulher dele. Ele me contou que sua mulher é todinha uma vaca, perscrutando-o. Ele é o capim e ela o mastiga, mastiga, engole-o, regurgita-o e volta a mastigá-lo. E como ela é quem paga as contas, ele vai pegá-la no salão e a espera, às vezes, uma hora antes de ela sair, e ele fica pasmo porque as mulheres falam todas ao mesmo tempo e todas entendem o que as outras dizem. Ele costuma dizer que Freud mudaria de profissão naquele salão, ou simplesmente tendo sua mulher como paciente. Se eu soubesse desse tal ponto azul, já teria dado um jeito nesse cara, e ele comeria a vaca dele todas as noite, ou o tempo todo.

– Não, o que eu quero é ter uma ereção poética – disse o velho, que era pintor. – Vou desnudá-la em uma tela, vou colocar o mar inteirinho naqueles olhos enormes, rasgados e negros, vou fazer aquela boca de rosa esmigalhada exalar néctar, e, do seu corpo, o perfume das virgens. – O velho desenhou-a num guardanapo. De fato, Ava era completamente linda.

– Cara, esquece-a – o outro aconselhou o mais velho. Conheciam-se há bastante tempo, e o acupunturista, que era rico e aficionado por pintura, já tirara o velho de diversos apuros, pois o considerava um gênio. Sentia-se responsável pelo sofrimento do amigo, pois apresentara Ava a ele.

O velho percebeu sua aflição.

– Você não entende: não quero assepsia, quero inflamar-me dessa infecção, que essa infecção vá até meu tutano; isso vai resultar numa série de quadros e desenhos, tudo Ava.

– Sejamos realistas, ela não vai dar a mínima a você, nunca.

– Já deu. Quando disse que é o próprio mar, disse tudo. Sei que ninguém pode possuir o mar, mas acontece que já sei o azul que vou utilizar quando pintá-la.

– Mas ela deu esperança de posar para você?

– Não, e nem será preciso. Já tenho tudo o que preciso.

– Grande Picasso! – o de meia idade exclamou, com pena do seu velho amigo. – Estou me sentindo meio cansado; vou ver uma comédia quando chegar a casa, Carga Explosiva III.

– Você já viu todas essas porcarias?

– Só Carga Explosiva II, por acaso, na televisão.

– E agora alugou Carga Explosiva III?

– Sim; não havia o I.

– Eu ainda vou demorar-me para ir pra casa. O porteiro do meu prédio é jovem, mas está caindo aos pedaços, e isso me deprime.

– E quando a tela vai ficar pronta?

– A dos pombos?

– Sim.

– Estou trabalhando nela. Os pombos estão catando comida no asfalto, entre os carros, arriscando-se a morrer esmigalhados, apenas se desviam das rodas dos carros e continuam catando comida, apesar de ter asas. Se eu tivesse asas, voaria para dentro do mar – disse o velho, sonhando com uma manhã de ressaca, em Copacabana.

Já estava sozinho quando Antonello Monardo chegou. Gostava de conversar com o italiano. Logo depois a chuva rebentou, com a mesma força com que na alma do velho escorria sal, azul como rubi.


Brasília, 1 de novembro de 2013